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Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

27 de SETEMBRO de 2005

Haroldo Lima
As ameaças à América Latina e o Governo Lula - parte II

 

O Plano Colômbia aponta para a região setentrional da América do Sul, onde está a Amazônia e a Venezuela. Aí, a estratégia americana é a da intimidação, intervenção e ocupação. É a região onde os Estados Unidos depositam seu maior interesse. O alvo é a Amazônia, a maior reserva concentrada de água doce da Terra. A Venezuela é um alvo mais circunstancial.

A Tríplice Fronteira é onde se encontram fronteiras de três países: Brasil, Paraguai e Argentina. Além disso, é o núcleo onde se encontra a maior reserva de água doce subterrânea do planeta Terra, o Aqüífero Guarani, área gigantesca de 1,2 milhão de Km2, 70% dos quais em território brasileiro, o restante com a Argentina, o Paraguai e o Uruguai.

Finalmente a Patagônia é vista como a base projetada para completar o cerco da América do Sul, no extremo do continente, defronte da Antártida.

Do ponto de vista dos Estados Unidos o cenário político atual dessa parte do mundo é adverso. Recentemente, o Ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Reinaldo Gargano, retratou bem esse cenário, dizendo que, por aqui, "há hoje um arco virtuoso com Lagos no Chile, Kirchman na Argentina, Lula no Brasil, Vasquez no Uruguai e Chávez na Venezuela".

Na verdade, foi por causa desse "arco virtuoso" que os Estados Unidos não conseguiram implantar suas pretendidas bases de Alcântara e da Patagônia. Também é pela mesma razão que o grande projeto de ocupação econômica do continente, a ALCA, está paralisado.

Esse pano de fundo geoestratégico não pode passar desapercebido ao se fazer uma apreciação mais geral sobre a importância e o significado do governo Lula. Isto porque a chegada de Lula ao posto de primeiro mandatário brasileiro em muito contribuiu, e às vezes foi decisiva, para a constituição desse "arco virtuoso". Ao revés, um eventual afastamento de Lula da presidência da República do Brasil seguramente precipitaria o esfacelamento do dito "arco", abrindo espaço para o avanço dos planos imperiais americanos na América do Sul.

Lamentavelmente, o governo Lula, no que diz respeito à política macroeconômica que executa, continua no fundamental o governo anterior. O próprio presidente reitera que não haverá mudança nessa frente, o que torna mais oneroso o apoio que lhe dá as forças progressistas mais conseqüentes. Há em estratos da população uma sensação de frustração ante um governo que não mudou como prometera e que se enredou em uma crise que causa perplexidade e na qual a velha direita entreguista e corrupta se veste de farisaísmo ético e passa à ofensiva, buscando retomar a plenitude do poder. Apear Lula do Planalto, imediatamente, talvez não lhe seja interessante. Mas, se puder, o fará.

Tudo isso provoca uma outra crise, mais específica, na esquerda brasileira. Esta se depara ante o risco de ser tida como incapaz de cumprir quando governa o que prometera para governar e, mais ainda, de ser incompetente, continuísta e corrupta. O dramático é que a história da esquerda no Brasil, e no mundo, é bem outra, de bravura, competência, honestidade e sacrifício.

Mas a crise está aí, alimentada por desacertos e potencializada pelo controle midiático da direita. Claro que predomina na esquerda a compreensão dos problemas e o posicionamento correto, ainda que penoso. Mas, ante o risco de perder bandeiras e de ficar desacreditada frente ao povo, vê-se dispersão, indisciplina, desnorteamento e defecção. É a crise.

Nesses momentos, a esquerda mais conseqüente, com os comunistas na linha de frente, não pode perder o rumo. Nem perder de vista as conseqüências estratégicas que advirão de fatos que podem acontecer e para os quais ela não pode contribuir.

Uma eventual saída de Lula da presidência, por essa ou aquela razão, seria grande derrota das forças nacionais latino-americanas. Ruiria o surto da esquerda nesse continente, seria desfeito o "arco virtuoso" de que falou Gargano. O Império entraria em êxtase.

Além do mais, no Brasil, voltariam as forças que aqui impuseram a "privatização", suspensa no governo Lula. Seria restaurada a lista que já estava pronta das empresas privatizáveis: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, CHESF, Tucuruí, Furnas e, por que não, a Petrobrás.

A esquerda não deve ser condescendente com os que cometeram erros e graves. Deve continuar pelejando por mudanças. Mas não pode ceder trincheiras de significado estratégico para sua luta. Lula na Presidência.


________
Haroldo Lima, vice-Presidente do PCdoB

 

 

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