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Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

28 de SETEMBRO de 2005

Júlio Velozzo
No ciclo conservador, 
constituir um bloco socialista amplo
 

Um dos centros da nossa tese nacional é a idéia de que dentro da etapa imperialista, caracterizada por Lênin como a etapa das guerras e revoluções, vivemos um ciclo conservador duradouro. Esta definição tem uma série de implicações importantes e dá sentido a todo o raciocínio do anteprojeto.

Concordo com os termos apresentados no documento. Quero apenas sublinhar o alcance e a profundidade da ofensiva que estamos sofrendo. Arriscaria dizer, mesmo sem espaço neste artigo para sustentar a afirmação, que se trata da vaga reacionária mais profunda e, tendencialmente, mais duradoura que o movimento comunista já encarou - nem a situação posterior ao esmagamento da Comuna de Paris, quando Marx se viu obrigado a defender a dissolução da I Internacional; nem a situação aberta com a derrota da onda revolucionária que se seguiu à Revolução Russa; nem a terrível década de 30, dos processos de Moscou, da Guerra Civil Espanhola e da ascensão do fascismo, são páreo para o momento em que vivemos.

É difícil perceber toda e extensão e o alcance desta realidade aqui no Brasil. A vaga aberta com a redemocratização do país acabou por minorar os efeitos da onda conservadora. A ponto de, no ano de 1989, enquanto caiam o muro e as primeiras estátuas dos revolucionários na Europa, Lula, com um programa bastante à esquerda, teve 31.076.364 votos para a Presidência da República. Neste mesmo ano foi realizada a maior greve geral da história do Brasil, com a participação de 20 milhões de trabalhadores.

Mesmo as derrotas sofridas durante os governos neoliberais de Collor e Fernando Henrique, não foram suficientes para deter o avanço da esquerda, que, tendo o PT como principal "receptáculo", continuou acumulando forças.
No entanto, me parece que esta realidade sofreu uma alteração importante no último período. Se a crise política, que teve como principal conseqüência a desmoralização do PT, for concluída com derrota de Lula nas próximas eleições, haverá a alteração deste quadro e dissolver-se-á a situação de exceção que o Brasil vivia no quadro mundial.

Diante desta situação devemos nos posicionar para um período marcado pela resistência. Esta é uma mudança importante, que tem uma série de implicações. Uma delas é um certo reposicionamento da nossa tática, que se mantém atual em suas linhas gerais, mas que necessita de ajustes, pequenos, mas importantes. É preciso reposicionar o Partido, de modo a que mesmo em um período de dificuldades, continuemos acumulando forças.

Mantém atualidade a linha de constituirmos uma frente patriótica, que lute por um programa desenvolvimentista com distribuição de renda e valorização do trabalho. Uma frente que vá além da esquerda e dos trabalhadores, absorvendo setores da burguesia, que tenham interesse em um programa alternativo. Também mantém atualidade a idéia de que o ponto de partida para esta construção mais ampla é um núcleo de esquerda, que parte do PSB, do PCdoB e do PT.

Existe uma grande contradição entre a correção de nossa política e a força que detemos para colocá-la em prática. Esta contradição pode aumentar muito com a onda reacionária que se desenha e que tem na cláusula de barreira apenas a sua dimensão mais aparente.

A grande questão é, como manter e ampliar a força de nossas idéias em uma realidade que tende a ser bastante mais reacionária? Acho que deveríamos considerar a hipótese de conformarmos um bloco socialista, mais amplo do que o partido, do qual fizessem parte os socialistas do PSB e toda uma sorte de socialistas independentes que buscam uma alternativa.

É ocioso dizer que este bloco não substituiria o nosso partido, que manteria a sua organização e independência, nos moldes de hoje. Agiríamos por dentro e por fora do bloco, mantendo nossa propaganda própria e nossas feições. Ressalto que esta experiência, com diferentes matizações, é comum a outros partidos comunistas do mundo. Nosso partido já utilizou tática semelhante, por exemplo, com a Aliança Nacional Libertadora, um dos picos da influência dos comunistas.

A primeira é ser um instrumento de intervenção na luta política mais imediata. O bloco se apresentaria como uma alternativa política e eleitoral, servindo para que possamos ultrapassar a barreira dos 5%. Teria também o papel prático de ser, ao mesmo tempo, aliado e alternativa ao PT, dividindo com este partido a hegemonia da frente.

As limitações do PT, caracterizadas na tese apresentada pelo CC, tendem a se agravar a partir da crise. O Partido dos Trabalhadores tende a sair pior (mais confuso, errático, dividido e hegemonista) e menor desta situação. Isso não significa uma ruptura da aliança eleitoral com o PT, que continuará sendo um partido forte e influente, portanto, principal aliado do bloco. Significa apenas que, a partir do Bloco, teríamos mais força para disputar a linha política da aliança.

O segundo papel do bloco seria a constituição de um espaço amplo para a reorganização dos socialistas. Em especial a partir da caracterização desenvolvida em nossa tese de que a tarefa de superação do neoliberalismo tem um caráter anticapitalista, é preciso dar a luta pelo socialismo um caráter mais cotidiano.
Para além de defender o socialismo, o Bloco seria um espaço para a discussão e acúmulo teórico, tarefa que pode ganhar toda uma série de intelectuais e socialistas independentes, dispostos a "reconstruir a alternativa socialista", como diz a nossa tese.

Reconheço a dificuldade de colocar esta idéia em prática. Mas acho que a idéia merece ser considerada e discutida. Um Bloco Socialista poderia ganhar força, e ter o papel de ser uma resposta ampla a uma realidade que tende a ser difícil para os comunistas. Em um momento de confusão e crise, com o principal partido da esquerda em dificuldades, um instrumento que amplie as possibilidades da esquerda mais conseqüente pode ter grande papel em reafirmar o socialismo como perspectiva e em ser o núcleo consciente da conformação de um amplo campo patriótico.



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Júlio Velozzo, São Paulo, SP

 

 

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