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26 de junho de 2005

ELEIÇÕES
Novo presidente iraniano critica EUA e diz que quer Irã poderoso e moderno
 

O vitorioso Ahmadinejad. Foto: ReutersEm seu primeiro pronunciamento após vencer as eleições para a Presidência do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (foto) disse que pretende fazer do país “um poderoso, avançado e moderno modelo islâmico para o resto do mundo”. Segundo analistas, a declaração Ahmadinejad na rádio estatal teve como objetivo reduzir o temor de que sua vitória represente um retrocesso na tentativa do Irã de aumentar sua relação econômica e política com países ocidentais. Ele prometeu também mais transparência na área de petróleo, maior fonte de recursos do Irã.

A vitória do atual prefeito de Teerã deu ao seu grupo o controle das duas mais importantes instituições políticas eleitas no país: a Presidência e o Parlamento. Com a derrota, a ala dita "reformista", que jogava suas esperanças no candidato Akbar Hashemi Rafsanjani, perde força para tentar manter sua política de mudanças sociais no país, entre elas a ampliação dos direitos da mulher, a abertura para o Ocidente e a liberalização dos costumes.

Declarando-se “campeão dos pobres”, Ahmadinejad fez uma campanha direcionada para as camadas mais humildes da população. Ele impôs a imagem de homem simples e trabalhador, deixando para Akbar Hashemi Rafsanjani a impressão de ser o representante das elites.

"A verdadeira bomba nuclear do Irã é o desemprego dos jovens", disse Ahmadinejad, logo após depositar o seu voto na sexta-feira. Segundo ele, "se nada for feito para criar novos empregos, teremos uma explosão nas ruas".

Apesar de as pesquisas terem indicado um resultado apertado, Ahmadinejad, de 49 anos, recebeu 17,2 milhões de votos, equivalente a 61,9% do total. Já seu adversário obteve 10,4 milhões (35,6%). O índice de participação foi elevado, de 61,4%.  Até poucos dias antes das eleições, a candidatura de Ahmadinejad era considerada sem força para alcançar sequer o segundo turno.

Com estes resultados, Ahmadinejad se transforma no sexto presidente do Irã desde o triunfo da Revolução Islâmica em 1979.

Ahmadinejad minimizou o significado de sua vitória, voltando a se comparar a um "gari das ruas". "Estou muito orgulhoso porque as pessoas manifestaram sua gentileza e confiança. Acima de tudo isto está a honra de prestar um serviço, seja como prefeito, como presidente ou como gari de ruas", disse.

Lição para os EUA

Em seu pronunciamento, Mahmoud Ahmadinejad também prometeu transformar o Irã em símbolo e exemplo para os países muçulmanos de como se deve exercer a democracia. Por outro lado, Ahmadinejad pediu a seus seguidores que não tomem as ruas para comemorar sua vitória.

Segundo Ahmadinejad, os iranianos colocaram em "xeque-mate" seus inimigos, termo com o qual designa freqüentemente os Estados Unidos.

"Na rude guerra psicológica que se executa, o Irã colocou em xeque-mate seus inimigos por sua ampla participação", declarou o atual prefeito de Teerã na televisão pública. "Desta forma, o Irã desbaratou todas as equações imaginadas contra o país no mundo", acrescentou.

O Guia Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, reforçou as palavras de Ahmadinejad ao afirmar que os iranianos "humilharam profundamente" os Estados Unidos com a "transparência de sua democracia", manifestada durante a eleição presidencial.

"Apesar de seus discursos, vosso inimigo foi profundamente humilhado pela vossa grandeza e a transparência de vossa democracia", declarou o número um iraniano em uma mensagem lida na televisão estatal.

"Vocês mostraram todos vossos recursos de solidez e poderio contra as políticas expansionistas da arrogante potência", disse após a vitória de Ahmadinejad.

Preocupa os EUA e a União Européia a postura muito nacionalista do novo presidente em termos de política externa.

A porta-voz do Departamento de Estado, Joanne Moore, disse que o resultado não muda a visão dos EUA sobre o Irã. "Continuamos a achar que o Irã está fora de sintonia com os países da região na luta por liberdade", declarou Moore.

De olho no Petróleo

Analistas políticos esperam que Ahmadinejad faça mudanças amplas no gerenciamento da indústria estatal de petróleo após repetidos comentários durante a campanha nos quais ele acusou as "máfias poderosas" de monopolizar a receita com petróleo.

"Cortarei fora as mãos das máfias que têm alcance sobre nosso petróleo. Apostarei minha vida nisso... As pessoas precisam ver em suas vidas a parte delas na riqueza do petróleo", disse ele durante a campanha.

Segundo ele, o cenário que governa os acordos na área de produção e exportação de petróleo não é claro. "Nós deveríamos esclarecer isso", diz, sem entrar em detalhes.

O ministro do Petróleo do Irã, Bijan Zanganeh, e o representante na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Hossein Kazempour Ardebili, apoiaram abertamente o clérigo  Akbar Hashemi Rafsanjani, rival do presidente recém-eleito, e devem ser ambos removidos quando Ahmadinejad tomar posse, em agosto.

"Truques sujos"

O candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial do Irã queixou-se de "truques sujos" usados contra ele, mas disse que não vai apresentar um protesto formal.

"Todos os meios do regime foram usados de forma organizada e ilegal para intervir na eleição - disse Rafsanjani, acusando "aqueles que gastaram centenas de bilhões de de rials (dezenas de milhões de dólares) do dinheiro do povo para difamar a mim e minha família", disse o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, nas primeiras declarações públicas desde a divulgação dos resultados finais.

"Eu não pretendo reclamar das eleições com os juízes que mostraram que não querem ou não podem fazer nada.. Vou reclamar apenas com Deus",  afirmou.

O clérigo de 70 anos, que se apresentou como uma opção "moderada" nas eleições, tentava voltar ao posto que ocupou de 1989 a 1997. Agora, ele diz que entrou na corrida apenas para cumprir o dever de ajudar a incentivar a participação popular.

Ele prometeu ajudar o novo presidente, mas não o congratulou pela vitória.

"Espero que o presidente eleito Ahmadinejad assuma sua grande responsabilidade e seja capaz de cumprir suas promessas", disse Rafsanjani. "Sem dúvida, devemos ajudá-lo nesse caminho de tal forma que possamos servir o povo", acrescentou.

Da redação
com informações das agências

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