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30/9/2005
Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

30 de SETEMBRO de 2005

Abilio Wayand
A temática racial - Parte II

 

A professora universitária Azuete Fogaça ao publicar na coluna Opinião do O Globo de 11-ago-04 fornece testemunhos contundentes do explanado no 1ª parte desse texto. Vejamos:

"(...) Se num pequeno entrevero no trânsito carioca, dirigindo um carro de luxo, o outro motorista, branco, perguntou se a minha 'patroa' sabia que eu tinha pego o carro dela, não era racismo: era uma dúvida razoável; afinal, 'preto' e 'pobre' são quase sinônimos. (...) atribuir à implantação do sistema de cotas para negros nas universidades a responsabilidade pela queda da qualidade do ensino superior, também não é racismo: trata-se de uma preocupação legítima diante dos impactos negativos previsíveis com a entrada dos negros na esfera das atividades intelectualizadas e das profissões socialmente prestigiadas e mais bem remuneradas.

(...) é fundamental garantir a universidade pública para o segmento cuja trajetória social comprova sua capacidade e competência. (...) se não somos 50% nas universidades públicas, somos quase 100% nas penitenciárias; se não somos banqueiros e industriais, somos os líderes do tráfico de drogas; se não somos médicos famosos ou executivos poderosos, somos a maioria dos que fracassam na educação básica; se pouco aparecemos nas novelas e nos comerciais, somos o motor do turismo sexual, nas imagens de carnaval que destacam a nudez e o rebolado das negras; se somos raros professores universitários, somos a grande maioria nas estatísticas da marginalidade e do abandono infantil e juvenil".

Essa realidade degradante e intolerável de discriminação, racismo, desigualdade e opressão não poderá ser ultrapassada nos marcos de um modo de produção que se baseia no individualismo mais mesquinho, na competição mais brutal e que lança milhões de homens e mulheres ao abandono e desespero do desemprego, doença e fome. Por isso, a luta anti-racista no Brasil e no mundo possui uma forte dimensão anticapitalista e antiimperialista - o Katrina desnudou os limites "democráticos" do capitalismo racista dos EUA.

Por outro lado, não é suficiente proclamar a dimensão emancipadora e anti-racista do socialismo. É necessário, mas não é suficiente. Para que o socialismo alcance a plenitude do seu potencial humanizador, anti-reificação, ele deve florescer revolucionando com toda radicalidade as relações raciais. É necessário que o embate pela ruptura revolucionária e construção socialista de uma nova sociedade surja impregnada de um combate radical contra a opressão racial. Que a nova práxis societária forje-se em todas as dimensões contra tal situação histórica. Pois, se atualmente o racismo no Brasil impede, através da discriminação e opressão, que a nossa sociedade alcance um potencial de desenvolvimento humano e tecnológico mais sofisticado é fundamental que a construção socialista destrave esse impedimento em toda a sua magnitude e profundidade. O que demonstra que o socialismo e o fim do racismo não trazem o potencial de emancipar negros e negras, mas sim o conjunto do proletariado brasileiro; mulheres e homens de todas as matizes raciais que verdadeiramente constroem esse país.

Para isso, penso que é necessário desde já o debruçar teórico dos marxistas sobre o tema em questão. Precisamos aprofundar em muito o conhecimento sobre o processo do racismo brasileiro e incorporá-lo em nossa práxis, orientando os militantes negros e negras a envolverem-se mais assiduamente com a temática e participarem dos fóruns de discussão sobre a questão racial. Devem também participar organicamente do movimento negro. Além disso, os militantes não negros do partido precisam abraçar a causa da luta anti-racista, estudando o racismo brasileiro como mais um elemento que compõem de forma fundante a sociabilidade brasileira e estruturante da luta de classes em nosso país.

Além disso, penso que seja de fundamental importância para a corrente marxista eleger essa temática como objeto de estudo. Não só para o desenvolvimento, renovação e vitalidade de nossa corrente de pensamento e ação que até o presente não conceituou a dinâmica desse processo, sujeitando-o de forma simples às relações de classe. Porém, mais que isso, para fazer frente ao pensamento cada vez mais dominante em vários círculos da intelectualidade negra e do movimento negro de que é raça que determina a classe. Uma visão teórica equivocada que divide os explorados e em nada contribui com a luta pela edificação socialista.

Assim, e de acordo com Buonicore (www.vermelho.org.br, 18/05/2005) (...) "os comunistas brasileiros devem trabalhar ainda mais para recuperar o tempo perdido - com humildade reconhecer seus próprios erros e limites - e avançar no estudo das 'questões raciais' e no esforço de elaboração de políticas adequadas, que ajudem a superar o racismo e os preconceitos que ainda existem em nossa sociedade".

Além das sugestões ao longo do texto, proponho:

1 Que nossos parlamentares, principalmente os deputados estaduais e federais, apresentem projetos tornando o 20 de novembro feriado estadual e nacional;
2 Incluir no currículo nacional do partido e nos diversos níveis de curso a questão racial, estimulando seu estudo e debate;
3 Articular nacionalmente de forma prioritária a UNEGRO, estimulando a organização das seções regionais;
5 Aprofundar a discussão sobre quotas para que o partido tome uma posição conseqüente e unificada sobre o tema.

Quero homenagear Florestan Fernandes e o camarada Clóvis Moura, exemplos de dignidade intelectual e práxis socialista em defesa da causa negra.

________

Abilio Wayand,
do CM do PCdoB Petrópolis e OB do Quarteirão Brasileiro-Retiro

 

 

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