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Pela autocrítica do voto na Reforma da Previdência
Aceitando ser este um momento de
necessária autocrítica, voltemos à
pergunta anterior: "o que teria
levado a Comissão Política a abandonar a
posição de crítica e indicar um voto
seguidista em relação ao governo, na
véspera de uma votação em que
poderíamos lutar, de acordo com a linha
política do partido, para derrubar uma
reforma de cunho nitidamente neoliberal?
Vamos buscar indícios da resposta no
parágrafo 128 da proposta de resolução
política para o 11º Congresso. Ali se
lê que "através das lideranças
partidárias o Partido tem se empenhado na
defesa do governo e, também, exposto
divergências quando necessário. Nesse
sentido encontram-se, principalmente,
dificuldades que precisam ser superadas no
âmbito da bancada comunista na Câmara
dos Deputados e dos que assumiram postos
no governo. No caso da bancada é preciso
tornar mais nítido não haver lugar na
concepção do Partido para o exercício
de soberania pessoal do mandato, e no caso
dos que têm representação de governo -
apesar desta função -, as idéias e
posições partidárias não são
descartáveis, mas imperativas."
Se de um lado temos os quatro deputados
que votaram contra a orientação do
partido, por outro temos parlamentares que
assumem postura acrítica e seguidista,
desrespeitando, igualmente a política
partidária. O mesmo tem ocorrido (é o
que se infere da proposta de resolução),
com os ocupantes de cargos executivos, que
no governo federal, são o Ministério dos
Esportes e o da Articulação Política
(durante o período em que foi ocupado
pelo partido). Aliás, tais cargos não
foram oferecidos ao partido mas às
pessoas dos dois deputados.
A advertência contida no texto de
resolução proposto, nos permite inferir
que idéias e posições partidárias que
deveriam ser imperativas a todos os
membros do partido - isto é o Centralismo
Democrático - não vem sendo, em
relação aos membros do partido ocupantes
de cargos no governo.
Estes problemas poderiam ser
constrangedores se o PCdoB fosse um
partido burguês tradicional. Não é o
caso. Não temos medo da autocrítica. Ao
contrário, fazemos dela a garantia de
que, mesmo diante das pedras no caminho,
seguiremos no rumo revolucionário da luta
pelo socialismo.
Talvez aí se encontre a resposta à
pergunta inicial. Ao definir o voto
contrário às posições majoritárias do
partido, portanto aquelas indicadas pelo
Centralismo Democrático, não teria a
Comissão Política levado em conta a
ameaça de perder o espaço dos cargos
executivos do governo, caso votassem
contra projeto governista?
"Organizações revolucionárias
marxistas não estiveram - e nem estão -
imunes à burocratização, à
institucionalização, à acomodação, à
conciliação de classes e à reprodução
de preconceito de raça e sexo. Seria
pueril considerar inevitável tal
desfecho, à margem dos desenvolvimentos
políticos concretos, tanto quanto
desconsiderar as pressões reais - essas
sim objetivamente inevitáveis -, que se
verificam nesse rumo, principalmente
quando se intensifica a
institucionalização do processo
político". Não fôssemos
materialistas e dialéticos poderíamos
atribuir a este parágrafo das
resoluções da 9ª Conferência o
caráter de "profecia".
Se os dirigentes interpretam mal a
realidade ou as análises e resoluções
políticas dos foros e assim são levados
a erro na condução das ações, devem
fazer da autocrítica o instrumento de
correção do erro o mais breve possível
pois é isso que se espera dos dirigentes
de um partido comunista e é isto que
legitima o centralismo democrático.
Centralismo sem autocrítica e democracia
se transforma em autoritarismo e põe em
risco toda a ação do partido. Muitas
vezes diante dos erros é comum um desvio
que transforma a autocrítica num processo
de "justificativa". Deturpa-se a
realidade para encobrir a raiz da
questão. "Tudo deu errado, mas nós
estávamos certos porque isto ou
aquilo". As vezes por mais óbvio que
seja, não se consegue admitir que tudo
deu errado porque a análise que levou à
ação foi mal feita. Quando isto
acontece, a legitimidade do centralismo
democrático é afetada.
Um partido revolucionário não se
constrói a partir do poder institucional
mas a partir da luta da classe que
representa. Nossos parlamentares não tem
campanhas milionárias como parlamentares
burgueses. Não fazemos política com
mentiras. Sabemos, a partir de análise
material, racional, técnica e política
que os argumentos utilizados pelo governo
para defender a reforma de previdência
eram e são falsos e falaciosos. Sabemos
porque pensamos dialeticamente, que o
projeto visa transferir recursos públicos
para fundos privados do mercado de
capitais. Ao repetirmos falsos argumentos
estamos sendo desonestos com a nossa
classe. Quando um membro do PCdoB diz que
"vamos fazer as reformas que FHC não
conseguiu fazer", colocamos em
dúvida de que lado estamos. Atacamos a
imagem de seriedade, honestidade e
sinceridade na arte de fazer política
sobre as quais construímos a nossa
história. A estratégia da força
majoritária do governo de basear-se em
falsos argumentos com objetivo de garantir
uma governabilidade discutível, sempre
foi equivocada. A atual crise que o diga.
É equivocada também a adesão cega a
práticas e posições que contrariam
nossos princípios ideológicos e colocam
em risco a credibilidade.
O partido errou e deve fazer da
autocrítica do voto na Reforma da
Previdência a autocrítica de sua
atuação no governo Lula reconhecendo que
erroneamente foi excessivamente governo e
muito pouco partido.
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Caio Teixeira,
PCdoB-SC
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