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Brasil, sexta-feira, 10 de outubro de 2008

12 de abril de 2005

33 anos da guerrilha do Araguaia

Renato Rabelo: "A Guerrilha do Araguaia é um episódio que hoje pertence ao povo brasileiro"

 

Renato Rabelo discursa durante homenagem póstuma a João Amazonas em Xambioá

 

 

Há exatos 33 anos, no dia 12 de abril de 1972, na fase mais dura da ditadura militar brasileira, cerca de 2 mil homens do exército, especialmente das Brigadas de Infantaria da Selva (BIS) e outras unidades da área, tomam de assalto a região do baixo Araguaia, fazendo de Marabá e Xambioá suas cidades-quartéis. A "ocupação" da área tinha um único objetivo: aniquilar o incipiente movimento de resistência que vinha sendo construído na região por militantes do Partido Comunista do Brasil. Esta agressão militar, que atingiu não só os militantes comunistas mas também a população local, deu início ao episódio que ficou conhecido como a Guerrilha do Araguaia.

Para lembrar o 33º aniversário desse episódio tão marcante da história do Brasil, o Vermelho reproduz aqui uma recente entrevista com o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo — publicada na quarta edição do livro Guerrilha do Araguaia - uma epopéia pela Liberdade. Na entrevista, Rabelo fala sobre o significado histórico da Guerrilha e afirma: "Embora derrotada militarmente, a Guerrilha do Araguaia foi vitoriosa politicamente!".

Confira a íntegra:

Qual o significado histórico da Guerrilha do Araguaia para a vida do país?

Renato Rabelo: A resistência do Araguaia adquiriu uma grande dimensão. Primeiro, uma luta que durou quase três anos – foi a jornada de resistência de maior duração na época da ditadura militar. Segundo, ela contribuiu efetivamente para debilitar o regime militar e fortalecer o ânimo da oposição democrática. Terceiro, a guerrilha só conseguiu esses resultados porque ganhou o apoio da população local – questão que, com o tempo, foi sendo revelada.

De alguma maneira, nesse aspecto, ela se distingue da resistência armada realizada por outras organizações que centraram suas ações nas cidades?

RR: Sim, essa análise corresponde. Porque, para alguns setores, no campo bastaria se instalar de forma secreta e escolher o momento de deflagrar a luta armada que o povo acompanharia. A concepção da organização da resistência do Araguaia, feita pelo PCdoB, foi diferente. Ganhar a confiança do povo e viver com a massa local foi considerado chave para deflagrar uma ação insurgente. No caso do Araguaia, essa concepção demonstrou ser justa, porque com o desenvolvimento da luta o povo da região não só deu apoio de formas variadas, mas houve até mesmo o engajamento de camponeses às Forças Guerrilheiras.

Isso pode ser atestado pelo depoimento do Paulo Fonteles, que foi tomado de surpresa ao constatar este fato. Ele, um homem do Pará, que nunca tinha ido à região, mas conhecia bem aquela realidade, ao chegar à área onde houve a resistência constatou que havia uma simpatia generalizada à Guerrilha. As pessoas falavam da Guerrilha com admiração e do mito em que se transformaram os guerrilheiros, sobretudo na figura do Osvaldão e da Dina.

Então, isso foi sendo revelado à medida que a censura caiu. Além do mais, para mostrar também a envergadura dessa resistência –e as Forças Armadas não deixam de reconhecer isso–, ela envolveu a maior mobilização militar depois da II Guerra Mundial.

Por tudo isso, a Guerrilha do Araguaia é um episódio de resistência que adquiriu uma grande importância. Aquele tipo de processo de luta popular, como Canudos, que mobilizou uma grande massa popular no interior da Bahia. A Guerrilha também mobilizou, na região em torno do Araguaia, uma população que se tornou simpatizante. Por isso, ela igualmente se inscreve na trajetória das lutas populares de grande dimensão do país. As Forças Armadas, para combatê-la, tiveram de empregar um efetivo de mais de 12 mil homens e, entre estes, forças especiais e de elite.

Nesse importante episódio dirigido pelo PCdoB é elucidativo também destacar que as bandeiras da resistência tinham um caráter muito amplo. A questão da democracia, da liberdade e dos direitos do povo – e, no caso concreto, direitos do povo do interior.

Em suma, sobre seu papel histórico, a Guerrilha do Araguaia acabou adquirindo um significado muito marcante.

À época, mesmo com a censura que havia no país, esta luta dá o seu contributo ao combate ao regime militar, em especial por disseminar a mensagem de que a ditadura poderia ser contestada, apesar de sua força?

RR: Embora derrotada militarmente, a Guerrilha do Araguaia foi vitoriosa politicamente! É isso! A Guerrilha foi atacada por todos os meios, porque a ditadura sentiu o golpe. O regime ditatorial tentou abafá-la a todo custo.

Mas, a Guerrilha, pouco a pouco, mesmo com toda censura, acabou ficando conhecida por uma parte significativa de setores políticos no país, além do povo da região. Só para dar um exemplo, eu mesmo vivi um período da Guerrilha em Goiás1 e viajei até perto do que se chama o Bico do Papagaio – naquela época, o norte de Goiás. Não era possível atravessar essa região sem passar por várias barreiras do Exército. Trabalhava então como vendedor de uma grande empresa, e a repressão fazia uma vistoria rigorosa. E havia barreiras a partir de uma área ainda distante da Guerrilha. Era muito difícil de se entrar na região periférica do conflito. Então, aquela população toda acabou convivendo com isso. Tal situação repercutia para Goiás e Pará, em especial Belém, Goiânia, e Brasília.

E os vários setores políticos também nas cidades foram tomando conhecimento do Araguaia. Além do mais, a Guerrilha, por ser uma forma de luta radical, acabou atingindo a ditadura –que agia preventivamente para que isso não acontecesse. Ela foi surpreendida, uma vez que havia promovido estruturada e permanente repressão contra as organizações políticas para que conflitos como o do Araguaia não eclodissem. E o fato de surgir uma resistência armada combatendo o governo dos militares demonstrava exatamente o grau de resistência crescente, num processo de radicalização contra eles.

Para a opinião avançada, havia um lado importante da questão: o testemunho de luta dessa gente que se tornou combatente no interior do país. Era gente que ia para o campo, deixava tudo. Pegando em armas, entregando a própria vida, mostrando que a resistência chegava a esse nível de dedicação e de generosidade. Isso tinha um impacto estimulador sobre as parcelas mais esclarecidas. Basta dizer que a unificação da Ação Popular (AP) com o PCdoB em grande medida se apressou por isso. É justo que se diga que a unificação estava em marcha, mas apressou-se como um gesto de apoio e solidariedade maior a essa resistência – porque era um testemunho muito forte de luta, de abnegação, de generosidade com a causa democrática. As pessoas diziam: “enfrentamos até com a vida se preciso, mas esse regime não pode continuar em nosso país”. Em função disso, João Amazonas dizia que a Ação Popular era de fato uma organização revolucionária, porque, naquele momento em que o Partido estava sendo mais atacado pela repressão ditatorial essa organização (AP) foi ao seu encontro. Mas também a AP tomou essa iniciativa justamente porque viu um exemplo importante no fato de o Partido conseguir deflagrar e se empenhar numa resistência armada que a consciência democrática mais avançada da época defendia.

Esse acontecimento no norte do país, politicamente, teve um impacto muito negativo para a ditadura e noutro pólo reforçou a oposição democrática.

Nessa jornada da luta guerrilheira, qual o papel da organização política que esteve à sua frente: o Partido Comunista do Brasil?

RR: A Guerrilha é um episódio que hoje pertence ao povo brasileiro, ao elenco de suas lutas, mas a coragem política do PCdoB, de recorrer a esse tipo de forma de luta num momento tão difícil, não pode deixar de ser considerada.

Essa questão também é importante porque a ditadura militar foi pouco a pouco adotando uma postura cada vez mais ditatorial –como se dizia na época, houve um processo de fascistização crescente. Um processo de autoritarismo em grande escala, de um governo ditatorial que governava com base numa Constituição outorgada, via atos institucionais. Numa situação como essa, de grandes restrições à atividade democrática, cresceu muito, no seio das forças progressistas e avançadas do país, a idéia de que era preciso também uma resistência armada. Uma coisa leva à outra. Além disso, do ponto de vista histórico, é a força do poder dominante capitalista que inviabiliza o caminho pacífico para as grandes transformações econômico-sociais. Naquele momento, crescia uma justa reação a essa situação fascistizante.

Diante dessa situação, muita gente deixou o estudo e suas atividades profissionais para enfrentar a ditadura, mostrando, portanto, uma consciência elevada, de resistir até de forma extrema ao regime. O número de pessoas que naquele período adotou uma atitude militante, deixou as universidades, escolas e o trabalho não foi pequeno. Se fosse feito um levantamento hoje, a gente poderia ter uma dimensão mais precisa dessa verdadeira insurgência contra o regime militar (não sei se tem um levantamento histórico sobre isso, o que até seria interessante).

Quer dizer que o Partido rejeita a crítica de que a Guerrilha teria sido uma ação aventureira, uma inconseqüência?

RR: Sim. Exatamente porque o Partido, de uma certa forma, foi na verdade uma caixa de ressonância de uma consciência de resistência que florescia. Essa consciência, que assumia posições mais avançadas, foi compreendendo também que formas de resistência armada deveriam ser feitas contra um regime truculento, tão sanguinário. Era preciso também essas formas mais ousadas. Então, não era um problema só do PCdoB, era uma consciência que batia à porta exigindo essa tomada de atitude. E o Partido expressa isso, por ser um instrumento, um porta-voz, dessa consciência democrática mais avançada da época. Ele foi, então, convocado por essas circunstâncias e se comprometeu a desencadear essa forma de enfrentamento político.

O Partido joga um papel importante por quê? Porque as organizações políticas que combatiam a ditadura, apesar da abnegação, no seu conjunto, não tinham o entendimento suficiente sobre as formas mais corretas de fazê-lo. Por isso que, na época, havia um intenso debate de como se enfrentar de maneira mais justa o regime.

Havia teses como a teoria do foco – segundo a qual bastaria se reunir um grupo preparado para o enfrentamento armado num determinado local, geralmente de difícil acesso, porque isso daria margem para o combate a uma força maior, mais bem armada (um lugar de difícil acesso, com pessoas já preparadas, armadas e que escolheriam um dia para iniciar as primeiras ações. E o povo local, por exatamente viver numa situação sempre de desigualdade, miséria etc, acompanharia. Por isso era necessário primeiro fazer a preparação nas cidades, conseguindo recursos, os meios para a ação armada no interior, através de iniciativas ousadas como assalto a bancos. Feito isso, em ações clandestinas, haveria alguns desses focos armados pelo campo, que fariam o trabalho de insurgência).

Havia outra posição, que foi defendida pelo PCdoB e, evidentemente, por outras organizações (no caso, a AP também defendia), de que era necessário, primeiro, os militantes fazerem um trabalho com a população local e viver com ela durante anos. Assim passariam a conhecer profundamente a geografia do lugar e os problemas e aspirações daquela gente. Essa identificação levaria pouco a pouco a população a compreender o motivo da luta, por que aqueles militantes estavam ali compartilhando do mesmo modo de vida. Portanto, num primeiro momento, é necessário um trabalho de identidade com a população local. E, com base já nessas raízes locais, com a definição de uma plataforma de luta, haveria condições possíveis de uma insurgência, já com o povo participando e apoiando.

Enfim, o Partido orientou-se por esta concepção, muito distinta da concepção conhecida como foquista, sobre a qual discorremos acima.

O PCdoB parece ter estudado a própria experiência do povo brasileiro e as lutas anteriores. Mas também é sabido que, por outro lado, procurou estudar outras experiências revolucionárias; em particular, a chinesa. Como você analisa a Guerrilha do Araguaia em relação a essas duas fontes?

RR: A idéia-chave a considerar é que esta forma de luta exige o apoio político da população local e se justifica diante de um regime liberticida imperante. E, para isso, se impunha construir uma relação íntima com o povo da região interiorana. Uma resistência armada na cidade era uma temeridade, por ser um cenário no qual o regime tinha pleno controle. Já no campo, no interior, a insurgência teria melhores condições para enfrentá-lo. Esse foi o entendimento principal. E a compreensão de como as lutas populares, ao longo da história, se desenrolaram no Brasil. Tudo isso foi levado em conta.

Agora, qual foi a peculiaridade dessa resistência? Foi uma luta que tem um grande significado e se iguala a outros grandes feitos do nosso povo. Só que com uma diferença: conduzida pela primeira vez por uma força revolucionária organizada – uma singularidade histórica.

Evidentemente, foi uma luta muito desigual. No nosso país foram muitas as lutas populares exterminadas pela repressão violenta. O que foi Canudos, senão um massacre? Tratava-se de uma revolta popular, um levante de sertanejos. Não foi, obviamente, um episódio conduzido por uma força revolucionária, como no caso do Araguaia, embora de relevante importância histórica. Poderíamos citar também o Quilombo dos Palmares, a Cabanagem, a Revolta da Chibata e outros episódios –todos eles alvos de uma selvageria cujo objetivo era exterminá-los. Sempre o propósito insano de que não reste uma só pessoa para contar a história.

Evidentemente, procurou-se levar em conta a experiência de outras insurgências dentro e fora do país, retirando lições e considerando a nossa realidade específica. Mas era uma luta ainda muito desigual, diante da correlação de forças predominante nesse período.

O Partido procurou organizar um apoio nas cidades à Guerrilha. Em conseqüência, foi alvo de uma violência ainda maior. Como se deu a preparação desse apoio logístico?

RR: Toda resistência, além do apoio local, fundamental, da população – se não a resistência não sobreviveria quase três anos e meio a uma desigualdade enorme de armamento– depende de apoio mais extenso. Para uma guerrilha, o armamento advém do combate com o inimigo, porquanto a força guerrilheira procura sempre estar na ofensiva tática (escolha do momento e lugar em que esteja em vantagem vis-à-vis ao inimigo, impondo-lhe a surpresa). Ela consegue pouco a pouco obter armamento, ao enfrentar pequenos grupos do inimigo.

Mas uma resistência não pode viver só do apoio local. É preciso ter uma retaguarda fora do lugar do conflito, apoios nas cidades e outras frentes. Porque se não, ela se isola. Então, procurou-se construir isso nas condições da resistência armada do Araguaia. Mas o tempo não foi suficiente para dar cabo de tudo o que seria necessário. Efetivamente isso teria de avançar com mais rapidez, mas não se conseguiu, por causa do montante da ação repressiva e debilidades da própria resistência no seu conjunto. Se o movimento guerrilheiro se sustentasse por mais tempo, existia a possibilidade de outras frentes despontarem e se juntarem à ação pioneira, tornando-a um caudal de luta mais poderoso.

Por isso, seriam imprescindíveis o apoio das cidades e a formação de outras frentes. O papel do Partido em apoio à resistência fora do teatro de operações e de ampla rede de simpatizantes era muito importante. O regime procurou atacar aí também, porque era a retaguarda que ajudava aquela frente de luta. O acontecimento conhecido como queda da Lapa em grande parte está ligado a isso, porque os órgãos de inteligência do regime passaram a se concentrar mais em espionar e atacar a retaguarda, a direção central do Partido dirigente. E foi exatamente a forma com que eles procuraram nos atingir.

No legado da Guerrilha, além do político mais geral, da luta pela liberdade, uma outra esfera é do movimento social. Por exemplo, nos anos 1980, na mesma região ao sul do Pará e norte de Goiás, há um ascenso da luta camponesa pela terra. Esse também seria um legado da Guerrilha?

RR: Acho que hoje, com a redemocratização, a Guerrilha passou a ser vista como uma herança valiosa. Não só de um exemplo de luta conseqüente pela democracia, pela liberdade –porque isso foi comprovado pela ação dos guerrilheiros, dando até a vida–, mas também que levantou uma série de bandeiras de direitos do povo abandonado do interior. Da Guerrilha, há os vinte e sete pontos (do programa da resistência), propondo a defesa de uma série de direitos do povo do interior. Hoje, as Forças Armadas e os governos tiveram de responder a muitos daqueles vinte e sete pontos. Muitas reivindicações levantadas pelo movimento armado tiveram que ser consideradas de lá para cá.

E entra aí também a questão da reforma agrária, porque aquela é uma região onde a bandeira da reforma agrária tem uma presença muito forte. Tem, por exemplo, uma série de lutas importantes pela reforma agrária em Goiás e no Pará.

E na própria região, quando nós estivemos em Xambioá por ocasião do ato de espargir as cinzas do camarada Amazonas, era grande a quantidade de alunos repetindo as bandeiras levantadas pela Guerrilha. As professoras das escolas da região passaram a ter presente a resistência –porque foi um acontecimento que marcou profundamente aquela parte do país. Uma quantidade muito grande de alunos foi falar conosco, alguns exibindo trabalho escolar sobre o assunto. Após a democratização, sobretudo depois de meados da década de 1990, a guerrilha acabou se tornando um símbolo da luta democrática e libertária, da luta pela reforma agrária, da luta do povo excluído do interior do Brasil. São inúmeros os trabalhos, publicações e extensas reportagens que investigam e discorrem sobre esse acontecimento do sul do Pará.

Numa época em que a militância política é apresentada por alguns como superada, a Guerrilha do Araguaia repercute sobre setores da juventude brasileira que têm militância social política. Por que isso ocorre?

RR: A juventude sempre procura perspectivas, motivação para uma luta em que possa se empenhar. A juventude precisa de utopias. Então, um acontecimento como esse tem um impacto muito grande, em especial na juventude. Foram os jovens, exatamente, que mais se empenharam na luta pela liberdade, pela democracia. Entre os guerrilheiros, os jovens eram muitos; entre eles, uma estudante, Helenira Resende, que foi dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Então, isso para a juventude tem relevância em sua consciência.

Os jovens de hoje admiram a bravura e a coragem dos guerrilheiros que empreenderam aquela heróica resistência. Eles se tornaram uma referência muito importante, porque a juventude busca sempre esses símbolos de luta. Por isso que a Guerrilha, hoje, ressoa como um grande exemplo na consciência da juventude.

Não se pode deixar de registrar também que proliferam reportagens na imprensa e estudos, mesmo nas universidades, com uma preocupação, nos setores também avançados, de trazer à tona os fatos...

RR: Porque num determinado momento da nossa história essa consciência de luta, de resistência, assume essa profundidade e essa conseqüência. Existiu um movimento de resistência que durou três anos e praticamente foi dizimado. Então, claro, isso chama a atenção. Por que isso aconteceu? O que motivou essa resistência? Por que se sucede um movimento como esse?

Ou seja, essa consciência crítica, esse espírito investigativo que quer desbravar, que procura tirar as lições da nossa história, vai sempre se debruçar sobre esses acontecimentos. É assim que se entende nossa história política, a história do país, onde nos apoiamos. E, aliás, é numa hora como essa que muita gente deixa a acomodação e vai à luta, porque uma luta como o Araguaia passa a ser uma espécie de descoberta de uma nova vida.

A tentativa de apagar o acontecimento da resistência, a censura férrea, a liquidação de pistas e registros, chegando até mesmo à carbonização de corpos, conduz a uma atenção ainda maior e um anseio de resgate da memória do sucedido que foi soterrado. A repercussão na sociedade passa a ser mais aguda. A força de descobrir, de investigar se torna mais forte ainda. Por isso, a cada dia aumenta o número de reportagens, pesquisas, trabalhos acadêmicos e publicações sobre o Araguaia.

Como o PCdoB reage às denúncias presentes em vários órgãos da imprensa sobre atrocidades e selvagerias que foram cometidas pelas Forças Armadas contra os combatentes? E mesmo ao direito humanitário das famílias de enterrar os restos mortais de seus entes queridos?

RR: A correlação de forças de cada momento histórico é que define as formas de luta. Naquele momento, o país viveu uma realidade excepcional, de exceção política, ou seja, estava sujeito a uma ditadura que chegou ao nível da selvageria, um regime sanguinário – praticamente não havia nenhuma força política legal no país. E não falo só de forças de esquerda; mesmo forças de direita (o próprio Carlos Lacerda teve de se exilar). Era uma situação em que se tentou acabar com a vida política normal, passando tudo ao controle de um grupo de militares. Então, evidentemente, numa situação dessas, da própria realidade brotam as diversas formas de resistência, levando-se até às formas de luta mais radicais.

Diferente, portanto, da situação atual, em que o país atravessa um processo de redemocratização e talvez viva o período de maior democratização da sua vida política. Consegue até eleger um operário à Presidência da República. Ou seja, vivemos um período, portanto, inédito – como processo democrático, o mais avançado. Aí está o ineditismo desta situação, quer dizer, um novo ciclo político que se abre, porque forças políticas que nunca tinham antes conseguido chegar ao governo da República o fazem agora – exatamente forças de origem popular, de extração popular. O próprio presidente da República é um operário. Então, é uma outra realidade, em que pela primeira vez o PCdoB apóia e participa do governo nacional. O que se coloca agora como desafio é contribuir para que esse governo construa um novo projeto a fim de que se descortine um novo tempo para nosso povo. Então, é diferente daquele período da resistência do Araguaia.

O regime militar procurou organizar uma guerra de extermínio para enfrentar a resistência do Araguaia. Uma guerra de extermínio, com censura férrea e da qual ninguém pudesse saber. Essa guerra selvagem não respeitou nenhuma lei da própria guerra, estabelecidas na Convenção de Genebra. Assim, teve-se de se enfrentar uma luta muito desigual – uma luta cruenta, que acabou praticamente por levar à dizimação da quase totalidade da resistência. Muita gente foi sumariamente fuzilada, chegando ao nível de requintes de torturas, de decapitação e esquartejamento... Uma selvageria.

Em atos de verdadeira barbárie, os integrantes da resistência foram executados depois de presos. Os corpos foram enterrados, queimados ou lançados em lugares dos quais são escassas as pistas, uma vez que os arquivos oficiais foram destruídos ou mantidos em sigilo por longo tempo. Dessa forma, tanto o registro histórico do episódio é uma tarefa difícil, quanto vibra com força esse drama humano pujante dos familiares – drama que também é nosso – de lutar para que os corpos de seus parentes, de nossos companheiros, tenham o direito a um túmulo honroso.

Portanto, essa luta pelo resgate dos corpos é importante, pois tem um caráter humanístico e também um caráter político forte, pois é um resgate da memória da Guerrilha. Por isso tem merecido todo nosso apoio e participação a luta dos familiares dos guerrilheiros, que já se estende por um certo tempo, pelo direito de saber o que exatamente aconteceu com seu ente querido e o direito sagrado de enterrá-lo nos jazigos da família.

É algo semelhante ao que aconteceu em outros países vitimados também por ditaduras, como são os casos do Chile e da Argentina. Repercutiu no mundo, por exemplo, o destemor das Mães da Praça de Maio em busca do paradeiro de seus filhos. É uma luta humana absolutamente justa e correta.

O atual governo assumiu o compromisso com os familiares...

RR: O governo assumiu um compromisso, o que foi importante, mas não podemos nos acomodar a isso. Quer dizer, esse compromisso precisa ser honrado. Temos que levar às últimas conseqüências a luta pelo resgate dos corpos, ou a informação do que foi feito destes combatentes honrados. Trata-se de um direito básico, fundamental das pessoas, no caso dos familiares.

Neste sentido, consideramos positiva a decisão, de dezembro de 2004, do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1a Região de determinar a abertura dos arquivos oficiais sobre o Araguaia. Esta deliberação do TRF e a posição democrática do governo Lula, de não recorrer dela, são decisões que vão ao encontro de uma exigência da consciência democrática nacional e de um legítimo direito dos familiares, questões pelas quais o Partido sempre se bateu. O PCdoB dará prosseguimento a esta luta.

O camarada João Amazonas se empenhou muito junto aos familiares para que essa batalha viesse a ter êxito, sempre afirmando que esta questão não tinha nenhuma conotação revanchista.

Nessa luta nós podemos também agregar o nome da Elza Monnerat...

RR: Sim, a Elza inclusive se empenhou durante muito tempo. O Partido procurou organizar os familiares. A primeira caravana das famílias à região em busca de informações, em 1980, foi empreendida com total apoio e participação do PCdoB. Foi a primeira iniciativa de procurar os familiares. Surgiu daí essa luta pelo resgate dos corpos que se prolonga até os dias de hoje. Infelizmente, até o presente, apenas foi localizado o corpo da jovem guerrilheira Maria Lúcia Petit.

Esse esforço deve continuar. E isso faz parte do resgate da memória da luta, da resistência. Porque quanto mais se conheça e se domine toda a luta popular é importante para a nossa história e para a nossa experiência.

Canudos, por exemplo, teve um jornalista que o acompanhou do começo ao fim. E um grande jornalista, Euclides da Cunha, que nos deixou uma obra que é clássica – Os Sertões. Nesse episódio pelo menos teve uma pujante testemunha que retratou de maneira viva aquele acontecimento. O brilhante trabalho de Euclides da Cunha impediu o esforço daqueles que pretendiam apagar Canudos da memória e da história.

Você já disse que o Araguaia surgiu num determinado período e tem o seu lugar na história. Mas que poderia se extrair daquela jornada para os desafios da militância revolucionária dos dias de hoje?

RR: Uma primeira grande questão, como lição deixada por esses bravos combatentes, é a força de um grande ideal, a força de um projeto histórico. Porque, evidentemente, se não se tem um grande objetivo, uma grande causa, não há luta avançada nem persistente. A luta não adquire conseqüência, torna-se sempre uma luta esporádica, conjuntural, pontual.

E, exatamente, por que aqueles militantes chegaram ao extremo de largar tudo, de dar a sua vida, numa abnegação plena? Isso não ocorre por acaso, não cai do céu. Não se trata de fanatismo. O que os moveu foi um ideal determinado. O grande ideal da liberdade, da justiça social, o projeto de um outro Brasil. Entrelaçado com isso estava o vínculo, o compromisso com uma força de vanguarda que procura construir, tornar realidade, a grande causa de uma sociedade mais avançada, mais moderna, superior ao sistema atual. Uma sociedade socialista, que era e continua sendo defendida por nosso Partido.

Esse é um precioso ensinamento. Não podemos perder a perspectiva. Porque se o Partido não cultiva, não persegue a causa que o leva a existir, perde seu sentido, sua razão de ser, perece. A convicção na perspectiva leva a militância a ter mais razão para lutar. Por isso afirmamos que a causa dos comunistas é ousada. É gente que tem consciência da dimensão do ideal que abraçou. É a luta por uma sociedade nova, socialista, solidária, pelos grandes ideais do comunismo. O que motivou os guerrilheiros do Araguaia, portanto, foi isso. E nos deixaram esse fértil legado. Não devemos nunca perder nossa perspectiva revolucionária; ao contrário, temos que desenvolvê-la, atualizá-la e reavivá-la sempre – é isso que nos alimenta e nos motiva à luta persistente e duradoura para tornar realidade o projeto de emancipação nacional e social de nosso país.


Nota:

1- Renato Rabelo, num período da primeira metade da década de 70, atuou clandestinamente em Goiás, com a tarefa de desenvolver uma rede logística de apoio à Guerrilha do Araguaia.

 

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