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"Se
um sacerdote se dirige a nós para um
trabalho político conjunto e realiza
conscienciosamente o trabalho partidário,
não se manifestando contra o programa do
partido, podemos aceitá-lo nas fileiras
da social-democracia"
Lênin
O aparecimento do
sucinto termo "religiosa" no
parágrafo 2º do artigo 33 da proposta de
novo estatuto, apresentada pelo Comitê
Central para apreciação do conjunto da
militância no processo congressual,
trouxe à tona um tema extremamente
delicado para nós, marxistas-leninistas:
a crença religiosa no seio do Partido. Se
há consenso na opinião de que as
religiões foram fator indispensável à
formação da cultura do povo brasileiro,
há grande controvérsia quando se trata
das mesmas terem espaço no interior do
PCdoB, despertando acalorados debates e
distintos posicionamentos nas mais
diferentes instâncias partidárias.
No momento em que o
Partido faz a correta opção pelo
encontro com as massas, pelo diálogo e
simultâneo enraizamento com as mesmas,
surge a necessidade candente de
descobrirmos onde estão as referidas
massas populares. Onde está e quem é a
nossa gente simples, ao mesmo tempo
instrumento e finalidade do nosso objetivo
estratégico. E é claro que uma das
respostas para esses questionamentos está
nas organizações de cunho religioso dos
mais variados tipos e matizes. Analisada
sob este aspecto simplesmente, a criação
de um coletivo de religiosos do PCdoB
seria interessante. Seria a
flexibilização da organização
partidária, o atendimento da nossa
orientação e ordem do dia de
estreitamento de laços com o nosso
querido povo brasileiro, uma vez que as
organizações religiosas existem em
número bastante expressivo e os
partícipes das mesmas em número maior
ainda.
Seria... Não tocasse ou
mesmo colidisse com a ciência norteadora
do nosso Partido - o marxismo-leninismo -
que encerra em si um princípio contrário
à toda e qualquer forma de idealismo: o
materialismo dialético. A nossa ciência
pensa a matéria com primazia ao
pensamento, concebe o universo em
permanente movimento, analisa tudo
considerando as contradições internas
que geram alterações quantitativas e
qualitativas, tudo se transforma
constantemente. Esta é a nossa base
filosófica, esta é a nossa ciência: o
socialismo.
Deuses (sejam eles de
qualquer natureza) são mais uma
expressão idealista, uma alienação de
si. Idealismo, enquanto visão de mundo
contrária à nossa, deve ser combatido. A
inexistência de deus chega a ser uma
conclusão lógica para o leitor atento de
Marx e Engels. Entretanto a concordância
ou discordância com esta conclusão é de
foro íntimo. Porque embora ela seja, como
dito anteriormente, lógica, ela também
é agressiva e difícil para o camarada
que crê. Portanto devemos esclarecê-lo
de maneira respeitosa e com sensibilidade
para compreender que as idiossincrasias do
brasileiro não desaparecem com a opção
de ingressar no Partido. Há mesmo quadros
valorosos do Partido que possuem algum
tipo de crença religiosa.
Contudo sendo a crença
em "um ser ou numa força
superior" a principal expressão da
corrente filosófica idealista na
atualidade, seria irreparável
incoerência teórica do PCdoB legitimar
internamente a mesma por meio de um
coletivo de religiosos. Aprovando o
referido coletivo como forma legítima de
organização, estaremos contrariando a
nossa base teórica, princípio que
destaca o PCdoB dos demais partidos da
cena nacional. Estaríamos sobrepondo a
tática à estratégia, a teoria ao
imediatismo político. Note-se aqui a
cabal diferença que há entre não
legitimar internamente o idealismo
através de uma instância oficial, para o
equívoco que representa não acolher com
respeito o militante possuidor de alguma
crença.
Impossível não nos
debruçarmos sobre as contribuições de
Lênin neste sentido, que tratou do tema
da religião na esfera política - já que
na teórica o marxismo é basilar e
irrefutavelmente materialista - e de
maneira muito tranqüila apontava para o
fato de não haver problemas em militar no
Partido e crer em deus, desde que se
cumprissem as obrigações e fossem
preservados os valores socialistas (1). E
apesar desta formulação, um dos maiores
revolucionários de todos os tempos não
vacilou, em nenhum momento sequer, no
combate ao idealismo (não só de cunho
religioso, como neokantistas,
agnosticistas, etc) nem tampouco aventou a
hipótese de que houvesse a
institucionalização da religião dentro
do partido revolucionário.
Nota:
1-LÊNIN V. O socialismo e a religião.
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Mariana
R. Venturini, militante do organismo
especial da Universidade de São Paulo -
USP
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