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Na
primeira parte do presente artigo, foram
apresentadas as razões pelas quais
acredito tratar-se de uma incoerência
teórica a existência de um Coletivo de
Religiosos do PCdoB, já que "A
social-democracia baseia toda a sua
concepção de mundo no socialismo
científico, isto é, no marxismo. A base
filosófica do marxismo, como Marx e
Engels repetidamente declararam, é o
materialismo dialético... um materialismo
incondicionalmente ateísta, decididamente
hostil a qualquer religião". (1)
Além
disso, uma outra questão, menos abstrata
mas não menos importante, também levanta
preocupações: não me parece factível
esta nova forma de organismo/coletivo
especial. Estes carecerão de bandeiras
compatíveis com as do Partido. Muitas das
históricas lutas ou opiniões dos
comunistas (sobre o aborto, laicização
da educação e dos espaços públicos e
até mesmo a própria liberdade de culto
religioso no Brasil, dentre muitas outras)
enfrentarão coletivos de religiões
raivosamente contrários. Sendo que
"trabalhar para a elevação do
nível de consciência do militante"
para a necessidade dessa ou aquela luta
será impossível, já que o plano
argumentativo do materialista situa-se na
ciência e do deísta na fé, dificultando
inclusive a salvaguarda da unidade do
Partido.
No mesmo
sentido, temo ainda que haverá desvios
nas pautas próprias de um partido
político que trava as lutas material e
intelectual cotidianas em detrimento de
assuntos específicos de cada religião.
Suponhamos: coletivos da Igreja Universal
fazem a avaliação da "Marcha para
Jesus" (cujo poderio de mobilização
encontra-se na casa dos milhões!) em
detrimento do 1º de Maio, Dia do
Trabalhador; o coletivo dos Kardecistas
discutindo os treinamentos mediúnicos
básicos ao invés do CBV; o coletivo dos
católicos uma campanha contra o aborto na
absoluta contramão do Congresso da UBM; e
assim sucessivamente. Uma vez que o
objetivo dos Coletivos é fazê-los
"contribuírem com seu saber e
experiência na elaboração e
implementação da orientação
partidária" (2), no caso específico
do coletivo de religiosos fica
inviabilizado o cumprimento desta
diretriz, pelas razões demonstradas
acima. E aos que afirmarem que na pauta de
reunião entrarão as avaliações sempre
das segundas atividades e não das
primeiras, respondo então que não se fez
necessária a criação do Coletivo
especial. Muito mais do que levar o PCdoB
para as organizações religiosas,
traremos as religiões, muitas vezes
conflituosas entre si, para o PCdoB.
Evidentemente
não são todas as organizações
religiosas que entram em desacordo com o
Partido. Há as que, inclusive, travam
lutas progressistas ao nosso lado na
trincheira (Pastoral da Terra pela Reforma
Agrária, por exemplo). Mesmo este caso
excepcional não justifica a alteração
estatutária (3). Não se trata, neste
caso, de principismo ou dogmatismo,
justifico a não organização do coletivo
de religiosos no PCdoB, apesar do caráter
progressista da atuação política de
algumas religiões, até mesmo por isso:
bandeiras que também são dos comunistas,
não necessitamos organizar através de um
coletivo especial de religiosos. Além de
que, no desenvolver diário desta brecha
estatutária, haverá muito mais desgaste
político para o Partido negar a criação
de coletivos de algumas religiões (e
será necessário fazê-lo, posto que há
religiões muito reacionárias cujo adepto
terá o mesmo direito de pleitear um
coletivo especial no PCdoB quanto um
católico da Teologia da Libertação), do
que saldo quantitativo e qualitativo de
filiações ou aproximação com demais
correntes religiosas de esquerda - o que
já acontece bastante mesmo com as nossas
bases de estudo, trabalho e moradia.
Notas:
1 -
LÊNIN, V. O socialismo e a religião
2 - Projeto de Estatuto do Partido
Comunista do Brasil, artigo 33, 2º§;
3 - Refiro-me apenas ao termo
"religiosa"; à criação deste
coletivo especial especificamente e não
aos demais, que significam atender às
diversificações de organização
necessárias ao Partido Comunista de
feição moderna.
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Mariana
R. Venturini, militante do organismo
especial da Universidade de São Paulo -
USP
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