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As
análises efetuadas nessa contribuição
ao debate do 11º Congresso do PCdoB,
sobre tema tão estratégico, no momento
em que se tem a responsabilidade de buscar
a concretização da mudança do modelo
econômico e social, na perspectiva de um
projeto para o Brasil, se consubstanciam
em decisões políticas, como a
estabelecida pelo governo Lula, de que uma
das quatro áreas prioritárias da
Política Industrial Brasileira é a de
fármacos e medicamentos, ainda mais se
atentarmos para a expressão de nossa
biodiversidade.
Nesse
contexto da busca do projeto
nacional-desenvolvimentista, com
valorização do trabalho e das nossas
riquezas naturais, temos, num processo de
troca de experiências, sedimentado
algumas convicções como a de que é
preciso reverter a lógica, baseada na
dependência, em que o medicamento surge
como um instrumento de dominação
técnica e econômica. Para isso, um dos
caminhos a seguir é tomar a decisão
política de que o Brasil, pais rico em
recursos humanos e naturais, deve decidir
pela efetivação da aliança entre a
maior Biodiversidade do mundo e a
formação de recursos humanos para o
desenvolvimento de tecnologias que
viabilizem a produção, com qualidade, de
medicamentos, muitos dos quais as partir
de nossas plantas medicinais, levando em
consideração seu valor econômico como,
também, o das aromáticas e
condimentares.
Mas nossa
autonomia para gerir esses recursos
somente será respeitada quando tomarmos a
decisão de implementar uma Política
Nacional de Plantas Medicinais e
Fitoterápicos, inserida na Política de
Assistência Farmacêutica, que deverá,
como objetivo geral, resgatar, valorizar,
ampliar e qualificar a utilização das
plantas medicinais como elemento
estratégico de saúde, desenvolvimento
sustentável e soberania nacional. E ter,
como objetivos específicos, implantar a
Fitoterapia no SUS, estimular e fazer
avançar a pesquisa, qualificar a cadeia
produtiva, traçar legislação justa e
adequada; estimular o estabelecimento de
redes de cooperação técnica, de fundos
de pesquisa, o incremento aos
laboratórios oficiais e de um Parque
Industrial Nacional, com ênfase no
aproveitamento de nossa biodiversidade.
Essa
contribuição ao debate vem de um
processo forjado na simbiose de sonhos e
realizações de homens e mulheres que se
unificam, em torno do conhecimento de
nossas riquezas naturais, para gestar um
novo mundo. Talvez possamos explicitar
melhor através da contribuição de
nossos Kaigãng, no Rio Grande do Sul, que
cercaram de misticismo a coleta da
marcela, a Eloyatei-caá em Tupi-guarani,
nas sextas-feiras santas, antes do nascer
do sol, demonstrando o conhecimento de que
era, nessa época, no período de
maturação das flores, que suas
propriedades terapêuticas teriam a ação
para seus problemas digestivos. E nos
legaram os conhecimentos tradicionais de
sua farmacopéia permitindo que, através
de pesquisas realizadas nas Faculdades de
Farmácia e de Agronomia da UFRGS,
pudéssemos depositar pedido de patente
junto ao INPI, em 2001.
O resgate sobre a marcela mostra-nos o
significado da relação dialética entre
os conhecimentos tradicional e acadêmico
para a soberania de um povo na
construção de uma verdadeira nação.
Um
resgate que passa, hoje, por decisões
políticas levadas a efeito pelo governo
Lula, face às demandas do processo de
democratização da sociedade brasileira,
conseqüência de nosso povo ter marcado
posição contra o projeto neoliberal e
pelas mudanças, em 2002, como a criação
de Grupo de Trabalho para formular
propostas da Política Nacional de Plantas
Medicinais e Fitoterápicos, coordenado
pelo MS; o Programa Regional de Apoio a
Rede de Desenvolvimento de Plantas
Medicinais no Mercosul, do MDA; o Projeto
de Conservação e Utilização
Sustentável da Diversidade Biológica
Brasileira (PROBIO), do MMA; e o Programa
de Capacitação de Recursos Humanos para
o aproveitamento da Biodiversidade
Brasileira do MC&T.
Ao
procurarmos resgatar, nessa
contribuição, valores e vivências que,
ao longo da história da humanidade,
permeiam as relações políticas,
sociais, econômicas, culturais e
espirituais dos povos, neste momento
político que nos coloca o impasse de
construir o novo ou, o que seria um
retrocesso, impedir a perspectiva de
edificação de uma nação soberana,
estamos a afirmar que não podemos
permitir que nossas plantas medicinais
continuem sendo arrancadas do solo
brasileiro, levadas para o exterior,
patenteadas, industrializadas e
comercializadas no balcão de uma
farmácia por um preço que a maioria do
povo não tem condições de pagar!
Esse é um enorme desafio! E está posto
no processo político brasileiro, pelo
significado da centralidade de um projeto
nacional, iniciando na valorização dos
campos do Sul, da floresta Amazônica, do
semi-árido do Nordeste, dos cerrados do
Centro-Oeste, tradutores da potencialidade
produtiva, pela fantástica biodiversidade
de nosso país, passando pelo acúmulo de
conhecimentos e pelo uso sustentável da
natureza, esteios para um novo Brasil!
Cremos que o momento é rico para esses e
outros avanços, alicerçados no que
podemos cunhar de "Bioquímica da
Esperança", pois ela nos tem dado a
certeza de que a história de nosso país,
a história da humanidade caminha, às
vezes, a passos curtos, outras, a passos
largos, mas sempre a passos certeiros para
fazer vitoriosa a nova e promissora
sociedade socialista. E nossas plantas
medicinais são sementes desta caminhada!
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Jussara
Cony, farmacêutica, membro do
DE/RS e do CC do PCdoB, Deputada Estadual,
Diretora da UBM
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