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por Max Altman*
Reunidos em
Havana, nos últimos dias 27 e 28 de abril,
Hugo Chávez e Fidel Castro firmaram um plano
estratégico para o início da aplicação da
Alba, plano destinado a garantir a mais
benéfica complementação produtiva alicerçada
na racionalidade, o aproveitamento de
vantagens existentes numa e noutra parte, a
economia de recursos, a ampliação do emprego
útil, o acesso a mercados e outras
considerações sustentadas numa verdadeira
solidariedade que potencializem as forças de
ambos os países.
Frise-se de
início que não se trata de um abraço de
afogados. É evidente, não são potências
econômicas, nem países de grande população e
extensão territorial, embora, por exemplo, a
atual balança comercial Venezuela-Cuba tenha
atingido no ano passado 1,5 bilhão de
dólares, enquanto as relações comerciais
Brasil-Cuba mal chegaram a uma quinta parte
desse montante. Contudo, a natureza do
acordo, inédita na história das relações
entre países, pode resultar em algo muito
expressivo.
A Alba é uma
proposta de integração diferente. Ao passo
que a Alca responde aos interesses do
capital transnacional e persegue a
liberalização absoluta de bens, serviços e
inversões, a Alba põe ênfase na luta contra
a pobreza e a exclusão social, e, portanto,
expressa os interesses dos povos
latino-americanos. A Alba se fundamenta na
montagem de mecanismos para criar vantagens
cooperativas que permitam compensar as
assimetrias existentes entre os países do
hemisfério. Baseia-se na cooperação de
fundos compensatórios a fim de corrigir as
disparidades. Por esta razão a proposta da
Alba confere prioridade à integração
latino-americana e à cooperação entre os
blocos sub-regionais. Identificar espaços de
interesse comum que permitam constituir
alianças estratégicas e apresentar posições
comuns no processo de negociação.
Foram 49 os
acordos firmados. Com o fim de demonstrar a
natureza desse pacto vamos citar apenas
alguns deles: foi inaugurado em Havana um
escritório da Petróleos de Venezuela (Pdvsa)
que tem como objetivo a extração,
exploração, refino, importação, exportação e
comercialização de hidrocarbonetos e seus
derivados, bem como o transporte e
armazenamento; Cuba será o entreposto para
fornecimento desses produtos em todo o
Caribe; foi inaugurada uma filial do Banco
Industrial da Venezuela em Havana, de
capital 100% venezuelano. Esta instituição
estatal dará uma notável contribuição ao
incremento sustentado das relações
econômicas e comércio bilateral; Cuba emitiu
uma resolução eximindo de pagamento de
direitos aduaneiros as importações cuja
origem seja a República Bolivariana da
Venezuela; Cuba adquirirá a soma inicial de
412 milhões de dólares em produtos
venezuelanos com fins produtivos bem como
produtos de consumo social; será inaugurado
no presente ano, na Venezuela, 600 centros
de Diagnóstico Integral, 600 Salas de
Reabilitação e Fisioterapia e 35 Centros de
Alta Tecnologia que oferecerão serviços
gratuitos de elevado nível profissional;
formação na Venezuela de 40 mil médicos e 5
mil especialistas em Tecnologia da Saúde,
dentro do programa Barrio Adentro [ Médico
de Família] II; formação em Cuba de 10 mil
estudantes saídos da Missão Ribas [acesso ao
ensino médio de jovens pobres] na carreira
de Medicina e Enfermaria, que estarão
distribuídos em todas as policlínicas e
hospitais do país e que terão como
residência lares de famílias cubanas; Cuba
continuará dando sua contribuição ao
desenvolvimento do programa Barrio Adentro I
e II, mediante o qual até 30 mil médicos e
trabalhadores da saúde estarão prestando
seus serviços já no final deste ano.
Críticos da
Alba – e nos referimos aos críticos de
esquerda – adiantam que a Alba não dará
certo porque não agrega. Dizem, ‘quem vai
aderir a esse pacto formado logo por Cuba, e
sua revolução, e a Venezuela, e sua
revolução? Além do mais, o próprio nome,
bolivariana, já é excludente. Bolívar não
diz nada ao Brasil, Argentina, Uruguai,
Chile ...’ À parte o argumento da
denominação, pequeno, lembramos que a União
Européia começou lá atrás, 1954, com o
acordo do carvão e do aço, entre França e
Alemanha. Mais importante, olhemos para o
cenário latino-americano. Que países estão
dispostos, abertos e preparados para a
integração econômica, política e social? O
Brasil de Lula, a Argentina de Kirchner, o
Uruguai de Vázquez querem, mas sofrem
constrangimentos internos, uma vez que o
mercado financeiro e vastos setores
empresariais internos, ecoados pelos meios
de comunicação, não estão nem um pouco
interessados nesse tipo de integração, haja
vista os vai-e-vens em relação à Alca. O
Chile de Lagos, o Peru de Toledo, a Colômbia
de Uribe, o Paraguai de Nicanor, o México de
Fox, nem pensar. Bolívia e Equador estão em
polvorosa, a América Central ainda é
fortemente submissa. Restam exatamente Cuba
de Fidel e Venezuela de Chávez. A primeira
porque é da sua natureza ideológica e
necessita. A segunda porque está montada num
processo em marcha nessa direção. O milhão
de trabalhadores nas ruas de Caracas e o
milhão e trezentos mil nas ruas de Havana no
Primeiro de Maio, sem sorteio nem
sertanejos, querem e aplaudem.
Se a Alba
começar a florescer, serão muitos milhões a
gritar nas praças e campos da Nossa América
‘queremos provar do mesmo bocado’.
Com que cara
ficarão amanhã aqueles que hoje zombam?
*Max Altman é jornalista
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