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A professora
universitária Azuete Fogaça ao publicar
na coluna Opinião do O Globo de 11-ago-04
fornece testemunhos contundentes do
explanado no 1ª parte desse texto.
Vejamos:
"(...) Se num pequeno entrevero no
trânsito carioca, dirigindo um carro de
luxo, o outro motorista, branco, perguntou
se a minha 'patroa' sabia que eu tinha
pego o carro dela, não era racismo: era
uma dúvida razoável; afinal, 'preto' e
'pobre' são quase sinônimos. (...)
atribuir à implantação do sistema de
cotas para negros nas universidades a
responsabilidade pela queda da qualidade
do ensino superior, também não é
racismo: trata-se de uma preocupação
legítima diante dos impactos negativos
previsíveis com a entrada dos negros na
esfera das atividades intelectualizadas e
das profissões socialmente prestigiadas e
mais bem remuneradas.
(...) é fundamental garantir a
universidade pública para o segmento cuja
trajetória social comprova sua capacidade
e competência. (...) se não somos 50%
nas universidades públicas, somos quase
100% nas penitenciárias; se não somos
banqueiros e industriais, somos os
líderes do tráfico de drogas; se não
somos médicos famosos ou executivos
poderosos, somos a maioria dos que
fracassam na educação básica; se pouco
aparecemos nas novelas e nos comerciais,
somos o motor do turismo sexual, nas
imagens de carnaval que destacam a nudez e
o rebolado das negras; se somos raros
professores universitários, somos a
grande maioria nas estatísticas da
marginalidade e do abandono infantil e
juvenil".
Essa realidade degradante e intolerável
de discriminação, racismo, desigualdade
e opressão não poderá ser ultrapassada
nos marcos de um modo de produção que se
baseia no individualismo mais mesquinho,
na competição mais brutal e que lança
milhões de homens e mulheres ao abandono
e desespero do desemprego, doença e fome.
Por isso, a luta anti-racista no Brasil e
no mundo possui uma forte dimensão
anticapitalista e antiimperialista - o
Katrina desnudou os limites
"democráticos" do capitalismo
racista dos EUA.
Por outro lado, não é suficiente
proclamar a dimensão emancipadora e
anti-racista do socialismo. É
necessário, mas não é suficiente. Para
que o socialismo alcance a plenitude do
seu potencial humanizador,
anti-reificação, ele deve florescer
revolucionando com toda radicalidade as
relações raciais. É necessário que o
embate pela ruptura revolucionária e
construção socialista de uma nova
sociedade surja impregnada de um combate
radical contra a opressão racial. Que a
nova práxis societária forje-se em todas
as dimensões contra tal situação
histórica. Pois, se atualmente o racismo
no Brasil impede, através da
discriminação e opressão, que a nossa
sociedade alcance um potencial de
desenvolvimento humano e tecnológico mais
sofisticado é fundamental que a
construção socialista destrave esse
impedimento em toda a sua magnitude e
profundidade. O que demonstra que o
socialismo e o fim do racismo não trazem
o potencial de emancipar negros e negras,
mas sim o conjunto do proletariado
brasileiro; mulheres e homens de todas as
matizes raciais que verdadeiramente
constroem esse país.
Para isso, penso que é necessário desde
já o debruçar teórico dos marxistas
sobre o tema em questão. Precisamos
aprofundar em muito o conhecimento sobre o
processo do racismo brasileiro e
incorporá-lo em nossa práxis, orientando
os militantes negros e negras a
envolverem-se mais assiduamente com a
temática e participarem dos fóruns de
discussão sobre a questão racial. Devem
também participar organicamente do
movimento negro. Além disso, os
militantes não negros do partido precisam
abraçar a causa da luta anti-racista,
estudando o racismo brasileiro como mais
um elemento que compõem de forma fundante
a sociabilidade brasileira e estruturante
da luta de classes em nosso país.
Além disso, penso que seja de fundamental
importância para a corrente marxista
eleger essa temática como objeto de
estudo. Não só para o desenvolvimento,
renovação e vitalidade de nossa corrente
de pensamento e ação que até o presente
não conceituou a dinâmica desse
processo, sujeitando-o de forma simples
às relações de classe. Porém, mais que
isso, para fazer frente ao pensamento cada
vez mais dominante em vários círculos da
intelectualidade negra e do movimento
negro de que é raça que determina a
classe. Uma visão teórica equivocada que
divide os explorados e em nada contribui
com a luta pela edificação socialista.
Assim, e de acordo com Buonicore
(www.vermelho.org.br, 18/05/2005) (...)
"os comunistas brasileiros devem
trabalhar ainda mais para recuperar o
tempo perdido - com humildade reconhecer
seus próprios erros e limites - e
avançar no estudo das 'questões raciais'
e no esforço de elaboração de
políticas adequadas, que ajudem a superar
o racismo e os preconceitos que ainda
existem em nossa sociedade".
Além das sugestões ao
longo do texto, proponho:
1 Que nossos parlamentares, principalmente
os deputados estaduais e federais,
apresentem projetos tornando o 20 de
novembro feriado estadual e nacional;
2 Incluir no currículo nacional do
partido e nos diversos níveis de curso a
questão racial, estimulando seu estudo e
debate;
3 Articular nacionalmente de forma
prioritária a UNEGRO, estimulando a
organização das seções regionais;
5 Aprofundar a discussão sobre quotas
para que o partido tome uma posição
conseqüente e unificada sobre o tema.
Quero homenagear
Florestan Fernandes e o camarada Clóvis
Moura, exemplos de dignidade intelectual e
práxis socialista em defesa da causa
negra.
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Abilio Wayand, do CM do PCdoB
Petrópolis e OB do Quarteirão
Brasileiro-Retiro
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