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Foto Lindomar Cruz / Ag. Brasil

A manifestação percorreu parte Esplanada dos Ministérios e
concentrou-se depois em frente ao Congresso Nacional. |
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Convocada
pelo PSTU com apoio do PSOL, PDT, PPS e de
algumas entidades sindicais dirigidas por
militantes destes partidos, a manifestação
que percorreu trechos da capital federal
na tarde de ontem (17) foi marcada pela
ausência de unidade entre seus
participantes e pela falta de clareza dos
propósitos que levaram à convocação da
manifestação.
Nem mesmo
o nome da manifestação foi consenso. O
PSTU a apelidou de
"Fora Todos".
O PSOL preferiu falar em "mobilização
social contra a corrupção, contra o plano
econômico de Lula/FMI e pelas
reivindicações do povo brasileiro". A
imprensa referiu-se ao protesto como sendo
uma "Marcha
contra a Corrupção e o Governo Lula".
Setores mais ao centro da chamada
"oposição de esquerda", como o PPS de Raul
Jungmann (ex-ministro de fHC), foram mais
evasivos e falaram em "manifestação contra
a corrupção no governo Lula".
Todos,
porém,
demonstraram
o mesmo medo de atrair para si a pecha de
golpistas e, desencorajados pelos aliados
mais fortes (PSDB e PFL), resolveram
não defender abertamente o impeachment
do presidente, embora a palavra de
ordem "Fora Lula" tenha dado a tônica do
protesto.
No dia
anterior, uma outra manifestação,
organizada pela Coordenação dos Movimentos
Sociais (CMS) também protestou contra a
corrupção mas, de forma mais coesa,
rejeitou a bandeira golpista do "Fora
Lula" e pautou suas reivindicações em
torno de um documento intitulado "Carta
ao Povo Brasileiro".
Esquerda e direita juntas
Exemplo
crasso da falta de identidade da
manifestação é o fato dela ter conseguido
colocar lado a lado e num clima de grande
camaradagem militantes da extrema direita
e da extrema esquerda. O Prona, partido de
contornos fascistas, que tinha até carro
de som na passeata, dividiu sem problemas
o espaço com militantes trotsquistas.
A política
de boa vizinhança com a direita
refletiu-se também nos discursos. Ao
contrário do que vinha afirmando em
artigos e pronunciamentos dias antes da
manifestação, os oradores do PSTU, PSOL,
PDT e PPS foram bastante condescendentes
com os partidos de direita, sobretudo PSDB
e PFL, verdadeiros protagonistas da tática
oposicionista de desestabilização do
governo.
O único que
se atreveu a ir um pouco mais longe na
crítica à direita foi o sindicalista Zé
Maria, do PSTU. Falando no encerramento,
para uma platéia desatenta e dispersa, Zé
Maria destacou a importância da construção
de um terceiro pólo diante da crise: “Não
aceitamos que os trabalhadores e a
juventude do país sejam confundidos com
esta oposição de mentirinha, formada pela
direita, o PSDB e o PFL (...). Não é deste
Congresso corrupto ou das eleições desta
democracia dos ricos que sairá uma
verdadeira alternativa para o país. É
preciso pôr todos pra fora, porque PT,
PSDB, PFL, o Congresso e o governo são
todos iguais”.
Enquanto Zé Maria discursava, os
manifestantes queimaram um boneco
representando o presidente, recheado de
notas falsas de R$ 100, com uma faixa
escrita "Lula Traidor".
PSTU e PSOL se desentendem
Apesar da
grande presença de militantes partidários,
havia uma significativa presença de punks,
anarquistas e jovens de atitude
radicalizada. Talvez isso explique porque
tão poucos parlamentares tenham se
aventurado a se juntar aos manifestantes.
Entre os que se dispuseram a aparecer
estava a senadora Heloisa Helena (PSOL).
A
ex-petista disse que "é nossa obrigação
dizer fora a todos os corruptos". Para
isso, segundo ela, é preciso "agilizar os
procedimentos investigatórios das CPIs".
A senadora
Heloísa Helena, no entanto, acredita que o
Congresso nacional não tem legitimidade
para cassar o mandato de Lula. Para ela,
depois de encerrados os trabalhos da CPI,
a melhor opção seria um plebiscito para
consultar a população se o presidente
deveria ou não ser afastado.
É neste
ponto que o PSTU mira sua artilharia
também contra a atual aliado PSOL.
Em
carta-manifesto distribuída aos
participantes do protesto, o PSTU afirma
que
"Os
companheiros do PSOL, muito importantes
para esta mobilização, defendem um abaixo
assinado para levar ao congresso a
proposta de um plebiscito para decidir se
Lula fica ou não. Ou seja, enquanto nós do
PSTU estamos propondo a mobilização direta
das massas, com atos de rua e apontando
para uma greve geral para derrubar o
governo e o Congresso, os companheiros do
P-SOL querem que o Congresso decida se
aceita ou não um plebiscito. Pior ainda,
no caso de que o Congresso aceite, e o
plebiscito seja vitorioso, a saída será
mais uma vez as eleições gerais. Ou seja,
depois de toda esta crise, as eleições
legitimariam a volta do PSDB-PFL ao
governo, ou mesmo do PT. É importante ter
claro que a burguesia pode estar de acordo
com esta saída no caso de agravamento da
crise, por lhe proporcionar a sua volta ao
poder, legitimada por uma eleição".
Neste mesmo
texto-manifesto, sobram
críticas também para o PDT e o PPS,
co-patrocinadores da manifestação. No
documento, o PSTU afirma que "Existem
companheiros com dúvidas sobre o PDT e o
PPS. Estes partidos formam neste momento
uma aliança que tem como objetivo aparecer
como uma “alternativa diferente do governo
e do PSDB”, como a expressão política da
terceira força. Mas são parte da oposição
burguesa, e apesar de estarem na oposição
ao governo Lula, não merecem nossa
confiança."
Guerra de números com "revisionismo" da PM
As
comparações entre as duas manifestações, a
de terça-feira e a de ontem, eram
inevitáveis e geraram uma guerra de
números.
A UNE
calcula que 30 mil pessoas estiveram
protestando em Brasília no dia 16. A CUT
avalia que o número foi maior: 40 mil
pessoas.
O mesmo
cálculo inflado fez o PSTU —ansioso para
demonstrar a qualquer custo que a passeata
"contra Lula" teria superado a do dia
anterior. O partido estampou em seu site
uma manchete dizendo que havia 30 mil
manifestantes na passeata de ontem. A
polícia militar do Distrito Federal, que
faz a contagem oficial, falou inicialmente
em 10 mil pessoas e depois mudou sua
avaliação para 12 mil. O tenente Petercley
Franco, assessor de Comunicação Social do
Centro Integrado de Atendimento e
Despachos de Emergência da Secretaria de
Segurança Pública do Distrito Federal, diz
que a contagem feita pela Polícia Militar
era de 12 mil pessoas no horário do “pico”
(maior concentração) – às 13 horas. Ele
explicou que a conta é baseada em três
pessoas por metro quadrado, considerando a
área delimitada de ocupação.
Já em
relação à manifestação da CMS, a PM
—controlada pelo governador oposicionista
Joaquim Roriz (PMDB)— fez um malabarismo
inédito: revisou os números da
manifestação para baixo. Na véspera havia
apresentado avaliações que variavam entre
10 a 15 mil pessoas. Ontem, "revisou" este
número para 6 mil. Nunca se teve notícia
de procedimento semelhante, o que levanta
um caminhão de dúvidas sobre a
imparcialidade do comando da PM e coloca
sub júdice todos os números apresentados
pelo tenente Petercley Franco.
A
jornalista Márcia Xavier, que trabalha no
Congresso Nacional, esteve nas duas
manifestações e estranhou a avaliação que
a PM de Roriz fez da marcha comandada pelo
PSTU. "A passeata de terça-feira (16)
pareceu bem maior que esta", disse Márcia.
O site do
jornal Correio Braziliense parecia
concordar com a avaliação da jornalista e,
na principal
matéria que fez da passeata de
ontem, estimou em 7 mil o número de
manifestantes. O resto da imprensa comprou
a versão da PM do Distrito Federal e saiu
alardeando a falsa constatação de que a
manifestação de ontem teria superado a de
terça-feira.
Sejam quais forem os números, o fato é que
ambos os protestos mostraram que a
sociedade está cautelosa e que não há
clima para a aventura golpista traçada
pela oposição.
Revolução e greve geral
Mas a direção do PSTU parece achar que há
clima sim, não apenas para o golpismo da
direita mas também para fazer revolução.
Aqui e agora.
Pelo menos
é isso que deixaram entender as várias
declarações feitas ontem pelas lideranças
do partido.
Segundo
Oraldo Paiva, da
direção
nacional
do PSTU, a
marcha
é
um "pontapé
inicial"
para
uma
greve
geral. "Temos essa
marcha
hoje, e
amanhã
temos uma
reunião
do Conlutas,
quando
vamos
propor
iniciar
um
processo
de
preparação de
uma
grande
greve
geral no
país,
para
que os
trabalhadores
imponham as mudanças
que sonharam
com
a
eleição de
Lula e
que
acabaram
não ocorrendo". A
Coordenação
Nacional
de
Lutas (Conlutas)
é um racha da CUT e tenta se firmar como
alternativa à esquerda para a central
sindical.
Paiva
reproduz com suas palavras o que diz a
carta-manifesto do PSTU, na qual o Partido
defende que
"Não podemos
atacar o governo e nos apoiar no Congresso
ou na saída eleitoral de sempre, com a
volta da oposição burguesa. É preciso
construir uma nova alternativa, a partir
da mobilização direta dos trabalhadores e
da juventude, apontando para uma greve
geral no país, rumo à construção de um
governo verdadeiramente dos trabalhadores,
que apoiado na mobilização (e não no
parlamento), derrote a burguesia e aplique
um plano econômico dos trabalhadores,
apontando para o socialismo".
Pouco
menos afoitos, os dirigentes do PSOL
contentam-se com o plebiscito revogatório
de mandatos e com a anulação das reformas
aprovadas no governo Lula.
"Queremos a anulação das reformas que
foram aprovadas sob a égide da crise,
especialmente a reforma tributária",
afirma o secretário da Executiva Nacional
do P-SOL, Martiniano Cavalcanti. Ele
destaca que o movimento é a favor de
reformas agrária e urbana.
Outras reformas criticadas pelos
manifestantes são a sindical e a
universitária. O integrante da diretoria
do Sindicato Nacional dos Docentes das
Instituições de Ensino Superior, conhecida
por Andes, Antônio Bosi, critica as
propostas da reforma universitária e diz
que ele é privatizante. "A reforma
universitária favorece a transformação do
ensino em mercadoria e reserva para as
universidades públicas um futuro onde a
produção de ciência e tecnologia vai estar
cada vez mais vinculada ao mercado".
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Integrantes do movimento GLS também participaram da manifestação de ontem |
Governo democrático
O ministro
das Relações Institucionais, Jaques
Wagner, articulador político do governo,
considerou normal a manifestação promovida
contra o governo Lula na Esplanada dos
Ministérios nesta quarta-feira. Segundo
ele, as manifestações fazem parte da
democracia, desde que sejam feitas dentro
das regras.
"A democracia é feita através da
representação no Congresso e das
manifestações das ruas. São movimentos
normais. Se forem feitos dentro do jogo
democrático, dentro das regras, não
preocupam. Todos têm o direito de se
manifestar", afirmou Wagner.
O
presidente da Câmara, Severino Cavalcanti,
também comentou a manifestação. Segundo
ele "Estamos num regime democrático e
temos que nos acostumar com manifestações.
Governo não é só para ter aplauso, tem que
ter também um pouquinho de vaias. Eu
também tenho recebido vaias. Vaias são
normais num regime democrático – mas acho
que o governo não merece vaias."
Da redação
Cláudio Gonzalez
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Artigo de Osvaldo Bertolino
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