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A defensiva estratégica
da luta socialista em todo o mundo, que
remonta o fim da experiência socialista
na URSS e no leste europeu e persiste até
os dias atuais, o recrudescimento do
imperialismo e a absoluta hegemonia
política e econômica dos EUA, assentada
em sua insuperável força e presença
militar no globo, e o esgotamento do
neoliberalismo enquanto expressão
contemporânea do próprio sistema
capitalista de produção, num processo de
contínua crise sistêmica, são elementos
que informam a correlação de forças no
plano internacional, num quadro amplamente
desfavorável à luta socialista.
Na América Latina, à
virulência da implementação do modelo
neoliberal, que remonta o Chile de
Pinochet, com imensurável espoliação
das finanças nacionais e com o desmonte
sistemático dos instrumentos de gestão
soberana de política econômica, opôs-se
a resistência popular que, em maior ou
menor grau, tencionaria o surgimento e
fortalecimento de amplas frentes nacionais
e populares que se poriam como alternativa
aos governos subservientes ao imperialismo
financeiro.
No Brasil, onde a
implementação do projeto neoliberal
encontrou tanto a resistência do
movimento social organizado e dos partidos
de esquerda, quanto do próprio desenho
constitucional, antagônico em seu
nascedouro às mudanças liberalizantes,
ainda assim as forças imperialistas
lograram eleger dois presidentes (Collor e
FHC) que, a partir de ampla coalizão
conservadora, investiram decisivamente
contra o Estado nacional, num movimento
angular de adequação e desmonte dos
entraves institucionais erigidos pela
cidadania, pilhando as finanças públicas
e submetendo toda a gestão
macro-econômica a lógica do novo modelo
de acumulação.
Neste contexto, a
eleição de Lula, depois de quatro
disputas sucessivas, por certo se explica
pelo acúmulo destas experiências e do
próprio pensamento democrático e
progressista que as antecede, mas,
sobretudo, pelo desgaste provocado pelos
nefastos efeitos sociais de mais de uma
década de implementação do
neoliberalismo, pela divisão da coalizão
conservadora que lhe sustentara e,
principalmente, pelo sentimento de
mudança que ganhou a maioria do povo,
forte de que o processo democrático,
entendido como a rotinização das
eleições, possibilitaria o advento de um
novo projeto e de novos atores políticos
a quem caberia implementá-lo, numa
perspectiva quase messiânica, emulada
pela própria formação de parte da
esquerda brasileira e, também, em
conseqüência do deliberado estímulo da
propaganda petista.
No entanto, como
recorrente na história política
brasileira, também a eleição de Lula
não se fez sem um acordo, por cima, com
os donos do poder. A Carta ao Povo
Brasileiro, subscrita pelo então
candidato Lula, mais que o comprova,
atestando as limitações a que estaria
submetido o novo governo. Estaria aí,
nesta flexão, a senha para o também
secular movimento das elites que, em
momentos de crise de seu projeto,
"mudam para nada mudarem?"
Mas as limitações,
esperadas diante dos compromissos
assumidos e da delicada conjuntura
macro-econômica em que se deu a
transição de governo, deram lugar, ao
longo desta gestão, a uma declarada
rendição programática. O que deveria
traduzir-se em transição rumo a um novo
modelo, afirmou-se como sua definitiva
política econômica, sem qualquer espaço
para o debate, num claro aceite à
imposição da ortodoxia financeira.
Não que se desconheça,
ao produzir tal diagnóstico, o caráter
da luta antineoliberal como própria
expressão da luta anticapitalista, como
tarefa para uma larga etapa, portanto. Nem
que se ignore a desfavorável correlação
de forças no plano internacional e
nacional, não se reproduzindo, nos planos
estadual e municipal, a vitória
alcançada no plano nacional, e presente
um ambiente político em que é ainda
insuficiente o patamar de organização e
mobilização da sociedade em torno da
defesa do novo projeto, mostrando-se,
aliás, inacabada e dispare a própria
noção de novo projeto, a carecer de um
processo que lhe empreste unidade e
legitimação.
Nem que se ignore, neste
governo, medidas que se acham em
oposição ao modelo neoliberal, dentre as
quais, a relativa interrupção do
processo de privatizações, a tentativa
de retomada do caráter indutor e
desenvolvimentista do BNDES e outras
agências, a suspensão das discussões em
torno da ALCA, as iniciativas, no plano
internacional, de articulação de um eixo
político alternativo à hegemonia
norte-americana...
No entanto, tais
medidas, se considerado o conjunto da
"obra", não se mostram
suficientes para justificar a defesa do
Governo ante a possibilidade de retorno da
oposição conservadora. Isto porque a
manutenção dos pilares macro-econômicos
da política anterior (superávits
primários elevados, cambio flutuante,
ampla liberdade ao fluxo de capitais,
manutenção da política de juros
elevados, metas de inflação, etc.)
compromete um horizonte de crescimento
sustentável em patamares suficientes para
gestar um novo ciclo de desenvolvimento e
estrangulam os investimentos sociais e
infra-estruturais. As políticas sociais
acabam reproduzindo o formato anterior,
com viés focalizado e compensatório. Os
investimentos em reforma agrária são
incapazes de alterar o perverso quadro
fundiário brasileiro. Enfim, tamanha é
contradição deste Governo que a própria
afirmação de sua natureza estacionária
do projeto neoliberal mostra-se imprecisa,
do que decorre também a dúvida sobre a
natureza política deste governo. Um
governo de transição ou um governo de
rendição?
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Demócrito
Albuquerque, da Executiva Municipal de
Juiz de Fora/MG
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