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Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

29 de SETEMBRO de 2005

Jandira Feghali
Mais para Gonzalez do que para Chávez 2ª parte

 

A luta política pelo "poder" em 2006 já está de fato em curso. As denúncias de corrupção invadiram a mídia e algumas parecem ter lastro, maior do que parece. É preocupante o uso indevido dos recursos dos fundos de pensão das estatais que, em última instância, são patrimônio dos trabalhadores, a continuidade da promiscuidade público-privada, auferindo vantagens e ilícitos no favorecimento de empresas, o achincalhe do parlamento brasileiro no fortalecimento do fisiologismo e compra de votos. Novidade no Brasil? Seria uma hipocrisia não olhar a história da República, ou à formação das capitanias hereditárias. O que é desastroso é que, mesmo em volume menor, não é esperado ou admissível que um governo eleito para "mudar" com núcleo de esquerda, tenha cara nova e velhas práticas, já rejeitadas pelo voto popular. Não opino pela ótica unicamente moral, que também é importante, mas pelo significado político-ideológico. Cada real do dinheiro público desviado falta para a vaga da escola, para o remédio inacessível. Tem ótica de classe, agravando a desigualdade. Aumentam ainda mais a desigualdade os R$150 bilhões pagos, só de juros, por ano, pelo governo, aplaudido pela mesma mídia que denuncia os 50 milhões de empréstimos ao PT.

Incomoda ver que os erros do nosso campo, permitem o crescimento da direita corrupta, antidemocrática e antinacional. Causa indignação ainda maior perdermos a chance de uma virada no ciclo histórico da política brasileira. A política de governo e suas práticas não correspondem à dimensão que fazíamos da sua vitória em 2002.

Temos a obrigação de impedir que o grupo PSDB/PFL volte ao governo. E por isso e pela necessidade de avançarmos é que considero necessário e urgente que trabalhemos, com decisão, outros cenários de alianças para 2006.

O cenário de 2006 terá que ser amplo, fora do desvio esquerdista, mas cujo elemento central não seja o PT. Apoiar Lula ou qualquer outro não se constitui numa questão de fé, de devoção pela sua origem de classe, de transposição automática de períodos históricos ou de qualquer outra irracionalidade, ou pior de objetivos mais particularizados. Nosso compromisso é com o povo e com o nosso país. Não acredito que um segundo mandato de Lula, nas novas condições dadas, com menor base social, maior fragilidade partidária, possa ter um conteúdo mais avançado, muito pelo contrário.

Cabe aqui outra citação de José Luis Fiori, em artigo intitulado "Resultados de uma gestão socialista do capitalismo", referindo-se à Espanha: "Gonzalez foi eleito com um programa de governo que defendia uma estratégia político-econômica de tipo Keynesiana, junto a um plano negociado de estabilização econômica e a defesa de uma política de reestruturação industrial e de crescimento econômico voltado para o aumento do emprego e da eqüidade social. Mas apesar das condições ótimas de governabilidade e credibilidade, o governo socialista não cumpriu seu programa, e passou quatorze anos anunciando a sua necessidade de acumular mais credibilidade"

Hoje já não é mais possível, no curso desse governo, a mudança da essência da política econômica, mesmo que medidas paliativas ou eleitorais sejam tomadas. Basta olhar a LDO para 2006, acompanhar as propostas de desvinculação de receitas e despesas. A indicação de possível privatização do Instituto de Resseguros do Brasil, pode interromper a suspensão da venda de ativos brasileiros.

O PCdoB tem responsabilidade política, mas precisa de fato se diferenciar do PT, no que este tem de hegemônico. O forte vínculo com o movimento social e sua tão falada autonomia não deve ser imparcial e nem pode, mas precisa ser mais independente e verdadeira, para que a nossa militância possa aplicar sua combatividade e capacidade de luta pelo que realmente acredita.

O povo expressa seu impacto, tristeza, decepção, orfandade. Claro que as políticas assistenciais sustentam apoio popular, mas esse não é mais um forte sentimento em camadas populares com outro grau de informação ou organização, ou em setores formadores de opinião. Não creio que queiram o retorno ao passado, mas muitos, não havendo nova alternativa, anularão seus votos. A oposição e a mídia cumprem o papel esperado, aproveitando-se de uma crise que começa por dentro da base do governo. Diferentemente do PT, nunca achamos que fossem agir de outra forma. Mas o rumo político do governo também vem cumprindo seu papel e é nefasto.

Nosso congresso será exitoso, quanto mais verdadeiras, científicas e ligadas às necessidades do nosso povo, forem suas análises e resoluções.


________
Jandira Feghali, deputada federal PCdoB/RJ

 

 

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