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30/9/2005
Abilio Wayand: A temática racial - Parte I

 

 
 

26 de SETEMBRO de 2005

Abilio Wayand
Zelar pela nossa escrita

 

É com satisfação que participo do processo de construção do 11º Congresso do Partido Comunista do Brasil. Satisfação maior em perceber claramente que o Partido sofisticou o seu arcabouço analítico, realizando uma interpretação mais fecunda da realidade sócio-histórica brasileira e do modo de produção capitalista contemporâneo.

Esse esforço de aprofundar a compreensão da realidade social objetiva deve ser constante, tanto dos órgãos de direção quanto dos militantes de base. É uma necessidade revolucionária inserida cotidianamente no processo da luta de classes. Por ser um processo, significa que está dialeticamente em constante transformação. Daí a necessidade imperiosa do esforço teórico para que a nossa intervenção no real não caia numa conduta petrificante, estagnante e deslocada da objetividade, restringindo drasticamente a nossa capacidade de intervenção nos movimentos sociais.

Assim, penso em contribuir com o debate nesta tribuna levantando alguns questionamentos e fazendo alguns apontamentos.

Primeiramente, quero chamar a atenção para o uso de certa palavra, muito em voga em nossos textos. Em vários documentos partidários, nessa resolução e em vários artigos de camaradas surge constantemente o adjetivo correto para qualificar uma análise realizada. Tal adjetivação significa em nossa linguagem escrita e corrente, conforme indica-nos o dicionário Houaiss da língua portuguesa, "isento de falha, erro ou defeito", isto é, "perfeito". Pode ser que não seja a intenção, mas passa a idéia em quem lê, principalmente em quem não é do Partido, porém é próximo, de uma certa arrogância, uma certeza absoluta, inequívoca na interpretação concretizada. Ora, tal postura já trouxe imensos prejuízos ao movimento revolucionário mundial. Muitas "certezas" de outrora já demonstraram ser simples dogmatismos mecanicistas. Não estou afirmando com isso que os documentos do 11º Congresso estão eivados de dogmatismo. Muito ao contrário, como já mencionei no início deste texto. Porém, passa muitas vezes tal idéia porque a análise feita é correta. O marxismo deve ser avesso a certezas absolutas. Isso não significa que muitas formulações teóricas nesse campo perderam a sua validade elaborativa porque o tempo passou em demasia. O objeto do nosso âmbito de investigação, isto é, o capital, guarda vínculos fundamentais com a caracterização fecunda feita pelo velho Marx, mesmo tendo se modificado rápido e drasticamente ao longo do século XX. Não obstante, o marxismo é uma concepção interpretativa que põe constantemente à prova da realidade as suas próprias formulações. De qualquer forma a realidade é muito mais ampla, complexa e dinâmica que quaisquer construções teóricas, por mais fecundas e impregnadas pelo próprio movimento do real.

Assim, sugiro que tomemos mais cuidado em nossas construções textuais, indicando que as pomos ao confronto com outras análises. Nossas elaborações teóricas não podem passar a idéia de uma análise fechada, acabada e nossa interpretação da contemporaneidade não pode aparentar uma leitura talmúdica dos clássicos. Sem absolutizar o uso e sem defender a execração do adjetivo supracitado, penso que isso nos facilitará atrair a atenção da intelectualidade progressista e marxista que está fora do Partido. Poderá orientar melhor a militância no embate cotidiano, até para denunciar o dogmatismo de certas correntes de esquerda que perambulam por aí fazendo de suas ações políticas dogmas de fé parecidos com as Cruzadas.

Alterando a temática, considero que o artigo 22 deva ser desdobrado, analisando em maior profundidade as características do capitalismo contemporâneo. Afirmações como "Ampliaram-se as trocas internacionais, sobretudo nos marcos do comércio intrafirmas, que atingiu cerca de 40% do comércio global" necessitam de um melhor tratamento visto se tratar do consumo e da realização do capital. Pela ótica da teoria marxiana, o salário é a forma de recompor ao mínimo necessário a mercadoria força de trabalho, ou seja os custos da mesma. Parece-me, assim, que se pode inferir que o principal consumo impulsionador do processo de reprodução e acumulação do capital é o feito entre a própria burguesia. Ou seja, será que o capital necessita cada vez menos do consumo dos assalariados para ser acumulado e por isso elimina, sem problemas para a sua expansão, um grande contingente mundial de homens e mulheres do mercado de trabalho? São temas que, do meu ponto de vista, requerem maior estudo e caracterização.


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Abilio Wayand, membro da direção municipal do PCdoB em Petrópolis e da organização de base do Quarteirão Brasileiro-Retiro

 

 

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