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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

9 de outubro de 2005

guerrilha do araguaia

Ponto de Cultura homenageia João Carlos Haas Sobrinho

 

Por Myrian Luiz Alves*

A população de Porto Franco ganhou um novo espaço para o saber e a convivência: o Ponto de Cultura Dr. João Carlos Haas Sobrinho, projeto da prefeitura selecionado pelo Ministério da Cultura junto a mais 327 de todo o país.

Foram mais de 2 mil inscrições para disputar R$ 70.475.553,00, sendo R$ 20.643.660,00 para 2005, 24.370.046,00 para 2006 e R$ 25.461.847,00 para 2007. As propostas foram enviadas à Secretaria de Programas e Projetos Culturais, setor responsável pelo Cultura Viva. Cada Ponto contemplado pelo edital 3 receberá até R$ 185 mil divididos em cinco parcelas semestrais. Os demais podem receber até R$ 1,5 milhão anualmente o repasse varia de acordo com a dimensão da população envolvida pela instituição governamental -, segundo informações do Ministério.

A seleção foi baseada no edital nº 3, dirigido a organizações e entidades sem fins lucrativos, e no edital nº 4, voltado a instituições governamentais estaduais, distritais e municipais. A definição dos novos Pontos de Cultura foi anunciada à sociedade no último dia 3, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os ministros Gilberto Gil e Luiz Marinho e por Célio Turino, secretário do Programa, em Heliópolis, SP. "Vamos ultrapassar a marca de 500 Pontos de Cultura esse ano. O Programa ganhou maturidade e sobe um degrau no contato entre Pontos e entre os Pontos e a sociedade", afirmou Turino.

Espaço dedicado ao saber da juventude

O Ponto de Cultura Dr. João Carlos Haas Sobrinho vai realizar oficinas de artesanato, redação voltada à imprensa (jornal), escola de música e coral. O resultado deixou felizes o prefeito Deoclides Macedo e o secretário de Cultura, Vaner Marinho, idealizadores do projeto.

O nome do Ponto é uma homenagem carinhosa da cidade que recebeu em 1967 não apenas o primeiro médico-cirurgião a atender a população de cidades ao sul do Maranhão e então norte de Goiás. Lembra, sobretudo, o amigo de muitos adultos, crianças e jovens portofranquinos, como Deoclides e Vaner, que o conheceram e com ele conviveram por mais de um ano e meio, até sua partida para o sudeste do Pará, em 1969.

A trajetória do futuro comandante médico-militar do Araguaia

Carregado de sonhos, e ciente de tempos duros por vir, ele desembarca de uma perua Kombi, numa das ruas centrais de Porto Franco, o médico-cirurgião João Carlos Haas Sobrinho. Ali mesmo, encontra o comerciante Jano Macedo, goiano de Porto Nacional, desbravador de 220 km de mata para a construção da Belém-Brasília.

Município desde 1920, Porto Franco, ao sul do Maranhão, divide as águas do Tocantins com a rebelde Tocantinópolis, então cidade do norte de Goiás, hoje município do Tocantins. Indicações de Jano Macedo e do farmecêutico Aderson Marinho levam João Carlos a alugar uma casa, logo transformada em seu primeiro consultório, na Rua Rio Branco.

Carente de serviços públicos federais e estaduais, a chegada do médico de 25 anos anima cidadãos e autoridades políticas. Passa a ser auxiliado por Dejacy e a enfermeira Desiré, a Dedé, que o acompanhariam nos serviços gerais e cirúrgicos. Sua explícita dedicação faz aumentar a procura de serviços médicos, carência não apenas de Porto Franco, mas de vários vilarejos e municípios vizinhos. A rápida fama adquirida por João leva o prefeito da cidade, Gumercindo Milhomem, a providenciar as dependências do antigo SESP para a instalação de um pequeno hospital.

João aceita a proposta. Com a ajuda de Jano, compra um autoclave à prestação, o mais moderno instrumento que passou a utilizar no pequeno e funcional hospital. Durante mais de um ano e meio ninguém veio a óbito tendo passado por suas mãos "especiais", contam em Porto Franco, lembrando a palavra de seu amigo Aderson, que o acompanhava em cirurgias mais complicadas. Casos extremos, lembram, o doutor encaminhava devidamente aos hospitais de Goiânia.

Jamais deixou de prestar atendimento. Comportamento que, de certa maneira, o destacaria, quatro anos depois, como o comandante Juca, da Guerrilha do Araguaia, nas matas do sudeste do Pará. Logo após sua chegada em Conceição do Araguaia, sul do Pará, em São Geraldo, hoje município no sudeste paraense, e em outras localidades por onde passou como o discreto Juca, João Carlos não deixou de atender cidadãos à margem de qualquer assistência pública. Sempre tratou mais dos pobres que dos ricos, ele mesmo admitia, mas não deixava de prestar assistência aos mais abastados, igualmente, naquelas regiões, distantes dos serviços médicos das grandes cidades.

No início de 1969, um telegrama, de conteúdo ainda desconhecido, o fez partir, poucos dias depois, do sul maranhense, da cidade e do convívio de pessoas que aprendera a amar. Mantinha amizade com jovens de sua idade, com estudantes ginasiais, logo colegiais em Goiânia - sempre que ia à capital do estado vizinho, os visitava -, crianças, hoje adultas, famílias, dirigentes políticos e padres da região, até mesmo o Bispo de Tocantinópolis.

O semblante tristonho após a leitura da mensagem, que chegara no código morse, vinda de Carolina, fez Dejacy insistir sobre o que o chateava. João fez um pacto, após várias tentativas de sua amiga e auxiliar, e desabafou: Precisava partir para trabalhar em outra região, carente também de serviços assistenciais. Dejacy havia jurado não contar para ninguém. Em poucos minutos, correu à casa da enfermeira Dedé, e as duas seguiram à prefeitura.

No dia seguinte, João Carlos, que havia dormido de plantão no hospital, prédio que abriga hoje o fórum da cidade, deparou com mais de 3 mil pessoas em sua porta. Não faltou nem o bispo a lhe pedir permanência. Era o resultado causado por sua dedicação profissional, e pelo carinho e amizade que dedicava aos que o conheciam e igualmente lhe dedicavam afeto. Jamais houve manifestação igual, afirma Jano Macedo. Fechado no segredo que a vida o obrigava a manter, fraquejou por instantes em sua costumeira discrição, e chorou.

Futuros comandantes e mártires das matas parenses

Tomaria o mesmo caminho que alguns outros moradores da cidade, também um pouco diferentes no modo de ser, haviam, seguido alguns meses antes. A perseguição política e o recrudescimento do regime militar forçavam uma nova vida no então esquecido e distante sudeste do Pará, uma das regiões mais ricas em minério do planeta e, à época, belíssima em floresta amazônica.

Por mais de um ano o cirurgião João Carlos, presidente da União Estadual dos Estudantes gaúchos no ano em que se formou, 1964, ex-dirigente dos estudantes de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, teve como vizinhos frontais na Rio Branco Mário, seu filho Zé Carlos, e Gilberto.

Comerciantes de alumínio e apetrechos de cozinha, como o fogão de duas bocas de Gilberto, até hoje guardado por sua senhoria, Mário era, na verdade, o ex-líder da bancada comunista constituinte de 1946, Maurício Grabois. Zé Carlos era seu filho André Grabois, jogador de futebol nas tardes de Porto Franco e excelente nadador. Gilberto era jornalista e dirigente comunista, Gilberto Olímpio Maria, genro de Maurício, casado com Vitória Grabois.

Em dias de mais folga, Mário cortava o cabelo dos meninos da cidade, atividade que repetiria em seus companheiros guerrilheiros.

Vivera, afinal, como cidadãos queridos e respeitados em Porto Franco, parte da futura Comissão Militar das Forças Guerrilheiras do Araguaia (FOGUERA): Maurício, Gilberto e João Carlos (comandante médico-militar). No Araguaia encontrariam Líbero Giancarlo Castiglia, que também morou no Maranhão, e o economista Paulo Mendes Rodrigues, gaúcho e antigo companheiro de João Carlos nas lutas políticas do sul do País.

Todos haviam chegado no Pará vários anos antes do início dos combates, em abril de 1972. André assumiu o comando do Destacamento A quatro meses antes da Guerra, no lugar de seu amigo, o torneiro-mecânico Líbero Giancarlo, o Joca, que assumira posto na Comissão Militar. André morreu em combate na localidade de Caçador, em São Domingos das Latas, Pará, em 13 de outubro de 1973, junto ao capixaba João Gualberto e o camponês João Alfredo. Ferido, o goiano Divino morreria em Marabá, na Casa Azul, posto de oficiais do Comando Militar do Planalto e do Comando da Amazônia.

O combate foi dirigido pelo atual tenente-coronel Lício Augusto Maciel, então major, que até hoje não aponta as sepulturas de Zé Carlos, Zebão, Alfredo e Nunes, todos integrantes do Destacamento A.

A Operação Papagaio, liderada pela Marinha do Brasil, em ação de 18 de setembro a 18 de outubro de 1972, fez tombar em combate, em 30 de setembro, o primeiro comandante e o espírito mais enraizado do caráter humanista adotado pelos guerrilheiros - o médico Juca, o Bula-chefe, ou o nosso Esculápio (Deus da Medicina), no dizer de Maurício Grabois.

João Carlos, aos 31 anos, foi ferido de morte junto com seus companheiros Ciro Flávio Salazar e Oliveira, artista plástico e quartanista de arquitetura no Rio de Janeiro e farmacêutico em Palestina do Pará, e o operário-garimpeiro paulistano Manuel José Nurchis, o Gil. Como Flávio, Gil era integrante do Destacamento B. Os três, alguns meses antes, já haviam participado juntos de missão na qual Juca saiu ferido com duas balas na perna (trecho de Carta de Flávio abaixo). A enfermeira paulista Luiza Garlippe, a Tuca, que desapareceria em 1974, o ajudou no tratamento, registrou o ex-guerrilheiro Glênio de Sá. Tuca assumiu a comissão médica após a morte de Juca.

Tombaram em missão de tentativa de contatar Paulo, líder do Destacamento C, o mais próximo da principal base então instalada pelas Forças Militares, em Xambioá (TO), com ligação permanente com São Geraldo, região do Pará na qual se encontrava Piçarra, palco do combate entre guerrilheiros e fuzileiros navais até hoje lembrado por moradores.

Respeitado nos documentos militares como Dr. Juca, seus inimigos reconheciam o carinho da população por sua dedicada atenção médica. Como em Porto Franco e região, os povoados do sudeste do Pará haviam-se apegado, em especial, ao Dr. Juca, Dina, Amaury, Ari, Tuca, Lourival, Chica e tantos outros que lhes assistiam na hora de dor e de ausência do Estado.

Outros, como Áurea, Diná, Cristina, Lia, Wal, o gigante Osvaldo, tentavam suprir a dificuldade no acesso à cultura e à educação. Uma boa parte do então contingente guerrilheiro dedicava-se à lavoura e ao comércio. Todos os 69 guerrilheiros eram integrados à vida dura, solitária, embora solidária, das florestas amazônicas, nem lembradas na época por sua riquezas naturais, minerais e científicas.

João foi enterrado, à noite, e em público, no Cemitério de Xambioá. O encontro de seu corpo em 1996, por antropólogos argentinos, causa até o momento controvérsias e falta de informações. Seus restos mortais teriam sido retirados e levados para Brasília. Nada mais foi noticiado com dados verdadeiramente científicos.

Maurício, primeiro orador da Assembléia Constituinte de 1946, e seu genro Gilberto, dono do único Jeep de Porto Franco, homem apontado por todos como cativante e inteligente, tombaram juntos no dia de natal de 1973. A narrativa da Guerrilha diz que mais dois ou três guerrilheiros morreram nesse combate, conduzido, em pleno dia de reflexão cristã, pelo então major Curió.

João Carlos, como seus companheiros, integram o grupo de 57 brasileiros e um ítalo-brasileiro, e pelo menos 20 camponeses que ousaram, nas matas do Araguaia, plantar sementes para um mundo mais justo. Ainda têm, como mais 80 brasileiros que lutaram de outras maneiras contra o arbítrio e a falta de liberdades políticas e sociais, suas histórias de vida e morte negadas pelo Estado.

A brutalidade contra uma população que os estimava e todo o descaso oficial com essa bela, corajosa e inédita passagem de nossa história não conseguem evitar que, a cada dia, as lendas e memórias do Araguaia e da região tocantina se alastrem por todo o território do País e hoje ganhem a curiosidade e a atenção de estudiosos do exterior.

* jornalista e pesquisadora

Mais informações: www.guerrilhadoaraguaia.com.br


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