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29 de SETEMBRO de 2005

Mariana R. Venturini
Partido e religião - considerações teóricas e políticas - Parte II

 

Na primeira parte do presente artigo, foram apresentadas as razões pelas quais acredito tratar-se de uma incoerência teórica a existência de um Coletivo de Religiosos do PCdoB, já que "A social-democracia baseia toda a sua concepção de mundo no socialismo científico, isto é, no marxismo. A base filosófica do marxismo, como Marx e Engels repetidamente declararam, é o materialismo dialético... um materialismo incondicionalmente ateísta, decididamente hostil a qualquer religião". (1)

Além disso, uma outra questão, menos abstrata mas não menos importante, também levanta preocupações: não me parece factível esta nova forma de organismo/coletivo especial. Estes carecerão de bandeiras compatíveis com as do Partido. Muitas das históricas lutas ou opiniões dos comunistas (sobre o aborto, laicização da educação e dos espaços públicos e até mesmo a própria liberdade de culto religioso no Brasil, dentre muitas outras) enfrentarão coletivos de religiões raivosamente contrários. Sendo que "trabalhar para a elevação do nível de consciência do militante" para a necessidade dessa ou aquela luta será impossível, já que o plano argumentativo do materialista situa-se na ciência e do deísta na fé, dificultando inclusive a salvaguarda da unidade do Partido.

No mesmo sentido, temo ainda que haverá desvios nas pautas próprias de um partido político que trava as lutas material e intelectual cotidianas em detrimento de assuntos específicos de cada religião. Suponhamos: coletivos da Igreja Universal fazem a avaliação da "Marcha para Jesus" (cujo poderio de mobilização encontra-se na casa dos milhões!) em detrimento do 1º de Maio, Dia do Trabalhador; o coletivo dos Kardecistas discutindo os treinamentos mediúnicos básicos ao invés do CBV; o coletivo dos católicos uma campanha contra o aborto na absoluta contramão do Congresso da UBM; e assim sucessivamente. Uma vez que o objetivo dos Coletivos é fazê-los "contribuírem com seu saber e experiência na elaboração e implementação da orientação partidária" (2), no caso específico do coletivo de religiosos fica inviabilizado o cumprimento desta diretriz, pelas razões demonstradas acima. E aos que afirmarem que na pauta de reunião entrarão as avaliações sempre das segundas atividades e não das primeiras, respondo então que não se fez necessária a criação do Coletivo especial. Muito mais do que levar o PCdoB para as organizações religiosas, traremos as religiões, muitas vezes conflituosas entre si, para o PCdoB.

Evidentemente não são todas as organizações religiosas que entram em desacordo com o Partido. Há as que, inclusive, travam lutas progressistas ao nosso lado na trincheira (Pastoral da Terra pela Reforma Agrária, por exemplo). Mesmo este caso excepcional não justifica a alteração estatutária (3). Não se trata, neste caso, de principismo ou dogmatismo, justifico a não organização do coletivo de religiosos no PCdoB, apesar do caráter progressista da atuação política de algumas religiões, até mesmo por isso: bandeiras que também são dos comunistas, não necessitamos organizar através de um coletivo especial de religiosos. Além de que, no desenvolver diário desta brecha estatutária, haverá muito mais desgaste político para o Partido negar a criação de coletivos de algumas religiões (e será necessário fazê-lo, posto que há religiões muito reacionárias cujo adepto terá o mesmo direito de pleitear um coletivo especial no PCdoB quanto um católico da Teologia da Libertação), do que saldo quantitativo e qualitativo de filiações ou aproximação com demais correntes religiosas de esquerda - o que já acontece bastante mesmo com as nossas bases de estudo, trabalho e moradia.

Notas:

1 - LÊNIN, V. O socialismo e a religião
2 - Projeto de Estatuto do Partido Comunista do Brasil, artigo 33, 2º§;
3 - Refiro-me apenas ao termo "religiosa"; à criação deste coletivo especial especificamente e não aos demais, que significam atender às diversificações de organização necessárias ao Partido Comunista de feição moderna.


________
Mariana R. Venturini, militante do organismo especial da Universidade de São Paulo - USP

 

 

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