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30/9/2005
Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

26 de SETEMBRO de 2005

Alexandro Reis
A luta de classe por si só é insuficiente

 

Reconhecer que existe racismo no Brasil, que as estruturas social, econômica e política do país são marcadas pela ideologia da hierarquização entre os grupos humanos, é, de fato, um avanço importante. Entender a forma objetiva do racismo brasileiro, sua capacidade de operar tranqüilamente no ethos político e social dos segmentos conservadores e retrógrados, bem como nos espaços das forças progressistas e democráticas ao mesmo tempo, significa perceber que não basta construir um projeto novo de sociedade sobre as contradições históricas. Traduzir esses avanços dentro do objetivo estratégico do Partido renovado, que vive um momento de acumulação de forças e que compreende as peculiaridades brasileiras como um vetor substancial de consecução do projeto revolucionário, é um primeiro passo que faz a diferença.

A globalização capitalista, hoje, sob o signo político e econômico do neoliberalismo, capitaneado pelos EUA - país racista que aposta pesado na divisão dos povos para subjugar as nações e imprimir as suas marcas do terror - ataca a soberania nacional, promove a fome, a miséria, o desemprego, a coisificação e mercantilização do saber e da cultura. Combater e vencer essa lógica é, também, condição para a superação do racismo e da desigualdade racial.

Todavia, a derrota do neoliberalismo não significa o imediato fim desse nefasto fenômeno que foi eficientemente introduzido na formação das ordens e valores que orientam as instituições brasileiras. O racismo não é uma questão de ignorância ou falta de conhecimento; também não é um problema exclusivo da direita nem do sistema capitalista. Essa construção social baseada na relação de domínio e privilégios não é eficazmente combatida com atitudes voluntárias ou psicopaternalistas. São necessárias decisões concretas que ultrapassem os limites do discurso e ataquem as estruturas onde ele se encontra alicerçado: educação, economia, política, cultura.

Tradicionalmente, as esquerdas brasileiras concatenaram esforços teóricos e práticos na luta de classe. A natureza como o produto social é apropriado justifica todas as mazelas sociais, de forma que a derrota desse modelo resolveria as tais mazelas. Economistas importantes do campo marxista e da esquerda não conseguiram perceber que a independência econômica, a superação do subdesenvolvimento, per se, não dão conta da demanda ora debatida. A exclusão social verificada no Brasil tem fulcro no racismo.

É escusado lançar mão do IBGE, IPEA, DIEESE, IDH da ONU para demonstrar, com a frieza dos números, os fatos que o movimento negro há muito denuncia. De maneira que a unidade do povo brasileiro é fortemente ameaçada na medida em que o fosso que separa negros e brancos for mantido. Não se trata aqui apenas do branco burguês. O racismo não nasceu no seio da classe operária, contudo, ele está dentro dela e expurgá-lo é tarefa fundamental.

Assim, o olhar sobre a miscigenação do povo brasileiro, longe do extremo das considerações rasteiras e das compreensões limitadas do processo de desenvolvimento dos seres humanos, precisa expressa a realidade de como ela se deu. Foi a decisão política de dominação e exploração, principalmente, que possibilitou esse legado. E esse entendimento tem de ecoar na construção de um novo projeto para o país. Numa perspectiva socialista, o aperfeiçoamento e fortalecimento da democracia brasileira perpassam inevitavelmente pela incorporação das várias identidades que constituem esse povo novo, uno e forte.

O 11º Congresso do Partido Comunista do Brasil realizar-se-á num momento político muito difícil. As denúncias de corrupção dentro do governo Lula, a intensificação das investidas conservadoras para derrubá-lo e aplicar mais aceleradamente o receituário neoliberal, que inclusive favorece o recrudecimento das manifestações racistas, a conjuntura internacional e o posicionamento estratégico e tático do Partido frente a esse cenário não podem impedir a discussão profunda e conseqüente desse tema.

Destarte, um Partido renovado, Brasil soberano, democrático e socialista, exige a superação do racismo e a incorporação das referências e identidades de todas as matrizes étnicas que compõem o povo brasileiro. Exige a compreensão de que a luta de classe por si só é insuficiente para derrotar o neoliberalismo, visto que ele também se sustenta na opressão racial e de gênero. Cobra, ainda, a auto e profunda reflexão no sentido de que a secundarização de um posicionamento político concreto acerca dessa matéria contribui para a perpetuação do racismo ao estilo brasileiro: cordial, silencioso e paternalista. Viva Zumbi e o Partido Comunista do Brasil. Ngunzo!


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Alexandro Reis, militante do Organismo Especial da Luta Anti-racista do PCdoB/BA

 

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