|
Walter
Sorrentino
A proposta para o debate ao qual fui
convidado, ao que agradeço, é o de
entrelaçar o exame da crise do socialismo
com o pensamento de João Amazonas, e
examinar as conseqüências disso para o
pensamento estratégico do PCdoB.
Amazonas nos conclamou a superar a crise do
marxismo e do socialismo como uma tarefa
notável, maior desafio de nosso tempo. O
sentido que tem a crise do socialismo no seu
pensamento, após anos de reflexão e
elaboração sobre o tema, foi bem expresso no
8º Congresso, em 1992 e, sem dúvida, está na
base dos ulteriores sucessos do PCdoB em vir
enfrentando a crise e se fortalecer no
cenário político brasileiro.
O 8º Congresso e a crise do socialismo
O 8º Congresso fala de crise interior do
marxismo, que não é a primeira. Reporta-nos
à crise da II Internacional, da qual Lênin
emergiu como homem extraordinário de
pensamento e ação revolucionária,
desenvolvendo o marxismo para as condições
de seu tempo.
A análise da crise dos anos 89-91, que leva
ao fim dos Estados socialistas na URSS e
Leste Europeu, alcançando até a Albânia, tem
por ponto de partida os eventos de meados
dos anos 50, que se aprofundou com a
dominação revisionista desde Kruschev até
Gorbachev. Essa análise do 8º Congresso
envolveu fatores objetivos e subjetivos.
Não é crise de decadência, mas de
desenvolvimento do marxismo e do socialismo.
Reclama novos procedimentos científicos,
para a reelaboração da teoria da construção
do socialismo. Num determinado momento da
construção avançada do socialismo, com
Stalin e PCUS à frente, a vanguarda não
esteve à altura teórica de interpretar os
fenômenos novos que surgiam. A teoria
revolucionária se apresentava em fase de
estagnação, gerando um vazio e o descenso da
onda transformadora.
Esse enfoque do 8º Congresso apontava para
formular de maneira nova, a teoria
revolucionária, defendendo e desenvolvendo
os fundamentos marxistas, para uma teoria
atualizada que abarque os problemas do nosso
tempo. Estagnada como está a teoria não
poderá cumprir sua missão.
Portanto, a crise do marxismo e do
socialismo se resolve fundamentalmente no
campo teórico.
A consciência da crise foi se impondo
progressivamente: as perspectivas e impasses
das revoluções do último quarto do século
XX; a débâcle do Leste e ausência do campo
socialista como sistema de Estados; a
poderosa ofensiva ideológica do capital
financeiro, sob hegemonia norte-americana,
que perdura até hoje. Esse quadro impôs nova
realidade ao movimento transformador, de
defensiva estratégica, período de crise
ideológica, ao qual poderíamos agregar uma
crise programática e uma crise orgânica dos
partidos revolucionários.
O pensamento de Amazonas
João Amazonas foi o principal ideólogo do
Partido, homem de ação, político experiente,
com uma obra prática e ideológica saliente.
Seu pensamento foi elaborado na ação e para
a ação, e de certo modo se confunde com o
pensamento do PCdoB, de seus congressos.
Abarca várias dimensões – teórica,
ideológica, política, estratégica, tática,
internacionalista, de ação de massas. Devido
à sua formação marxista consolidada, esse
pensamento tem papel central no exame dessa
crise. Foi a alma da elaboração do 8º
Congresso, acima descrita.
Pode-se falar que há dois marcos essenciais
do pensamento e ação de Amazonas - 1962 e
1992. Um deriva do cisma histórico do
movimento comunista, de 1956, do qual
emergiu a reorganização do PCdoB; o outro,
deriva da confirmação de uma derrota
estratégica do movimento operário
revolucionário com a queda da URSS e do
leste europeu no fim dos anos 80. Para
Amazonas, a elaboração do diagnóstico da
crise do marxismo e do socialismo nasce com
as contendas ideológicas de meados dos anos
50, após a morte de Stálin. Não se
configurou em toda a inteireza, desde o
início, mas se acertou no atacado, e a vida
comprovou esse acerto. O tema abarca, assim,
décadas, e ainda está em curso, mostrando
quanto são prolongados tais combates.
O marco de 1962 tem Amazonas como
protagonista destacado. Ele fora
participante da célebre Conferência da
Mantiqueira, em 1943, que reorganizou o PCB
após as pesadas ofensivas da ditadura do
Estado Novo, e passa a integrar o
Secretariado Nacional. Vai fazendo suas
experiências e consolidando suas concepções.
No documento “50 anos de luta” (de 1972) ele
vai relatar a falta de estabilidade da
orientação política do PCB (direitismo em
45-46; esquerdismo do manifesto de agosto de
1950; certo artificialismo do Programa de
1954; direitismo escancarado do manifesto de
março de 1958), relacionando-a com o pouco
domínio do marxismo-leninismo. Faz curso na
URSS em 55-56, que julgou importante, embora
com críticas a seu esquematismo
pró-soviético. Lá presenciou in loco a
mudança da direção do PCUS, em prol de
Kruschev. Sistematizou, anos depois, sua
convicção da existência de um golpe nesse
processo, e a ausência de reação da classe
operária e do PCUS.
A reorganização do Partido Comunista do
Brasil em 1962 nasce do embate frente a
esses processos, e frente ao
nacional-reformismo oportunista que tomou de
assalto o PCB. Amazonas foi afastado da
direção, apodado como “stalinista”, passando
anos no RS e, após o 5º congresso, encabeça
com Grabois, Pomar e outros o Congresso
Extraordinário de reorganização do PCdoB em
1962.
Foram anos de intenso confronto ideológico,
nos quais se buscou desmascarar o
“revisionismo contemporâneo”, expresso nas
opiniões encabeçadas pelo PCUS – a
competição e coexistência entre capitalismo
e socialismo, e o caráter do Estado e do
Partido, “de todo o povo”. Registre-a aí a
coragem da frontalidade que caracterizou
Amazonas. O novo posicionamento tirou
conseqüências no campo internacionalista –
estabelecendo-se a ligação com China e
Albânia, primeiro, e depois o rompimento com
a China, face à teoria dos três mundos.
Construiu-se campo internacional do
marxismo-leninismo no combate
anti-revisionista.
Tal combate perdurou por quase 45 anos, nos
quais Amazonas amargou, junto com o PCdoB,
forte pressão pelo isolamento ideológico.
No plano da reflexão nacional, mantém-se o
pensamento de duas etapas estratégicas da
revolução brasileira, que vem da 3ª.
Internacional e da análise que se fazia da
realidade brasileira - o caráter nacional,
democrático, antiimperialista e anti-feudal
da revolução na primeira etapa, e socialista
na segunda. Esse relativo mecanicismo no
pensamento do Partido, com o tempo, cedeu
lugar a uma compreensão mais interligada das
duas etapas. Nova conclusão só vai ser
extraída nos marcos do aprofundamento da
crítica e autocrítica no 8º Congresso em
1992.
Com a Perestroika e avanço da crise do campo
socialista, relança-se em outro patamar
exame da crise do socialismo, preparando o
terreno do aprofundamento do exame da crise
do socialismo que está na base da
permanência e êxitos do PCdoB desde então.
Retrospectivamente, pode-se verificar método
de João Amazonas: esse foi um programa de
investigação e pesquisa, válido ainda hoje,
que esteve na base de toda sua produção até
1996-7. A teoria da traição dos dirigentes à
frente do PCUS era insuficiente. Tampouco
era suficiente bradar contra o stalinismo,
ou deixar de refutar as mentiras e calúnias
contra Stálin. A causa real era sim o
abandono da causa do socialismo, a longa
transição do socialismo ao capitalismo que
se processara na URSS, mas elas provieram de
erros reais na construção do socialismo na
URSS e no modelo único de socialismo que se
erigiu, com Stálin à frente. Eis aí o
enfrentamento de certa unilateralidade que
se verificara no combate – correto – ao
revisionismo.
Enfim, chegou-se àquela conclusão já
explanada do 8º Congresso – a teoria, ao não
ter respondido às exigências da evolução
social, entrou em crise”. De 1992 a 1998,
Amazonas vai dar curso ao seu programa de
investigação e extrair notáveis
contribuições teóricas. Circunscreva-se aqui
uma, absolutamente central: não há modelo
único de socialismo. Daí partiu a
re-descoberta de Lênin, a categoria da
transição ao socialismo, o papel do
capitalismo de Estado nessa transição. Essa
foi a pedra angular que permitiu a João
Amazonas descortinar os novos lineamentos do
Programa Socialista do PCdoB para o Brasil.
Seu programa de investigação findou pelo
exame da questão do Partido, à importância a
dar aos desvios de concepção do partido e
sua luta, que levvaram à degenerescência os
partidos de molde soviético. “O Partido é
força decisiva da revolução”, se ele
degenera, degenera a obra de construção da
nova sociedade. Afinal, o socialismo trata
do primeiro regime econômico e social
construído conscientemente, pela vontade
humana. Sem teoria revolucionária não há
edificação da nova sociedade.
As perspectivas
É preciso superar a crise no campo da
teoria, desenvolve-la criadoramente, renovar
o marxismo revolucionário; superar o
dogmatismo que empobrece a criatividade e a
dialética.
Socialismo não se firmará num golpe só – é
mais difícil e complexo, não linha reta; é
toda uma época de transição do capitalismo
ao socialismo, com diversas etapas e fases
intermediárias.
Não há modelo único de revolução e
edificação do socialismo – diversidade de
caminhos e modos na conquista do objetivo
comum. Nessa luta, patriotismo e
internacionalismo proletário se coadunam.
Não há nação soberana sem Estado Nacional
soberano.
A saída para o Brasil é o socialismo,
abordado em cada aproximação, não mais como
bandeira de propaganda, mas sim atuando no
curso dos acontecimentos políticos
cotidianos, lutando pela hegemonia do
proletariado revolucionário, forjando a luta
de amplas massas, e fortalecendo seu
partido, o PCdoB.
Socialismo não é perspectiva longínqua,
inacessível, mas sim exigência do
desenvolvimento histórico. Sua realização
vitoriosa depende da justa direção dos
comunistas, resulta da luta tenaz e
consciente das massas.
Esses são alguns dos ricos legados do
pensamento de Amazonas, que se confundem com
o próprio pensamento do PCdoB. Como ele
mesmo disse, em perspectiva: “Assim será o
século XXI – no início trevas, depois luz”.
O socialismo vive.
* Alguns pontos que foram desenvolvidos em
palestra no seminário sobre o pensamento de
João Amazonas, IMG/SP, 27 de maio de 2004
|