Por Jorge Bornhausen,**
no jornal Folha de S. Paulo
A
pergunta veio anônima, do auditório
-claramente, de alguém que precisava
de um sinal de esperança.
"O senhor não está
desencantado com tudo isso que acontece
no Brasil?"
"Desencantado? Pelo contrário.
Estou é encantado, porque estaremos
livres dessa raça pelos próximos
30 anos."
Fiquei
feliz por ter dado aquela resposta,
embora reconheça possível
exagero:
30 anos foi pura explosão de otimismo
Surpreendi-me
eu mesmo por ter respondido de bate-pronto.
Quem me acompanha sabe que não
costumo reagir precipitadamente a provocações.
Mas fiquei satisfeito por ter dado aquela
resposta, embora reconheça possível
exagero. Trinta anos foi pura explosão
de otimismo. Eu sei que a democracia adota
limites humanos, e o humano abrevia as
penas, esquece, compreende as contingências
das quedas, oferece novas chances.
Além do mais, o petismo é
representativo de parcela respeitável
da sociedade. Livre dos fariseus, a camarilha
que o arrastou ao atoleiro, bem que pode
se recuperar mais cedo. Desde que não
insistam em destilar o veneno com que
abriram o caminho ao poder, insultando,
difamando, fingindo a indignação
moralista que jamais tiveram.
Minha profecia otimista de que ficaríamos
por 30 anos livres desses malfeitores
da política teve espantosa repercussão.
Foi a "frase do dia" nos jornais,
na rádio e na TV. Mas as reclamações
não vieram por causa da previsão
da quarentena, de que já estava
disposto a me penitenciar.
Embora a carapuça que joguei lhes
fosse rigorosamente ajustada, os tais
indesejáveis que nos envergonham
pelos atos que as CPIs estão devassando
escolheram outra forma de reclamação.
Passando por vítimas, acusam-me
de reacionarismo explícito, de
ter profetizado um castigo de 30 anos
não para eles, mas para as esquerdas
em geral.
Grandes malandros, querem se confundir
com o pensamento socialista brasileiro!
Ora, os setores de maior representatividade
da esquerda brasileira já estão
na oposição. Desenganaram-se
a tempo, antes que fossem conspurcados
pela lambança. Ou aparece alguém
para negar representatividade ao PDT,
de Brizola? Sou testemunha pessoal, porque
ouvi dele próprio o seu desencanto.
Ou também o PPS, liderado pelo
deputado Roberto Freire, não representa
a esquerda? Ou há dúvida
sobre a autenticidade do emblemático
deputado Gabeira? Ou os petistas ideológicos
expulsos do partido por cobrarem coerência
e honestidade, insurgindo-se contra o
grupo, camarilha ou raça -o sinônimo
que escolhi- não são esquerda?
Se não atingi toda essa gente,
como teria visado as esquerdas quando
me referi à camarilha petista?
Neste momento, neste pais, são
conhecidos e notórios os políticos
inescrupulosos a quem visei. Os políticos
inescrupulosos de quem se fala, todo mundo
os identifica pelo nome, profissão,
endereços, fortunas recebidas,
CPF, RG e até cacoetes.
Quanto a ter usado a palavra "raça"
-não como designação
preconceituosa de etnia, ideologia, religião,
caracteres, mas como camarilha, quadrilha,
grupo localizado-, tão logo alguns
falsos intelectuais surgiram, incriminando-me,
apareceram preciosos testemunhos a meu
favor.
Confesso que falei "dessa raça"
espontaneamente, sem premeditação,
usando meu modesto universo vocabular,
a linguagem coloquial brasileira com que
me expresso, embora meus adversários
tentem me isolar numa aristocracia fantasiosa.
Aliás, pelo menos em matéria
de falar "o português do Brasil",
"a língua errada do povo,
a língua certa do povo" -como
o poeta Manuel Bandeira sabia das coisas!-
, peço licença pela imodéstia,
mas usei a palavra "raça"
na melhor acepção.
Mas gostei das abonações
que meus amigos trouxeram. Sempre me encantou,
como constante consulente de dicionários,
pois a etimologia e a gramática
não são o meu forte, a forma
como o Aurélio exemplifica o significado
das palavras, acompanhando-as com textos
de escritores que as empregaram.
Pois eis-me cercado de abonações.
Primeiro, o sábio Antenor Nascentes,
no seu delicioso "Tesouro da fraseologia
brasileira", que teve uma reedição
nos anos 1980, pela editora Nova Fronteira.
Segundo Antenor Nascentes, a prosa popular
brasileira emprega a palavra raça
no sentido como a usei, no sentido de
"gente perversa".
O melhor, porém, é a origem
histórica desse uso da palavra.
Outro amigo veio me abrir o Novo Testamento,
no Evangelho de Mateus, capítulo
3º, versículos de três
a dez. É um registro de são
João Batista chamando de "raça
de víboras" aos "fariseus
e saduceus", que, desconfio, deviam
ser a camarilha corrupta da época,
oportunistas e que pretendiam ser melhores
que os outros. Raça de víboras.
E bote víboras nisso.
*
O portal Vermelho reproduz o artigo
do presidente
do PFL para que o internauta faça
o seu próprio
julgamento, e convencido de que o preconceito
bornhausiano fala por si
**
Jorge Bornhausen, 67, senador pelo PFL-SC,
é o presidente nacional do partido;
foi governador
de Santa Catarina (1979-82) e ministro
da Educação
(governo Sarney) e da Secretaria de Governo
da
Presidência da República
(governo Collor)
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