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Reconhecer que existe
racismo no Brasil, que as estruturas
social, econômica e política do país
são marcadas pela ideologia da
hierarquização entre os grupos humanos,
é, de fato, um avanço importante.
Entender a forma objetiva do racismo
brasileiro, sua capacidade de operar
tranqüilamente no ethos político e
social dos segmentos conservadores e
retrógrados, bem como nos espaços das
forças progressistas e democráticas ao
mesmo tempo, significa perceber que não
basta construir um projeto novo de
sociedade sobre as contradições
históricas. Traduzir esses avanços
dentro do objetivo estratégico do Partido
renovado, que vive um momento de
acumulação de forças e que compreende
as peculiaridades brasileiras como um
vetor substancial de consecução do
projeto revolucionário, é um primeiro
passo que faz a diferença.
A globalização
capitalista, hoje, sob o signo político e
econômico do neoliberalismo, capitaneado
pelos EUA - país racista que aposta
pesado na divisão dos povos para subjugar
as nações e imprimir as suas marcas do
terror - ataca a soberania nacional,
promove a fome, a miséria, o desemprego,
a coisificação e mercantilização do
saber e da cultura. Combater e vencer essa
lógica é, também, condição para a
superação do racismo e da desigualdade
racial.
Todavia, a derrota do
neoliberalismo não significa o imediato
fim desse nefasto fenômeno que foi
eficientemente introduzido na formação
das ordens e valores que orientam as
instituições brasileiras. O racismo não
é uma questão de ignorância ou falta de
conhecimento; também não é um problema
exclusivo da direita nem do sistema
capitalista. Essa construção social
baseada na relação de domínio e
privilégios não é eficazmente combatida
com atitudes voluntárias ou
psicopaternalistas. São necessárias
decisões concretas que ultrapassem os
limites do discurso e ataquem as
estruturas onde ele se encontra
alicerçado: educação, economia,
política, cultura.
Tradicionalmente, as
esquerdas brasileiras concatenaram
esforços teóricos e práticos na luta de
classe. A natureza como o produto social
é apropriado justifica todas as mazelas
sociais, de forma que a derrota desse
modelo resolveria as tais mazelas.
Economistas importantes do campo marxista
e da esquerda não conseguiram perceber
que a independência econômica, a
superação do subdesenvolvimento, per se,
não dão conta da demanda ora debatida. A
exclusão social verificada no Brasil tem
fulcro no racismo.
É escusado lançar mão
do IBGE, IPEA, DIEESE, IDH da ONU para
demonstrar, com a frieza dos números, os
fatos que o movimento negro há muito
denuncia. De maneira que a unidade do povo
brasileiro é fortemente ameaçada na
medida em que o fosso que separa negros e
brancos for mantido. Não se trata aqui
apenas do branco burguês. O racismo não
nasceu no seio da classe operária,
contudo, ele está dentro dela e
expurgá-lo é tarefa fundamental.
Assim, o olhar sobre a
miscigenação do povo brasileiro, longe
do extremo das considerações rasteiras e
das compreensões limitadas do processo de
desenvolvimento dos seres humanos, precisa
expressa a realidade de como ela se deu.
Foi a decisão política de dominação e
exploração, principalmente, que
possibilitou esse legado. E esse
entendimento tem de ecoar na construção
de um novo projeto para o país. Numa
perspectiva socialista, o aperfeiçoamento
e fortalecimento da democracia brasileira
perpassam inevitavelmente pela
incorporação das várias identidades que
constituem esse povo novo, uno e forte.
O 11º Congresso do
Partido Comunista do Brasil realizar-se-á
num momento político muito difícil. As
denúncias de corrupção dentro do
governo Lula, a intensificação das
investidas conservadoras para derrubá-lo
e aplicar mais aceleradamente o
receituário neoliberal, que inclusive
favorece o recrudecimento das
manifestações racistas, a conjuntura
internacional e o posicionamento
estratégico e tático do Partido frente a
esse cenário não podem impedir a
discussão profunda e conseqüente desse
tema.
Destarte, um Partido
renovado, Brasil soberano, democrático e
socialista, exige a superação do racismo
e a incorporação das referências e
identidades de todas as matrizes étnicas
que compõem o povo brasileiro. Exige a
compreensão de que a luta de classe por
si só é insuficiente para derrotar o
neoliberalismo, visto que ele também se
sustenta na opressão racial e de gênero.
Cobra, ainda, a auto e profunda reflexão
no sentido de que a secundarização de um
posicionamento político concreto acerca
dessa matéria contribui para a
perpetuação do racismo ao estilo
brasileiro: cordial, silencioso e
paternalista. Viva Zumbi e o Partido
Comunista do Brasil. Ngunzo!
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Alexandro
Reis, militante do Organismo Especial
da Luta Anti-racista do PCdoB/BA
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