|
A luta política pelo
"poder" em 2006 já está de
fato em curso. As denúncias de
corrupção invadiram a mídia e algumas
parecem ter lastro, maior do que parece.
É preocupante o uso indevido dos recursos
dos fundos de pensão das estatais que, em
última instância, são patrimônio dos
trabalhadores, a continuidade da
promiscuidade público-privada, auferindo
vantagens e ilícitos no favorecimento de
empresas, o achincalhe do parlamento
brasileiro no fortalecimento do
fisiologismo e compra de votos. Novidade
no Brasil? Seria uma hipocrisia não olhar
a história da República, ou à
formação das capitanias hereditárias. O
que é desastroso é que, mesmo em volume
menor, não é esperado ou admissível que
um governo eleito para "mudar"
com núcleo de esquerda, tenha cara nova e
velhas práticas, já rejeitadas pelo voto
popular. Não opino pela ótica unicamente
moral, que também é importante, mas pelo
significado político-ideológico. Cada
real do dinheiro público desviado falta
para a vaga da escola, para o remédio
inacessível. Tem ótica de classe,
agravando a desigualdade. Aumentam ainda
mais a desigualdade os R$150 bilhões
pagos, só de juros, por ano, pelo
governo, aplaudido pela mesma mídia que
denuncia os 50 milhões de empréstimos ao
PT.
Incomoda ver que os
erros do nosso campo, permitem o
crescimento da direita corrupta,
antidemocrática e antinacional. Causa
indignação ainda maior perdermos a
chance de uma virada no ciclo histórico
da política brasileira. A política de
governo e suas práticas não correspondem
à dimensão que fazíamos da sua vitória
em 2002.
Temos a obrigação de
impedir que o grupo PSDB/PFL volte ao
governo. E por isso e pela necessidade de
avançarmos é que considero necessário e
urgente que trabalhemos, com decisão,
outros cenários de alianças para 2006.
O cenário de 2006 terá
que ser amplo, fora do desvio esquerdista,
mas cujo elemento central não seja o PT.
Apoiar Lula ou qualquer outro não se
constitui numa questão de fé, de
devoção pela sua origem de classe, de
transposição automática de períodos
históricos ou de qualquer outra
irracionalidade, ou pior de objetivos mais
particularizados. Nosso compromisso é com
o povo e com o nosso país. Não acredito
que um segundo mandato de Lula, nas novas
condições dadas, com menor base social,
maior fragilidade partidária, possa ter
um conteúdo mais avançado, muito pelo
contrário.
Cabe aqui outra
citação de José Luis Fiori, em artigo
intitulado "Resultados de uma gestão
socialista do capitalismo",
referindo-se à Espanha: "Gonzalez
foi eleito com um programa de governo que
defendia uma estratégia
político-econômica de tipo Keynesiana,
junto a um plano negociado de
estabilização econômica e a defesa de
uma política de reestruturação
industrial e de crescimento econômico
voltado para o aumento do emprego e da
eqüidade social. Mas apesar das
condições ótimas de governabilidade e
credibilidade, o governo socialista não
cumpriu seu programa, e passou quatorze
anos anunciando a sua necessidade de
acumular mais credibilidade"
Hoje já não é mais
possível, no curso desse governo, a
mudança da essência da política
econômica, mesmo que medidas paliativas
ou eleitorais sejam tomadas. Basta olhar a
LDO para 2006, acompanhar as propostas de
desvinculação de receitas e despesas. A
indicação de possível privatização do
Instituto de Resseguros do Brasil, pode
interromper a suspensão da venda de
ativos brasileiros.
O PCdoB tem
responsabilidade política, mas precisa de
fato se diferenciar do PT, no que este tem
de hegemônico. O forte vínculo com o
movimento social e sua tão falada
autonomia não deve ser imparcial e nem
pode, mas precisa ser mais independente e
verdadeira, para que a nossa militância
possa aplicar sua combatividade e
capacidade de luta pelo que realmente
acredita.
O povo expressa seu
impacto, tristeza, decepção, orfandade.
Claro que as políticas assistenciais
sustentam apoio popular, mas esse não é
mais um forte sentimento em camadas
populares com outro grau de informação
ou organização, ou em setores formadores
de opinião. Não creio que queiram o
retorno ao passado, mas muitos, não
havendo nova alternativa, anularão seus
votos. A oposição e a mídia cumprem o
papel esperado, aproveitando-se de uma
crise que começa por dentro da base do
governo. Diferentemente do PT, nunca
achamos que fossem agir de outra forma.
Mas o rumo político do governo também
vem cumprindo seu papel e é nefasto.
Nosso congresso será
exitoso, quanto mais verdadeiras,
científicas e ligadas às necessidades do
nosso povo, forem suas análises e
resoluções.
________
Jandira
Feghali, deputada federal PCdoB/RJ
|