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Não se nasce mulher, se faz mulher
Simone de Beauvoir
O documento do 11º
Congresso Nacional do PCdoB apresenta uma
série de inovações que irão repercutir
positivamente na nossa atuação enquanto
mulheres, feministas e comunistas.
Neste momento, espero contribuir para
elevar, aprofundar e identificar
rebatimentos dessas resoluções que irão
influenciar no cotidiano a nossa atuação
na frente de gênero.
A proposta de reformulação estatutária
traz a seguinte idéia: "Artigo 52. O
comitê Central convoca periodicamente uma
Conferência sobre a Questão da Mulher,
para elaborar e programar políticas sob a
ótica de gênero, consoante com as
demandas da emancipação da mulher e sua
participação na luta transformadora, bem
como na vida partidária". No artigo
53, reafirma-se a importância de se
avançar na construção de uma ampla
"corrente de idéias"
emancipacionista dentro e fora das
fileiras partidárias.
Considero que estas alterações revelam
uma evolução estruturante no Partido
acerca do nosso olhar sobre a temática de
gênero e nos apresentam alguns desafios.
O primeiro deles diz respeito à
necessidade do Partido aparecer com
fisionomia própria no movimento feminista
e não apenas como União Brasileira de
Mulheres (UBM), entidade apartidária que
deve continuar a receber as comunistas que
lutam pela superação dos conflitos de
gênero e que defendem o feminismo
emancipacionista.
Mas a luta política na sociedade atual
exige que o PCdoB (partido renovado com
feições modernas), enquanto partido
revolucionário, se dirija às mulheres,
maioria da população brasileira,
apresentando as suas propostas com uma
visão de totalidade, mas atento às
questões que tratam da especificidade do
segmento feminino.
A idéia de um Brasil soberano e um futuro
socialista precisa ser absorvida pelas
mulheres brasileiras e acredito não ser
possível a existência de uma sociedade
socialista, nem tão pouco um projeto
nacional de desenvolvimento que não
apresente uma plataforma emancipacionista
capaz de catalisar e apaixonar os
corações e mentes da" alma
feminina".
O segundo desafio é dialogar internamente
com as mulheres que são filiadas e
militantes do Partido e, principalmente,
com as mulheres que assumem tarefas de
direção partidária, para assumir a luta
feminista e seu ideário como necessidade
basilar da sua formação revolucionária.
Para isso, a idéia de um fórum
permanente de debate possivelmente vai nos
ajudar a alcançar esse desafio. É
importante registrar que, recentemente, a
Escola Nacional de Formação do Partido
incorporou ao seu currículo a questão de
gênero/classe/raça. O debate sobre a
transversalidade, combate à
discriminação e preconceito sob a ótica
de gênero precisa ser ampliado.
Assegurar a presença das mulheres nas
instâncias de poder e de comando dos
partidos e do país é o terceiro desafio.
Nesse sentido, garantir a eleição e a
participação feminina nas chapas para
eleições para o Legislativo e o
Executivo é também uma tarefa que
precisa ser incorporada pelo conjunto do
Partido.
O PCdoB, ao longo de sua história, tem
dado importantes exemplos de busca de
participação feminina nos espaços de
poder, mas ainda é preciso ampliar a
participação de mulheres comunistas no
Parlamento. Esse entendimento implica em
decidir, priorizar e criar as condições
objetivas para projetar um número
razoável de líderes femininas que possam
ser mobilizadas para assumir a tarefa de
representar o Partido no Parlamento.
O quarto desafio é o debate oportuno
sobre a composição da sociedade
brasileira, que se apresenta hoje com um
perfil mais feminino (52% da população
brasileira são mulheres). As mulheres
estão ocupando cada vez mais espaços no
mercado de trabalho (44 % da PEA) - embora
a maioria continue na informalidade -
chefiando famílias (40%) e sobrevivendo
de biscate. As mulheres negras são as
mais discriminadas e integram a maioria do
mercado informal. E as jovens são
excluídas do mercado formal.
O não reconhecimento do trabalho
doméstico como produtivo (lavar, passar,
cozinhar, cuidar das crianças e pessoas
idosas, atender aos enfermos e desempenhar
atividades que somam com a renda da
família), mantém as mulheres brasileiras
reféns de uma cultura patriarcal que não
prioriza a divisão das tarefas
domésticas, nem respeita as mulheres como
sujeito de direitos e protagonista de
nossa história. Isso implica que as
mulheres não são instadas a ocupar
espaços políticos, sendo pouco lembradas
como dirigentes políticas, independente
da vontade do partido.
Esses desafios não podem ser
secundarizados ou tratados como tarefas de
um segmento. Devem fazer parte da
preocupação de um partido de massas que
busca um novo projeto para o país que
leve em conta a identidade da nação
brasileira.
O debate sobre a presença das mulheres
nas direções partidárias é um tema
presente e atual. O PCdoB na composição
da direção se orienta pelo critério
político e ideológico, porém deve
dialogar com outros critérios como o de
gênero.
Para realizar a revolução e a
transformação da sociedade, não se pode
prescindir da participação da mulher,
dizia Lênin no século anterior. Essa
afirmação é atual e articulada; a
análise da realidade exige medidas e
iniciativas que contribuam para um novo
desenho político e cultural da nossa
sociedade.
Por isso proponho que se assegure
estatutariamente a presença de, no
mínimo, 30% de mulheres na composição
das direções: nacional, estadual e
municipal.
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Adélia
Andrade, integrante da Comissão
Política do Comitê Municipal de
Salvador, BA
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