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Brasil, terça-feira, 7 de outubro de 2008

15 de maio de 2005

DECLARAÇÃO

4º Encontro de Luta contra a Alca: batalha não terminou e se trava na América Central
 

Leia a seguir a declaração final do evento que reuniu mais de 800 participantes em Havana que defende uma ampliação do foco de ação dos movimentos contra a Alca, neste momento vista como "enterrada", mas que na verdade vem sendo semeada por acordos bilaterais e sub-regionais entre o governo dos EUA e os países da América Central através de Tratados de Livre Comércio (TLCs). Movimentos sociais chamam ao fortalecimento da resistência às investidas do Império através da integração.

Leia a seguir a íntegra do documento*:

A todos os povos de nossa América

Em primeiro de janeiro deste ano o mundo amanheceu sem que a Organização Mundial de Comércio (OMC) adquirisse novos poderes sobre o destino do planeta e nosso continente despertou sem a calamidade de uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), como a tinham planejado e com que pretendiam nos impor as grandes corporações transnacionais, o governo dos Estados Unidos e seus governos subordinados na região.

Quem sabe não foi valorizado o suficiente o significado deste tropeço para os planos imperiais e que pode deter, ao menos até agora, estas verdadeiras ameaças para todos os povos da América. Isso foi possível pela emergência na região dos governos que se distanciam da hegemonia norte-americana e, sobretudo, porque estes mesmos se devem à crescente resistência e ao impulso do movimento social que se estende incontrolável por toda a América Latina, frustrando os projetos dos poderosos. Depois de anos de luta contra o projeto da Alca celebramos aqui, em Cuba, Território Livre de América, esta primeira vitória.

Mas o império não dorme. A praga do mal chamado “livre comércio” —– essa divisa da globalização neoliberal que busca abrir nossos países ao saque indiscriminado e lhes nega seu direito ao desenvolvimento — expande-se por todas as partes e em todas as formas possíveis. Desde que em Cancun foram desencadeadas as negociações da OMC, as grandes potências vêm trabalhando para impor suas regras e seus interesses em aspectos vitais para a humanidade, como a agricultura, a biodiversidade e os serviços básicos para a educação, a saúde e a segurança social.

No próximo mês de dezembro, a OMC terá uma nova cúpula em Hong Kong. Aí tentará selar as negociações que excluem e atentam contra os povos do mundo. Não permitamos! Devemos começar a lutar novamente em escala global para frustrar essas negociações, para impedir que a OMC adquira mais poderes, para deter a agenda corporativa. Além disso, acompanhando a partir do continente àqueles que se mobilizam em todo o mundo contra a OMC, lutando em Hong Kong como fizemos antes em Cancun.

Tampouco podemos dizer ainda que a vitória sobre a Alca é definitiva. As negociações da Alca podem estar enroladas, congeladas, mas a Alca não morreu. Os Estados Unidos podem tentar reviver esse “cadáver” a qualquer momento, especialmente se não conseguirem avançar seus interesses em tudo o que desejam nos cenários globais ou bilaterais. Mas ainda se conseguirem, os Estados Unidos não renunciarão tão facilmente ao seu objetivo estratégico de colocarem as peças do quebra-cabeças de sua dominação no marco de uma só área hemisférica sob sua hegemonia. Devemos nos manter vigilantes e mobilizados continentalmente contra a Alca e exigir dos governos que se julgam dignos e independentes a não cederem às pressões norte-americanas e não colocarem em jogo, até mesmo com mediações, o futuro e o direito ao desenvolvimento de nossas nações.

Tratado de Livre Comércio

Mas o cenário mais grave que enfrentamos se encontra atualmente na América Central, Caribe e região andina. Ao verem frustrado o projeto original da Alca, os Estados Unidos giraram imediatamente sua estratégia para avançarem pela via de ações em tratados bilaterais ou sub-regionais de livre comércio. A tese é de que se a maior parte do continente está sob tratados de livre comércio com os Estados Unidos, o advento da Alca será somente um trâmite, ou os países que resistirem ficarão isolados.

Assim, os Estados Unidos têm se dedicado a pressionar os países centro-americanos e a República Dominicana no Caribe, assim como os países andinos, para que se submetam a tratados de livre comércio leoninos, injustos, depredadores, que os subordinem definitivamente aos interesses das grandes corporações norte-americanas e cancelem para sempre suas possibilidades de desenvolvimento independente. A América Central e a República Dominicana representam o passo seguinte à consolidação por parte do império. Falta a ratificação de Costa Rica, Nicarágua, República Dominicana e do próprio Congresso dos Estados Unidos. Assim, na América Central e região andina está hoje o principal campo de batalha contra os planos de dominação do império.

Se conseguir passar estes tratados de livre comércio, a Alca estará mais próxima de se tornar realidade. Não podemos permitir! Os povos da América Central e região andina estão resistindo, se mobilizando, travando duras batalhas e fazendo novos sacrifícios para deter esta ameaça. Assim está sendo na Guatemala, onde a repressão voltou a aparecer cobrando a primeira vítima mortal em nossa luta contra o livre roubo por parte do império.

Daqui fizemos uma homenagem ao companheiro Juan López, irmão guatemalteco assassinado pelo terrível crime de lutar pela soberania de seu país (pedimos um minuto de silêncio em sua memória; pedimos agora um minuto de aplausos a sua luta). Todos os povos da América devem se unir para apoiar a resistência de nossos irmãos e irmãs na América Central e a região andina contra os tratados de livre roubo! Esta é hoje nossa prioridade na luta!

Neoliberalismo

E os tratados de livre comércio não são as únicas ameaças que continuamos a enfrentar. Todos os dias, sem esperar os tratados, as transnacionais e seus “sócios locais” trabalham para privatizar o que ainda resta para se apossarem. Agora vão sobre a energia, a educação, a saúde e a segurança social, a biodiversidade, a água, a privatização da vida. E junto às tentativas privatizadoras, continuam pendentes sobre nossos países o peso e a chantagem da dívida, quando já a pagamos tantas vezes que mais que devedores somos credores, e nossas nações deveriam ser compensadas.

O mais nefasto, não obstante, é que para empurrarem essa agenda, para impor seus planos, os Estados Unidos são cada vez mais intervencionistas, mais colonialistas, mais belicistas e, sob o comando — ratificado desafortunadamente para o mundo — de George W. Bush, buscam impor agora a visão de segurança do império como se fosse a segurança de todo o mundo, pretendendo subordinar aos países do hemisfério a seu comando também neste terreno, além de promoverem e apoiarem a militarização de regiões inteiras.

Sem embargo, não partimos do zero na resistência a todas as ameaças e calamidades. Nas diferentes regiões do continente se travam cada vez mais lutas, muitas vezes com êxito, contra a privatização e a entrega da energia, da água, da educação, da saúde; cresce a oposição ao pagamento da dívida e a resistência à militarização; luta-se contra o perverso modelo de “livre comércio”, pela terra e a soberania alimentar; cada vez em mais países nossos povos, por sua vontade, põem e depõem governos. Sob este impulso, pela primeira vez em muitos anos, o surgimento de governos latino-americanos não servis a Washington está contradizendo e complicando seus projetos colonialistas.

Integração regional

Delineia-se cada vez mais a idéia de uma integração diferente, de blocos de países do sul em desenvolvimento para encararem juntos o poderio e as ambições desmedidas do norte. Obviamente, não basta com outra integração, a do sul com o sul, mas sim que é indispensável a esta estar baseada em um modelo radicalmente diferente de desenvolvimento e intercâmbio, para que realmente resulte em benefício de nossos povos e nações.

E precisamente o nível e a unidade que têm alcançado as lutas de nossos povos nos permitem e nos exigem, sem abandonar as lutas de resistência, passarmos cada vez mais a propor e construir desde baixo uma visão própria de integração e desenvolvimento, alternativa ao neoliberalismo e ao “livre comércio”, que ponha na frente a complementaridade das nações; que ponha primeiro os direitos humanos, sociais, ambientais e de gênero; que parta do reconhecimento das desigualdades e assimetrias; que reconheça o direito das nações de se protegerem e desenvolverem seus recursos estratégicos e naturais, as áreas vitais para sua sobrevivência; que faça possível, enfim, outra América mais justa, livre e verdadeiramente democrática.

O nível e a unidade que têm alcançado nossas lutas a escala hemisférica nos exige dar um passo em direção aos processos de articulação e em nossa agenda. Por tudo isso é que daqui, desta cidade de Havana, convocamos a Terceira Cúpula dos Povos da América, a se realizar em novembro em Mar Del Plata, Argentina. Ali, nos dias 4 e 5, se reunirá a IV Cúpula das Américas, que terá a participação dos 34 presidentes dos países membros da OEA — da qual está excluída honrosamente Cuba —, incluindo o conhecido terrorista George W. Bush.

Mas além da simulação de boas intenções e da retórica oficial da Cúpula das Américas, convocamos nossos povos a se encontrarem em sua própria cúpula, para enterrarem de uma vez por todas a Alca, para dizerem que já basta de tratados de livre comércio e de privatizações, para fazerem ouvir sua voz e suas reivindicações, para passarem a um nível superior de unidade na luta.

Convocamos a nos encontrarmos também no Fórum Social Mundial que acontecerá em Caracas, Venezuela — primeira na fila da dignidade e da resistência aos planos imperiais —, em janeiro do ano que vem, para avançarmos na construção da nossa agenda e alternativas ao modelo neoliberal.

Irmãs e irmãos de toda a América,

Com enormes esforços e grandes sacrifícios estamos avançando. Não é a hora de desmaiar, mas de redobrarmos nossa organização e nossas lutas. Convocamos a nos mobilizarmos:

- Contra os TLC da América Central e região andina.
- Contra a OMC.
- Pelo enterro definitivo da Alca.
- Contra as privatizações, a dívida e a militarização.
- Por uma alternativa dos povos à globalização neoliberal.

Convocamos a nos encontrarmos na 3ª Cúpula dos Povos da América em Mar Del Plata em novembro deste ano e no Fórum Social Mundial de Caracas em janeiro de 2006.

Certos de que por este caminho iremos,
Até a vitória sempre!
Outra América é possível

Havana, 30 de abril de 2005.

*Tradução e intertítulos do Vermelho

 

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