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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

17 de JUlHO de 2005

A mala vista por dentro
PSDB, PFL e PP receberam dinheiro de Marcos Valério


Um pacote de documentos em poder do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, sobre operações bancárias dos últimos sete anos, mostra que muitos outros dirigentes políticos foram beneficiados por contribuições remetidas por sua agência de publicidade SMPB. Um desses depósitos, por exemplo, foi para o deputado mineiro Custódio de Mattos (PSDB), ex-líder do PSDB na Câmara, que foi agraciado com dois pagamentos - um de R$ 20 mil e outro de R$ 5 mil, que lhe chegaram pelo Banco Rural.

Um segundo recibo, no valor de R$ 100 mil, foi para a conta de um deputado do PP mineiro, Romel Anízio. Um terceiro teve como destinatário outro deputado do PP, Gil Pereira (MG), que ficou com R$ 25 mil. Nenhum desses dirigentes políticos declarou, em suas prestações de contas à Justiça Eleitoral, os valores recebidos de Valério. As informações estão em reportagem da revista Época que começo a circular ontem (17) nas bancas.

Segundo a revista, as transferências aconteceram durante 13 dias, entre 26 de setembro e 8 de outubro de 1998, exatamente na linha de chegada das eleições parlamentares daquele ano. Feitas as contas, as contribuições - todas partidas da agência SMPB - totalizaram R$ 10,6 milhões. Desse valor, o PT teria recebido R$ 850 mil, em quatro pagamentos. Quem ficou com a maior cota, no entanto, foi o PFL, que recebeu R$ 1,3 milhão dividido entre vários candidatos. Ao PSDB couberam, prossegue a denúncia, R$ 647 mil.

Jornal Nacional

A revelação sobre essas contribuições coincide com a declaração feita por Marcos Valério, em conversa com o procurador-geral da República, de que ele teria mais a dizer sobre os milhões de saíram de suas empresas e que havia muito mais gente envolvida além de petistas. O ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, confirmou, em entrevista ao Jornal Nacional de ontem (17), que fez vários empréstimos de boca com Marcos Valério no valor de quase R$ 40 milhões.

Delúbio colocou a culpa no sistema eleitoral que, segundo ele, obrigaria os partidos a manterem uma contabilidade irregular e ressaltou que fez tudo sozinho. Segundo Delúbio - que assumiu toda a responsabilidade pelo empréstimos -, nem o presidente Lula, nem o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, nem o ex-presidente do partido José Genoino sabiam dessas transações. Ele argumentou que o PT não trata de assuntos financeiros com o governo. "Partido é partido, governo é governo", afirmou Delúbio.

Compra de voto

"As campanhas eleitorais têm dinheiro que não é contabilizado. A direção anterior do PT sabia disso. A nova direção, sob o orientação de Tarso Genro, foi informada agora. O companheiro Genoino e a direção anterior sabiam que tinha de ser feita uma campanha eleitoral e designaram a mim esta questão", disse Delúbio na entrevista. Segundo o ex-tesoureiro do PT, o primeiro empréstimo foi feito em 2002 para cobrir dívidas dos diretórios regionais depois das eleições. Delúbio ressaltou que a campanha do presidente Lula à Presidência não fez parte do esquema. O dinheiro do segundo empréstimo seria usado na preparação do PT para as eleições de 2004.

Delúbio também voltou a negar a existência do esquema do "mensalão", denunciado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). "Não tem compra de voto. Não tem compra de deputado para votar a favor do governo. O PT não compra votos. Tem hora que o governo ganha, tem hora que o governo perde", afirmou. Delúbio tentou explicar como Marcos Valério aceitou fazer os empréstimos sem nenhuma garantia real. "Ele queria ser o publicitário do PT, ele tentou pegar as campanhas eleitorais. Era um desejo de ampliar suas agências de publicidade para o marketing eleitoral", afirmou.

Tarso Genro

Segundo o ex-tesoureiro, o fato de ele concordar em falar sobre o assunto um dia depois da entrevista de Marcos Valério foi apenas uma coincidência. Delúbio justifica o caixa dois para financiar as campanhas eleitorais do PT e de partidos aliados em 2004 e para quitar dívidas que os petistas contraíram nas campanhas de 2002. "A campanha eleitoral tem recursos não contabilizados. Estou assumindo esta questão", disse. Segundo ele, os empréstimos feitos por Valério para o PT beiram os R$ 39 milhões.

Em nota o presidente do PT, Tarso Genro, disse que o partido tomou conhecimento do depoimento do ex-tesoureiro somente por intermédio dos meios de comunicação. "Para que manifestemos um juízo sólido sobre o assunto, precisamos lê-lo e examiná-lo em conjunto com a Comissão Executiva Nacional do PT, que se reúne na próxima terça-feira (19)", diz a nota. Tarso Genro disse ainda que o partido irá colaborar para que todas as questões que envolvem denúncias sejam rigorosamente apuradas, "não somente para avaliação de responsabilidades, mas também para o aprimoramento das instituições políticas, da legislação eleitoral e do processo democrático em nosso país".

Com agências

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