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26 de SETEMBRO de 2005

José Arnaldo Gama da Silva
Trabalho, deuses e política - 
Alienação da humanidade

 

A consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo, o conhecimento de Deus é o conhecimento que o homem tem de si mesmo. Pelo seu Deus conheces o homem e, vice-versa, pelo homem conheces o seu Deus; ambos são a mesma coisa. 
FEUERBACH, Ludwig, A Essência do Cristianismo

Em seu livro "A Essência do Cristianismo", Feuerbach afirma que o homem difere do animal por ter uma consciência que tem por objeto o seu gênero, a sua essencialidade. Apresentando uma polêmica tese de que a essência da religião é a essência do ânimo humano, e de que a teologia poderia ser explicada pela antropologia. O autor desvenda que as representações e segredos atribuídos a um ser sobrenatural não eram mais do que representações humanas naturais, e de que o imaginário pretensamente existente no Céu poderia ser encontrado na Terra.

Dessa forma, o homem transportava para um ser celestial o ideal de justiça, bondade e virtude que não conseguia realizar no plano concreto, real. Com isso os homens criam os deuses, sujeitos infinitos, em escala absoluta e universal atribuindo a eles a criação de si, passando automaticamente a constituir-se como um ser alienado no aspecto religioso.

O caráter antidialético e contemplativo da concepção feuerbachiana do mundo, sua incompreensão do papel da prática, não lhe permitiu estender ao materialismo a interpretação dos fenômenos sociais, retirando assim do homem a participação no processo evolutivo, e do contexto histórico.

Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos, Marx demarca o fato da existência do homem ser aquilo o que ele não é. Afirma ainda que a alienação religiosa seria gerada pela alienação econômica fruto do resultado da realização do trabalho aparecer como a desrealização do trabalhador, e que o objeto produzido por este apareceria como algo estranho e independente a ele, sendo ainda apropriado pelos donos dos meios de produção. O trabalho para o proletariado torna-se um fardo, o meio apenas de receber um salário, que sacrifica aquele que gera a riqueza ficando este sob o paradoxo de ficar mais pobre à medida que produz mais riquezas. Deixa, portanto, de ser uma necessidade humana ao assumir um caráter hostil e exterior a ele, arruinando com isso o seu espírito. O homem só se sentiria à vontade longe do trabalho. No modo de produção capitalista, a atividade produtiva se transformou em social, pertencendo à vida genérica do homem. Na proporção em que o homem está alienado do seu ser genérico aliena-se de outro estando todos alienados da essência humana.

Marx ao fazer a crítica à alienação busca preparar a ultrapassagem para uma nova sociedade, a comunista, onde haja o retorno do homem a si mesmo, onde haja a abolição da propriedade privada que é criada e criadora do trabalho alienado. O trabalho no capitalismo é desprovido de significado.

A condição para o entendimento de alienação não se dá fora da esfera do trabalho. A humanidade subjugada pela alienação, forma degradada de objetivação, imposta pelo capital, se desumaniza, tornando-se mero objeto da grande fábrica capitalista.
Historicamente, o estranhamento se deu sob as mais variadas maneiras, seja na forma mercadoria, na religião, nas artes, através do Estado etc. No mundo capitalista contemporâneo o impacto que a alienação assume nas amplas massas de desempregados, terceirizados, precários etc reveste-se de formas ampliadas e distintas, seja através do aumento da violência, da rejeição da vida social, na busca de outras formas de identidade, como por exemplo de facções, gangues, "tribos" etc, denotando uma situação em que as normas sociais que regulam o comportamento individual não são mais reconhecidas como válidas; a ausência mesmo de um sistema ético, impedindo o bom funcionamento da sociedade, sua coesão e ordem. O indivíduo alienado sente-se objeto, e não sujeito da política. Surge o sentimento de impotência política com sua respectiva sensação de isolamento e distância entre os indivíduos e a esfera pública. O homem deixa de se realizar nesta esfera e passa a negar sua natureza. Instaura-se uma discrepância entre as expectativas do indivíduo e a maneira como o sistema social efetivamente funciona.

A impotência surge com o sentimento do sujeito de que os resultados independem de seu controle pessoal, determinados que são por fatores externos. A alienação política reforça o sentimento de ausência de sentido da política, ou seja, a percepção de que as decisões políticas são imprevisíveis, regidas por um padrão aleatório e pelo funcionamento do mundo público que amplia sistematicamente a crença generalizada no comportamento ilegal e imoral dos representantes políticos.
No entendimento de que a alienação é um processo na luta de classes, a desalienação deve ser investigada sob as suas atuais configurações, para que possamos compreender o mundo real e suas formas de resistência e transformá-lo para um mundo além do capital.


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José Arnaldo Gama da Silva, membro do Comitê Municipal do Rio de Janeiro Membro da O. B. Uerj

 

 

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