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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

28 de ABRIL de 2005

LÍNGUA SOLTA

Severino anuncia comissão para debater mudança no Copom e acusa governo de "fechar" o Congresso

 

O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, anunciou hoje na reunião de líderes que vai criar o mais rapidamente possível uma comissão especial para estudar mudanças que tragam maior participação da sociedade nas normas sobre a definição da taxa básica de juros (Selic). Entre as propostas, está a de se retirar do Comitê de Política Monetária (Copom) a competência exclusiva de controle do índice.

Severino também entregou aos líderes de partidos o texto de um projeto de lei complementar que obriga o presidente do Banco Central a se explicar na Câmara e no Senado cada vez que o Copom aumentar a taxa de juros. Pela proposta, a audiência no Congresso deverá ser feita no prazo de dez dias úteis depois do anúncio de novo aumento da Selic. O projeto prevê que o não-comparecimento do presidente do BC implicará crime de responsabilidade.

O parlamentar assinalou que a população precisa ter controle sobre os juros e a Câmara também deve opinar sobre as taxas, "definidas por técnicos que não dão satisfação à sociedade". Severino lembrou que o próprio Presidente Lula pediu que a sociedade tome uma iniciativa contra os juros altos. "Quero estender esse debate à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a todos os segmentos da sociedade brasileira", afirmou.

O presidente argumenta que "a transparência do processo de elevação da taxa Selic se coaduna com a proposta de autonomia do Banco Central, que ganha corpo em várias esferas do Executivo e mesmo no Congresso Nacional". Ele também considera que a elevação hierárquica do presidente do BC para o cargo de ministro deve ser acompanhada de um grau maior de responsabilização, representado pela permanente prestação de contas ao Legislativo, especialmente no tocante às definições de taxas de juros e à condução da política monetária.

Alencar concorda

A reformulação do Copom será discutida amanhã à tarde em reunião do vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, com Severino Cavalcanti. Alencar concorda que o Comitê deve ter maior representatividade, com a participação, por exemplo, de representantes do setor produtivo. "Não podemos permitir que não seja posto como objetivo principal o desenvolvimento e o enriquecimento nacional. As taxas de juros altas são instrumentos que inibem o investimento e o consumo", definiu.

Restrições dos líderes

Para o líder do PFL, deputado Rodrigo Maia (RJ), quanto mais explicações do presidente do Banco Central sobre a alta de juros, melhor para o País. "Sua presença no Congresso é muito importante para esse debate", considera. "Agora, tirar a prerrogativa do Copom para definir os juros é muito arriscado para o País", ponderou.

A sugestão de limitar o poder do Copom também recebeu restrições do líder do Governo, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). Ele acredita que a proposta seja inconstitucional. "Parece que, no presidencialismo, não cabe ao Congresso ter algum papel na definição da política de juros do País", afirmou.

Pauta trancada

Na mesma reunião, Severino desferiu críticas severas ao que ele entende ser um número excessivo de medidas provisórias oriundas do executivo. O pepebista disse que o governo promove um "fechamento virtual" do Congresso com a utilização excessiva de medidas provisórias, de forma semelhante ao que era feito no regime militar com o uso do decreto-lei. Para Severino, tanto o decreto-lei quanto a MP produzem o mesmo resultado: o Congresso fica impedido de legislar. No início da noite, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se recusou a comentar o pronunciamento do parlamentar.

O presidente Lula se recusou a comentar as declarações feitas pelo presidente da Câmara.

Quem se pronunciou foi o líder do PSB na Câmara, deputado Renato Casagrande (ES). Ele avaliou que as propostas do presidente da Casa são fruto do estilo de ser de Severino Cavalcanti. "Vamos ter que conviver com isto nos próximos dois anos. A era Severino é desta forma, de muita instabilidade e espontaneidade nas suas colocações", afirmou.

Para o líder do PSB, cabe aos líderes da Câmara tentar colocar um freio em Severino questionando suas propostas e tentando "preservar a imagem da Câmara".

Confira a íntegra da fala do presidente na reunião

Desde 15 de fevereiro, quando tomamos posse, até ontem, foram realizadas 30 sessões deliberativas. A pauta esteve trancada em 19 dessas sessões, ou seja, em 62% das sessões.

Vê-se, assim, uma cruel predominância de matérias oriundas do Poder Executivo, principalmente em função do excessivo, abusivo, desrespeitoso número de medidas provisórias.

É o Poder Executivo fazendo a agenda do Legislativo, num claro desrespeito ao princípio da separação dos poderes. Falta muito pouco para se igualar aos sombrios tempos do regime militar, quando, em razão do decreto-lei, que era aprovado na maioria das vezes por decurso de prazo, estimulava-se a ausência dos senhores parlamentares. Trata-se de um virtual fechamento do Congresso Nacional.

Hoje, não se estimula a ausência, até porque se não for votada em até 120 dias a Medida Provisória perde a eficácia.

Mas aprovam-se as Medidas Provisórias a conta-gotas, não por qualquer impasse em relação ao seu mérito, mas para impedir a apreciação de outras matérias que não têm nada a ver com o teor das referidas medidas provisórias.

Usam-se as Medidas Provisórias para impedir a Casa de funcionar na sua plenitude, para retardar a apreciação de outras matérias.

Isso constitui um ultraje à Casa e à Constituição Federal, porque transcende a problemática da relevância e urgência.

Quando o Constituinte criou o instituto Medidas Provisórias, ele o fez pensando em dotar o Poder Executivo de instrumento ágil para a solução de problemas imediatos e urgentes.

O que está acontecendo? Partidos da base do Governo retardam e obstruem as votações, inscrevendo mais e mais oradores. É regimental? Sem dúvida, que é. Mas essa não vinha sendo a prática. Onde os requerimentos de encerramento de discussão e votação? Onde os acordos para deliberação rápida?

Ah!, dirão, a oposição também fazia isso. É certo que fazia, mas isso se insere no papel da oposição. O que não dá para compreender é a base do Governo fazer oposição às medidas propostas pelo próprio Governo.

Deixo aqui, nesse início de reunião, meu veemente protesto.

O tempo urge. A Casa têm um sem-número de matérias relevantes para serem apreciadas e não pode fazê-lo em razão do “trancamento” da pauta. Muitas dessas matérias, inclusive, mais relevantes que as próprias Medidas Provisórias.

Aliás, não nos furtamos a examinar as matérias oriundas do Poder Executivo. Até conclamamos o governo a que apresente a sua agenda de prioridades. Asseguro que a Casa vai dar toda a atenção e conseqüência às matérias.

Esse estado de coisas não pode perdurar: impede-se a Casa de funcionar plenamente, veda-se a apreciação de matérias importantíssimas, cerceia-se o debate.

Aliás, falando em debate, quero anunciar aos Senhores Líderes que pretendo levantar na Casa o debate acerca dos seguidos aumentos da taxas de juros que vêm sendo draconianamente impostos à sociedade brasileira.

Amanhã, estarei com o Sr. Vice-Presidente da República para conversarmos sobre o assunto.

Quero estender esse debate à OAB e a todos os segmentos da sociedade brasileira.

No âmbito interno, pretendo criar uma Comissão para estudar o assunto e propor soluções, inclusive, se possível for, retirar do COPOM a competência de isoladamente conceber o aumento da taxa de juros.

Do jeito que está, não pode continuar.

Mas, até que a Comissão se instale e produza seu relatório, achei de bom alvitre antecipar-me e oferecer uma proposta que valoriza a atuação da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, no que diz respeito ao seu papel de representante do povo brasileiro e catalisador de seus anseios.

A proposta – que faço distribuir aos Senhores Líderes para análise e avaliação – prevê o comparecimento obrigatório do Ministro-Presidente do Banco Central às duas Casas do Congresso Nacional para explicar e justificar as decisões do Conselho de Política Monetária, notadamente no que diz respeito ao aumento da taxa de juros.

Conto com o apoio dos Senhores Líderes nessa cruzada.

 

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