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Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

27 de SETEMBRO de 2005

Demócrito Albuquerque
Buscar uma rearticulação frentista para sustentar o programa de mudanças
Parte II

 

A categoria teórica da transição, qualquer que seja o método de que se valha, pressupõe o deslocamento de um estado de coisas, a outro, diverso. Este processo pode tardar uma ou várias décadas e até um século. Mas é preciso saber de onde partir e onde pretender chegar. É necessário um projeto que possibilite à sociedade civil e aos cidadãos instrumentos de verificabilidade, de avaliação dos rumos perseguidos e do ritmo de implementação, sem o qual a convicção num governo de mudanças, de um processo político coletivamente construído e pactuado dá lugar a um exercício de fé, pura e simplesmente.

Que o Governo Lula não apresentou, até o presente, um programa coerente de mudanças à sociedade, parece uma conclusão factível. Se não o fez porque não foi capaz, não teve ousadia ou convicção suficientes, ou se não o fez porque, ele e sua corrente, capitularam diante do establishment político e econômico, esta a questão que mais inquieta a todos, que está posta e para a qual o partido precisa estar preparado a dar resposta.

Se um processo de capitulação por parte de forças que se constituíram no próprio núcleo da esquerda brasileira nos últimos 20 anos, quando não, do ponto de vista do imaginário popular, na própria esquerda, está em curso, a exemplo do que ocorreu com partidos socialistas e sociais-democratas europeus, o PCdoB não tem outra alternativa a não ser se diferenciar e buscar um movimento de refundação da própria "esquerda" brasileira, mais identificada, do ponto de vista programático, com a resistência ao neoliberalismo, com a integração latino-americana e com a afirmação do desenvolvimento econômico e social sob a perspectiva dos interesses nacionais, a partir de articulação de ampla frente política capaz de coesionar os seguimentos marginais ao ajuste neoliberal.

Este movimento, e não a defesa de um governo que se não capitulou, mostra-se inepto para dar início, em substância, ao processo de transformações, deve se constituir no centro da tática do Partido. Sim, isto implica no reposicionamento da tática partidária, pois persistir defendendo este governo e travando em seu interior uma luta por mudanças que se acham cada vez mais distante do centro de suas ações e cujo núcleo diretivo visível solenemente ignora as opiniões de sua base social, dos partidos aliados, da intelectualidade comprometida com o desenvolvimento do país, tem se mostrado tarefa inócua.

Isso, evidentemente, sem desconhecer que a AL continua a viver um processo de neocolonização. Que a crise do sistema capitalista demanda crescente dominação e espoliação de países e povos por parte das potências imperialistas e de seus agentes econômicos. Que, se não bastasse o poderio econômico da potência estadunidense, também a força bruta militar, a guerra, a bomba...

Mas que, também, há diferentes formas de resistir e lutar. A pequena Cuba que o diga, a Venezuela, a Argentina, e tantas outras experiências no passado e no presente. Mesmo a postura da diplomacia brasileira, a resistência à ALCA, os movimentos antiglobalização, enfim, experiências que demonstram ser possível trilhar um outro rumo, mesmo nos marcos da difícil correlação, e fazem concluir acerca da emergência de, no plano interno, o país, com todas as suas potencialidades, buscar um caminho soberano de desenvolvimento, somando-se aos povos que ousam transgredir a ordem, não obstante seus ilimitados instrumentos de coerção, e buscam um horizonte favorável à luta anticapitalista.

Assim, dentre as tantas tarefas deste 11º Congresso cumpre, sem dúvida, afirmar o programa de mudanças, refinando-o e formatando-o como contribuição ao processo político brasileiro. Entretanto, já não basta somente sustentar este Governo, mesmo que com um posicionamento crítico acerca da condução de sua política estrutural e nem tampouco relegar toda pressão pelas mudanças ao movimento social, abdicando, no plano político-institucional, diante da inépcia do núcleo dirigente do governo, de se constituir em alternativa para a consecução dessas mudanças.

Sob o argumento da defensiva estratégica e da desfavorável correlação de forças, não se pode desconhecer todo um histórico de resistência ao neoliberalismo em cujo front forjou-se toda uma geração de quadros e militantes. Cumpre ao Partido percorrer também esse caminho, sem se quedar por quaisquer alternativas que levem a um maior isolamento político, mas buscando decididamente uma rearticulação frentista que reúna convicções suficientes para dar sustentação ao programa de mudanças. Uma frente que, deslocando seu eixo do atual núcleo dirigente do PT, dispute e articule além do próprio PT e suas correntes, os demais partidos de esquerda, os setores nacionalistas, a intelectualidade progressista, o setor produtivo e o proletariado, os estudantes, e que tenha no PMDB, de Roberto Requião, de Carlos Lessa, de Itamar Franco, de José Alencar (?), de Garotinho(?), e de tantas outras figuras robustas da cena nacional, o seu principal vórtice.

A construção de uma alternativa ao projeto neoliberal, quer seja o representado pela oposição conservadora (PSDB/PFL), ou este que ora se implementa, liderado pela corrente dominante do PT (Palocci e cia.), deve se constituir no centro dos esforços partidários, para que em uma das margens do rio possam estar representados os anseios mudancistas em torno de um projeto nacional e democrático de desenvolvimento, e para que o Partido se mantenha íntegro e reste resguardado seu caráter classista e revolucionário.


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Demócrito Albuquerque, integrante da Executiva Municipal de Juiz de Fora/MG

 

 

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