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Brasil, terça-feira, 7 de outubro de 2008

17 de junho de 2005

REFORMA MINISTERIAL

Dirceu deixa Casa Civil pela Câmara,
"de mãos limpas e cabeça erguida"

Sirceu: "Eu sei lutar na planície"

José Dirceu deixou a Casa Civil. A notícia começou a circular logo após o fim da reunião de ministros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que durou das 14h às 17h20. Dirceu disse que volta para a Câmara para se defender, defender o PT e o governo das acusações que foram feitas pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson.

O anúncio do pedido de demissão foi feito no inicio da noite, em declaração à imprensa. Dirceu falou cercado por 18 ministros, dezenas de parlamentares e personalidades políticas. O gesto é visto como o primeiro passo de uma reforma ministerial mais ampla, a ser anunciada nos próximos dias.

"Sei lutar na planície e no Planalto"

Ele disse que deixa o cargo mas continua "no governo", como deputado e como dirigente do PT. Declarou que volta para a Câmara dos Deputados, "a partir da semana que vem", onde poderá rebater as denúncias feitas contra ele: "Nosso governo, o nosso partido e eu temos um patrimônio ético, temos um patrimônio que a sociedade conhece, e eu vou defender esse patrimônio", sublinhou . Dirceu disse ainda que quer esclarecer, na Câmara, as profundas transformações políticas, sociais e econômicas que o País está passando.

Os funcionários da Casa Civil, convidados para assistirem ao pronunciamento, ouviram Dirceu dizer que volta a atuar como militante do PT, junto com o presidente do partido, José Genoino. "Vou mobilizar o PT para dar combate àqueles que querem interromper o processo político democrático e querem desestabilizar o governo do presidente Lula", afirmou, agregando que també pretende "mobilizar, dialogar com a sociedade civil".

"Eu sei lutar na planície e no Planalto, e tenho humildade para voltar para meu partido como militante, para voltar para a Câmara como deputado", afirmou o ministro demissionário.

Ele disse que vai trabalhar pela agenda de propostas de mudanças políticas e sociais que precisa ser votada pelo Congresso Nacional. D
efendeu as investigações conduzidas pelo Ministério Público, Polícia Federal e Congresso Nacional sobre as acusações de corrupção feitas pelo deputado Roberto Jefferson, que qualificou de "denúncias infundadas".

"Não me envergono de nada que fiz"

"Não me envergonho de nada que fiz no governo Lula. Tenho as mãos limpas e o coração sem amargura. Tenho a mente sempre colocada naquilo que sempre lutei. Saio de cabeça erguida, disse ainda, e reafirmou que “continuo no governo porque sou PT”.

Lula deve anunciar quem fica na Casa Civil dentro de uma reforma ministerial, provavelmente na segunda-feira. Até lá o cargo será exercido interinamente pelo secretário-executivo do ministério, Swedenberger Barbosa.

O deputado federal Jorge Bittar (PT/RJ) disse que não está definido
quem será o novo ministro. "Isso não está amadurecido. Quem vai decidir sobre isso é o presidente Lula", disse Bittar. Ele achou correta a decisão de Dirceu de deixar o cargo e voltar à Câmara dos Deputados.

Para a base aliada, "gesto de grandeza"

Para o líder da bancada do PCdoB na Câmara, Renildo Calheiros (PE), ao aceitar o afastamento do ministro José Dirceu do governo, o presidente Lula poderá aproveitar o momento e realizar uma reforma ministerial que transforme o governo do PT "num governo realmente de coalizão e com isso amplie a sua base de apoio e sustentação política". Renildo avalia que "é possível" ainda fazer "uma flexão na economia", baixando a taxa de juros para acelerar o crescimento econômico.

O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT/SP), avaliou a posição de Dirceu como “um gesto de humildade e de grandeza política, que ajuda a
preservar o governo e o PT”. E confirmou as palavras do ministro de que volta para Câmara para defender "a sua honra, defender o PT e o governo do presidente Lula.

Mercadante frisa que o pedido de demissão demonstra o compromisso do PT com a ética. "Dirceu poderá esclarecer todas as denúncias feitas contra ele pelo presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson", afirmou o senador.

Para Mercadante, além de fazer sua defesa contra as denúncias, Dirceu será peça fundamental na reorganização da base aliada no Congresso, em função da experiência e liderança que tem dentro do PT - até a posse do governo Lula ele era o presidente da legenda.

O ex-presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT/SP), negou que a saída de José Dirceu seja um reconhecimento de culpa. E disse que ele exercerá o cargo para o qual foi eleito pelo povo de São Paulo.

Para a oposição, "carreira em eclipse"

O líder do PSDB no Senado, senador Arthur Virgílio (AM), afirmou, em conversa com jornalistas, que a demissão de José Dirceu do cargo de ministro-chefe da Casa Civil, é "uma decorrência natural de tantos equívocos cometidos, inclusive por Dirceu."

No entender de Virgílio, Dirceu causou vários problemas ao governo "por sua arrogância e truculência". O líder do PSDB disse que não vê com alegria a saída do ministro: "Sou tucano, mas não sou abutre”, esclareceu, acrescentando que vê com tristeza que uma carreira brilhante como a de Dirceu tenha "descambado": "Vejo uma carreira brilhante que entrou em eclipse", vaticinou.

O senador Agripino Maia, líder do PFL no Senado, comemorou dizendo que "Jefferson demitiu o primeiro ministro". O pefelista prevê que se Dirceu voltar ao Congresso "vai haver uma guerra, e o grande derrotado será o presidente Lula".

Para Agripino , o embate entre o ex-ministro e o presidente do PTB, Roberto Jefferson, vai acabar "estraçalhando" a base aliada ao governo. Ao mesmo tempo, acredita que o acirramento do confronto pode contribuir para esclarecer mais rapidamente as denúncias sobre um suposto pagamento de "mensalão" a deputados do PP e PL.

A carta de demissão e a resposta de Lula

Dirceu distribuiu para a imprensa cópias da carta que entregou ontem ao presidente, e da resposta de Lula. Veja os textos na íntegra:

A carta de Dirceu:

"Brasília, 16 de junho de 2005.
Excelentíssimo Senhor Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
Querido companheiro e amigo,

Diante dos graves ataques desferidos nos últimos dias ao nosso governo, ao nosso partido e a mim mesmo, decidi pedir-lhe meu afastamento das funções de Ministro de Estado Chefe da Casa Civil, para reassumir meu mandato na Câmara dos Deputados.

Como parlamentar, junto a meus companheiros, estou seguro de que poderei esclarecer todos os temas que ora ocupam a atenção da opinião pública de meu país, rebatendo ponto por ponto aqueles que tentam agredir o Executivo, o Partido dos Trabalhadores e minha pessoa.

Servi o Governo durante estes trinta meses com lealdade e dedicação. Foi um privilégio reservado a poucos. Por essa razão, sou-lhe eternamente grato.

Em minhas novas funções, contribuirei para a continuidade e o aprofundamento do grande projeto de mudança social que nosso Governo está empreendendo sob sua liderança.

Agradeço seu apoio, assim como o de todos meus colaboradores, companheiros e amigos.

A luta continua.

Receba, querido Presidente, meu reconhecimento e amizade.
José Dirceu de Oliveira e Silva"

E a resposta de Lula:

"Brasília, 16 de junho de 2005.
José Dirceu de Oliveira e Silva
Ministro de Estado Chefe da Casa Civil

Querido Zé,

Recebi seu pedido de afastamento das funções de Chefe da Casa Civil. Decidi aceitá-lo, louvando seu desprendimento pessoal. Só pessoas de sua grandeza são capazes desses gestos.

Compartilho seu sentimento de que esta decisão permitirá a você melhor defender nosso Governo, nosso partido e sua própria pessoa.

Como parlamentar brilhante que é - um dos líderes políticos mais importantes e respeitados da República - você poderá, na Casa do Povo Brasileiro, desfazer as infundadas acusações lançadas por aqueles que querem desconstruir nossa história e nosso projeto de mudança social.

Esta é a ocasião para expressar meu apreço por sua lealdade, dedicação, competência e honestidade no trato da coisa pública, como Ministro Chefe da Casa Civil.

É também a ocasião para reiterar minha amizade e gratidão por tudo o que fez pelo povo brasileiro em nosso governo.

Como você mesmo diz em sua carta, a luta continua.

Luiz Inácio Lula da Silva"

Veja também:

Íntegra da declaração de José Dirceu à imprensa

Primeiro movimento rumo ao governo de coalizão?

Rita Polli
Márcia Xavier
Com agências


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