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Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

29 de SETEMBRO de 2005

Aldanny Guimarães Rezende
A terceira margem do rio e os dois rios inteiros sem direção

 

Dizem que o mineiro é afoito, vê o mar, pela primeira vez e na beira da praia diz que tanto de água, isto só vendo aquela porção que os olhos vêem à beira mar. Bobagem. Mineiro, antes de ir à praia, sobe nas montanhas e vê, muito além do horizonte, e mais, por não ser cotidiano seu contato com o mar, o vê de forma mais abrangente.

Minas é a síntese do país. Dizem. Conhecer Minas, e principalmente seu pensamento, é conhecer um pouco da síntese deste pensamento nacional. Sem bairrismo, nem falsa modéstia. Para conhecer o pensamento mineiro há várias fontes. Dentre elas Rosa, Guimarães Rosa. Mais contemporâneo tem a turma de outro Rosa, o Samuel, do Skank.

Este preâmbulo aborda uma polêmica, da atual conjuntura e de nosso congresso, sobre a não existência da terceira margem do rio. Conto homônimo do primeiro Rosa aborda sim que o rio tem realmente duas margens, mas apenas para quem olha e não vê. A terceira margem se constrói, com ação, com a construção de uma canoa e com a decisão de ir ao rio, em matéria de rios, desculpem os 8000 km de litoral brasileiro, mineiro conhece bem mais.

E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos
Como eu fiz também
Só pra poder conhecer

Dois rios

A bipolaridade entre o rio neoliberal capitaneado pelo PSDB, da herança maldita de FHC e sua turma do conservadorismo que odeia nosso povo e nossa raça de um lado e o outro campo capitaneado pelo PT, do modelo econômico tão neoliberal quanto o primeiro remete ao novo Rosa mineiro: parecem dois rios inteiros sem direção.

O governo Lula errou, não apenas e nem principalmente na questão ética, na corrupção, nem mesmo na política econômica. Primeiro, foi um governo desmobilizador, não chamou o povo para governar, nem mesmo pediu seu apoio. Verdade, com esta política seria difícil. Pediu paciência, calma que tudo ia dar certo. "No fim do meu governo vocês comprovarão", dizia o mandatário maior do país. Mesmo hoje ao se reunir com a CMS e os movimentos sociais, não há nenhuma bandeira, exceto a sua biografia, sua origem e o improvável golpe. As mudanças que nós, que estamos a seu lado pedimos, exigimos, imploramos não são ouvidas, são ignoradas, pelo contrário reafirma-se dia após dia que não mudará.

Além disso, não têm adversários ideológicos claros. A não ser pela disputa pelo poder, numa alternância que caminha para democratas e republicanos. Os bancos com seus lucros aumentando a cada mês deste governo não são adversários. Os latifundiários quase intocados neste governo, que diga o MST, também não. Os rentistas internacionais detentores de parcela majoritária de nossos títulos menos ainda. Neste governo os juros da dívida passaram de 60 bilhões no primeiro ano, para mais de 170 bilhões no próximo ano.

Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos.
A terceira margem do rio

Bem, mas este é o congresso do mais importante partido do Brasil, do de maior história, mais coerente, o glorioso PCdoB. Por isto me preocupa mais e abordo neste texto o terceiro erro. Não há alternativas diz Lula e este governo. Nosso partido e os comunistas sempre foram os construtores das alternativas. Na primeira guerra mundial, Lênin buscou a terceira margem na consolidação da revolução. Em 1962, quando a bipolaridade entre EUA e a URSS também compunha as margens binárias. Construímos a terceira margem. Na ditadura militar as margens do rio estavam entre ARENA e MDB. Fomos às armas na mata, quando alternativas à resistência à ditadura não havia na cidade. Este discurso que vem impregnando a todos e a tudo não pode passar. A terceira margem do rio só existe realmente se for construída. Tem sido em vários países, vizinhos inclusive. Não é fácil, mas há muitos setores da política brasileira disposta a isto.

O PCdoB deve ser o construtor da canoa, o timoneiro da canoa e assumir a terceira margem do rio. Esta margem deve contemplar todas as bandeiras corretamente apresentadas pelo PCdoB, e pouco assimilado por este governo. Desenvolvimento nacional e social, destravar o crescimento, emprego, direitos sociais e trabalhistas, soberania, enfim que apresente um novo rumo a nosso país. Que tenha sustância suficiente que agregue forças políticas e apoio popular que garanta com isto, força suficiente no congresso e compartilhe os rumos do país com toda a base.
À terceira margem de Guimarães Rosa. Creio que é mais sensato do que seguir na opção entre os rios de Samuel Rosa, a duvidosa polêmica tucano petista. Dois rios inteiros sem direção.

1 Terceira Margem do Rio, Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32,
2 Dois Rios, música de Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis disco Cosmotron Skank


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Aldanny Guimarães Rezende, OB Trabalhadores em Comunicação BH, membro da Comissão Política do PCdoB Minas Gerais, Secretário de Finanças

 

 

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