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Brasil, domingo, 12 de outubro de 2008

16 de maio de 2005

OPINIÃO
O "Não" francês no referendo
abre perspectivas para a Europa
Campanha pelo "Não" em Anglet, sudoeste da França

Por Daniel Cirera*

A perspectiva de uma vitória do "Não" no referendo sobre o Tratado Constitucional (a Constituição da União Européia) na França, marcado para o próximo dia 29, relançou o debate no conjunto dos países europeus. Na esquerda, ela ampliou consideravelmente o espaço de discussão sobre o conteúdo liberal dO tratado e sobre a possibilidade de abrir concertadamente uma nova perspectiva.

A imprensa francesa repercute esse debate. La Tribune empregou o título "O 'Não' francês progride na Europa", observando que, "contrariamente ao que pretende a direção do Partido Socialista (que embora dividido optou pelo "Sim"), esta já não é mais uma especificidade francesa". A questão da possibilidade ou da necessidade de um novo Tratado tornou-se um dos temas da campanha para o referendo na França, especialmente, mas não unicamente, para o eleitorado de esquerda que ainda hesita.

É sabido que as principais forças políticas na Europa e a CES (Confederação Européia de Sindicatos) se pronunciaram a favor do Tratado. Mas o "Não" francês estimulou um "Não progressista", que atinge o conjunto das forças de esquerda, e das organizações sindicais, para além das posições afirmadas por seus dirigentes. L'Humanité (diário comunista francês) noticiou e deu a palavra a importantes personalidades européias, dos movimentos sociais mas também da social-democracia que não hesitam em manifestar seu apoio ao "Não".

Uma diversidade de situações

Caso se examine mais de perto a situação, constata-se uma grande diversidade. Depende de se haverá ou não referendo (apenas nove dos 25 países da UE optaram pela consulta às urnas; os outros preferiram deixar que seus Parlamentos decidam); e depende sobretudo da correlação das forças políticas.

Alemanha

A situação está longe de ser tão homogênea como é geralmente apresentada. A ausência de referendo e o consenso das forças políticas dominantes esmagou o debate público. Além do PDS (Partido do Socialismo Democrático, continuador do PC), a Attac (ONG antineoliBeral) e importantes organizações sociais, pacifistas e de cidadania, cuja inserção no país é conhecida, fazem campanha contra o Tratado. São significativos também os posicionamentos de personalidades sindicais e social-democráticas - como Horst Schmitthenner do l'IG-Metall (o poderoso sindicato nacional dos metalúrgicos) ou Oscar Lafontaine, ou no quadro do novo partido fundado no oeste do país.

Bélgica
É um caso interess
ante, com tomadas de posição muito firmes de dirigentes do PS como Maurice Dehousse, ou de sindicalistas como Georges Debunne, ex-presidente da CES. Um apelo em favor de um "Não de combate", com apoio do Attac, explica que "Dizer 'Não' ao Tratado Constitucional é um primeiro passo, um passo necessário para traduzir em atos o lema 'Agora a Europa Social!'". As grandes centrais sindicais, CSC e FGTB, expressaram sérias reservas sobre o Tratado.

Holanda,
Também deve ser acompanhada com atenção, devido à possibilidade de rejeição do Tratado, em seguida ao referendo francês. O "Não" nesse país expressa uma inquietação face ao questionamento de um certo modelo social. Nesse contexto, a rediscussão do Tratado será também uma oportunidade para forças de esquerda, como o Partido Socialista dos Países Baixos, intervirem no debate como estão fazendo.

Suécia
Um debate extremamente tensionado está em curso no seio do Partido Social-Democrata, em torno da questão de fazer um referendo e com base no temos da contestação do Estado-Previdência. A maior parte da população e dos filiados ao Partido Social-Democrata, assim como a central sindical LO querem um referendo, tal como o Partido de Esquerda (comunista) e os Verdes, que defendem o "Não".

Grécia
Antes da ratificação pelo Parlamento, por enorme maioria, o Partido Comunista, o Synaspismos, ambos opostos ao Trado, e mesmo o Pasok, embora favorável, haviam pedido um referendo — recusado pela maioria parlamentar de direita.

Polônia
Dos países de ampliação da UE na Europa Central e Oriental, é um onde o "Não" pode vencer apoiado em um recuo nacionalista, com uma fortíssima ofensiva dos setores da direita conservadora ou mesmo reacionária. As eleições devem acontecer neste outono (europeu).

República Checa
Em contraste, o peso do PC (PCBM), que fez uma campanha muito ativa contra o Tratado, bem como a oposição de uma parte dos conservadores, fazem desse país um elemento-chave para a ratificação da Constituição - a tal ponto que a decisão de fazer um referendo ainda não foi tomada.

Portugal
O referendo está previsto para o outono. O PCP e o Bloco de Esquerda fazem campanha pelo "Não". A influente central sindical CGTP-IN, sem chamar oficialmente ao "Não", critica fortemente o Tratado.

Grã-Bretanha
São conhecidas as especificidades do país em assuntos europeus. A atitude face ao referendo, previsto para 2006, será influenciada pelo resultado na França. No Partido Trabalhista, uma dezena de deputados se pronunciaram contra a Constituição. A esquerda dos trabalhistas, sensível à idéia de que um novo Tratado poderia ser ainda mais liberal, estaria sem dúvida disponível para examinar o conteúdo de uma renegociação no caso de vitória do "Não" na França. Haverá a oposição de muitos sindicatos da central TUC, em bases antiliberais, bem como dos Verdes, contra a Constituição "para salvar a Europa".

A dinâmica do "Não" francês

É preciso portanto analisar a situação em uma dinâmica onde a rejeição do Tratado Constitucional é possível, em um país como a França, sem dúvida trazendo consigo outros países, constrangendo a rediscussão do conteúdo do Tratado, muito para além daqueles que hoje fazem a campanha do "Não". Em países como a Espanha, a Itália, a maioria deles, o "Não" francês relançaria a esquerda a um novo nível de debate. Na própria CES a discussão seria reaberta.

É nesta dinâmica que é preciso situar o referendo francês, vendo-o em perspectiva e com o dado, reconhecido por todos, de que são os eleitores de esquerda que encabeçam majoritariamente o "Não".

A questão, portanto, não se coloca apenas para aqueles que se opõem ao Tratado hoje, mas para todos que não se satisfazem com o compromisso social-liberal e que, em diversas medidas, desejam mudanças políticas à esquerda, a partir da experiência e em nome da Europa Social.

A política de defesa e a nova alta dos gastos militares suscitam numerosos debates, especialmente à luz da Guerra do Iraque e da política americana. O vínculo institucionalizado com a Otan (previsto no Tratado) choca em particular países como a Suéwcia, a Irlanda, a Finlândia e a Áustria, apegados a sua neutralidade.

Vê-se portanto que os fundamentos de uma renegociação com base no progresso social existem. Eles deixam mais visível a dimensão européia da oposição dos franceses ao Tratado Constitucional; e chamam a que se tome sem muita demora iniciativas abertas, com base na realidade de movimentos e de aspirações que irão se exprimir sob formas muito diversificadas.

* Secretário de Relações
Internacionais do Partido
Comunista Francês

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