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Por Márcia Xavier e Rita Polli*
Os mistérios dos episódios
passados no período da ditadura
militar, que envolvem casos de morte,
desaparecimento e tortura, ainda produzem
efeitos. Na semana passada, uma audiência
pública que seria realizada pela
Comissão de Direitos Humanos da
Câmara dos deputados ouviria o presidente
da Comissão Especial de Mortos
e Desaparecidos Políticos, Augustinho
Veit, para saber o que está atrasando
a investigação de ossadas
que foram exumadas no local da Guerrilha
do Araguaia.
O adiamento da audiência ocorreu
em função de terem incluídos
outros convidados para discutir o assunto,
que envolve vários aspectos, inclusive
a situação dos moradores
da área que se viram envolvidas
na guerrilha.
Augustinho Veit falou para o portal Vermelho,
adiantando que estamos na expectativa
de que agora em junho saia o resultado
final dessa ossada. Essa ossada
pode ser de um dos oito guerrilheiros
do Araguaia - João Carlos Haas
Sobrinho, Manoel José Nurchis,
José Toledo Oliveira, Bérgson
Gurjão de Farias, Idalisio Soares,
Aranha, Kleber Lemos da Silva, Antônio
Carlos Monteiro Teixeira ou Miguel Pereira
dos Santos.
Veit, militante de direitos humanos há
30 anos, desde1978, assumiu o cargo de
presidente da Comissão, no ano
passado, depois da renúncia do
ex-presidente João Pinot. Proclama
ser um defensor intransigente
da abertura dos arquivos militares da
época da ditadura. E diz que ainda
aguarda essa decisão do governo
Lula, que está tendo uma
oportunidade histórica de
desvendar para a sociedade brasileira
os mistérios que envolvem, ainda
hoje, aquele período.
Militante na Pastoral da Juventude, Igreja
Católica em Porto Alegre (ele é
catarinense), Veit viveu o período
da ditadura acolhendo paraguaios, uruguaios,
argentinos e chilenos em Porto Alegre,
que era canal de passagem para a Europa
ou para o Rio de Janeiro, onde existia
uma representação do Alto
Comissariado das Nações
Unidas e os perseguidos recebiam status
de refugiados políticos, sendo
encaminhados para países da Europa.
Ele veio para Brasília em 1988,
na época da Constituinte, para
atuar no Movimento Nacional dos Direitos
Humanos. Em 1995, trabalhou com o então
deputado Agnelo Queiroz (PCdoB), no GDF
(Governo Cristóvão Buarque)
e em 1996 foi para a Comissão de
Direitos Humanos da Câmara dos Deputados,
a convite doentão deputado Nilmário
Miranda (PT/MG). Participou da comissão
externa que fazia o levantamento da documentação
que originou a lei 9.140, que instituiu
a Comissão Especial de Mortos e
Desaparecidos Políticos.
Vermelho O que atrasou a identificação
dessa ossada X2?
Augustinho Veit - Ela foi tirada
em 1996 e ficou muito tempo aqui no Brasil,
chegou a ir até Portugal e por
último, nós mandamos para
Argentina. No IML daqui, no Brasil, eles
não conseguiram extrair o DNA,
e nem Portugal. E Argentina finalmente
conseguiu a extração do
DNA, porque é difícil extrair
de osso antigo. Nós mandamos agora
as fichas antropométricas, que
é uma ficha com altura, arcada
dentária, características
que possam identificar a ossada. E agora
em maio, nós conseguimos fazer
o recolhimento de sangue de todas as famílias
e mandamos para lá. Nós
estamos na expectativa de que agora em
junho saia o resultado final dessa ossada,
que é possivelmente de um desses
oito guerrilheiros aqui relacionados (mostra
o relatório elaborado por Iara
Xavier Pereira, da Comissão Especial
de Mortos e Desaparecidos Políticos)
- João Carlos Haas Sobrinho, Manoel
José Nurchis, José Toledo
Oliveira, Bérgson Gurjão
de Farias, Idalisio Soares, Aranha, Kleber
Lemos da Silva, Antônio Carlos Monteiro
Teixeira ou Miguel Pereira dos Santos.
Haas já foi descartado, porque
já foi feito o exame dele
não é do João Carlos
Haas.
Vermelho Ficam faltando quantas
ossadas para serem identificadas?
Augustinho - Ficam faltando duas.
Mais uma que está na Argentina,
que é de uma da vala de Perus,
de São Paulo (vala comum encontrada
em 1990 no Cemitério de Perus,
com os restos de pessoas assassinadas
sob a ditadura), que pode ser de Flávio
Morina e que recentemente nos recebemos
a solicitação do envio de
mais um pedaço do outro fêmur,
porque o fêmur que nós mandamos
prá lá foi contaminada.
O que significa uma contaminação?
É osso antigo, de vala comum -
tinha vários corpos dentro de uma
mesma vala, então, na hora da extração
do DNA, surgiram duas cadeias então
não se sabe a que cadeia pertence
esse osso. É preciso outro osso
para fazer a identificação,
um trabalho complicado.
Nós sabemos que são cerca
de 70 desaparecidos. E nós estamos
lidando com apenas oito ossadas.
Vermelho - Quando serão
feitas novas expedições
ao local onde ocorreu a Guerrilha do Araguaia?
Augustinho Veit - Todas as vezes
que nós tivermos novas informações,
que possam nos levar a uma nova descoberta,
nós faremos expedições
ao local. Isso pode levar anos, por isso,
nós estamos formando um banco de
DNA das famílias. Nós já
recolhemos em vários estados as
amostras de sangue. Se encontramos daqui
a 50 anos uma ossada, com indícios
de que possa ser de uma vítima
da ditadura, nós temos como fazer
o confronto para saber se é de
algum desses familiares. Nós temos
que deixar um banco do DNA, não
apenas a amostra de sangue, temos que
extrair o DNA e deixar o DNA guardado.
Vermelho Onde ficará sediado
o Banco de DNA?
Augustinho Nós
ainda não sabemos onde ficará
ancorado. Há familiares
nós escutamos muito os familiares
que acham que deve ficar numa universidade,
há os que acham que deveria ficar
na Polícia Federal, há aqueles
que acham que deveria ficar na própria
comissão, mas a comissão
pode acabar um dia.
Vermelho A Comissão
Especial tem um prazo para concluir os
trabalhos?
Augustinho Veit - Findo o julgamento
dos processos que nós temos, a
nossa missão é de dar um
tratamento efetivo aquele material. Nós
queremos transferir isso para um Centro
de Referência, um lugar público,
onde as pessoas possam pesquisar, conhecer
a história. Segundo, nós
temos que fazer o relatório final
da comissão e fazer esse Banco
de DNA. E estamos estudando a possibilidade
de formar uma equipe de antropologia forense,
só para tratar de casos de desaparecimento,
de uma forma geral, não só
de desaparecimento político, mas
de desaparecimento de um modo geral, porque
a figura do desaparecimento é uma
realidade concreta no Brasil. Depois disso,
terminou basicamente o trabalho da Comissão.
Por isso, é prudente a gente ter
o banco de DNA guardado dentro de uma
instituição oficial mais
perene.
Vermelho Qual a avaliação
que o Sr. faz do episódio da ditadura,
quem são os vencedores e os vencidos?
Augustinho Os militares
dizem que se tratou de uma guerra e nós
não podemos deixar passar isso.
Nós tivemos uma repressão
violenta, cruel contra pessoas que se
insurgiram contra o regime militar imposto
à sociedade brasileira. Então,
os chamados guerrilheiros do Araguaia
não tinham outra intenção
senão a de se opor ao regime militar
e foram massacrados como num confronto
militar mesmo. Injustificável o
grau de repressão que se instalou
aqui no Brasil e que se espalhou para
o resto do Cone Sul. O Brasil foi escola
em termos de repressão. Nós
não temos tantas pessoas mortas
aqui em relação à
Argentina, por exemplo, que tem 30 mil.
Mas aqui se torturou e perseguiu muito
e os métodos foram exportados para
os países da América Latina.
Foi uma brutalidade injustificável,
incabível contra a sociedade brasileira
que tinha um caldo de cultura democrático
que não se rendeu a essa brutalidade
do Exército. Eu digo que nós
temos que lamentar que ainda não
se tenha avançado mais. Eu acho
que toda a sociedade está esperando
que o governo brasileiro avance mais na
investigação do que realmente
aconteceu.
Vermelho Isso é
uma defesa da abertura dos documentos?
Augustinho Veit - Defesa intransigente.
Se esse governo não tiver coragem
de abrir esses arquivos, de mostrar para
a sociedade, de forma transparente, em
que circunstâncias, com que brutalidade
foram mortos os nossos companheiros, ele
vai dever à história. Mais
adiante ele não vai ter como explicar.
Ele tem a oportunidade histórica
de fazer isso hoje. O Lula prometeu isso
e eu estou esperando, não só
eu como os familiares e a sociedade como
um todo.
Vermelho Qual a avaliação
que o Sr. faz dos militares que se dizem
vítimas e que também querem
uma reparação?
Augustinho Aqueles que
se envolveram diretamente na chefia, aqueles
que pensaram, que são os mentores
da ditadura, não têm que
reclamar de nada. Tem militares que foram
mortos, mortos em confronto, pelas próprias
Forças Armadas, como Lamarca, eles
sim, que não se conformaram com
a imposição do regime militar,
esses sim podem se considerar vítimas.
Eu sou a favor de um Exército,
a sociedade brasileira não abre
mão de um Exército, mas
que tenha as suas funções
constitucionais, de garantia da soberania
nacional, de nossas riquezas, da nossa
segurança; Então, eles não
podem comungar em não reconhecer.
Ereconhecer é abrir e dizer o que
fizeram em um momento histórico.
Não vai acontecer nada se o presidente
da República der uma ordem de abrir
os arquivos, não vai acontecer
nada, não há ambiente político
para novo golpe, a sociedade se levantaria
contra isso, porque não há,
na história da humanidade, golpe
militar que não tenha tido a adesão
de apoio de 51% da população
e isso não existe hoje.
Vermelho A criação
da Comissão Especial de Mortos
e Desaparecidos Políticos contribui
para isso? Quando foi criada a Comissão
e qual o papel dela?
Augustinho Veit A Comissão
foi instituída pela lei 9.140,
de 1995, no governo Fernando Henrique,
fruto de toda uma mobilização
da sociedade civil, do parlamento e, sobretudo
dos familiares dos mortos e desaparecidos.
A principal missão da Comissão
é proceder ao reconhecimento da
morte ou desaparecimento das pessoas do
período da ditadura militar, no
período de 1964 a 1985. Depois
teve uma lei que complementou a lei 9.140,
ampliando o período para 1988,
quando da promulgação da
atual Constituição, e amplia
a possibilidade de inclusão de
pessoas que morreram em confrontos e se
suicidaram. A lei restringia às
mortes nas dependências policiais,
e a outra lei amplia para confrontos de
rua e suicídios. Uma vez procedida
o reconhecimento da responsabilidade do
Estado, ela passa a indenizar a família
no valor entre 100 e 150 mil reais.
Vermelho
Qual o balanço do trabalho
até agora realizado pela Comissão?
Augustinho A lei que instituiu
a Comissão é permanente
até que seja revogada. Não
tem prazo para acabar. Mas tinha prazo
até setembro de 2003, para que
a família fizesse o requerimento
para que a comissão procedesse
ao reconhecimento da morte. Ela recebeu
durante todo esse período em torno
de 450 requerimentos. A lei traz no anexo
136 nomes, já reconhecendo esse
número de desaparecidos, porque
os familiares fizeram todo um trabalho
sobre os desaparecimentos de pessoas e
isso trouxe dados suficientes para que
se tivesse a certeza da morte, mas não
tinha o corpo. Desses 450 processos, nos
já julgamos 432, sobrando 28 para
serem julgados.
Vermelho - E os 135 casos que
deram início ao trabalho da comissão?
Augustinho Veit Todos
já foram julgados e indenizados.
Vermelho - Nenhum novo requerimento
pode ser feito?
Augustinho Veit - Só se
uma nova lei reabrir o prazo.
Vermelho E qual a situação
dos 28 restantes?
Augustinho Veit Esses
28 processos que ainda estão para
serem apreciados, a maioria são
pessoas que foram utilizados pelo Exército
na Guerrilha do Araguaia moradores,
mateiros, pessoas que moravam na região
e que eram capturados, praticamente forçados
pelo Exército para servirem de
guias, de informantes e para colaborarem
de outras formas com o Exército
brasileiro. Sem querer fazer julgamento,
mas eu conheço esses processos,
conheço esses requerimentos, lamentavelmente,
essas pessoas não serão
beneficiadas pela lei porque elas não
se enquadram. A lei diz que, para serem
reconhecidas, duas coisas são essenciais
- que tenha tido militância política
e que por essa motivação
política foram eliminadas pelo
governo brasileiro, através de
agentes públicos.
Vermelho A lei não
pensou esses casos?
Augustinho Veit Para alcançar
essas pessoas, seria preciso uma nova
lei, para beneficiar essas pessoas que
foram prejudicadas. Nós temos relatos
muito tristes de pessoas que foram torturadas
pessoas comuns, que nada tinham
a ver, que se negavam a colaborar com
o Exército, porque eram amigos
dos guerrilheiros, e por isso se negavam,
e eram torturadas. Nós temos depoimentos
de pessoas que foram castradas, mutiladas.
Tem pessoas vivas que sofrem as mazelas
da tortura. Por isso não podem
ser contempladas. Mas nós temos
em vários estados Rio Grande
Sul, Paraná, São Paulo,
Bahia - leis que indenizam pessoas que
foram torturadas. Leis que contemplam
essas pessoas vítimas da ditadura.
Eu acho que a gente podia criar lei semelhante
para que essas pessoas pudessem ser reconhecidas
como vítimas e pudessem receber
alguma forma de indenização
do Estado.
Vermelho Todos os 28 casos
são esses?
Augustinho Veit Todos
são mortos, mas não atendem
aopré-requisito essencial, que
á motivação política;
e outros são desaparecidos, mas
não há prova de que foi
agente do governo que as matou ou responsável
pelo desaparecimento. Essa prova é
muito difícil e isso tem que estar
claro no processo.
Vermelho No caso específico
do episódio da Guerrilha do Araguaia,
todos os envolvidos mortos e desaparecidos
já forma identificados?
Augustinho Veit Não.
Nós temos apenas uma pessoa identificada,
que é a Maria Lúcia Petit.
Todos os casos do Araguaia estão
incluídos nos 136, foram identificados
e as famílias indenizadas, o que
falta é localizar os restos mortais
e nesses casos nós temos algumas
complicações.
Vermelho Quantas expedições
forma feitas e quantas exumações
resultaram dessas expedições?
Augustinho Veit Três
uma em 1991, por iniciativa da
Comissão de Justiça e Paz,
de São Paulo; outra em 1996, que
foi procedida pela Comissão Especial
dos Mortos e Desaparecidos e outra, pela
Comissão de Direitos Humanos da
Câmara dos Deputados. Se não
me engano, foram feitas oito exumações.
Três pela Comissão Especial
e cinco que foram trazidas pelo deputado
Luiz Eduardo Greenhalg quando da expedição
da Câmara dos Deputados. Essas cinco
estão no IML de Brasília.
O relatório antropológico
já está dando conta de que
três dessas ossadas são duas
crianças e uma de pessoa do período
anterior ao da Guerrilha do Araguaia e
serão recolhidos ao cemitério
de novo.
Vermelho E a caso de Maria
Lúcia Petit?
Augustinho Veit - Foi fácil
porque a Rede Globo tinha uma foto antiga
da Maria Lúcia e ela aparecia com
as mesmas vestimentas que estavam enterradas
junto ao corpo dela. Ela foi enterrada
em um saco plástico e a roupa era
de náilon e permaneceu bastante
conservada, o que possibilitou a imediata
identificação.
De
Brasília
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