|
Por Myrian Luiz
Alves*
A população de Porto Franco ganhou um
novo espaço para o saber e a convivência: o
Ponto de Cultura Dr. João Carlos Haas
Sobrinho, projeto da prefeitura selecionado
pelo Ministério da Cultura junto a mais 327
de todo o país.
Foram mais de 2 mil inscrições para
disputar R$ 70.475.553,00, sendo R$
20.643.660,00 para 2005, 24.370.046,00 para
2006 e R$ 25.461.847,00 para 2007. As
propostas foram enviadas à Secretaria de
Programas e Projetos Culturais, setor
responsável pelo Cultura Viva. Cada Ponto
contemplado pelo edital 3 receberá até R$
185 mil divididos em cinco parcelas
semestrais. Os demais podem receber até R$
1,5 milhão anualmente o repasse varia de
acordo com a dimensão da população envolvida
pela instituição governamental -, segundo
informações do Ministério.
A seleção foi baseada no edital nº 3,
dirigido a organizações e entidades sem fins
lucrativos, e no edital nº 4, voltado a
instituições governamentais estaduais,
distritais e municipais. A definição dos
novos Pontos de Cultura foi anunciada à
sociedade no último dia 3, pelo presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, os ministros
Gilberto Gil e Luiz Marinho e por Célio
Turino, secretário do Programa, em
Heliópolis, SP. "Vamos ultrapassar a marca
de 500 Pontos de Cultura esse ano. O
Programa ganhou maturidade e sobe um degrau
no contato entre Pontos e entre os Pontos e
a sociedade", afirmou Turino.
Espaço dedicado ao saber da juventude
O Ponto de Cultura Dr. João Carlos Haas
Sobrinho vai realizar oficinas de
artesanato, redação voltada à imprensa
(jornal), escola de música e coral. O
resultado deixou felizes o prefeito
Deoclides Macedo e o secretário de Cultura,
Vaner Marinho, idealizadores do projeto.
O nome do Ponto é uma homenagem carinhosa
da cidade que recebeu em 1967 não apenas o
primeiro médico-cirurgião a atender a
população de cidades ao sul do Maranhão e
então norte de Goiás. Lembra, sobretudo, o
amigo de muitos adultos, crianças e jovens
portofranquinos, como Deoclides e Vaner, que
o conheceram e com ele conviveram por mais
de um ano e meio, até sua partida para o
sudeste do Pará, em 1969.
A trajetória do futuro comandante
médico-militar do Araguaia
Carregado de sonhos, e ciente de tempos
duros por vir, ele desembarca de uma perua
Kombi, numa das ruas centrais de Porto
Franco, o médico-cirurgião João Carlos Haas
Sobrinho. Ali mesmo, encontra o comerciante
Jano Macedo, goiano de Porto Nacional,
desbravador de 220 km de mata para a
construção da Belém-Brasília.
Município desde 1920, Porto Franco, ao
sul do Maranhão, divide as águas do
Tocantins com a rebelde Tocantinópolis,
então cidade do norte de Goiás, hoje
município do Tocantins. Indicações de Jano
Macedo e do farmecêutico Aderson Marinho
levam João Carlos a alugar uma casa, logo
transformada em seu primeiro consultório, na
Rua Rio Branco.
Carente de serviços públicos federais e
estaduais, a chegada do médico de 25 anos
anima cidadãos e autoridades políticas.
Passa a ser auxiliado por Dejacy e a
enfermeira Desiré, a Dedé, que o
acompanhariam nos serviços gerais e
cirúrgicos. Sua explícita dedicação faz
aumentar a procura de serviços médicos,
carência não apenas de Porto Franco, mas de
vários vilarejos e municípios vizinhos. A
rápida fama adquirida por João leva o
prefeito da cidade, Gumercindo Milhomem, a
providenciar as dependências do antigo SESP
para a instalação de um pequeno hospital.
João aceita a proposta. Com a ajuda de
Jano, compra um autoclave à prestação, o
mais moderno instrumento que passou a
utilizar no pequeno e funcional hospital.
Durante mais de um ano e meio ninguém veio a
óbito tendo passado por suas mãos
"especiais", contam em Porto Franco,
lembrando a palavra de seu amigo Aderson,
que o acompanhava em cirurgias mais
complicadas. Casos extremos, lembram, o
doutor encaminhava devidamente aos hospitais
de Goiânia.
Jamais deixou de prestar atendimento.
Comportamento que, de certa maneira, o
destacaria, quatro anos depois, como o
comandante Juca, da Guerrilha do Araguaia,
nas matas do sudeste do Pará. Logo após sua
chegada em Conceição do Araguaia, sul do
Pará, em São Geraldo, hoje município no
sudeste paraense, e em outras localidades
por onde passou como o discreto Juca, João
Carlos não deixou de atender cidadãos à
margem de qualquer assistência pública.
Sempre tratou mais dos pobres que dos ricos,
ele mesmo admitia, mas não deixava de
prestar assistência aos mais abastados,
igualmente, naquelas regiões, distantes dos
serviços médicos das grandes cidades.
No início de 1969, um telegrama, de
conteúdo ainda desconhecido, o fez partir,
poucos dias depois, do sul maranhense, da
cidade e do convívio de pessoas que
aprendera a amar. Mantinha amizade com
jovens de sua idade, com estudantes
ginasiais, logo colegiais em Goiânia -
sempre que ia à capital do estado vizinho,
os visitava -, crianças, hoje adultas,
famílias, dirigentes políticos e padres da
região, até mesmo o Bispo de Tocantinópolis.
O semblante tristonho após a leitura da
mensagem, que chegara no código morse, vinda
de Carolina, fez Dejacy insistir sobre o que
o chateava. João fez um pacto, após várias
tentativas de sua amiga e auxiliar, e
desabafou: Precisava partir para trabalhar
em outra região, carente também de serviços
assistenciais. Dejacy havia jurado não
contar para ninguém. Em poucos minutos,
correu à casa da enfermeira Dedé, e as duas
seguiram à prefeitura.
No dia seguinte, João Carlos, que havia
dormido de plantão no hospital, prédio que
abriga hoje o fórum da cidade, deparou com
mais de 3 mil pessoas em sua porta. Não
faltou nem o bispo a lhe pedir permanência.
Era o resultado causado por sua dedicação
profissional, e pelo carinho e amizade que
dedicava aos que o conheciam e igualmente
lhe dedicavam afeto. Jamais houve
manifestação igual, afirma Jano Macedo.
Fechado no segredo que a vida o obrigava a
manter, fraquejou por instantes em sua
costumeira discrição, e chorou.
Futuros comandantes e mártires das
matas parenses
Tomaria o mesmo caminho que alguns outros
moradores da cidade, também um pouco
diferentes no modo de ser, haviam, seguido
alguns meses antes. A perseguição política e
o recrudescimento do regime militar forçavam
uma nova vida no então esquecido e distante
sudeste do Pará, uma das regiões mais ricas
em minério do planeta e, à época, belíssima
em floresta amazônica.
Por mais de um ano o cirurgião João
Carlos, presidente da União Estadual dos
Estudantes gaúchos no ano em que se formou,
1964, ex-dirigente dos estudantes de
medicina da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, teve como vizinhos frontais
na Rio Branco Mário, seu filho Zé Carlos, e
Gilberto.
Comerciantes de alumínio e apetrechos de
cozinha, como o fogão de duas bocas de
Gilberto, até hoje guardado por sua
senhoria, Mário era, na verdade, o ex-líder
da bancada comunista constituinte de 1946,
Maurício Grabois. Zé Carlos era seu filho
André Grabois, jogador de futebol nas tardes
de Porto Franco e excelente nadador.
Gilberto era jornalista e dirigente
comunista, Gilberto Olímpio Maria, genro de
Maurício, casado com Vitória Grabois.
Em dias de mais folga, Mário cortava o
cabelo dos meninos da cidade, atividade que
repetiria em seus companheiros
guerrilheiros.
Vivera, afinal, como cidadãos queridos e
respeitados em Porto Franco, parte da futura
Comissão Militar das Forças Guerrilheiras do
Araguaia (FOGUERA): Maurício, Gilberto e
João Carlos (comandante médico-militar). No
Araguaia encontrariam Líbero Giancarlo
Castiglia, que também morou no Maranhão, e o
economista Paulo Mendes Rodrigues, gaúcho e
antigo companheiro de João Carlos nas lutas
políticas do sul do País.
Todos haviam chegado no Pará vários anos
antes do início dos combates, em abril de
1972. André assumiu o comando do
Destacamento A quatro meses antes da Guerra,
no lugar de seu amigo, o torneiro-mecânico
Líbero Giancarlo, o Joca, que assumira posto
na Comissão Militar. André morreu em combate
na localidade de Caçador, em São Domingos
das Latas, Pará, em 13 de outubro de 1973,
junto ao capixaba João Gualberto e o
camponês João Alfredo. Ferido, o goiano
Divino morreria em Marabá, na Casa Azul,
posto de oficiais do Comando Militar do
Planalto e do Comando da Amazônia.
O combate foi dirigido pelo atual
tenente-coronel Lício Augusto Maciel, então
major, que até hoje não aponta as sepulturas
de Zé Carlos, Zebão, Alfredo e Nunes, todos
integrantes do Destacamento A.
A Operação Papagaio, liderada pela
Marinha do Brasil, em ação de 18 de setembro
a 18 de outubro de 1972, fez tombar em
combate, em 30 de setembro, o primeiro
comandante e o espírito mais enraizado do
caráter humanista adotado pelos
guerrilheiros - o médico Juca, o Bula-chefe,
ou o nosso Esculápio (Deus da Medicina), no
dizer de Maurício Grabois.
João Carlos, aos 31 anos, foi ferido de
morte junto com seus companheiros Ciro
Flávio Salazar e Oliveira, artista plástico
e quartanista de arquitetura no Rio de
Janeiro e farmacêutico em Palestina do Pará,
e o operário-garimpeiro paulistano Manuel
José Nurchis, o Gil. Como Flávio, Gil era
integrante do Destacamento B. Os três,
alguns meses antes, já haviam participado
juntos de missão na qual Juca saiu ferido
com duas balas na perna (trecho de Carta de
Flávio abaixo). A enfermeira paulista Luiza
Garlippe, a Tuca, que desapareceria em 1974,
o ajudou no tratamento, registrou o
ex-guerrilheiro Glênio de Sá. Tuca assumiu a
comissão médica após a morte de Juca.
Tombaram em missão de tentativa de
contatar Paulo, líder do Destacamento C, o
mais próximo da principal base então
instalada pelas Forças Militares, em Xambioá
(TO), com ligação permanente com São
Geraldo, região do Pará na qual se
encontrava Piçarra, palco do combate entre
guerrilheiros e fuzileiros navais até hoje
lembrado por moradores.
Respeitado nos documentos militares como
Dr. Juca, seus inimigos reconheciam o
carinho da população por sua dedicada
atenção médica. Como em Porto Franco e
região, os povoados do sudeste do Pará
haviam-se apegado, em especial, ao Dr. Juca,
Dina, Amaury, Ari, Tuca, Lourival, Chica e
tantos outros que lhes assistiam na hora de
dor e de ausência do Estado.
Outros, como Áurea, Diná, Cristina, Lia,
Wal, o gigante Osvaldo, tentavam suprir a
dificuldade no acesso à cultura e à
educação. Uma boa parte do então contingente
guerrilheiro dedicava-se à lavoura e ao
comércio. Todos os 69 guerrilheiros eram
integrados à vida dura, solitária, embora
solidária, das florestas amazônicas, nem
lembradas na época por sua riquezas
naturais, minerais e científicas.
João foi enterrado, à noite, e em
público, no Cemitério de Xambioá. O encontro
de seu corpo em 1996, por antropólogos
argentinos, causa até o momento
controvérsias e falta de informações. Seus
restos mortais teriam sido retirados e
levados para Brasília. Nada mais foi
noticiado com dados verdadeiramente
científicos.
Maurício, primeiro orador da Assembléia
Constituinte de 1946, e seu genro Gilberto,
dono do único Jeep de Porto Franco, homem
apontado por todos como cativante e
inteligente, tombaram juntos no dia de natal
de 1973. A narrativa da Guerrilha diz que
mais dois ou três guerrilheiros morreram
nesse combate, conduzido, em pleno dia de
reflexão cristã, pelo então major Curió.
João Carlos, como seus companheiros,
integram o grupo de 57 brasileiros e um
ítalo-brasileiro, e pelo menos 20 camponeses
que ousaram, nas matas do Araguaia, plantar
sementes para um mundo mais justo. Ainda
têm, como mais 80 brasileiros que lutaram de
outras maneiras contra o arbítrio e a falta
de liberdades políticas e sociais, suas
histórias de vida e morte negadas pelo
Estado.
A brutalidade contra uma população que os
estimava e todo o descaso oficial com essa
bela, corajosa e inédita passagem de nossa
história não conseguem evitar que, a cada
dia, as lendas e memórias do Araguaia e da
região tocantina se alastrem por todo o
território do País e hoje ganhem a
curiosidade e a atenção de estudiosos do
exterior.
* jornalista e
pesquisadora
Mais informações:
www.guerrilhadoaraguaia.com.br
|