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Quando
nossas teses se referem à transição,
elas o fazem através de uma
conceituação clara sobre o que este
termo significa. Partimos, portanto, deste
pressuposto para trabalhar o problema da
ruptura na transição. Qual o momento da
síntese, não enquanto momento histórico
factual ou temporalmente único, mas
enquanto aspecto qualitativo essencial? Ou
seja, em que situação e de que forma
durante a transição ocorre mesmo a
passagem do estado burguês para o
proletário e quando, afinal de contas, o
proletariado adquire a condição
econômica essencial à sua libertação,
ou seja, o poder, sem o qual toda esta
transição não passará de reformismo? A
partir da experiência da Revolução
Russa, vários setores da esquerda
revolucionária têm considerado a idéia
de ruptura ou revolução e a idéia de
"tomada do poder" como um fato
único no tempo. É sabido por todo
marxista que a natureza do estado
proletário, (considerada na
conceituação mais ampla do termo), é o
controle político do estado pelo
proletariado, o que leva, necessariamente,
a uma alteração na morfologia e no
funcionamento do mesmo.
A
Revolução Cubana, apesar das
aparências, foi adquirindo a natureza de
Estado não-burguês, um bom tempo após a
tomada do governo, através do INRA
(Instituto Nacional de Reforma Agrária),
que tinha se tornado quase um governo
paralelo ao do presidente liberal colocado
pelos próprios guerrilheiros vitoriosos!
A derrubada do presidente, os Comitês de
Defesa da Revolução (CDRs) e as
assembléias diretas das massas, foram os
instrumentos da nova institucionalidade
que pouco a pouco se constituiu. O poder
veio de forma mais lenta ainda, através,
primeiro, da reforma agrária e, depois,
das graduais expropriações. A
Revolução Chinesa foi constituindo outro
estado e outro poder de forma mais direta,
mas parcial em termos territoriais.
Portanto, não se pode falar de novo
estado nacional (não-burguês) a não ser
no final da guerra popular prolongada. Cabe
frisar, então, que a concepção de
revolução como tomada do poder e
destruição do estado burguês pelo
proletariado em um momento histórico
definido e factual (assalto ao poder) não
encontra respaldo na teoria marxista e na
maior parte da práxis revolucionária
pós-Revolução Russa. A ruptura não é
necessariamente um fato, uma data, uma
ação. A revolução é um processo que
deve implicar necessariamente em rupturas
que garantam o poder político e
econômico ao proletariado. A práxis
histórica tem demonstrado que esse
processo tem em cada país uma
particularidade histórica e uma
singularidade de ritmos e formas.
As nossas
teses colocam alguns referenciais básicos
de análise: em termos conjunturais
(não confundir conjuntura com "pouco
tempo" ou "o momento em que
vivemos") a acumulação de forças
em período de defensiva e, estruturalmente,
o novo padrão neoliberal de reprodução
do capitalismo. A transição se dá nesse
marco geral e vai ser decorrente de
mudanças políticas e econômicas.
Algumas dessas diretrizes gerais de
mudanças econômicas (dentro da
concepção acertada de que romper com o
neoliberalismo é atacar as bases de
reprodução do sistema) já constam de
nossas teses. Mais reduzidas são as
propostas quanto as mudanças políticas
no estado. Por óbvio, pois não se trata
de fazer adivinhações. No entanto, nos
parece que este campo permite,
pós-Congresso, um trabalho de pesquisa e
aprofundamento específico.
As
recentes experiências da Venezuela
(sobretudo), do Equador e do Uruguai, bem
como a nossa, podem permitir
aprofundamentos neste tema. É, sem
dúvida, aspecto essencial para o
desenvolvimento da teoria da transição,
pois o marxismo nos ensina que ao
contrário das revoluções anteriores, em
que a condição de politicamente
dominante era seqüência à condição de
economicamente dominante do ponto de vista
da classe revolucionária, a revolução
socialista exige, pela sua essência, o
controle do estado para o posterior
controle do poder com a mudança da
estrutura social. Neste sentido, parece
que alguns pontos são relevantes para
posterior estudo: a democratização, já
assinalada nas teses, dos meios de
comunicação; a formação de espaços
ampliados de participação dos movimentos
na estrutura do estado; o alargamento do
caráter social da defesa nacional; a
formação de estruturas sociais de
alargamento do poder público (inserir o
popular na estrutura pública no sentido
inverso da privatização das políticas
públicas via ONGs) e a democratização
dos instrumentos de consulta e
representação popular.
Por fim,
queremos ressaltar a importância
estratégica de nosso debate sobre estes
temas (e o acerto em manter o Congresso,
não apesar da crise, mas também por
ela), bem como sobre o novo partido de
ampla militância, apoiado em quadros
avançados, que tenha a amplitude e
diversidade do nosso povo e grande
inserção institucional, sem abrir mão
da unidade política e da essencialidade
da ação de massas com centro no
proletariado. Ou seja, um partido em
perfeita funcionalidade com nossa linha
política (Sorrentino), qual seja, na
minha opinião, a de não ser estreito de
forma a retardar a nossa acumulação de
forças, que passa pela inserção ampla
nos movimentos e na institucionalidade, e
não ceder aos vícios desta
institucionalidade, da fronteira difusa
entre o Partido e o povo ao estilo
martoviano, nem abrir mão da unidade
ideológica e, portanto, política, para
poder ser o grande instrumento para as
rupturas, que é, em última instância, a
razão da existência do nosso Partido
Comunista do Brasil.
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Daniel
Vieira Sebastiani, professor,
convidado do Secretariado Estadual do
PCdoB/RS, presidente do IMG/RS
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