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Projeto de Resolução Política
ao
11º Congresso do Partido Comunista do
Brasil (PCdoB)
O curso dos acontecimentos no Brasil
contemporâneo é expressão de
contradições estruturais situadas numa
época histórica determinada. O Brasil
está inserido no atual período
histórico capitalista, de vasta ofensiva
imperialista, dominado pelo capital
financeiro transnacionalizado, conduzido
pela lógica neoliberal que impõe ao
mundo liberdade total para os movimentos
de capitais. Em conseqüência disso, as
transformações atuais ocorridas no
sistema aguçam e aprofundam as
contradições nos diversos planos em
nosso país.
No bojo da resistência que se eleva
diante da crescente barbárie capitalista
renovar e reconstruir a alternativa
socialista é o tema central da
reafirmação da perspectiva
revolucionária diante da singularidade do
período histórico atual. Isto consiste
em alcançar o domínio multilateral da
presente realidade histórica, em ter
nitidez do patamar em que se encontra o
movimento revolucionário levando em
consideração o nível desigual da
correlação de forças entre as
tendências conservadoras dominantes e as
tendências contrárias, transformadoras.
Em conseqüência disso, o desafio central
está na ação convergente de condições
para o êxito da alternativa de rumo ao
padrão dominante capitalista neoliberal.
Diante da desigualdade do embate, é
imperativo um ingente esforço criador de
acumulação estratégica de forças do
lado revolucionário. Esta acumulação
consiste em atualizar a teoria
revolucionária, conformando um novo
projeto político, nas condições
peculiares do Brasil, no atual caminhar da
experiência do governo Lula; em
fortalecer o Partido Comunista do Brasil e
demais tendências revolucionárias e
progressistas ampliando sua influência e
prestígio na maioria da sociedade,
sobretudo entre os trabalhadores, a fim de
que se possam aglutinar as tendências
progressistas e renovadoras e neutralizar
forças dominantes importantes; desse
modo, pode-se alcançar a liderança de
ampla aliança política democrática,
patriótica e popular no rumo da
transição ao socialismo.
Quadro internacional
1- A evolução do quadro mundial no
período transcorrido desde o 10º
Congresso do Partido Comunista do Brasil
(2001) revela a predominância de um
duradouro ciclo conservador e
contra-revolucionário e o aumento dos
sinais de resistência dos povos, como
principal característica da presente
época histórica. O início do século 21
é marcado pela mais abrangente e
avassaladora ofensiva do imperialismo - em
especial o norte-americano -, contra os
povos do mundo e as nações soberanas, a
fim de manter a hegemonia unipolar dos
EUA. Isto se choca com os interesses dos
povos e países de todos os quadrantes do
planeta e dá base a uma movimentação
crescente em sentido contrário para a
criação de diversos pólos opostos a
essa hegemonia: a resistência à
ocupação militar; as lutas dos
trabalhadores por seus direitos; o combate
dos povos por sua emancipação nacional e
social; a afirmação de correntes
patrióticas nos países dependentes em
defesa da soberania nacional; e a
formação de blocos de países em
contenda por um novo ordenamento político
e econômico mundial. Estas são algumas
facetas e formas pelas quais se manifesta
a luta antiimperialista na presente
época.
2- No terreno da economia os retrocessos
dessa época se manifestam no
aprofundamento das assimetrias entre os
países ricos e os dependentes, de
desenvolvimento mediano, ou pobres e
subdesenvolvidos. A idéia-força do
desenvolvimento independente -, que não
deve ser confundido com desenvolvimento
autárquico -, é substituída pela
imposição de um padrão de acumulação
capitalista, chamado sofisticamente de
globalização, baseado na desenfreada
espoliação de povos e nações, na
superexploração das massas
trabalhadoras, no corte de direitos
sociais, na devastação ambiental que
acarreta o risco de desastres ecológicos
no planeta.
3- No plano político, a característica
do nosso tempo é a ofensiva contra a
soberania e a independência dos Estados
nacionais. Em grande medida, a estratégia
do imperialismo visa a impedir o
fortalecimento das nações que buscam um
caminho próprio de desenvolvimento. A
agressão militar e a intimidação se
consagram como os métodos preferenciais
do imperialismo. A militarização e a
guerra se colocam no centro da estratégia
de dominação, tornando letra morta o
direito internacional, fragilizando a ONU
e inviabilizando a solução dos conflitos
pela via diplomática. Malgrado o uso
demagógico e instrumental da
"democracia" como pretexto para
impor a vontade imperialista, as
liberdades políticas são aviltadas pela
hipertrofia do estado policial, pelas leis
chamadas de antiterroristas e pela
crescente marginalização dos
trabalhadores e das correntes políticas
que os representam na vida institucional.
4- No plano ideológico e cultural, o
mundo vive uma espécie de cruzada
conservadora e obscurantista, em que os
valores humanistas e progressistas são
substituídos por toda sorte de
manifestações de irracionalismo,
individualismo, pragmatismo e
cosmopolitismo sob o verniz das ideologias
auto-intituladas de pós-modernas e
multiculturalistas.
5- O início do milênio coincide com um
acentuado declínio nas condições de
vida dos povos. Os anunciados
"Objetivos do Desenvolvimento do
Milênio" - lançados pela
Assembléia Geral das Nações Unidas em
2000 a fim de combater a pobreza no mundo
-, ficaram longe de ser atingidos. Em 46
países, as pessoas são mais pobres hoje
do que há uma década e em 25 nações
existem mais famintos. No entanto, segundo
o PNUD, com apenas 50 bilhões de dólares
ao ano até 2015 - fração inexpressiva
diante dos fluxos de capitais que circulam
diariamente no mundo - seria possível
reduzir a pobreza pela metade.
1 - A ofensiva imperialista
6- Desde os atentados de setembro de 2001
- que os comunistas e demais forças
progressistas em todo o mundo condenaram -
o imperialismo norte-americano encontrou
um falso pretexto para dar início ao que
se pode qualificar como a maior e mais
brutal ofensiva pela imposição do seu
domínio sobre os povos e nações. Uma
década e meia após o desaparecimento da
União Soviética, um verdadeiro tsunami
geopolítico, e, portanto, do início do
exercício unilateral do hegemonismo
norte-americano, os Estados Unidos exibem
um poder praticamente ilimitado, com
superioridade militar e tecnológica
praticamente inquestionável. Encontra-se
no poder a fração mais reacionária da
burguesia estadunidense. O grupo que ocupa
a Casa Branca planeja e executa a
expansão de sua visão de mundo por todo
o globo terrestre. A partir do fim da
Guerra Fria, com o esfacelamento da União
Soviética, em 1991, os Estados Unidos, na
condição de única superpotência do
mundo, reforçaram sua política
hegemonista frente aos povos, acentuando o
unilateralismo. Fizeram a guerra de
Kosovo, denunciaram o Acordo de Mísseis
Antibalísticos, negaram apoio ao
protocolo de Kioto. Mais recentemente,
deflagraram as guerras de agressão contra
o Afeganistão e o Iraque. E passaram a
trabalhar com duas estratégias: a que
considerava que o risco principal que lhes
ameaçava viria do que então chamaram de
"países-pária", nomeadamente
Iraque, Líbia, Sudão, Irã, Coréia do
Norte e Cuba; e a que vislumbrava o
surgimento de uma força militar
expressiva capaz de desafiá-los, e que
seria a China, eventualmente a Rússia
revitalizada. Essas duas visões
estratégicas não eram excludentes e com
elas o imperialismo norte-americano
desdenhava as Nações e afrontava o
mundo.
7- A plataforma política e ideológica da
atual ofensiva estadunidense foi
consubstanciada no documento
"Estratégia de Segurança Nacional
dos Estados Unidos da América",
divulgado em setembro de 2002. A partir de
então, institucionalizou-se o que passou
a ser conhecido como "Doutrina
Bush", que preconiza e põe em
prática a constituição de uma
"novíssima" ordem mundial sob o
tacão da força, da ameaça, da agressão
e intimidação contra povos e nações -
que aprofunda e atualiza a "nova
ordem mundial" lançada no começo
dos anos 90 do século 20 por Bush pai,
logo após os episódios que passaram à
história como a "queda do muro de
Berlim" e no auge da primeira guerra
de agressão ao Iraque.
a) guerra "infinita" e guerra
"preventiva"
8- A "Estratégia de Segurança
Nacional dos Estados Unidos da
América" consagrou a idéia de
"guerra global e infinita", isto
é, em todas as partes e com prazo
indeterminado, supostamente para combater
o "terrorismo", através de uma
"ação direta e continuada, usando
todos os elementos do poder nacional e
internacional". Para sua
consecução, os EUA passaram a se
permitir "recriminar nações"
tidas, segundo os seus critérios, como
comprometidas com o terrorismo.
Igualmente, criaram a nefasta teoria da
"guerra preventiva",
reservando-se a prerrogativa de
lançar-mão de todo tipo de armas,
criando assim um clima de insegurança e
medo em todo o mundo. E mais, desafiaram
todos os países a se alinharem
automaticamente aos seus desígnios
agressivos ou a ficarem no alvo dessas
mesmas agressões. "As nações
livres" - disse o tirano dos povos -
"ou estão conosco ou estão contra
nós".
9 - Assim, os Estados Unidos arrogaram a
si o direito de definir como inimigos os
"estados-pária", proclamando a
existência de um "eixo do mal"
no mundo - integrado inicialmente por
Iraque, Irã, Síria, Coréia do Norte e
Cuba -, aos quais, ao iniciar seu segundo
mandato, o governo liderado por Bush
agregou, através de um pronunciamento de
sua secretária de Estado, Condoleezza
Rice, outros "redutos da
tirania", alargando a lista,
adicionando o Zimbábue, a Bielorrussia, o
Myanmar e assacando graves acusações
contra a Venezuela, tendo em vista criar
artificialmente um clima propício a
incriminar este país sul-americano. A
cada novo episódio conflituoso no quadro
internacional, os Estados Unidos aumentam
a seu talante o index dos países-alvo. Na
realidade, todos os países do mundo que
ousarem ter uma atitude de independência
e de soberania plena e que não seguirem o
modelo norte-americano de
"democracia" são alvos
potenciais das ameaças, inclusive
militares de Washington, com o risco de
que lhes ocorra o mesmo que ao
Afeganistão e ao Iraque.
10- No auge da preparação da guerra
contra o Iraque, o presidente
estadunidense fez a exortação à
"guerra preventiva" a toda a
nação, tendo por cenário a Academia
Militar de West Point: "Nossa
segurança exige um exército pronto a
golpear de um momento a outro não importa
em que recanto obscuro do mundo. E nossa
segurança exigirá de todos os americanos
previdentes e resolutos que estejam
prontos, se necessário, a realizarem
ações preventivas para defender nossa
liberdade e nossas vidas. Devemos
descobrir células terroristas em sessenta
países ou mais... Devemos opor-nos à
proliferação e entrar em confronto com
os regimes que patrocinam o terror. Nós
enviaremos vocês, nossos soldados, para
onde há necessidade de vocês".
b) unilateralismo norte-americano
11- A partir dessa proclamação os
Estados Unidos produziram um enfático e
unilateral rompimento com as normas
vigentes do Direito Internacional,
materializado no ataque, invasão e
ocupação do Iraque, a despeito da
oposição da Organização das Nações
Unidas e da maioria dos países do mundo,
sob o pretexto, já desmentido, de
"busca de armas de destruição em
massa".
12- A atual estratégia do imperialismo
norte-americano vem sendo elaborada há
mais de uma década. Já em 1992, quando a
contra-revolução na União Soviética e
em todo o Leste europeu era fato
consumado, Paul Wolfowitz - que
desempenhou papel fundamental no núcleo
duro do governo de George W. Bush, como
assessor de Defesa -, preconizava:
"Os Estados Unidos devem se apoiar em
sua esmagadora superioridade militar e
utilizá-la preventivamente e
unilateralmente. O nosso primeiro objetivo
é impedir a emergência de um novo rival.
Trata-se de uma consideração primordial,
a base de uma nova estratégia de defesa.
Esta requer que nos esforcemos para
impedir toda potência hostil de dominar
uma região cujo firme controle fosse
suficiente para gerar uma força global.
Essas regiões englobam a Europa
Ocidental, o Leste da Ásia, o território
da antiga União Soviética e o Sudeste
asiático". Efetivamente, os
estrategistas norte-americanos, mantendo a
amplidão dos seus propósitos, têm,
porém, como foco central de longo prazo a
China. O êxito da grande nação
asiática, em contraste com o declínio
norte-americano, implica alterações
profundas, como, aliás, já está
ocorrendo na geografia econômica e
política internacional. A ocupação de
posições militares estratégicas pelo
imperialismo norte-americano na Ásia
Central, o estímulo a diferentes tipos de
manifestações étnicas e religiosas
naquela área do globo, o tratado militar
com o Japão, a manutenção de dezenas de
milhares de soldados e armas nucleares na
Coréia do Sul, a hostilidade permanente
com a República Popular Democrática da
Coréia e o apoio ao separatismo de Taiwan
são claras manifestações de que a
oposição à China é parte essencial da
política externa dos EUA. Atualmente, os
estrategistas da Casa Branca evitam a
expressão conflito. Referem-se mais à
necessidade de "controlar a ascensão
da China". Nesses círculos a China
é tratada como "inimigo
potencial". Objetivamente, os
conflitos de interesse entre China e
Estados Unidos tendem a marcar a cena
política mundial nos próximos anos.
c) a "reforma" do
"grande" Oriente Médio
13- Como parte essencial dessa
estratégia, o imperialismo
norte-americano volta momentaneamente
grande parte de suas atenções para o
chamado grande Oriente Médio, tendo em
vista o petróleo e a importância
geopolítica da região. Por isso, levou a
efeito as guerras contra o Afeganistão e
o Iraque e mantém a ocupação ilegítima
desses países, não para levar até lá a
democracia e livrá-los das armas de
destruição em massa, mas para impor a
partir dessa região, seus objetivos de
alcance muito maior, sua tirania, sob
pretexto de levar para aqueles países o
seu padrão de "democracia". Já
antes, em circunstâncias políticas
locais e mundiais diversas, levara-se a
efeito a guerra contra a Iugoslávia,
resultando na criação de protetorados,
como na Bósnia e em Kosovo que, na
realidade, são bases para a consecução
dos planos estratégicos norte-americanos.
14- Para seu segundo mandato, George W.
Bush estabeleceu o objetivo central de
proceder à "reforma política do
'grande Oriente Médio'". Tem em mira
uma imensa região que se estende do
Afeganistão, na Ásia Central, área
contígua à Rússia, à Índia, à China
e ao Marrocos, passando por todo o mundo
árabe. Depois da ocupação do
Afeganistão e do Iraque, os Estados
Unidos se voltam contra o Irã e a Síria
e, novamente sob o pretexto de combater o
terrorismo e combater a presença Síria
no Líbano, provocam o caos e a
desestabilização desse país. Até mesmo
aliados tradicionais dos EUA na região,
como a Arábia Saudita e o Egito, sofrem
pressões "democratizadoras",
que também podem criar instabilidade.
15- No quadro dessa ofensiva, os EUA -
atuando invariavelmente como aliado fiel e
principal sustentáculo de Israel -, tudo
fazem para dobrar o povo palestino, isolar
os setores revolucionários e debilitar a
Autoridade Nacional Palestina. Insistem
num roteiro que não contempla as
verdadeiras aspirações do povo
palestino, pelo contrário consagram a
usurpação dos seus territórios e a
negação dos seus direitos.
16- Ultimamente, contando com o apoio de
forças locais e das chamadas
organizações não-governamentais
financiadas por agências do imperialismo,
como a Fundação Ford e a USAID, tem
lugar também um traumático processo
desestabilizador de caráter
contra-revolucionário no entorno da
Rússia e nas ex-repúblicas orientais da
União Soviética. Fazem parte desse
processo as midiáticas "revolução
laranja", na Ucrânia,
"revolução das rosas", na
Geórgia, e a "revolução das
tulipas", no Quirguistão, assim como
as intimidações à Bielorússia, país
incluído na lista dos ameaçados de
agressão por parte dos EUA.
d) extensa presença militar dos EUA no
mundo
17- Em meio a toda essa ofensiva, o
imperialismo norte-americano trata de
reforçar ainda mais a sua já esmagadora
superioridade militar. Rompe com o tratado
antimísseis balísticos e relança o
programa cognominado "guerra nas
estrelas"; eleva a níveis
estratosféricos as suas despesas
militares, hoje beirando os 400 bilhões
de dólares, cerca da metade de toda a
despesa militar no mundo; e estende uma
imensa rede de bases militares em todo o
planeta - os Estados Unidos têm presença
militar em 140 países, mantêm 800 bases
militares no exterior e acordos de
cooperação militar com 36 países. Já
antes da ocupação do Iraque, os soldados
estadunidenses no exterior eram 200 mil,
aos quais se acrescentam os
"conselheiros militares"
presentes praticamente nas zonas
conflagradas do globo. Somente na
Colômbia se encontram 500 desses
"conselheiros".
18- Aspecto inseparável da crise do
sistema capitalista e da ofensiva
imperialista contra os povos é a
degradação da vida democrática, a
hipertrofia dos aparatos de repressão, as
chamadas leis antiterroristas, como a
"Lei Patriota" dos Estados
Unidos, que só resultam em repressão às
lutas das massas e em restrição de
direitos.
19- O imperialismo norte-americano e os
seus aliados relacionam essa deriva
antidemocrática e a ofensiva contra as
forças progressistas em geral à
"necessidade de combater o
terrorismo". Atitude cínica e
inócua, cortina de fumaça para encobrir
os seus propósitos retrógrados. As
forças progressistas, e entre elas os
comunistas, jamais se identificaram
historicamente com o terrorismo e os
métodos terroristas - muito menos agora
quando vivemos uma fase de prolongada
acumulação de forças através da luta
de massas e dos métodos abertos. Quando
se impõem formas de luta radicais,
inclusive o uso da violência
revolucionária, não é de terrorismo que
se trata, mas de um recurso legítimo em
face da violência contra-revolucionária.
20- O verdadeiro combate ao terrorismo, ao
qual as forças progressistas e
revolucionárias estão dispostas a
oferecer a sua contribuição, exige antes
de mais nada a remoção das suas causas,
o combate às iniqüidades do sistema sob
o qual vivemos e o fim de situações
grotescas, mantidas pela força, onde
povos são impedidos de viver em suas
terras, de organizar livremente seus
Estados e governos, de ver invasores
estrangeiros fora de suas Pátrias. Exige
ainda a vigência de uma ordem
internacional democrática, cuja
expressão institucional fosse a
existência de uma Organização das
Nações Unidas verdadeiramente respeitada
em suas resoluções, em que os países
tivessem poder de decisão para que o
envolvimento do organismo multilateral no
combate ao terrorismo não fosse mera
retórica. Exige ainda o verdadeiro
combate às máfias de traficantes de
drogas e de armas, que não passam de um
submundo do próprio sistema capitalista.
E mais, o combate ao terrorismo é letra
morta quando o imperialismo emprega dois
pesos e duas medidas, inquinando os
"terroristas maus" e
reconhecendo e protegendo os
"bons", pregando democracia e
praticando terrorismo de Estado, seja por
meio de genocídio - como os que perpetrou
no Iraque e no Afeganistão -, seja pela
abominável prática de sevícias e
torturas nos cárceres infectos de Abu
Grhaib e Guantânamo.
e) América Latina na alça de mira
21- Na América Latina, os Estados Unidos
prosseguem seus esforços para manter o
continente como área dos seus interesses
estratégicos. Momentaneamente, concentram
suas atenções na desestabilização de
Cuba e da Revolução Bolivariana da
Venezuela, no esmagamento da luta
guerrilheira na Colômbia, na aplicação
de planos intervencionistas como o Plano
Colômbia, assim como na tentativa de
impor a Alca ou os tratados bilaterais de
livre comércio com países ou
sub-regiões como instrumento de
espoliação neocolonialista. Embora
encoberto pelo jogo de aparências do bom
trato diplomático, existe e cobra força
um conflito de interesses entre o Brasil e
os EUA. A nova política externa do
Itamarati sob a égide do governo Lula tem
sido conseqüente no esforço para situar
o Brasil num novo lugar no mundo. Foi-se o
tempo do alinhamento automático com os
Estados Unidos e seu sistema de alianças.
O sucesso obtido pelo governo brasileiro
nas negociações da Alca, na realização
de novas parcerias políticas e
econômicas, o relacionamento do Brasil
com outros atores de importância
estratégica da cena mundial - como a
China, a Rússia, a União Européia, a
Índia, o mundo árabe e a África do Sul
-, estão a produzir mudanças
significativas na América do Sul e nas
relações do subcontinente com
Washington. O impulso que estão tomando
os processos de integração como o
Mercosul, a Comunidade Sul-Americana de
Nações e a nascente Alba objetivamente
contrariam os interesses norte-americanos.
Em perspectiva, esses processos de
integração e a formação de um bloco de
países soberanos na região tendem a
compor um quadro de alterações
potenciais em médio ou longo prazo na
geopolítica mundial.
2 - Deterioração da situação
econômica do sistema capitalista
22- As alterações no quadro político
mundial e os conflitos a elas imanentes
estão diretamente relacionados com a
propensão à crise sistêmica e crônica
do capitalismo. Nas últimas décadas do
século XX produziram-se importantes
mudanças causadas principalmente pelas
crises dos anos 1970. Estas mudanças
acarretaram um conjunto de fenômenos
recentes: novo patamar de
internacionalização produtiva;
reestruturação, com novas tecnologias e
novas formas de gestão do trabalho;
direcionamento do investimento externo
direto em grandes volumes, configurando as
corporações transnacionais globais;
expansão de empresas de segmentação e
subcontratação da produção; alianças
tecnológicas delimitadas entre empresas;
consolidação da forma de grupo
empresarial com forte presença
internacional; nova expansão da atividade
financeira propriamente dita das empresas
produtivas, com o surgimento de nova
institucionalidade entre produção e
finança e a predominância do capital
financeiro; transformação do rentismo em
predominância do capital financeiro;
maior descolamento relativo entre as
esferas da produção e da finança.
Ampliaram-se as trocas internacionais,
sobretudo nos marcos do comércio
intrafirmas, que já atingiu cerca de 40%
do comércio global. Entretanto, a taxa de
crescimento dos mercados financeiros é
muito superior a essa expansão comercial
e ainda mais do que o incremento do setor
produtivo. A predominância do capital
financeiro ganha corpo com a
desregulamentação e a liberalização,
em progressiva interligação entre os
diversos mercados financeiros e entre as
esferas financeiras nacionais. A
liberalização dos fluxos de capitais
internacionalmente, a volatilidade das
taxas de câmbio, as taxas reais de juros
oscilantes e tendencialmente elevadas são
fatores de especulação e rentismo da
oligarquia financeira, inclusive
constrangendo a autonomia das políticas
econômicas das nações em
desenvolvimento. Para se ter uma noção
da envergadura do fenômeno, mencione-se o
dado de que o estoque de ativos
financeiros no mundo cresceu de 12
trilhões de dólares em 1980 para 118
trilhões de dólares em 2003, o que
representa o triplo do PIB mundial.
a) tendência à estagnação e à
instabilidade sistêmicas
23- O cenário econômico atual, visto de
uma perspectiva geral, aponta a
acentuação dos desequilíbrios, dos
fatores de instabilidade e dos elementos
de crise. Este panorama torna difíceis as
previsões quanto ao futuro, mesmo de
curto prazo. A dura e crua realidade da
economia capitalista sugere incertezas e
não poucas angústias para a imensa
maioria das populações. Tornou-se um
lugar comum, uma opinião e um
comportamento vulgares vaticinar progresso
e a abertura de novo ciclo
desenvolvimentista da economia
capitalista. Ao menor sinal de
ultrapassagem da recessão, de crescimento
ainda que medíocre das economias centrais
ou periféricas, os apologistas - que
pensam ser também salvadores do
capitalismo -, entram em cena para
comemorar que os governos e os monopólios
capitalistas dispõem de mecanismos de
monitoramento e controle capazes de
impedir que as crises periódicas se
transformem em catástrofes semelhantes à
de 1929. Passados os momentos de susto e
sobressalto, propalam estar em curso uma
gradual e longa transição para a
economia e a sociedade da informação e
do conhecimento, a chamada nova economia,
capaz de auto-regenerar-se.
24- As transformações do capitalismo no
quadro do neoliberalismo assumem as
seguintes características essenciais:
necessidade de aprofundamento da
extração da mais-valia relativa a partir
das novas tecnologias, ao lado da retomada
do recurso à mais-valia absoluta, com
elevadas jornadas de trabalho,
precarização e informalidade; expansão
das transnacionais mantendo a
centralização da direção nas matrizes;
a concentração e a centralização de
capitais e da produção coexistem com o
acirramento da competição global;
desmonte da regulação anticíclica
econômica nacional do setor produtivo
estatal e dos serviços sociais do estado
nacional, sobretudo nos países em
desenvolvimento; formação de blocos
regionais, sobretudo a partir dos Estados
centrais. Sob essas novas condições, o
mundo está submetido à instabilidade
sistêmica, que se expressa tanto no plano
econômico como no político. São cada
vez menores as possibilidades do
capitalismo, na presente época do
imperialismo, mesmo sob as novas
condições, de promover o desenvolvimento
econômico com soberania nacional e
bem-estar social. E é cada vez mais
difícil a instauração de um novo ciclo
de elevado crescimento econômico global,
como ocorreu excepcionalmente entre o
pós-Segunda Guerra e o início dos anos
1970.
25- Tudo isso está relacionado com os
desequilíbrios estruturais da economia
norte-americana, que se caracterizam por
gigantescos déficits externos e fiscal
(sobre o que discorre-se mais
detalhadamente na seqüência);
sobrevalorização dos ativos
imobiliários; elevadíssimo
endividamento; tensões sobre o valor do
dólar; pressões conflitantes sobre o
nível da taxa de juros; crescente
dependência de imensos volumes de
importações baratas e carências
energéticas. São graves desequilíbrios
que obviamente não se transformaram em
crise aberta ou em colapso. Os Estados
Unidos ainda mantêm a supremacia
tecnológica, econômica e financeira, mas
são claros os sinais da tendência ao seu
declínio. A superpotência
norte-americana perde cada vez mais sua
proeminência produtiva no decorrer de uma
longa trajetória em face de seus
concorrentes globais, inclusive a China.
Os desequilíbrios estruturais dos Estados
Unidos se traduzem em grave piora das
condições de vida de importante parcela
de sua população. Comparativamente à
Europa e ao Japão, a concentração de
renda alcançou uma grande piora desde os
anos 1970, com terríveis mazelas em
disseminação para os desempregados,
subempregados e jovens nos Estados Unidos.
26- Certamente, o capitalismo
contemporâneo, mesmo num quadro de
desequilíbrios estruturais, promove o
crescimento da produção de bens
materiais, cria novas capacidades
produtivas, abre fronteiras e percorre
novos caminhos proporcionados pelo
desenvolvimento tecnológico e
científico. Mas é certo também que com
a redução da capacidade aquisitiva das
populações, a feroz concorrência
intermonopolista e o adensamento do
capital orgânico manifestam-se com força
os fatores que podem resultar em crises de
superprodução relativa. Ou, por outra,
agrava-se uma situação potencial de
superprodução. Ademais, como fenômeno
contemporâneo, o setor financeiro sofre
desmesurada hipertrofia, o endividamento
se generaliza não mais como chaga
econômica apenas dos países
subdesenvolvidos, mas como fator de crise
dos próprios países imperialistas.
27- Com o contínuo avanço da
produtividade social do trabalho,
agrava-se a contradição entre o
crescimento das forças produtivas e as
relações de produção capitalistas, que
acabam por se constituir em empecilho ao
desenvolvimento ulterior das forças
produtivas. Em nossa época tal
contradição se torna cada vez mais aguda
e se traduz em dois fenômenos muito
presentes: a elevação dos níveis de
desemprego e a progressiva redução das
taxas de crescimento econômico nos
países capitalistas, indicando estar em
movimento uma tendência à estagnação,
estreitamente ligada à decomposição do
padrão dólar, fator tendencial de
natureza histórica cujo desenlace não se
pode momentaneamente prever. Nas duas
primeiras décadas que se seguiram à
Segunda Grande Guerra, o sistema
capitalista viveu um breve período de
prosperidade, no qual os dilemas dos
depressivos anos 1930 pareciam
definitivamente superados nos marcos de um
capitalismo monopolista de Estado que
lograra incorporar, em notáveis
concessões ao movimento operário, muitas
conquistas sociais, plasmando assim o
Estado de bem-estar.
28- A prosperidade foi efêmera e as
ilusões se esfumaram. Já nos anos 1970
os países capitalistas ingressaram numa
fase descendente que perdura até hoje. A
taxa média de crescimento das economias
mais ricas, superior a 5% na década de
1960, sofreu um progressivo declínio e
acabou inaugurando o século 21 num
patamar medíocre, em torno de 2%. No
mesmo período, o índice médio de
desemprego aumentou na Europa Ocidental de
insignificante 1,5% para cerca de 10% da
população economicamente ativa. Os
países da periferia do sistema têm sido
duramente atingidos pela crise, sobretudo
na América Latina e na África, cabendo
destacar que na Ásia, por motivos
diversos, a situação é mais amena.
29- Movido pelo interesse de maximizar as
taxas de lucros e em certa medida pela
concorrência, o capitalismo tende a
estimular o crescimento incessante da
produtividade social do trabalho,
notadamente através da introdução de
novas tecnologias no processo produtivo e
novas formas de organização do trabalho.
Mas este processo contraditoriamente tem
levado ao agravamento da crise, pois ao
mesmo tempo revoluciona a composição
orgânica do capital, contribuindo para o
crescimento do desemprego e acentuando a
tendência de queda da taxa média de
lucros. Assim, enquanto avançam a
ciência - que se firma como força
produtiva direta - e a técnica, bem como
a capacidade de produzir riquezas em
volumes cada vez maiores, agrava-se a
crise social, aprofunda-se o fosso entre
ricos e pobres, cresce a miséria e a
marginalização de amplos contingentes de
trabalhadores, a criminalidade e a
violência. Alarga-se o hiato entre a
produção e o consumo em escala social -
que acaba por se revelar um obstáculo ao
desenvolvimento econômico, de forma que
embora a produtividade cresça a
produção em escala social não cresce no
mesmo ritmo, as crises cíclicas tornam-se
mais agudas e as taxas de crescimento
declinam. Ainda soam atuais as palavras de
Marx: "A razão última de toda
verdadeira crise permanece sendo sempre a
pobreza e a limitação do consumo das
massas, em face da tendência da
produção capitalista a desenvolver as
forças produtivas como se estas não
tivessem por limite a capacidade de
consumo absoluta da sociedade". (O
Capital, tomo 3).
30- A segunda metade de 2000 assistiu ao
início de um período recessivo, agravado
pelo cenário de instabilidade criado
pelos acontecimentos de setembro de 2001
nos EUA. Essa crise estendeu-se nos EUA
até 2001 e em outros países
desenvolvidos até 2003. Em seu
transcurso, esboroaram-se as ilusões
sobre as excelências da "nova
economia". Além disso, desde 1994
ocorrem sucessivas crises na periferia do
sistema.
31- O motor principal do sistema
capitalista na sua fase imperialista
continua sendo a busca do lucro máximo,
através do agigantamento dos monopólios
e da acentuação da concentração e da
centralização do capital, pela
eliminação dos concorrentes, fusões e
diferentes formas de participação no
capital e o aumento brutal da exploração
do trabalho. Em toda a sua história esta
é a fase mais destrutiva e regressiva do
capitalismo no que se refere ao trabalho.
Na periferia do sistema, o desemprego, a
informalidade, o trabalho precário, o
ataque aos direitos trabalhistas e
previdenciários e a corrosão dos
salários atingem marcas assustadoras.
Somando o desemprego aberto e o
subemprego, as taxas atingem quase um
terço da força de trabalho - segundo a
OIT, já há mais de 1.2 bilhão de
desempregados e subempregados no planeta.
A regressão atinge também o coração do
sistema capitalista. Os Estados Unidos
são hoje o país da desregulamentação,
com corte de vários direitos e a violenta
instabilidade no trabalho. Na Europa,
antigos direitos são suprimidos ou
reduzidos, com aumento do número de
trabalhadores "hifenizados"
(trabalho-temporário,
trabalho-provisório,
trabalho-doméstico). A jornada de
trabalho voltou a ser ampliada na França,
na Alemanha e mesmo nos países
escandinavos, sob a ameaça de
transferência das unidades de produção
para países com custos mais baixos. Todos
esses fenômenos descritos correspondem a
processo objetivo e rigorosamente não
são novos. Novas são a envergadura, a
rapidez e a progressão que adquiriram -
cujo efeito é a crescente
internacionalização, ou a
transnacionalização do sistema
capitalista, fase em que se produziram
novas formas de intervenção na economia
com a criação de instrumentos e
estruturas supranacionais, mas sob
controle dos centros imperialistas, como o
Banco Mundial, o FMI, a OMC etc, com a
precípua função de elaborarem e porem
em prática em nível mundial, geralmente
de forma impositiva, políticas
econômicas e financeiras lesivas aos
interesses das massas trabalhadoras, dos
povos e nações. São as políticas
neoliberais que constituíram a receita
capitalista para sair da crise, hoje
bastante desacreditada por acrescentar
novos ingredientes de crise e agravar in
extremis os problemas pré-existentes,
criar outros e gerar uma situação
econômica e social insustentável.
32- Sistematicamente ao longo dos últimos
anos essas políticas se transformaram em
dogma e em toda parte tiveram lugar as
privatizações, a abertura dos mercados,
a liberação desenfreada da circulação
de capitais, a
"desregulamentação" das
economias para favorecer os investimentos
das empresas transnacionais, a drenagem
das riquezas nacionais através do
mecanismo espoliador da cobrança das
dívidas, a aplicação dos lucros na
esfera financeira transformada em
atividade especulativa. A essas políticas
corresponde a ofensiva contra os Estados
nacionais, procurando limitá-los a meros
garantidores dos superlucros do capital
imperialista e a ofensiva anti-social
manifestada na superexploração do
trabalho, na privatização dos serviços
públicos, na liquidação de direitos
trabalhistas e dos sistemas de seguridade
social. O resultado flagrante é o
agravamento das contradições econômicas
e sociais, mormente entre os trabalhadores
e a grande burguesia, entre os países
dependentes e espoliados e os países
imperialistas.
b) parasitismo dos EUA e
desenvolvimento desigual
33- Ontem, como hoje, o parasitismo
econômico, decorrente da exportação de
capitais e da internacionalização da
exploração capitalista-imperialista,
costuma afetar principalmente a potência
hegemônica e conduzir inexoravelmente, ao
longo do tempo, à perda da
competitividade de sua indústria e à
decomposição de sua liderança
econômica. O desenvolvimento desigual
provoca a emergência de novas potências
no plano econômico, altera o equilíbrio
de forças que atuam no mundo,
influenciando a geopolítica mundial,
acirrando a concorrência por mercados,
ensejando ambições pela redistribuição
de áreas de influência e desdobrando-se
em conflitos econômicos e/ou guerras.
São dois fenômenos que marcham lado a
lado na história e são muitos os pontos
em que se entrelaçam. É patente a
manifestação em nossos dias do
parasitismo e do desenvolvimento desigual.
34- O parasitismo é muito evidente hoje
nos Estados Unidos e sua manifestação
encontra-se na raiz dos atuais fatores de
crise do sistema capitalista-imperialista.
Evidencia-se através do consumismo
exacerbado da sociedade estadunidense e
tem sua mais perfeita tradução no
déficit comercial. Em larga medida os
Estados Unidos vivem hoje à custa alheia
- muito além dos meios que produzem -,
absorvendo do exterior cerca de 2 bilhões
de dólares por dia ou algo em torno de
80% do capital disponível para
investimento no mundo, ou seja, 80% da
poupança mundial. O consumismo exacerbado
da potência hegemônica, refletido no
saldo negativo entre exportações e
importações, está também associado ao
déficit público, que vem sendo
financiado basicamente pelos investidores
estrangeiros, transformando-se em passivo
externo e dívida externa. Em 2004 os
déficits comerciais - hoje já de mais de
600 bilhões de dólares - e público - os
chamados déficits gêmeos - bateram novos
recordes e a tendência dominante é de
que continuem em alta. A recorrência e o
acúmulo do déficit comercial provocaram
um crescente rombo das contas correntes do
balanço de pagamentos estadunidense e
transformaram os EUA de país credor -
até meados dos anos 1980 - no maior
devedor líquido do mundo, situação que
enfraquece e corrói em médio prazo a
supremacia do dólar. Ao excesso de
consumo corresponde uma taxa de poupança
interna chocantemente baixa e em
declínio. O hiato entre poupança e
investimentos nos EUA é estimado em 6% do
PIB, o maior do mundo, e equivale
aproximadamente ao déficit em conta
corrente. Para fechar o balanço de
pagamentos, refinanciar seu passivo e
saldar o déficit externo os Estados
Unidos precisam atrair cerca de 2 bilhões
de dólares por dia.
35- O parasitismo traduzido por essa
necessidade crescente de financiamento
externo, associado ao fracasso da
"nova economia" e à recessão
de 2001, precipitou uma nova crise do
padrão dólar, acentuando a tendência à
instabilidade da ordem monetária
internacional fundada em 1944, que em 1971
já sofrera seu primeiro abalo com a
desvalorização do dólar em 10% e o fim
do lastro do dólar em ouro. O inevitável
ajuste do dólar poderá causar prejuízos
consideráveis às economias dos países
em desenvolvimento e não será feito sem
provocar grandes abalos na economia
mundial.
36- A pressão dos EUA sobre os fluxos de
capitais internacionais tem sido a fonte
primordial das turbulências financeiras
que vêm ocorrendo no mundo ao longo dos
últimos anos, inclusive da crise da
dívida externa na América Latina e as
crises financeiras ocorridas em final da
década de 1990. Para evitar uma
desvalorização maior do dólar e a
pressão inflacionária decorrente, as
autoridades econômicas dos EUA são
induzidas a manter suas taxas de juros em
patamares superiores aos da Europa e do
Japão. Os Estados Unidos continuam sendo
um importante destinatário de
investimentos externos diretos e para
captar mais continuam elevando sua taxa de
juros. Mas a cota de investimentos
externos diretos, destinada aos Estados
Unidos, cai ano a ano - além do que
aparece a distorção de que esses
investimentos são cada vez mais em
títulos. Para se ter uma noção
comparativa, no ano passado os
investimentos externos nos EUA foram de 40
bilhões de dólares, contra 61 bilhões
endereçados à China. Observe-se que em
2002 os investimentos externos diretos nos
EUA eram de 72 bilhões de dólares e em
2001 de 167 bilhões de dólares.
Crescentemente, essas evidências do
declínio relativo da economia
norte-americana e da precariedade de sua
hegemonia obtêm reações de natureza
extra-econômica, que se expressam em
agressividade, militarismo e na
estratégia da "guerra
infinita". Aliás, ganha força nos
Estados Unidos a tese do
"keynesianismo de guerra", pelo
que se pretende relançar a economia
norte-americana através do aumento das
despesas militares que já atingem 465,7
bilhões de dólares, projetando-se para
2011 um incremento para a astronômica
cifra de 1 trilhão e 300 bilhões de
dólares! Ao "negócio" da
militarização e da guerra se associa o
da "reconstrução", como sucede
no Afeganistão e no Iraque, beneficiando
diretamente empresas monopolistas
estadunidenses ligadas pessoalmente a
altas autoridades da administração Bush.
37- Atualmente, presencia-se uma nova
prova desse fenômeno, com o recente
aumento das taxas de juros nos EUA para 3%
ao ano. O próprio FMI reconhece que a
correção dos desequilíbrios externos da
economia norte-americana exige um forte e
depressivo ajuste, com a redução do
consumo a fim de reverter os déficits
comercial e público. Um remédio amargo,
que o atual governo não parece nem um
pouco disposto a aplicar.
38- Ao lado do parasitismo, e com ele
entrelaçado, o desenvolvimento desigual
das nações também vai determinando
mudanças nas relações entre as
potências e, por conseguinte, no cenário
internacional. Em passado recente, o
Japão e a Alemanha acumularam taxas de
crescimento econômico bem superiores às
dos Estados Unidos, assim como superávits
crescentes no comércio exterior e em
conta corrente, transformando-se em
grandes potências econômicas,
rivalizando com os EUA tanto no plano
comercial como, principalmente, como fonte
de exportação de capitais. A Alemanha
alçou-se à posição de carro-chefe da
União Européia. A Ásia, por razões
diversas, é hoje a região onde se
observam expansão e maior dinamismo
econômico. O desenvolvimento desigual,
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