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| Cidadãos
de Nova Orleans, no Superdome |
O furacão Katrina, uma das piores
tempestades que atingiram o sul dos Estados
Unidos em 100 anos, revelou a ineficiência
e a incompetência do sistema econômico
do país, principalmente da administração
Bush, de prevenir e enfrentar situações
catastróficas criadas pela natureza.
Quatro dias se passaram desde que os
serviços meteorológicos
advertiram o país da formação
de um devastador furacão no oceano
Atlântico, que atingiria os estados
do Alabama, Louisiana e Mississipi. A
meteorologia alertou o país que
uma catástrofe era iminente ao
revelar que os ventos gerados pelo furacão
passavam, então, de 200km/h. Enquanto
isso, o presidente George W. Bush descansava
em seu sítio em Crawford, no Texas,
às voltas com uma manifestação
antibélica que tomava a atenção
da mídia americana.
Os governos estaduais e municipais fizeram
tímidas recomendações
aos cidadãos para que procurassem
abrigo ou deixassem as cidades que estavam
no rumo do furacão. Embora enfraquecida
ao chegar, a tempestade devastou as cidades
e a economia da região. Milhares
de pessoas, as mais ricas, puderam se
retirar em seus automóveis e se
proteger da tragédia. Lamentavam
perder suas casas, cobertas por seguros
caríssimos, que enriquecem as empresas
seguradoras de todo o sul dos EUA. Gigantescos
congestionamentos se formaram nas grandes
estradas na última segunda-feira,
quando cerca de 500 mil pessoas deixaram
a região de Nova Orleans. Os outros
250 mil moradores da cidade, pobres em
sua maioria, permaneceram em suas casas.
Negligência
Nova Orleans fica abaixo do nível
do mar e é protegida por diques,
à semelhança da Holanda,
das águas do lago Pointchartrain
e do rio Mississipi. O furacão
devastou vários diques e as águas
do lago e do rio tomaram a cidade. Milhares
de pessoas tiveram de deixar suas casas
e buscar refúgio sob pontes, viadutos
e mesmo ao ar livre, onde permanecem há
4 dias, sem comida, sem remédios
e sem esperança de resgate. A eletricidade
e o serviço telefônico foram
interrompidos. Enquanto
Somente após a passagem do Katrina
é que a Guarda Nacional foi chamada
a agir. Essa corporação,
formada por civis que recebem treinamento
militar, foi criada para manter a ordem
em situações graves, como
rebeliões e mesmo desastres naturais.
Deveria servir também como Defesa
Civil. Mas a administração
Bush lançou mão de parte
dos efetivos da Guarda Nacional para lançá-la
em ações de combate no Iraque.
Cerca de um terço dos efetivos
humanos das Guardas dos estados atingidos
pelo furacão estão no Iraque.
Mais da metade do equipamento, entre veículos,
aeronaves e máquinas — como
geradores de eletricidade — estão
deslocados no país árabe.
A maior ação civil que a
Guarda Nacional efetuou nos últimos
anos foi a repressão à rebelião
de Los Angeles, em abril de 1992, quando
um veredicto absolveu policiais brancos
que haviam espancado o Rodney King, taxista
negro, fazendo que milhares de pessoas
fossem às ruas protestar violentamente
contra a decisão.
A política neoliberal de Bush
também contribuiu para piorar ainda
mais o drama humano. A administração
atual desviou verbas destinadas à
agência que é responsável
por prevenção e controle
de desastres naturais, a Agência
Federal de Gerenciamento de Emergências.
As verbas foram destinadas à guerra
de conquista no Iraque e a agência
lamentou, publicamente, não ter
recursos suficientes para coordenar o
serviço de prevenção
do desastre natural que arrasou o sul
dos Estados Unidos.
Barbárie
Diante da aboluta falta de assistência
pelo Estado, a violência irrompeu
entre as pessoas abandonados no caos.
Sem comida, sem remédios e sem
a repressão policial, bandos de
saqueadores tomaram conta das ruas. Os
supermercados foram as primeiras vítimas,
junto com mercearias. A grande mídia
fez questão de exibir imagens de
negros roubando caixas de cervejas, tentando
incutir nas pessoas que os saques eram
feitos por bandidos comuns. A repressão
aos saques conduziu a ações
violentas e os policiais, que deveriam
estar ajudando a população
a se abrigar ou deixar a região,
se trancaram nas suas próprias
delegacias com medo da barbárie.
Enquanto milhares de pessoas se protegem
sob pontes e viadutos, outros se aventuram
por ruas inundadas e cheias de destroços,
caminhando na direção do
estádio de futebol americano Superdome,
onde esperam conseguir lugar em um ônibus
que os leve até uma região
segura. Essas pessoas tropeçam
em cadáveres que apodrecem intocados
há cinco dias. As autoridades dizem
que pode haver milhares de mortos.
O Superdome, que abrigou mais de 20 mil
pessoas, foi palco de cenas dantescas.
Sem banheiros funcionando, pois a água
acabou e o sistema de esgoto entupiu,
as pessoas usavam salas comuns para urinar
e defecar. Ontem uma criança dormia
calmamente em meio à uma poça
de urina, enquanto as pessoas deixavam
o estádio. Há marcas de
sangue nas paredes. Centenas de pessoas
denunciaram que, ao cair da noite, aconteciam
estupros, inclusive de crianças.
Os que reagiram foram mortos a tiros.
Protejam as propriedades!
A governadora Kathleen Blanco do estado
da Louisiana, que antes se disse "simplesmente
furiosa com a anarquia" em Nova Orleans,
afirmou que os soldados terão autorização
de disparar para matar. "Essas tropas
já foram testadas em batalhas.
Elas têm fuzis M-16 e estão
engatilhados", disse Blanco. "Estas
tropas sabem como atirar e matar, e espero
que o façam." A ordem veio
após o início dos saque
e danos às propriedades. A revolta
entre as autoridades locais irrompeu quando
elas souberam que as propriedades estavam
sendo violadas. A coisa mais sagrada do
capitalismo, a propriedade, é mais
importante que a vida de 200 mil pessoas.
Após cinco dias de horror, milhares
de desabrigados foram retirados do Superdome.
Aliviadas por deixar o local, palco de
violência armada e de estupros,
as pessoas formavam grandes filas sob
um forte calor, para conseguir um lugar
num dos poucos helicópteros ou
ônibus que deveriam levá-las
a um abrigo numa cidade vizinha. Muitos
demonstravam horror ante um corpo flutuando
na praça ainda inundada, perto
da arena.
A vista da cidade, a partir do estádio,
parece mais com uma zona de guerra, com
nuvens de cinza e de fumaça que
se elevam de incêndios ainda não
controlados. "É uma loucura",
declarou Dewayne Tate, 29 anos, lembrando-se
da violência e das mortes no interior
do Superdome. "As maiores vítimas
são crianças" acrescentou.
Após 14 horas de espera, uma mulher
soluçava, após a suspensão
temporária do processo de retirada.
Helicópteros equipados com holofotes
sobrevoam a cidade durante a noite, enquanto
unidades da Guarda Nacional se posicionam
em locais estratégicos. Várias
equipes de policiais especializados em
situações de emergência
foram vistas em veículos blindados
e cerca de 300 soldados recém-chegados
do Iraque foram deslocados para Nova Orleans
com autorização para atirar
nos saqueadores e provocadores.
Falta de ajuda
O prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin,
perdeu a paciência em uma entrevista
de rádio e se disse irritado com
a falta de ajuda para a cidade histórica.
"Preciso de reforços. Preciso
de tropas, cara. Preciso de 500 ônibus.
Agora mexam a bunda e consertem isso.
Vamos fazer alguma coisa e resolver a
maior maldita crise na história
deste país", disse.
"Autorizamos 8 bilhões de
dólares para irmos ao Iraque, num
piscar de olhos. Depois do 11 de Setembro,
demos ao presidente poderes excepcionais,
num piscar de olhos, para ajudar Nova
York e outros lugares. Você quer
me dizer que, num lugar do qual vem a
maior parte do nosso petróleo,
não podemos descobrir uma forma
de autorizar os recursos dos quais precisamos?"
Racismo
O reverendo Jesse Jackson criticou o
presidente Bush, afirmando que os negros
foram esquecidos pelos trabalhos de resgate
após a passagem do furacão.
"Cerca de 120 mil pessoas ganham
menos de 8 mil dólares por ano
em Nova Orleans. São pessoas pobres,
negras", disse Jackson, explicando
que muitas delas não tinham condições
financeiras para deixar suas casas antes
do furacão e ficaram presas após
a passagem do Katrina.
Jackson criticou Bush por fazer hoje
uma visita "cerimonial" às
áreas devastadas. Também
censurou o papel concedido por Bush a
seu pai — o ex-presidente George
Bush — e a Bill Clinton como coordenadores
dos esforços de arrecadação
de doações para as vítimas
do Katrina.
"Por que não há nesse
círculo nenhum negro? (...) Como
podem os negros serem excluídos
da liderança e presos no sofrimento?",
questionou Jackson, indignado.
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