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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

3 de setembro de 2005

TRAGÉDIA NOS ESTADOS UNIDOS

Furacão Katrina: Capitalismo e barbárie


 
Cidadãos de Nova Orleans, no Superdome
O furacão Katrina, uma das piores tempestades que atingiram o sul dos Estados Unidos em 100 anos, revelou a ineficiência e a incompetência do sistema econômico do país, principalmente da administração Bush, de prevenir e enfrentar situações catastróficas criadas pela natureza.

Quatro dias se passaram desde que os serviços meteorológicos advertiram o país da formação de um devastador furacão no oceano Atlântico, que atingiria os estados do Alabama, Louisiana e Mississipi. A meteorologia alertou o país que uma catástrofe era iminente ao revelar que os ventos gerados pelo furacão passavam, então, de 200km/h. Enquanto isso, o presidente George W. Bush descansava em seu sítio em Crawford, no Texas, às voltas com uma manifestação antibélica que tomava a atenção da mídia americana.

Os governos estaduais e municipais fizeram tímidas recomendações aos cidadãos para que procurassem abrigo ou deixassem as cidades que estavam no rumo do furacão. Embora enfraquecida ao chegar, a tempestade devastou as cidades e a economia da região. Milhares de pessoas, as mais ricas, puderam se retirar em seus automóveis e se proteger da tragédia. Lamentavam perder suas casas, cobertas por seguros caríssimos, que enriquecem as empresas seguradoras de todo o sul dos EUA. Gigantescos congestionamentos se formaram nas grandes estradas na última segunda-feira, quando cerca de 500 mil pessoas deixaram a região de Nova Orleans. Os outros 250 mil moradores da cidade, pobres em sua maioria, permaneceram em suas casas.

Negligência

Nova Orleans fica abaixo do nível do mar e é protegida por diques, à semelhança da Holanda, das águas do lago Pointchartrain e do rio Mississipi. O furacão devastou vários diques e as águas do lago e do rio tomaram a cidade. Milhares de pessoas tiveram de deixar suas casas e buscar refúgio sob pontes, viadutos e mesmo ao ar livre, onde permanecem há 4 dias, sem comida, sem remédios e sem esperança de resgate. A eletricidade e o serviço telefônico foram interrompidos. Enquanto

Somente após a passagem do Katrina é que a Guarda Nacional foi chamada a agir. Essa corporação, formada por civis que recebem treinamento militar, foi criada para manter a ordem em situações graves, como rebeliões e mesmo desastres naturais. Deveria servir também como Defesa Civil. Mas a administração Bush lançou mão de parte dos efetivos da Guarda Nacional para lançá-la em ações de combate no Iraque. Cerca de um terço dos efetivos humanos das Guardas dos estados atingidos pelo furacão estão no Iraque. Mais da metade do equipamento, entre veículos, aeronaves e máquinas — como geradores de eletricidade — estão deslocados no país árabe. A maior ação civil que a Guarda Nacional efetuou nos últimos anos foi a repressão à rebelião de Los Angeles, em abril de 1992, quando um veredicto absolveu policiais brancos que haviam espancado o Rodney King, taxista negro, fazendo que milhares de pessoas fossem às ruas protestar violentamente contra a decisão.

A política neoliberal de Bush também contribuiu para piorar ainda mais o drama humano. A administração atual desviou verbas destinadas à agência que é responsável por prevenção e controle de desastres naturais, a Agência Federal de Gerenciamento de Emergências. As verbas foram destinadas à guerra de conquista no Iraque e a agência lamentou, publicamente, não ter recursos suficientes para coordenar o serviço de prevenção do desastre natural que arrasou o sul dos Estados Unidos.

Barbárie

Diante da aboluta falta de assistência pelo Estado, a violência irrompeu entre as pessoas abandonados no caos. Sem comida, sem remédios e sem a repressão policial, bandos de saqueadores tomaram conta das ruas. Os supermercados foram as primeiras vítimas, junto com mercearias. A grande mídia fez questão de exibir imagens de negros roubando caixas de cervejas, tentando incutir nas pessoas que os saques eram feitos por bandidos comuns. A repressão aos saques conduziu a ações violentas e os policiais, que deveriam estar ajudando a população a se abrigar ou deixar a região, se trancaram nas suas próprias delegacias com medo da barbárie.

Enquanto milhares de pessoas se protegem sob pontes e viadutos, outros se aventuram por ruas inundadas e cheias de destroços, caminhando na direção do estádio de futebol americano Superdome, onde esperam conseguir lugar em um ônibus que os leve até uma região segura. Essas pessoas tropeçam em cadáveres que apodrecem intocados há cinco dias. As autoridades dizem que pode haver milhares de mortos.

O Superdome, que abrigou mais de 20 mil pessoas, foi palco de cenas dantescas. Sem banheiros funcionando, pois a água acabou e o sistema de esgoto entupiu, as pessoas usavam salas comuns para urinar e defecar. Ontem uma criança dormia calmamente em meio à uma poça de urina, enquanto as pessoas deixavam o estádio. Há marcas de sangue nas paredes. Centenas de pessoas denunciaram que, ao cair da noite, aconteciam estupros, inclusive de crianças. Os que reagiram foram mortos a tiros.

Protejam as propriedades!

A governadora Kathleen Blanco do estado da Louisiana, que antes se disse "simplesmente furiosa com a anarquia" em Nova Orleans, afirmou que os soldados terão autorização de disparar para matar. "Essas tropas já foram testadas em batalhas. Elas têm fuzis M-16 e estão engatilhados", disse Blanco. "Estas tropas sabem como atirar e matar, e espero que o façam." A ordem veio após o início dos saque e danos às propriedades. A revolta entre as autoridades locais irrompeu quando elas souberam que as propriedades estavam sendo violadas. A coisa mais sagrada do capitalismo, a propriedade, é mais importante que a vida de 200 mil pessoas.

Após cinco dias de horror, milhares de desabrigados foram retirados do Superdome. Aliviadas por deixar o local, palco de violência armada e de estupros, as pessoas formavam grandes filas sob um forte calor, para conseguir um lugar num dos poucos helicópteros ou ônibus que deveriam levá-las a um abrigo numa cidade vizinha. Muitos demonstravam horror ante um corpo flutuando na praça ainda inundada, perto da arena.

A vista da cidade, a partir do estádio, parece mais com uma zona de guerra, com nuvens de cinza e de fumaça que se elevam de incêndios ainda não controlados. "É uma loucura", declarou Dewayne Tate, 29 anos, lembrando-se da violência e das mortes no interior do Superdome. "As maiores vítimas são crianças" acrescentou. Após 14 horas de espera, uma mulher soluçava, após a suspensão temporária do processo de retirada.

Helicópteros equipados com holofotes sobrevoam a cidade durante a noite, enquanto unidades da Guarda Nacional se posicionam em locais estratégicos. Várias equipes de policiais especializados em situações de emergência foram vistas em veículos blindados e cerca de 300 soldados recém-chegados do Iraque foram deslocados para Nova Orleans com autorização para atirar nos saqueadores e provocadores.

Falta de ajuda

O prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, perdeu a paciência em uma entrevista de rádio e se disse irritado com a falta de ajuda para a cidade histórica.

"Preciso de reforços. Preciso de tropas, cara. Preciso de 500 ônibus. Agora mexam a bunda e consertem isso. Vamos fazer alguma coisa e resolver a maior maldita crise na história deste país", disse.

"Autorizamos 8 bilhões de dólares para irmos ao Iraque, num piscar de olhos. Depois do 11 de Setembro, demos ao presidente poderes excepcionais, num piscar de olhos, para ajudar Nova York e outros lugares. Você quer me dizer que, num lugar do qual vem a maior parte do nosso petróleo, não podemos descobrir uma forma de autorizar os recursos dos quais precisamos?"

Racismo

O reverendo Jesse Jackson criticou o presidente Bush, afirmando que os negros foram esquecidos pelos trabalhos de resgate após a passagem do furacão.

"Cerca de 120 mil pessoas ganham menos de 8 mil dólares por ano em Nova Orleans. São pessoas pobres, negras", disse Jackson, explicando que muitas delas não tinham condições financeiras para deixar suas casas antes do furacão e ficaram presas após a passagem do Katrina.

Jackson criticou Bush por fazer hoje uma visita "cerimonial" às áreas devastadas. Também censurou o papel concedido por Bush a seu pai — o ex-presidente George Bush — e a Bill Clinton como coordenadores dos esforços de arrecadação de doações para as vítimas do Katrina.

"Por que não há nesse círculo nenhum negro? (...) Como podem os negros serem excluídos da liderança e presos no sofrimento?", questionou Jackson, indignado.



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