|
pão
ou pães é uma questão de opiniães
Guimarães Rosa
Escrevi
um texto para esta tribuna defendendo o
voto aberto que foi respondido pelo
camarada e amigo Egberto Magno, dirigente
do nosso partido na Bahia. Sinto-me
obrigado a responde-lo, não pelo tema em
si, que vem sendo exaustiva e
suficientemente discutido na nossa
tribuna, mas pelo teor da resposta do
camarada, que credita a mim opiniões que
não tenho.
A verdade
é que Egberto (na certa por culpa minha,
que devo ter sido pouco claro em meu
texto) faz uma série de confusões sobre
minhas opiniões. Vou me ocupar de uma
delas, que me parece a mais grave,
deixando as outras para serem dirimidas a
partir da leitura de meu primeiro texto.
A
questão sobre a qual o camarada Egberto
fez mais confusão, e que merece resposta
por minha parte, é o caráter do voto do
delegado ao Congresso ou Conferência do
Partido. Egberto tenta creditar a mim, sem
eu ter afirmado isso em lugar algum, uma
visão de que o voto do delegado deveria
atender a objetivos de grupos, interesses
ou plataformas. Para defender a tese dá
exemplos caricatos que não contribuem
para fazer um debate de bom nível sobre o
tema.
Eu,
obviamente, sou contra qualquer tipo de
plataforma ou interesses de grupo no
PCdoB. No nosso Partido não há, e nem
deve haver, espaço para este tipo de
coisas. Não somos um partido de grupos ou
tendências, organizados em torno a
plataformas políticas próprias.
O que afirmo e defendo é a idéia de que
o delegado é mandatário da base do
partido. Ele recebe um voto de confiança,
o mandato de decidir os rumos do Partido
em nome do coletivo partidário, os rumos
que o Partido vai tomar. Esta é a base da
democracia representativa.
Este
delegado não é o portador de uma
plataforma política, mas reflete, mesmo
que difusamente, o debate que foi feito em
sua Conferência ou Organismo. É isso que
garante que a delegação da Plenária
Final do nosso Congresso reflita toda a
riqueza do debate realizado no país, em
um processo democrático e amplo. Do
contrário, não haveria ligação entre o
debate feito no conjunto do processo do
Congresso e o momento final.
Refletir o debate realizado nos fóruns
anteriores não quer dizer que este
delegado venha ao Congresso como defensor
de uma plataforma aprovada em sua
Conferência. Ele tem a delegação de
votar de acordo com sua consciência, de
convencer e ser convencido pelo próprio
debate do Congresso.
Votar
de acordo com sua consciência, no
entanto, não transforma o voto, ao menos
em nosso partido, em algo individual, em
uma opção de foro íntimo. Ele tem que
prestar contas, diante do coletivo da
Conferência ou Congresso, de suas
opções, justifica-las e, mais importante
do que isso, lutar abertamente por suas
posições.
Além do
debate político do processo que culminou
com sua eleição, o delegado porta uma
responsabilidade, a de escolher os
dirigentes do partido. Esta tarefa tem
grande importância, porque esta direção
é o nosso Congresso entre os Congressos,
expressão máxima da confiança do
coletivo.
Hoje o
delegado presta contas dos seus votos, aí
incluso o voto para a direção do
partido, o mais importante do Congresso,
para os outros participantes. Este é um
mecanismo de controle coletivo, que
reafirma o caráter não individual do
voto. A existência do voto secreto cria
uma visão de voto de foro íntimo, voto
protegido por segredo, enfraquecendo o
vínculo e a responsabilidade que o
delegado tem diante do coletivo
partidário.
Entendo plenamente a argumentação de
quem defende o voto secreto como um
mecanismo de proteção dos delegados
contra possíveis mandonismos. Sua defesa
parte de um pressuposto justo, o de que é
necessário buscar ampliar e aperfeiçoar
a democracia partidária.
Apesar de
entender os argumentos, acho que os
efeitos colaterais da implantação do
voto secreto seriam maiores do que os
benefícios. Apesar de sensibilizado pela
necessidade de ampliar os mecanismos
democráticos, continuo achando que, ao
menos para a eleição do Comitê Central,
é necessário manter o voto aberto, pelo
tamanho da responsabilidade da decisão, e
pela necessidade de que o debate seja
feito com a mais absoluta transparência.
________
Júlio
Velozzo, São Paulo, SP
|