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Brasil, sexta-feira, 10 de outubro de 2008

4 de MAIO de 2005

GUERRILHA DO ARAGUAIA

Tortura Nunca Mais afirma que é um "acinte" ex-militares pedirem indenização

 

O grupo Tortura Nunca Mais divulgou ontem nota em que se diz "chocado" com "as descrições de torturas e violações desumanas" feitas por integrantes do Exército brasileiro "que atuaram na repressão ao movimento de resistência no Araguaia nos anos 70" e reveladas pelo jornal Folha de S. Paulo de domingo.

A vice-presidente do grupo no Rio de Janeiro, Cecília Coimbra, afirmou que é um "acinte" que os ex-militares que combateram guerrilheiros do PCdoB no Araguaia venham agora pedir indenizações ao Estado brasileiro.

Para Coimbra, a Lei da Anistia, de 1979, não vale para os torturadores.

Absurdo

O presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, também se pronunciou sobre o assunto. Em matéria publicada na edição de ontem do Vermelho, Rabelo afirmou as indenizações derivadas da Lei da Anistia são direcionadas para reparar perdas de pessoas que foram prejudicadas pela perseguição política, pela repressão da ditadura militar. Esses ex-militares, ao contrário das vítimas do regime autoritário “faziam parte do próprio aparelho repressor”. Renato, concluiu que um caso diferente é o das famílias dos moradores da região, que foram igualmente alvo de perseguições e violências. “Estes, também, foram vítimas, e portanto, a exemplo dos familiares dos guerrilheiros, ao nosso ver, também têm direito a reparações”.

O dirigente do partido que encabeçou a resistência armada do Araguaia, em 1972-1975, explicou ainda que o uso brutal da tortura contra os guerrilheiros e, também, contra os moradores da região, a execução sumária de prisioneiros e mesmo a conduta macabra de decapitação de cadáveres e ocultação ou destruição de corpos, já haviam sido descritos em livros, reportagens, ensaios de vários jornalistas, pesquisadores e acadêmicos. Para Renato, no entanto, o depoimento destes ex-militares que participaram diretamente das operações, o relato que fazem das ordens recebidas de oficiais, tem um valor testemunhal que comprova as práticas hediondas, as selvagerias cometidas (clique aqui para ver o conteúdo dos depoimentos).

Exército estranhou

Também causou estranheza e repúdio entre oficiais-generais do Exército da ativa e da reserva a proposta de ex-soldados que combateram no Araguaia pedir indenização da União, para que sejam tratados como os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), enviados à Segunda Guerra Mundial. Só a crítica dos oficiais veio com um viés bastante antipático. Na opinião dos oficiais-generais consultados pela reportagem do site CruzeiroNet, essas 'pessoas' se sentem incentivadas a dar entrada em ações deste tipo na Justiça exatamente porque, na opinião destes oficiais, a concessão de indenizações teria se transformado na farra do boi" e uma "verdadeira bagunça" já que pagamentos milionários estão sendo feitos para pessoas de esquerda, segundo eles.

Desde o início do processo de reparação aos perseguidos pelo governo militar, a cúpula das Forças Armadas foi contra as indenizações. No caso dos soldados e outros militares que participaram do combate à guerrilha, os oficiais-generais consideram "um absurdo" eles pretenderem algum tipo de indenização, por considerar que eles estavam "em combate, cumprindo missão".

No Ministério da Justiça, a avaliação é de que esses ex-soldados não têm direito a indenização porque a lei é clara ao dizer que ela é devida a quem foi perseguido pelo regime militar e teve prejuízos financeiros com isso. Por isso mesmo, os ex-soldados que atuaram nas operações de combate aos guerrilheiros do PCdoB nas matas do Sul do Pará, nos anos 70, vão recorrer à Justiça Comum para tentar garantir indenização por danos físicos e psicológicos.

No ano passado, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça recusou pedido de indenização feito por 15 ex-soldados, sob argumento de que eles não sofreram perseguição política. Um grupo de 80 ex-militares está coletando documentos para provar que sofreram perdas no Araguaia.



Da redação


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