|
O tema racial conquista
cada vez mais espaço na sociedade
brasileira, seja através das
elaborações acadêmicas, seja pelas
constantes notícias de racismo e
discriminações veiculados nos meios de
comunicação ou pela própria
mobilização crescente das populações
negra e indígena. Por isso, considero que
o tratamento dado à temática racial no
projeto de resolução do nosso 11º
Congresso não é apenas insuficiente, mas
é rápido e rasteiro. Como está
formulado no capítulo VII da proposta de
estatuto do partido parece que é apenas
para constar. Como a questão indígena é
mais distante da minha realidade
geográfica, possui complexidade e
especificidade próprias e devido aos
limites deste texto, limitar-me-ei à
problemática racial negra.
Inicialmente faz-se necessário conceituar
e diferenciar racismo de discriminação.
Sem a intenção, obviamente ingênua, de
apresentar uma definição de racismo que
abranja a complexidade e a dinâmica de um
tema tão polêmico. Pois bem, chamarei de
racismo a construção teórica que busca
afirmar a superioridade de uma nação,
povo, raça ou classe social sobre as
demais, baseando a sua argumentação em
pressupostos ora biológicos, ora
antropológicos, históricos, psíquicos,
sociais, filosóficos ou religiosos, que
justifiquem e legitimem as desigualdades
sociais e a subjugação do outro com o
objetivo, explícito ou implícito, de
manutenção e ampliação do poder em
seus diversos patamares. Já a
discriminação racial seria a aplicação
prática, consciente ou inconsciente, do
racismo ao exercício da cotidianidade,
implicando em exclusão ou restrição de
acesso às satisfações das necessidades
materiais e espirituais do discriminado.
A discriminação pode trazer ao sujeito
que a sofre a sensação de inferioridade
e, por conseqüência, incorporar a
ideologia que a justifica a sua visão de
mundo, multiplicando-a em seu convívio e
tornando-a uma forma eficaz de
subalternização e manutenção das
desigualdades sociais. Assim, o racismo é
uma construção ideológica de
dominação de classe e preservação do
status quo social. Como ideologia é um
fenômeno sócio-histórico da
superestrutura, portanto socialmente
edificado e passível de superação.
No processo histórico da formação
social do Brasil a questão racial negra
sempre foi encarada como um problema.
Tanto as formulações teóricas racistas
do séc. XIX que propugnavam a
eliminação do elemento de origem
africana no Brasil, como as teorias da
miscigenação e da democracia racial
são, em certa medida, racistas, pois
vêem nos negros e negras não uma
solução, mas um problema que deve ser,
diluído ou ignorado porque não existe,
respectivamente.
Desde o fim oficial da escravidão, quando
a população negra deixa de ser coisa e
torna-se livre de quaisquer meios de
produção, inicia-se uma nova fase de um
dos problemas sociais mais graves do
Brasil: a discriminação, repressão e
opressão de milhões de homens e mulheres
através do racismo.
Exemplo candente e inicial desse racismo
foi a ação do Ministro Rui Barbosa em
1889 incinerando documentos do período
escravocrata. Tentando apagar da memória
nacional as atrocidades anteriormente
cometidas (Revista Palmares, 2001, p. 12
Apud Reis, Dissertação de mestrado,
UFJF-MG, 2003, pp. 67-68). Isso
evidenciava que o processo verdadeiro de
libertação dessa população começava
com as fugas e revoltas muito anteriores a
Lei Áurea, passava por ela e
prolongar-se-ia dolorosamente até os
nossos dias. A classe dominante branca
estava disposta a manter todos os
privilégios e para isso usaria o racismo
como forma de justificar e perpetuar o
poder e ampliar a acumulação de riqueza.
Conforme afirma Oliveira (Princípios
34,1994) "...a questão racial é um
elemento de vital importância para a
compreensão do poder capitalista
brasileiro" (Ibid, p.41). Poder que
se configurou "pela presença dos
mecanismos racistas nos processos de
exclusão social. Assim, pode-se definir o
poder capitalista brasileiro como
classista e racista" (Ibidem).
Visão corroborada por Fernandes (Apud
Moura, Princípios 50, 1998, p. 77) quando
destaca que a luta anti-racista possui
forte conotação anticapitalista ao
afirmar que a "democracia só será
uma realidade quando houver, de fato,
igualdade racial no Brasil e o negro não
sofrer nenhuma espécie de
discriminação, de preconceito, de
estigmatização e segregação, seja em
termos de classe, seja em termos de raça.
Por isso, a luta de classes, para o negro,
deve caminhar juntamente com a luta racial
propriamente dita". Entretanto,
prossegue o autor, (...) "a
revolução dentro da ordem é
insuficiente para eliminar as
iniqüidades, educacionais, culturais,
políticas, etc, que afetam os estratos
negros e mestiços da população. Mesmo
quando o negro não sabe o que é o
socialismo, a luta por sua liberdade e
igualdade possui uma significação
socialista".
(Com destaque do autor), (Ibid, p. 78).
________
Abilio Wayand, do CM do PCdoB
Petrópolis e OB do Quarteirão
Brasileiro-Retiro
|