Veja a íntegra da entrevista
exclusiva concedira pelo presidente
do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ)
e publicada como matéria de capa
na edição desta segunda-feira
(6) pelo jornal Folha de S. Paulo:
Folha
- Na tribuna da Câmara, o sr. disse
ter sido procurado por pessoas que lhe
pediam para resolver pendências
nos Correios, que teria se recusado a
traficar influência e que interesses
contrariados estariam na origem da denúncia
da revista "Veja". Por que o
sr. não denunciou essas pessoas?
Roberto Jefferson - Não
se faz isso. Se você for denunciar
todo lobista que se aproxima de você,
vai viver denunciando lobista.
Folha - O consultor Arlindo Molina,
uma das pessoas que o procuraram para
tratar dos Correios, afirma que, ao contrário
do que o sr. disse no pronunciamento,
o conhece há anos. Essa versão
procede?
Jefferson - A entrevista dele
está completamente equivocada,
até nas datas. Eu o conheci em
março de 2005. Não é
verdade que nos conhecíamos antes
disso.
Folha
- O sr. fala em guerra comercial. Mas
não está em curso nos Correios,
também, uma guerra por espaço
entre os partidos?
Jefferson - Não. Mas eu
entendo o Fernando Bezerra [senador pelo
PTB e líder do governo no Congresso]
porque, na primeira matéria da
"Veja", está dito que
ele indicou o Ezequiel Ferreira para a
diretoria de Tecnologia dos Correios.
Mas o Ezequiel nunca assumiu. Por que
não mostraram quem está
no cargo, se 60% daquela fita [a que registra
a cobrança de propina] se refere
às operações da diretoria
de Tecnologia? Esconderam o atual, indicado
pelo Silvio Pereira [secretário-geral
do PT]. O Policarpo [Júnior, repórter
de "Veja"] protegeu o PT.
Folha
- Na contramão do que declarou
à PF, o ex-presidente do IRB Lídio
Duarte diz em gravação [divulgada
pela "Veja"] que, enquanto esteve
no cargo, foi pressionado a destinar mesada
de R$ 400 mil ao PTB. O que o sr. tem
a dizer?
Jefferson - É algo que
ele terá de esclarecer à
PF. Eu tenho dele uma carta em que ele
nega ter dado a entrevista. Em carta à
"Veja", disse que não
disse. Na PF, sob juramento, disse que
não disse. Quem tem de decidir
é a Justiça.
Conheci o doutor Lídio no princípio
de 2003, na casa do José Carlos
Martinez [presidente do PTB morto em outubro
daquele ano em acidente aéreo].
Sabendo que o PTB indicaria o presidente
do IRB, ele veio para se apresentar. Tive
excelente impressão.
Depois da morte do Martinez ele se distanciou
completamente do PTB. Por volta de agosto
de 2004, eu o chamei ao meu escritório
no Rio e disse: quero que você me
ajude, procurando essas empresas que trabalham
com o IRB, para fazerem doações
ao partido nesta eleição,
porque estamos em situação
muito difícil. Ele ficou de tentar.
Em setembro, ele voltou a mim e disse:
deputado, não consegui que as doações
sejam "por dentro", com recibo;
querem dar por fora, e isso eu não
quero fazer. Eu falei: então não
faça.
Na conversa, o Lídio avisou que
estava perto de se aposentar. Eu então
avisei que iniciaria um processo para
substituí-lo. Levei aos ministros
José Dirceu [Casa Civil] e Antonio
Palocci [Fazenda] o nome do doutor Murilo
Barbosa Lima, diretor técnico do
IRB. O nome ficou meses em aberto. A imprensa
começou a dizer que havia dossiê
contra ele. E o doutor Lídio, que
dissera que iria se aposentar, se agarra
com o doutor Luiz Eduardo de Lucena, que
é o diretor comercial indicado
pelo José Janene [líder
do PP na Câmara], para ficar na
presidência.
Aí se instala uma queda-de-braço
entre o PTB e o PP. O Palocci conversa
comigo e diz o seguinte: Roberto, vamos
fazer uma saída por cima. Nós
temos o diretor administrativo, um homem
de altíssimo gabarito, o Appolonio
Neto, sobrinho do Delfim Netto, fez um
dos melhores trabalhos de modernização
do IRB. A gente passa o Appolonio como
sendo do PTB, e ele sendo sobrinho do
Delfim, que é do PP, e a gente
resolve a situação. Eu falei:
não sou problema, está dada
a solução. O doutor Appolonio
foi uma indicação salomônica
do ministro Palocci.
Folha
- O sr. considera correta, legítima,
essa forma de partilha dos cargos do governo?
Jefferson - Você entrega
aos administradores dos partidos que compõem
o governo a administração
do governo. O PT tem participação
muito maior que a dos outros partidos
da base. Tem 20% da base e 80% dos cargos.
Mesmo o IRB: o PTB tem a presidência,
mas todos os cargos abaixo são
do PT. A Eletronorte: o presidente, doutor
Roberto Salmeron, é um dos melhores
quadros do PTB. Mas, de novo, toda estrutura
abaixo é do PT. O diretor mais
importante, o de Engenharia, é
o irmão do ministro Palocci. O
doutor Salmeron é uma espécie
de rainha da Inglaterra. A ministra [Dilma
Rousseff, das Minas e Energia] despacha
com o irmão do Palocci. Tudo isso
foi construído lá atrás,
com o Silvio Pereira, o negociador do
governo.
Folha
- Qual é a sua relação
com Henrique Brandão, da corretora
de seguros Assurê?
Jefferson - Pessoal. Meu amigo
fraterno há 30 anos. Era um homem
pobre. Por seu mérito, transformou-se
no maior corretor privado do Brasil. O
Henrique é grande há muito
tempo. Está em Furnas há
12, 15 anos.Folha - De volta à
gravação, o sr. rejeita
a afirmação de que Henrique
Brandão pedia contribuições
em seu nome no IRB?
Jefferson - Nunca foi feito tal pedido.
Volto a dizer: a única coisa que
houve foi um pedido, feito por mim ao
Lídio, de ajuda para o PTB na eleição.
E eu compreendi as razões de ele
não poder ajudar.
Eu quero contar um episódio. Na
véspera de eu fazer meu discurso
no plenário da Câmara, havia
uma apreensão muito grande dos
partidos da base, em especial o PL e o
PP, e do próprio governo.
Dez minutos antes de eu sair para falar
chega aqui, esbaforido, Pedro Corrêa
(PE), presidente do PP: "Bob, cuidado
com o que você vai falar. O governo
interceptou uma fita de você exigindo
do Lídio dinheiro para o PTB".
Eu dei um sorriso e disse: "Pedrinho,
se era essa a sua preocupação,
pode ficar tranqüilo, essa conversa
nunca existiu. Não sou assim, nem
o doutor Lídio é assim".
Aí ele rebateu: "Mas pode
ter sido seu genro [Marcus Vinícius
Ferreira]". Eu falei: "Meu genro
é um homem de bem. E eu vejo, Pedrinho,
que você não tem convicção
de fita nenhuma. Fica calmo que eu não
vou contar nada do que eu sei a respeito
de "mensalão'".
Folha
- E o que o sr. sabe?
Jefferson - Um pouco antes de
o Martinez morrer, ele me procurou e disse:
"Roberto, o Delúbio [Soares,
tesoureiro do PT] está fazendo
um esquema de mesada, um "mensalão",
para os parlamentares da base. O PP, o
PL, e quer que o PTB também receba.
R$ 30 mil para cada deputado. O que você
me diz disso?". Eu digo: "Sou
contra. Isso é coisa de Câmara
de Vereadores de quinta categoria. Vai
nos escravizar e vai nos desmoralizar".
O Martinez decidiu não aceitar
essa mesada que, segundo ele, o doutor
Delúbio já passava ao PP
e ao PL.
Morto o Martinez, o PTB elege como líder
na Câmara o deputado José
Múcio (PE). Final de dezembro,
início de janeiro, o doutor Delúbio
o procura: "O Roberto é um
homem difícil. Eu quero falar com
você. O PP e o PL têm uma
participação, uma mesada,
eu queria ver se vocês aceitam isso".
O Múcio respondeu que não
poderia tomar atitude sem falar com o
presidente do partido.
Aí reúnem-se os deputados
Bispo Rodrigues (PL-RJ), Valdemar Costa
Neto [SP, presidente do PL] e Pedro Henry
(PP-MT) para pressionar o Múcio:
"Que que é isso? Vocês
não vão receber? Que conversa
é essa? Vão dar uma de melhores
que a gente?". Aí o Múcio
voltou a mim. Eu respondi: "Isso
desmoraliza. Tenho 22 anos de mandato
e nunca vi isso acontecer no Congresso
Nacional".
Folha
- O sr. deu ciência dessas conversas
ao governo?
Jefferson - No princípio
de 2004, liguei para o ministro Walfrido
[Mares Guia, Turismo, PTB] e disse que
precisava relatar algo grave. Conversamos
num vôo para Belo Horizonte. "Walfrido,
está havendo essa história
de "mensalão"."
Contei desde o Martinez até as
últimas conversas. "Em hipótese
alguma. Eu não terei coragem de
olhar nos olhos do presidente Lula. Nós
não vamos aceitar."
E eu passei a viver uma brutal pressão.
Porque deputados do meu partido sabiam
que os deputados do PL e do PP recebiam.
As informações que eu tenho
são que o PMDB estava fora. Não
teve "mensalão" no PMDB.
Fui ao ministro Zé Dirceu, ainda
no início de 2004, e contei: "Está
havendo essa história de mensalão.
Alguns deputados do PTB estão me
cobrando. E eu não vou pegar. Não
tem jeito". O Zé deu um soco
na mesa: "O Delúbio está
errado. Isso não pode acontecer.
Eu falei para não fazer".
Eu pensei: vai acabar. Mas continuou.
Me lembro de uma ocasião em que
o Pedro Henry tentou cooptar dois deputados
do PTB oferecendo a eles "mensalão",
que ele recebia de repasse do doutor Delúbio.
E eu pedi ao deputado Iris Simões
(PTB-PR) que dissesse a ele: se fizer,
eu vou para a tribuna e denuncio. Morreu
o assunto.
Lá para junho eu fui ao Ciro Gomes.
Falei: "Ciro, vai dar uma zebra neste
governo. Tem um "mensalão".
Hoje eu sei que são R$ 3 mi, R$
1,5 mi de mensal para o PL e para o PP.
Isso vai explodir". O Ciro falou:
"Roberto, é muito dinheiro,
eu não acredito nisso".
Aí fui ao ministro Miro Teixeira,
nas Comunicações. Levei
comigo os deputados João Lyra (PTB-AL)
e José Múcio. Falei: "Conte
ao presidente Lula que está havendo
o "mensalão'". Nessa
época o presidente não nos
recebia. Falei isso ao Aldo Rebelo, que
então era líder do governo
na Câmara.
Folha
- A quem mais no governo o sr. denunciou
a situação?
Jefferson - Disse ao ministro
Palocci: "Tem isso e é uma
bomba". Fui informando a todos do
governo a respeito do "mensalão".
Me recordo inclusive de que, quando o
Miro Teixeira, depois de ser ministro,
deixou a liderança do governo na
Câmara, ele me chamou e falou: "Roberto,
eu vou denunciar o "mensalão".
Você me dá estofo?".
Eu falei: "Não posso fazer
isso. Vamos abortar esse negócio
sem jogar o governo no meio da rua. Vamos
falar com o presidente Lula que está
havendo isso". Me recordo até
que o Miro deu uma entrevista ao "Jornal
do Brasil" denunciando o "mensalão"
e depois voltou atrás.
No princípio deste ano, em duas
conversas com o presidente Lula, na presença
do ministro Walfrido, do líder
Arlindo Chinaglia, do ministro Aldo Rebelo,
do ministro José Dirceu, eu disse
ao presidente: "Presidente, o Delúbio
vai botar uma dinamite na sua cadeira.
Ele continua dando "mensalão"
aos deputados". "Que "mensalão'?,
perguntou o presidente. Aí eu expliquei
ao presidente.
Folha
- Qual foi a reação dele?
Jefferson - O presidente Lula
chorou. Falou: "Não é
possível isso". E chorou.
Eu falei: É possível sim,
presidente. Estava presente ainda o Gilberto
Carvalho [chefe-de-gabinete do presidente].
Toda a pressão que recebi neste
governo, como presidente do PTB, por dinheiro,
foi em função desse "mensalão",
que contaminou a base parlamentar. Tudo
o que você está vendo aí
nessa queda-de-braço é que
o "mensalão" tem que
passar para R$ 50 mil, R$ 60 mil. Essa
paralisia resulta da maldição
que é o "mensalão".
Folha
- Isso não existia também
no governo passado?
Jefferson - Nunca aconteceu.
Eu tenho 23 anos de mandato. Nunca antes
ouvi dizer que houvesse repasse mensal
para deputados federais por parte de membros
do partido do governo.
Folha
- O que, em sua opinião, levou
a essa situação?
Jefferson - É mais barato
pagar o exército mercenário
do que dividir o poder. É mais
fácil alugar um deputado do que
discutir um projeto de governo. É
por isso. Quem é pago não
pensa.
Folha
- O que fez o presidente Lula diante de
seu relato?
Jefferson - Depois disso [da
conversa] parou. Tenho certeza de que
parou, por isso está essa insatisfação
aí [na base parlamentar]. Ele meteu
o pé no breque. Eu vi ele muito
indignado.
Pressão, pressão, pressão,
pressão. Dinheiro, dinheiro, dinheiro,
dinheiro, todo mundo tem, todo mundo tem.
Acho que foi o maior erro que o Delúbio
cometeu.
E o presidente agora, desde janeiro, quando
soube, eu garanto a você [que o
"mensalão" foi suspenso].
A insatisfação está
brutal porque a mesada acabou.
Serenamente eu já tenho o caminho
traçado: não me preocupa
mais o mandato, não vou brigar
por ele. Só não vou sair
disso como um canalha, porque não
sou.
Fonte:
Folha de S. Paulo
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