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Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

29 de SETEMBRO de 2005

Mariana R. Venturini
Partido e religião - considerações teóricas e políticas - Parte I

 

"Se um sacerdote se dirige a nós para um trabalho político conjunto e realiza conscienciosamente o trabalho partidário, não se manifestando contra o programa do partido, podemos aceitá-lo nas fileiras da social-democracia"
Lênin

O aparecimento do sucinto termo "religiosa" no parágrafo 2º do artigo 33 da proposta de novo estatuto, apresentada pelo Comitê Central para apreciação do conjunto da militância no processo congressual, trouxe à tona um tema extremamente delicado para nós, marxistas-leninistas: a crença religiosa no seio do Partido. Se há consenso na opinião de que as religiões foram fator indispensável à formação da cultura do povo brasileiro, há grande controvérsia quando se trata das mesmas terem espaço no interior do PCdoB, despertando acalorados debates e distintos posicionamentos nas mais diferentes instâncias partidárias.

No momento em que o Partido faz a correta opção pelo encontro com as massas, pelo diálogo e simultâneo enraizamento com as mesmas, surge a necessidade candente de descobrirmos onde estão as referidas massas populares. Onde está e quem é a nossa gente simples, ao mesmo tempo instrumento e finalidade do nosso objetivo estratégico. E é claro que uma das respostas para esses questionamentos está nas organizações de cunho religioso dos mais variados tipos e matizes. Analisada sob este aspecto simplesmente, a criação de um coletivo de religiosos do PCdoB seria interessante. Seria a flexibilização da organização partidária, o atendimento da nossa orientação e ordem do dia de estreitamento de laços com o nosso querido povo brasileiro, uma vez que as organizações religiosas existem em número bastante expressivo e os partícipes das mesmas em número maior ainda.

Seria... Não tocasse ou mesmo colidisse com a ciência norteadora do nosso Partido - o marxismo-leninismo - que encerra em si um princípio contrário à toda e qualquer forma de idealismo: o materialismo dialético. A nossa ciência pensa a matéria com primazia ao pensamento, concebe o universo em permanente movimento, analisa tudo considerando as contradições internas que geram alterações quantitativas e qualitativas, tudo se transforma constantemente. Esta é a nossa base filosófica, esta é a nossa ciência: o socialismo.

Deuses (sejam eles de qualquer natureza) são mais uma expressão idealista, uma alienação de si. Idealismo, enquanto visão de mundo contrária à nossa, deve ser combatido. A inexistência de deus chega a ser uma conclusão lógica para o leitor atento de Marx e Engels. Entretanto a concordância ou discordância com esta conclusão é de foro íntimo. Porque embora ela seja, como dito anteriormente, lógica, ela também é agressiva e difícil para o camarada que crê. Portanto devemos esclarecê-lo de maneira respeitosa e com sensibilidade para compreender que as idiossincrasias do brasileiro não desaparecem com a opção de ingressar no Partido. Há mesmo quadros valorosos do Partido que possuem algum tipo de crença religiosa.

Contudo sendo a crença em "um ser ou numa força superior" a principal expressão da corrente filosófica idealista na atualidade, seria irreparável incoerência teórica do PCdoB legitimar internamente a mesma por meio de um coletivo de religiosos. Aprovando o referido coletivo como forma legítima de organização, estaremos contrariando a nossa base teórica, princípio que destaca o PCdoB dos demais partidos da cena nacional. Estaríamos sobrepondo a tática à estratégia, a teoria ao imediatismo político. Note-se aqui a cabal diferença que há entre não legitimar internamente o idealismo através de uma instância oficial, para o equívoco que representa não acolher com respeito o militante possuidor de alguma crença.

Impossível não nos debruçarmos sobre as contribuições de Lênin neste sentido, que tratou do tema da religião na esfera política - já que na teórica o marxismo é basilar e irrefutavelmente materialista - e de maneira muito tranqüila apontava para o fato de não haver problemas em militar no Partido e crer em deus, desde que se cumprissem as obrigações e fossem preservados os valores socialistas (1). E apesar desta formulação, um dos maiores revolucionários de todos os tempos não vacilou, em nenhum momento sequer, no combate ao idealismo (não só de cunho religioso, como neokantistas, agnosticistas, etc) nem tampouco aventou a hipótese de que houvesse a institucionalização da religião dentro do partido revolucionário.

Nota:

1-LÊNIN V. O socialismo e a religião.

________
Mariana R. Venturini, militante do organismo especial da Universidade de São Paulo - USP

 

 

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