|
Augusto
César Buonicore*
“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são
bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso
são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores
ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida;
esses são os imprescindíveis."
Brecht
“Minhas cinzas devem ser
espalhadas na região do Araguaia, onde houve
a guerrilha. É uma forma de juntar-me aos
que lá tombaram.”
último pedido de João Amazonas
Há três anos (1), no dia 27 de maio, morreu João
Amazonas. Seu último pedido traduziria muito
bem a personalidade deste líder
revolucionário brasileiro. Não queria
monumentos em sua memória. Queria apenas que
suas cinzas se juntassem às cinzas dos
centenas de combatentes que tombaram na
gloriosa guerrilha do Araguaia, da qual ele
foi um dos principais idealizadores e
dirigente.
Amazonas foi o grande dirigente dos
comunistas brasileiros. Foi o seu ideólogo,
o seu estrategista maior. Infelizmente
Amazonas não viveu tempo suficiente para ver
mais uma vitória de sua elaboração tática.
Uma tática que propugnava pela necessidade
de constituição de uma ampla frente
política, tendo como núcleo a esquerda e
base as lutas populares, como forma de
derrotar o neoliberalismo e abrir caminho
para a construção de um novo projeto
democrático e nacional, que permitisse
acumular forças para avançarmos no sentido
da conquista de um socialismo renovado.
Por fim, a história de João Amazonas se
confunde com a história de luta do povo
brasileiro e de sua vanguarda
revolucionário: o Partido Comunista do
Brasil.
Uma história de luta
No dia primeiro de janeiro de 1912, em Belém
do Pará, nasceu João Amazonas de Souza
Pedroso. Filho de família modesta, desde
muito cedo se rebelou contra as péssimas
condições de vida e de trabalho que vivia
submetida a classe operária de sua cidade.
Após a revolução de 1930 enviou uma carta
indignada ao secretário do trabalho estadual
denunciando os abusos existentes na fábrica
onde trabalhava e exigindo a imediata
redução da jornada de trabalho.
João era também um jovem
bastante curioso e se interessava por tudo
que ocorria no mundo e no seu país. Um dia
caiu-lhe nas mão o livro Um engenheiro
brasileiro na URSS, seria o primeiro de
vários outros sobre a “pátria do
socialismo”. Ele começava a pressentir que
naquele distante país se estava construindo
um novo mundo, sem miséria e exploração. Mas
este ainda parecia-lhe um mundo bastante
distante, pois não tinha conhecimento da
existência de um partido comunista no
Brasil. Em breve, seu espírito indomado e
sua vontade de mudar o país e o mundo o
levaria a encontrá-lo.
Em 1935, quando tinha apenas 23 anos, num
domingo, após sair do trabalho, leu no
jornal uma pequena nota sobre a realização
de um comício da Aliança Nacional
Libertadora (ANL). Sem demora se dirigiu à
praça do Largo da Pólvora, onde se realizava
o evento. Os discursos inflamados defendendo
a soberania nacional, a reforma agrária e a
constituição de um poder popular empolgou os
ouvintes, inclusive João.
No dia seguinte ele se
apresentou na sede local da ANL para se
integrar ao movimento. O rapaz foi
imediatamente convidado para ingressar na
Juventude Comunista na qual passou a
militar. Poucos dias depois ingressava no
Partido Comunista do Brasil. Era o início de
uma relação que duraria mais de 67 anos.
A sua primeira tarefa
militante foi organizar uma célula na sua
empresa. Tarefa que realiza com sucesso. A
partir desse núcleo de comunistas ele partiu
para a organização de um sindicato da
categoria, outra tarefa bem sucedida. Em
seguida foi eleito delegado na União dos
Proletários de Belém. Este envolvimento lhe
acarretou a sua primeira prisão, que durou
apenas 15 dias.
Em novembro de 1935 ocorreu
o levante armado, dirigido pela ANL, que foi
rapidamente esmagado pelas forças
governamentais. Iniciava-se uma fase de
violenta perseguição aos comunistas. Apesar
da repressão, as atividades dos comunistas
não cessaram.
Em 19 de dezembro de 1935 o
jornal Folha do Norte anunciava: “Mãos
misteriosas içam, pela calada da noite, nos
mastros dos reservatórios da Lauro Sodré,
uma flâmula comunista com legendas
subversivas e ainda dispõem de tempo para
deixar inscrições do mesmo gênero nas
paredes do reservatório. O fato, notado
desde cedo pelo público atrai ao local
multidão de curiosos e provoca comentários
acalorados (...) A polícia procede a
investigação no sentido de apurar
responsabilidades”. O reservatório era o
ponto mais alto da cidade e nem mesmo o
corpo de bombeiros conseguiu retirar a faixa
colocada pelas “mãos misteriosas”.
Na faixa vermelha, assinada
pela ANL, podia se ler “Abaixo a pena de
morte” e nas paredes: “Viva Luís Carlos
Prestes – Viva ANL!”. A polícia política
ameaçou, prendeu os pobres dos vigias, mas
os verdadeiros culpados jamais foram
descobertos. Os responsáveis por tal
façanha, que agitou Belém, foram dois jovens
comunistas: João Amazonas e Pedro Pomar.
No início de 1936 a polícia
realizou novas prisões de ex-integrantes da
ANL. João e Pedro desta vez não escaparam.
Mas, mesmo na cadeia não deram sossego aos
seus opressores. Realizaram uma greve de
fome contra a má-alimentação servida aos
presos e aproveitaram o tempo para ministrar
aulas de marxismo-leninismo aos demais
companheiros. Depois de mais de um ano de
prisão, em junho de 1937, foram julgados e
absolvidos por falta de provas. Em novembro
ocorreu o golpe de Estado que implantou o
ditadura do Estado Novo. Amazonas e Pomar
entrariam na clandestinidade.
A Reorganização do Partido Comunista
Em 1940, novamente, uma onda de repressão se
abateu sobre os comunistas paraenses. Em 2
de setembro foi preso Pedro Pomar e em 10 de
setembro foi a vez de João Amazonas, dois
dos principais dirigentes do Partido no
Pará. Assim o jornal Folha do Norte anunciou
a sua prisão: “Fisgado mais um adepto do
credo sinistro”. O artigo afirmava: “No
inquérito, a Delegacia de Ordem Política e
Social apurou ‘que João Amazonas agia no
preparo de matrizes e boletins subversivos
da propaganda moscovita, matrizes que eram
entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há
dias passados. Este se encarregava de
mimeografá-los em grande quantidade para
espalhar sorrateiramente pelos bairros da
cidade. Pouquinhos mas teimosos os adeptos
do credo sinistro. A polícia todavia os vai
fisgando eficientemente”.
Em junho de 1941 as tropas
nazistas iniciaram a ocupação do território
soviético e o governo Vargas demonstrava,
cada vez mais, simpatias pelos regimes
nazi-fascistas. A situação era muito difícil
para as forças progressistas no Brasil. Logo
após receberem a notícia da invasão nazista,
os comunistas João Amazonas, Pedro Pomar,
Agostinho de Oliveira, Felipe Santiago entre
outros, realizaram uma ousada fuga da
prisão. A fuga se deu na noite chuvosa de 5
de agosto de 1941. Afirmou Amazonas: “Na
prisão, recebemos a notícia da invasão da
União Soviética pela Alemanha hitlerista.
Nossa indignação foi enorme. Reunimos, nesse
mesmo dia, e juramos sair da prisão para
continuar a luta de vida e morte contra o
nazismo”.
Depois de sua fuga Amazonas
e Pomar fizeram uma difícil viagem até o Rio
de Janeiro. Procurados pela polícia do
Estado Novo foram obrigados a fazer uma rota
cheia de dificuldades pelo interior do país,
passando por Marabá e Anápolis. Chegando ao
Rio, em setembro de 1941, passaram a
integrar o esforço de reorganização do
Partido, cuja direção havia sido dizimada
pela ditadura estadonovista. Entraram em
contato com a Comissão Nacional de
Organização Provisória (CNOP), dirigida por
Maurício Grabóis e Amarílio Vasconcelos. Em
seguida contataram com Diógenes Arruda, que
tentava organizar o Partido em São Paulo.
Nos fins de 1941 Amazonas
foi a Minas Gerais onde ficou até 1943.
Depois seguiu para o sul do país. Esteve no
Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
Sua grande missão era reorganizar o Partido
Comunista nesses Estado, criando as
condições para a realização da conferência
que iria reorganizar o Partido Comunista do
Brasil.
A 2ª Conferência Nacional do
PCB, que ficou conhecida como “Conferência
da Mantiqueira”, realizou-se em agosto de
1943 na mais completa clandestinidade.
Segundo Dinarco Reis, a reunião “foi
realizada numa pequena cafua de telha-vã e
chão de terra, com sala, quarto e cozinha,
local bastante exíguo para tantas pessoas
(...) Dormíamos no chão de terra forrado por
sacos e jornais. A noite o frio castigava
duramente, pois era inverno nessa região
bastante alta”. Mas o esforço daqueles
bravos comunistas valeria a pena.
Nesta Conferência João
Amazonas foi eleito membro do Comitê Central
e passou a compor a comissão executiva e o
secretariado, ficando responsável pelo
trabalho sindical e de massas. Nesta
condição foi um dos organizadores do
Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT),
em 1945. Em dezembro do mesmo ano se elegeu
deputado federal constituinte com 18.379
votos, uma das maiores votações do Distrito
Federal.
Na assembléia nacional
constituinte destacou-se na defesa do
direitos sociais do trabalhadores e da
liberdade sindical. Por sua ação decidida em
defesa da democracia, da soberania nacional
e dos direitos sociais dos trabalhadores, os
deputados eleitos pela legenda do PCB foram
cassados em janeiro de 1948. Após a cassação
dos mandatos comunistas João Amazonas e os
demais membros da comissão executiva do
Partido caem na clandestinidade.
João Amazonas, ao lado de
Arruda e Grabois, assumiram as principais
responsabilidades da direção cotidiana do
Partido nos difíceis anos do governo Dutra,
no qual dezenas de comunistas foram
assassinados. Prestes vivia isolado e não
cuidava efetivamente do trabalho de direção
e de organização partidária.
No IV Congresso do PCB,
realizado em novembro de 1954, coube a João
Amazonas apresentar o informe sobre as
alterações dos estatutos do Partido. Um ano
antes, em 1953, Amazonas esteve na União
Soviética à frente de um grupo de cerca de
quarenta comunistas que fariam um curso de
marxismo-leninismo na Escola Superior do
Comitê Central do PCUS.
A luta contra o revisionismo
A partir da segunda metade de 1950 ele
participou ativamente da luta contra o surto
revisionista-reformista que atingiu o
Partido após o XX Congresso do PCUS, em
1956. Em 1957, por suas posições contrárias
às teses reformistas que vinham ganhando
corpo no interior da direção do Partido,
João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes
Arruda, Sérgio Holmos e Pedro Pomar foram
destituídos da comissão executiva e do
secretariado do Comitê Central.
Esses afastamentos foram
necessários para que se conseguisse uma
tranqüila maioria, o que permitiu aprovar as
teses reformistas e mudar o rumo político do
Partido. No início de 1958, numa reunião do
Comitê Central, João Amazonas e Maurício
Grabois foram os únicos a votar contra o
documento que ficaria conhecido como
Declaração de Março e que fora elaborado por
uma comissão “ultra-secreta”, criada pelo
próprio secretário-geral.
Este documento consolidou a
guinada à direita do PCB. Entre outras
coisas apregoava a possibilidade da
transição pacífica do capitalismo ao
socialismo no Brasil. Começava, assim, a se
definir nitidamente duas tendências no
interior do Partido: uma reformista e outra
revolucionária. Estas duas tendências
opostas iriam se enfrentar duramente nos
debates preparatórios do V Congresso do
PCB.
Graças ao domínio que tinha
sobre a máquina partidária, a influência de
Prestes, e o apoio recebido do PCUS, a
corrente reformista ganhou o Congresso e
conseguiu aprovar as suas teses. O Congresso
também decidiu pelo afastamento de João
Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda
e Orlando Pioto do Comitê Central do
Partido. Os reformistas, então, tomaram a
iniciativa.
Em 11 de agosto de 1961 o
jornal Novos Rumos, órgão oficial do PCB,
publicou um novo programa e estatuto que,
segundo a comissão executiva, deveriam ser
registrados no Tribunal Superior Eleitoral
visando à legalização do partido. Entre as
propostas de alteração incluía-se a mudança
do nome da organização, que passaria a se
chamar Partido Comunista Brasileiro. O novo
programa apresentado era ainda mais atrasado
do que a Declaração de Março e as Resoluções
do V Congresso. Dos estatutos retirava-se
qualquer referência ao internacionalismo
proletário e ao marxismo-leninismo. Esta foi
a gota d'água...
A resposta da corrente
revolucionária foi imediata. Foi enviada uma
carta ao Comitê Central, assinada por cem
comunistas, criticando os desvios de direita
e exigindo que se retirassem os documentos
ou se convocasse um novo congresso para
discutir a mudança do nome e as modificações
no programa e nos estatutos do Partido.
Segundo a Carta, “as mudanças feitas no
nome, no Programa e nos Estatutos (...)
objetivam o registro de um novo partido e,
por isso, se suprime tudo o que possa ser
identificado com o Partido Comunista do
Brasil, de tão gloriosa tradições (...) os
militantes (...) não aceitarão que se
liquide o velho Partido, e a ele
permanecerão fiéis, mantendo bem alta a
bandeira de suas melhores tradições”.
No final de 1961 a direção
do PCB expulsou Amazonas, Pomar, Grabois,
Ângelo Arroyo, Carlos Danielli, Calil Chade,
José Maria Cavalcante, entre outros. Diante
da impossibilidade, por vias da democracia
partidária, de mudar os rumos que tomava a
direção do PCB, os membros da corrente
revolucionária resolveram dar o passo
decisivo no sentido de romper com os
reformistas e reorganizar o Partido
Comunista do Brasil. João Amazonas, como em
1943, estava novamente à frente desse
esforço.
Em fevereiro de 1962
realizou-se a V Conferência
(extraordinária) do Partido Comunista do
Brasil. Nela aprovou-se um
manifesto-programa no qual se reafirmaram as
teses revolucionárias e os princípios
marxista-leninistas. O PC do Brasil seria o
primeiro partido fora do poder a romper com
a linha política reformista imposta pela
direção do PCUS. A Conferência resolveu
também reeditar o jornal A Classe
Operária.
A cisão dos comunistas
brasileiros teve implicações internacionais.
Em 14 de julho o próprio Comitê Central do
PCUS publicou uma carta-aberta contra a
direção do PC Chinês, e nela citava
nominalmente os dirigentes comunistas
brasileiros João Amazonas e Maurício Grabois,
apontando-os como membros de um grupo
antipartido. O PCUS responsabilizava o PC
da China pela divisão do movimento comunista
brasileiro. Em 27 de julho a direção do PC
do Brasil respondeu com um contundente
documento intitulado Resposta a Kruschev.
O rompimento com a direção
do PCUS, principal partido comunista do
mundo, e com a maioria reformista da direção
do PCB, apoiada por Luís Carlos Prestes,
mostrava bem a ousadia desses
revolucionários fieis a seus princípios.
Foram muitos os que afirmaram que esta
pequena organização não teria futuro e que
teria sido uma obra de loucos. A
conjuntura, amplamente favorável à
proliferação de ilusões reformistas, parecia
confirmar tais opiniões.
Mas a história, implacável,
construiria um outro caminho para além do
senso comum e das aparências. O golpe
militar de 1964 representou uma derrota das
teses reformistas do PC brasileiro, que
entrou em processo de desagregação interna,
e confirmou muitas das teses defendidas por
João Amazonas e seus camaradas do PC do
Brasil.
Amazonas então se projetou
como um dos principais dirigentes de uma
nova corrente do movimento comunista
internacional, corrente que se opunha ao
chamado revisionismo soviético. Depois de
1962 defenderia o estreitamento dos laços
políticos entre os comunistas brasileiros e
o Partido Comunista da China, dirigido por
Mao Tsetung e com o Partido do Trabalho da
Albânia, dirigido por Enver Hodja.
Esteve em Cuba, com Maurício
Grabois, quando da reorganização do Partido
em 1962. Esteve na China por três vezes: no
início de 1963, na companhia de Lincoln Oest,
quando foi recebido pessoalmente por Mao Tsetung e juntos discutiram a situação
brasileira e mundial; em 1967, no auge da
Revolução Cultural, a qual apoiou
criticamente e no final de 1976. Nesta
última viagem Amazonas apresentou os pontos
de vista do PCdoB sobre a situação
internacional, especialmente sobre a teoria
dos três mundos e o papel do imperialismo
norte-americano, opiniões que divergiam
frontalmente das posições oficiais do PC
Chinês. A visita acabou consolidando o
rompimento entre estes dois partidos.
Rompimento que duraria até o início da
década de 90.
Ele também esteve na Albânia
por diversas vezes e lá estabeleceu laços
fraternais com os dirigentes comunistas
albaneses, especialmente Enver Hodja. Ficou
ao lado deste na polêmica com os soviéticos,
no início da década de 60, e depois na
polêmica com os chineses já na segunda
metade da década de 70.
Combatendo a Ditadura Militar
Entre 1968 e 1972, Amazonas participou
ativamente da organização da guerrilha do
Araguaia, o principal movimento de
contestação armada ao regime militar. No
final de fevereiro de 1972 ele se vê
obrigado a sair da região para participar da
reunião do Comitê Central na qual se
debateria o documento Cinqüenta anos de
luta e se comemoraria este importante
acontecimento (os 50º aniversário do PCdoB).
Grabois e Arroyo permaneceram na região,
seguindo os critérios de revezamento dos
membros do secretariado do Partido. Amazonas
estava voltando para a região quando a
ofensiva do exército já havia começado e foi
alertado por Elza Monnerat que voltara alguns
dias antes e também não pudera entrar na
região. Os caminhos de sua reintegração
à guerrilha estavam fechados.
A eclosão da guerrilha levou
a um aumento, sem precedente, das
perseguições aos dirigentes do PCdoB. Entre
o final de 1972 e início de 1973 foram
presos, barbaramente torturados e
assassinados três membros efetivos do Comitê
Central Carlos Danielli, Lincoln Oest e Luís
Guilhardini e o candidato a membro do Comitê
Central
Lincoln Roque.
Estava apenas começando a
operação visando eliminar a direção do
partido que promovia a Guerrilha do
Araguaia. Na manhã do dia 16 de dezembro de
1976 desenrolou-se o último ato da tragédia
arquitetada pelos militares.
A casa na qual havia se
realizado uma reunião do CC é cercada e
metralhada pela repressão. Neste dia foram
friamente assassinados Ângelo Arroyo e Pedro
Pomar. Eles estavam desarmados e não foi
lhes dada nenhuma chance de defesa. Nesta
operação morreria sob torturas João Batista
Drummond. Cerca de uma dezena de dirigentes
comunistas também foram presos e torturados.
Quando da chacina da Lapa,
João Amazonas estava representando o Partido
no exterior e foi na China que recebeu a
notícia do trágico acontecimento. Esta
viagem o salvou novamente da morte. Pois
esta operação, comandada pelo II Exército,
tinha como um dos objetivos a eliminação do
secretário-geral do PCdoB. Em entrevista à
revista ISTO É o general Dilermando
Monteiro, então comandante do II Exército,
afirmou: "Nós descobrimos que naquele dia
iria haver uma reunião em tal lugar, com a
presença de tais e tais elementos, e aí
fomos um pouco embromados, porque constava
para nós que o João Amazonas estaria
presente e o mesmo estava na Albânia, mas
para nós ele estaria presente naquela
reunião".
Amazonas foi sempre um
opositor radical da ditadura militar e por
isso mesmo foi odiado por ela. Nas selvas do
Araguaia, procurando organizar a guerra
popular, nos palanques da campanha das
diretas já! ou nas articulações que levaram
à escolha de um candidato único das
oposições, para derrotar o candidato da
ditadura no colégio eleitoral, lá estava o
velho Amazonas. Sabendo articular amplitude
e radicalidade, sem nunca perder o rumo.
Afirmava ele: “O curso
político independe da vontade de uns poucos.
Forja-se objetivamente (...) Quem propugna
por objetivos maiores tem de inserir-se no
curso real, e nele atuar com amplitude,
levando sempre em conta a correlação de
forças existentes, afim de fixar metas
viáveis que aproximem a vitória definitiva
da causa do povo”.
Unindo o povo contra o neoliberalismo
Amazonas foi um ardoroso defensor da unidade
das forças progressistas e um dos artífices
da Frente Brasil Popular em 1989.
Compreendeu que a derrota de Lula e a
vitória de Collor tinham aberto uma nova
página na luta do povo brasileiro. A luta
contra o neoliberalismo passou a adquirir
centralidade na tática e na estratégia das
forças democrática, populares e
revolucionárias. O PCdoB, com Amazonas à
frente, defendeu a palavra-de-ordem Fora
Collor! Que empolgou a juventude brasileira e
levou ao impedimento do presidente da
República.
Mas a derrota de Collor não
representou a derrota definitiva do
neoliberalismo em nosso país. Com a vitória
de FHC, o projeto recobra o seu fôlego.
Amazonas defendeu então a formação de uma
ampla frente oposicionista, que tivesse como
núcleo as forças de esquerda. Uma frente que
se constituísse através de um programa
nacional e democrático que apontasse para
superação do neoliberalismo e se sustasse
num amplo movimento de massas. Esta posição
estará presente na resolução política do 9º
Congresso e será retomada e desenvolvida nas
resoluções do 10° Congresso do PCdoB.
No entanto, as suas
contribuições políticas e teóricas não se
reduzem apenas ao Brasil. Desde o final da
década de 80 João Amazonas foi um dos poucos
que se colocou contra a política adotada por
Gorbachev, denunciando-a como uma via de
retorno da URSS ao capitalismo de mercado. O
que propunham os líderes soviético não era
renovar o socialismo, depurando-o de seus
erros e deformações, e sim de destruí-lo.
Após a débâcle final Amazonas conclamou que
a esquerda revolucionária realizasse um
profundo balanço crítico dessas
experiências. Refletisse sobre as derrotas,
mas sem capitular. Não fizesse concessões de
princípios à maré social-democratizante que
estava levando ao aniquilamento vários
partidos tidos como comunistas.
Era preciso reconhecer a
crise e lutar para superá-la, reafirmando e
atualizando o marxismo e o leninismo, sem
dogmas. Amazonas, de maneira ousada, propôs
a unidade das diversas organizações que
ainda reafirmavam a sua identidade
comunista. Diante da ofensiva mundial do
imperialismo era preciso vencer o sectarismo
e construir a unidade sobre novas bases.
Esta seria mais uma de suas importantes
contribuições para reorganização do
movimento comunista internacional.
Um homem imprescindível
Portanto, João Amazonas conduziu o Partido
Comunista do Brasil em meio ao mar
turbulento das lutas ideológicas, contra
adversários bem mais fortes, que pareciam
invencíveis. O seu pequeno PCdoB venceu
estas lutas e se consolidou. O Partido,
dirigido por Amazonas, passou por outras
provas de fogo. Enfrentou a ditadura
militar, que ceifou a vida de mais de uma
centena de militantes; enfrentou a crise das
experiências socialistas, que desbaratou
várias organizações ditas comunistas; e, por
fim, enfrentou com coragem e firmeza os dez
anos de ofensiva neoliberal no Brasil. O
PCdoB não só sobreviveu, o que já seria uma
grande coisa, mas se desenvolveu e se
constituiu numa força respeitada no cenário
político nacional e mesmo dentro do
movimento comunista internacional, que
começava a se rearticular depois do vendaval
neoliberal.
Aos 90 anos de idade e 59
anos de dedicação integral ao trabalho de
direção do Partido, Amazonas pediu para que
seus camaradas não mais o indicassem para a
função de presidente do PCdoB. Afirmou ele:
“no Partido não existem cargos vitalícios.
Escapei de perseguições, sobrevivi (...)
Creio que cumpri meu papel (...) Dentro de
algumas semanas, vou completar nove décadas
de vida. Uma vida difícil, que levou a um
grande desgaste físico. Proponho a minha
substituição e apoio a eleição de Renato
Rabelo como novo presidente do Partido” e
conclui: “não penso em aposentadoria. Espero
morrer na minha posição de luta, no meu
posto de trabalho (...) Até o último de meus
dias, serei militante do Partido Comunista
do Brasil”.
A nova direção nacional do
PCdoB aceitou parcialmente o seu pedido
retirando-lhe a função de presidente e
elegendo em seu lugar Renato Rabelo. No
entanto, com a aprovação unânime dos
delegados presentes ao 10º Congresso,
indicou-o para a presidência de honra do
Partido. Título mais do que merecido para um
homem que dedicou sua vida inteira à luta
pelos ideais socialistas e à defesa de seu
partido. Um homem que não temeu a prisão, a
tortura, o exílio e a própria morte.
João Amazonas foi muito mais
do que o presidente de honra de um partido
político revolucionário, ele foi uma
legenda, um símbolo vivo do espírito de luta
do povo brasileiro. Um exemplo de comunista
e de brasileiro. Por tudo isso, como afirmou
Brecht, compõe as fileiras dos homens
imprescindíveis.
Nota:
1) Adaptação de um artigo escrito por
ocasião da comemoração dos 90 anos de João
Amazonas em janeiro de 2002.
*Augusto César Buonicore é historiador,
doutorando em Ciência Sociais pela Unicamp,
membro do Comitê Central do PCdoB e do
conselho editorial das revistas Debate
Sindical e Princípios.
|