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Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

30 de SETEMBRO de 2005

Paulo Vínicius Santos da Silva
Devagar com o andor 
que o santo é de barro

 


"Eu aceito me empenhar pelo PCdoB, por suas causas, por seus candidatos, trabalhar de graça, ou tirando dinheiro do bolso, sem nenhuma perspectiva de vantagem pessoal, e com um sorriso nos lábios; eu aceito fazê-lo mesmo contrariando convicções pessoais, nos casos em que estas não prevaleceram no debate interno. Mas, em contrapartida, eu sei que meus companheiros e minhas companheiras de Partido também aceitam o Estatuto e também agem como eu". Bernardo Jofily - Tribuna de Debates do 11º Congresso.

Valer-me de uma epígrafe de Bernardo, e não dos Clássicos (Engels, Marx, Lênin e Stálin), cabe pela própria citação, que não é só dele, e já me aproprio, pois expressa o sentimento muitas vezes silente do nosso dia-a-dia, na dura peleja de militantes comunistas. E a Tribuna também é para que o impronunciado se diga com o próprio nome. E, olhando para a longa, tortuosa, sofrida e heróica história de nosso Partido, pergunto-me se não foi este compromisso inicial firmado, este reconhecimento entre camaradas, esta convicção coletiva que nos fez resistir às duras provas do século XX.

Mas os acontecimentos recentes têm nos desafiado a defender este compromisso, pois novas questões, é certo, estão postas para o nosso Partido, o que não quer dizer que devamos, por isto, desaprender as antigas:

1 - Eu sou do PC do B, não do PC do Parlamentar. Sempre tive orgulho dos parlamentares do Partido, até que alguns passaram a ser parlamentares de si próprios. Com que direito qualquer parlamentar nosso, depois de tantos de nós darmos tanto de nossa vida e esperanças para que o Partido tenha voz no parlamento, se investe da autoridade para fazer o que quer?! Não me interessa quem seja, nem que tenha quinhentos anos de Partido. Através de gestos desta natureza pululam os oportunismos inconfessáveis, ao arrepio dos princípios, como vimos no período recente. Penso que não há nada de novo em matéria de política em mandatos como os dos partidos burgueses e da social-democracia, e é preciso zelar pela tradição de Grabois e de tantos outros que foram instrumento do coletivo partidário, e não donos ou chantagistas do partido.

2 - A crítica e autocrítica são o antídoto ao mandonismo; o voto secreto, em vez de anticorpo é placebo ante a doença. É justíssima a defesa da democracia partidária e penso que avançamos muito recentemente. Por isto mesmo, estranho determinadas opiniões sobre mandonismo no interior do Partido. Afinal, se é um problema tão recorrente, porque não debatê-lo abertamente e expor ao coletivo a questão nodal? Aprendi que o exercício da crítica e autocrítica é fundamental exatamente porque é difícil. Se fosse fácil, não temperaria o aço, não seria a defesa diante do oportunismo, não nos desafiaria a corrigir os erros. Por isto, não engulo a defesa que se faz do voto secreto enquanto um antídoto diante deste mandonismo. Primeiro, porque não é com uma alteração de forma que se sana um problema de conteúdo, que este sim deveria ser debatido. Segundo, não consigo ver no voto secreto uma defesa diante dos problemas da democracia partidária, muito menos dos desvios ideológicos, ou do melhoramento das direções. Muito ao contrário.

Se o nosso Partido, assim como o da URSS, não tiver um coletivo crítico a ponto de por o dedo na ferida, criticar abertamente, expor honestamente suas convicções, e depender de um voto secreto para exprimi-las, sinceramente, quem pensa que resistirá a outros fenômenos muito mais negativos que estão embutidos no voto secreto? Grupismo, articulações inconfessáveis, lobbys, corporativismo, tais fenômenos que fazem parte da lógica própria do capitalismo e que não se podem expor à luz do dia num coletivo comunista seriam o corolário da implementação do voto secreto. Se não, travemos um debate mais franco e profundo sobre as razões que o justificariam no nosso país, onde à nossa história e método de trabalho jamais fez falta, muito menos agora.

3 - "Até o último de meus dias, serei militante do Partido Comunista do Brasil" João Amazonas. As normatizações propostas ao estatuto são importante passo para chegarmos a um partido comunista de massas, firmado em quadros militantes. Todavia, a separação entre quadros e militantes é artificial e prenhe de subjetividade, o que pode torná-la um problema mais à frente. Em vez de pasteurizar a militância e dar um excessivo destaque formal à noção de quadro, penso que é preciso resgatar a importância decisiva da perspectiva militante, que se perde em meio a concessões às investidas da pós-modernidade. Incomoda-me, sobretudo, perceber que há uma ênfase na preocupação da flexibilização das exigências da militância que por certo aproximam as camadas médias, sem que haja um cuidado semelhante em tratar as especificidades que estão na vida do povo mais pobre e sofrido, trabalhadores não qualificados, por exemplo, que têm outras dificuldades para ter uma militância política, este sim o debate caro ao nosso desafio de maior penetração entre os trabalhadores da cidade e do campo.

A defesa da militância comunista é que é imprescindível, e não iniciarmos uma série de concessões às demandas privadas no nosso estatuto que rebaixem o papel do militante comunista, comprometendo o caráter modelar, pedagógico que sempre teve e que fez tantos filiados avançarem na dura faina que permite ter o conhecimento e a prática tão necessários - e aprendidos de baixo - à tarefa de direção. E aqueles que estiverem à altura desta tão honrosa titulação serão considerados pelo coletivo partidário como quadros.

________

Paulo Vínicius Santos da Silva,  membro da Direção Executiva Nacional da UJS

 

 

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