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Renato Rabelo discursa durante homenagem póstuma a João Amazonas em
Xambioá
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Há exatos 33
anos, no dia 12 de abril de 1972, na fase
mais dura da ditadura militar brasileira,
cerca de 2 mil homens do exército,
especialmente das Brigadas de Infantaria da
Selva (BIS) e outras unidades da área, tomam
de assalto a região do baixo Araguaia,
fazendo de Marabá e Xambioá suas
cidades-quartéis. A "ocupação" da área tinha
um único objetivo: aniquilar o incipiente
movimento de resistência que vinha sendo
construído na região por militantes do
Partido Comunista do Brasil. Esta agressão
militar, que atingiu não só os militantes
comunistas mas também a população local, deu
início ao episódio que ficou conhecido como
a Guerrilha do Araguaia.
Para lembrar o
33º aniversário desse episódio tão marcante
da história do Brasil, o Vermelho
reproduz aqui uma recente entrevista com o
presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo
— publicada na quarta edição do livro
Guerrilha do
Araguaia - uma epopéia pela Liberdade.
Na entrevista, Rabelo fala sobre o
significado histórico da Guerrilha e afirma: "Embora derrotada militarmente, a
Guerrilha do Araguaia foi vitoriosa
politicamente!".
Confira a
íntegra:
Qual o significado histórico da
Guerrilha do Araguaia para a vida do país?
Renato Rabelo: A resistência do
Araguaia adquiriu uma grande dimensão.
Primeiro, uma luta que durou quase três anos
– foi a jornada de resistência de maior
duração na época da ditadura militar.
Segundo, ela contribuiu efetivamente para
debilitar o regime militar e fortalecer o
ânimo da oposição democrática. Terceiro, a
guerrilha só conseguiu esses resultados
porque ganhou o apoio da população local –
questão que, com o tempo, foi sendo
revelada.
De alguma maneira, nesse aspecto, ela
se distingue da resistência armada realizada
por outras organizações que centraram suas
ações nas cidades?
RR: Sim, essa análise corresponde.
Porque, para alguns setores, no campo
bastaria se instalar de forma secreta e
escolher o momento de deflagrar a luta
armada que o povo acompanharia. A concepção
da organização da resistência do Araguaia,
feita pelo PCdoB, foi diferente. Ganhar a
confiança do povo e viver com a massa local
foi considerado chave para deflagrar uma
ação insurgente. No caso do Araguaia, essa
concepção demonstrou ser justa, porque com o
desenvolvimento da luta o povo da região não
só deu apoio de formas variadas, mas houve
até mesmo o engajamento de camponeses às
Forças Guerrilheiras.
Isso pode ser atestado pelo depoimento do
Paulo Fonteles, que foi tomado de surpresa
ao constatar este fato. Ele, um homem do
Pará, que nunca tinha ido à região, mas
conhecia bem aquela realidade, ao chegar à
área onde houve a resistência constatou que
havia uma simpatia generalizada à Guerrilha.
As pessoas falavam da Guerrilha com
admiração e do mito em que se transformaram
os guerrilheiros, sobretudo na figura do
Osvaldão e da Dina.
Então, isso foi sendo revelado à medida
que a censura caiu. Além do mais, para
mostrar também a envergadura dessa
resistência –e as Forças Armadas não deixam
de reconhecer isso–, ela envolveu a maior
mobilização militar depois da II Guerra
Mundial.
Por tudo isso, a Guerrilha do Araguaia é
um episódio de resistência que adquiriu uma
grande importância. Aquele tipo de processo
de luta popular, como Canudos, que mobilizou
uma grande massa popular no interior da
Bahia. A Guerrilha também mobilizou, na
região em torno do Araguaia, uma população
que se tornou simpatizante. Por isso, ela
igualmente se inscreve na trajetória das
lutas populares de grande dimensão do país.
As Forças Armadas, para combatê-la, tiveram
de empregar um efetivo de mais de 12 mil
homens e, entre estes, forças especiais e de
elite.
Nesse importante episódio dirigido pelo
PCdoB é elucidativo também destacar que as
bandeiras da resistência tinham um caráter
muito amplo. A questão da democracia, da
liberdade e dos direitos do povo – e, no
caso concreto, direitos do povo do interior.
Em suma, sobre seu papel histórico, a
Guerrilha do Araguaia acabou adquirindo um
significado muito marcante.
À época, mesmo com a censura que havia
no país, esta luta dá o seu contributo ao
combate ao regime militar, em especial por
disseminar a mensagem de que a ditadura
poderia ser contestada, apesar de sua força?
RR: Embora derrotada militarmente, a
Guerrilha do Araguaia foi vitoriosa
politicamente! É isso! A Guerrilha foi
atacada por todos os meios, porque a
ditadura sentiu o golpe. O regime ditatorial
tentou abafá-la a todo custo.
Mas, a Guerrilha, pouco a pouco, mesmo
com toda censura, acabou ficando conhecida
por uma parte significativa de setores
políticos no país, além do povo da região.
Só para dar um exemplo, eu mesmo vivi um
período da Guerrilha em Goiás1 e viajei até
perto do que se chama o Bico do Papagaio
– naquela época, o norte de Goiás. Não era
possível atravessar essa região sem passar
por várias barreiras do Exército. Trabalhava
então como vendedor de uma grande empresa, e
a repressão fazia uma vistoria rigorosa. E
havia barreiras a partir de uma área ainda
distante da Guerrilha. Era muito difícil de
se entrar na região periférica do conflito.
Então, aquela população toda acabou
convivendo com isso. Tal situação repercutia
para Goiás e Pará, em especial Belém,
Goiânia, e Brasília.
E os vários setores políticos também nas
cidades foram tomando conhecimento do
Araguaia. Além do mais, a Guerrilha, por ser
uma forma de luta radical, acabou atingindo
a ditadura –que agia preventivamente para
que isso não acontecesse. Ela foi
surpreendida, uma vez que havia promovido
estruturada e permanente repressão contra as
organizações políticas para que conflitos
como o do Araguaia não eclodissem. E o fato
de surgir uma resistência armada combatendo
o governo dos militares demonstrava
exatamente o grau de resistência crescente,
num processo de radicalização contra eles.
Para a opinião avançada, havia um lado
importante da questão: o testemunho de luta
dessa gente que se tornou combatente no
interior do país. Era gente que ia para o
campo, deixava tudo. Pegando em armas,
entregando a própria vida, mostrando que a
resistência chegava a esse nível de
dedicação e de generosidade. Isso tinha um
impacto estimulador sobre as parcelas mais
esclarecidas. Basta dizer que a unificação
da Ação Popular (AP) com o PCdoB em grande
medida se apressou por isso. É justo que se
diga que a unificação estava em marcha, mas
apressou-se como um gesto de apoio e
solidariedade maior a essa resistência
– porque era um testemunho muito forte de
luta, de abnegação, de generosidade com a
causa democrática. As pessoas diziam:
“enfrentamos até com a vida se preciso, mas
esse regime não pode continuar em nosso
país”. Em função disso, João Amazonas dizia
que a Ação Popular era de fato uma
organização revolucionária, porque, naquele
momento em que o Partido estava sendo mais
atacado pela repressão ditatorial essa
organização (AP) foi ao seu encontro. Mas
também a AP tomou essa iniciativa justamente
porque viu um exemplo importante no fato de
o Partido conseguir deflagrar e se empenhar
numa resistência armada que a consciência
democrática mais avançada da época defendia.
Esse acontecimento no norte do país,
politicamente, teve um impacto muito
negativo para a ditadura e noutro pólo
reforçou a oposição democrática.
Nessa jornada da luta guerrilheira,
qual o papel da organização política que
esteve à sua frente: o Partido Comunista do
Brasil?
RR: A Guerrilha é um episódio que hoje
pertence ao povo brasileiro, ao elenco de
suas lutas, mas a coragem política do PCdoB,
de recorrer a esse tipo de forma de luta num
momento tão difícil, não pode deixar de ser
considerada.
Essa questão também é importante porque a
ditadura militar foi pouco a pouco adotando
uma postura cada vez mais ditatorial –como
se dizia na época, houve um processo de
fascistização crescente. Um processo de
autoritarismo em grande escala, de um
governo ditatorial que governava com base
numa Constituição outorgada, via atos
institucionais. Numa situação como essa, de
grandes restrições à atividade democrática,
cresceu muito, no seio das forças
progressistas e avançadas do país, a idéia
de que era preciso também uma resistência
armada. Uma coisa leva à outra. Além disso,
do ponto de vista histórico, é a força do
poder dominante capitalista que inviabiliza
o caminho pacífico para as grandes
transformações econômico-sociais. Naquele
momento, crescia uma justa reação a essa
situação fascistizante.
Diante dessa situação, muita gente deixou
o estudo e suas atividades profissionais
para enfrentar a ditadura, mostrando,
portanto, uma consciência elevada, de
resistir até de forma extrema ao regime. O
número de pessoas que naquele período adotou
uma atitude militante, deixou as
universidades, escolas e o trabalho não foi
pequeno. Se fosse feito um levantamento
hoje, a gente poderia ter uma dimensão mais
precisa dessa verdadeira insurgência contra
o regime militar (não sei se tem um
levantamento histórico sobre isso, o que até
seria interessante).
Quer dizer que o Partido rejeita a
crítica de que a Guerrilha teria sido uma
ação aventureira, uma inconseqüência?
RR: Sim. Exatamente porque o Partido, de
uma certa forma, foi na verdade uma caixa de
ressonância de uma consciência de
resistência que florescia. Essa consciência,
que assumia posições mais avançadas, foi
compreendendo também que formas de
resistência armada deveriam ser feitas
contra um regime truculento, tão
sanguinário. Era preciso também essas formas
mais ousadas. Então, não era um problema só
do PCdoB, era uma consciência que batia à
porta exigindo essa tomada de atitude. E o
Partido expressa isso, por ser um
instrumento, um porta-voz, dessa consciência
democrática mais avançada da época. Ele foi,
então, convocado por essas circunstâncias e
se comprometeu a desencadear essa forma de
enfrentamento político.
O Partido joga um papel importante por
quê? Porque as organizações políticas que
combatiam a ditadura, apesar da abnegação,
no seu conjunto, não tinham o entendimento
suficiente sobre as formas mais corretas de
fazê-lo. Por isso que, na época, havia um
intenso debate de como se enfrentar de
maneira mais justa o regime.
Havia teses como a teoria do foco
– segundo a qual bastaria se reunir um grupo
preparado para o enfrentamento armado num
determinado local, geralmente de difícil
acesso, porque isso daria margem para o
combate a uma força maior, mais bem armada
(um lugar de difícil acesso, com pessoas já
preparadas, armadas e que escolheriam um dia
para iniciar as primeiras ações. E o povo
local, por exatamente viver numa situação
sempre de desigualdade, miséria etc,
acompanharia. Por isso era necessário
primeiro fazer a preparação nas cidades,
conseguindo recursos, os meios para a ação
armada no interior, através de iniciativas
ousadas como assalto a bancos. Feito isso,
em ações clandestinas, haveria alguns desses
focos armados pelo campo, que fariam o
trabalho de insurgência).
Havia outra posição, que foi defendida
pelo PCdoB e, evidentemente, por outras
organizações (no caso, a AP também
defendia), de que era necessário, primeiro,
os militantes fazerem um trabalho com a
população local e viver com ela durante
anos. Assim passariam a conhecer
profundamente a geografia do lugar e os
problemas e aspirações daquela gente. Essa
identificação levaria pouco a pouco a
população a compreender o motivo da luta,
por que aqueles militantes estavam ali
compartilhando do mesmo modo de vida.
Portanto, num primeiro momento, é necessário
um trabalho de identidade com a população
local. E, com base já nessas raízes locais,
com a definição de uma plataforma de luta,
haveria condições possíveis de uma
insurgência, já com o povo participando e
apoiando.
Enfim, o Partido orientou-se por esta
concepção, muito distinta da concepção
conhecida como foquista, sobre a qual
discorremos acima.
O PCdoB parece ter estudado a própria
experiência do povo brasileiro e as lutas
anteriores. Mas também é sabido que, por
outro lado, procurou estudar outras
experiências revolucionárias; em particular,
a chinesa. Como você analisa a Guerrilha do
Araguaia em relação a essas duas fontes?
RR: A idéia-chave a considerar é que esta
forma de luta exige o apoio político da
população local e se justifica diante de um
regime liberticida imperante. E, para isso,
se impunha construir uma relação íntima com
o povo da região interiorana. Uma
resistência armada na cidade era uma
temeridade, por ser um cenário no qual o
regime tinha pleno controle. Já no campo, no
interior, a insurgência teria melhores
condições para enfrentá-lo. Esse foi o
entendimento principal. E a compreensão de
como as lutas populares, ao longo da
história, se desenrolaram no Brasil. Tudo
isso foi levado em conta.
Agora, qual foi a peculiaridade dessa
resistência? Foi uma luta que tem um grande
significado e se iguala a outros grandes
feitos do nosso povo. Só que com uma
diferença: conduzida pela primeira vez por
uma força revolucionária organizada – uma
singularidade histórica.
Evidentemente, foi uma luta muito
desigual. No nosso país foram muitas as
lutas populares exterminadas pela repressão
violenta. O que foi Canudos, senão um
massacre? Tratava-se de uma revolta popular,
um levante de sertanejos. Não foi,
obviamente, um episódio conduzido por uma
força revolucionária, como no caso do
Araguaia, embora de relevante importância
histórica. Poderíamos citar também o
Quilombo dos Palmares, a Cabanagem, a
Revolta da Chibata e outros episódios –todos
eles alvos de uma selvageria cujo objetivo
era exterminá-los. Sempre o propósito insano
de que não reste uma só pessoa para contar a
história.
Evidentemente, procurou-se levar em conta
a experiência de outras insurgências dentro
e fora do país, retirando lições e
considerando a nossa realidade específica.
Mas era uma luta ainda muito desigual,
diante da correlação de forças predominante
nesse período.
O Partido procurou organizar um apoio
nas cidades à Guerrilha. Em conseqüência,
foi alvo de uma violência ainda maior. Como
se deu a preparação desse apoio logístico?
RR: Toda resistência, além do apoio
local, fundamental, da população – se não a
resistência não sobreviveria quase três anos
e meio a uma desigualdade enorme de
armamento– depende de apoio mais extenso.
Para uma guerrilha, o armamento advém do
combate com o inimigo, porquanto a força
guerrilheira procura sempre estar na
ofensiva tática (escolha do momento e lugar
em que esteja em vantagem vis-à-vis ao
inimigo, impondo-lhe a surpresa). Ela
consegue pouco a pouco obter armamento, ao
enfrentar pequenos grupos do inimigo.
Mas uma resistência não pode viver só do
apoio local. É preciso ter uma retaguarda
fora do lugar do conflito, apoios nas
cidades e outras frentes. Porque se não, ela
se isola. Então, procurou-se construir isso
nas condições da resistência armada do
Araguaia. Mas o tempo não foi suficiente
para dar cabo de tudo o que seria
necessário. Efetivamente isso teria de
avançar com mais rapidez, mas não se
conseguiu, por causa do montante da ação
repressiva e debilidades da própria
resistência no seu conjunto. Se o movimento
guerrilheiro se sustentasse por mais tempo,
existia a possibilidade de outras frentes
despontarem e se juntarem à ação pioneira,
tornando-a um caudal de luta mais poderoso.
Por isso, seriam imprescindíveis o apoio
das cidades e a formação de outras frentes.
O papel do Partido em apoio à resistência
fora do teatro de operações e de ampla rede
de simpatizantes era muito importante. O
regime procurou atacar aí também, porque era
a retaguarda que ajudava aquela frente de
luta. O acontecimento conhecido como queda
da Lapa em grande parte está ligado a isso,
porque os órgãos de inteligência do regime
passaram a se concentrar mais em espionar e
atacar a retaguarda, a direção central do
Partido dirigente. E foi exatamente a forma
com que eles procuraram nos atingir.
No legado da Guerrilha, além do político
mais geral, da luta pela liberdade, uma
outra esfera é do movimento social. Por
exemplo, nos anos 1980, na mesma região ao
sul do Pará e norte de Goiás, há um ascenso
da luta camponesa pela terra. Esse também
seria um legado da Guerrilha?
RR: Acho que hoje, com a
redemocratização, a Guerrilha passou a ser
vista como uma herança valiosa. Não só de um
exemplo de luta conseqüente pela democracia,
pela liberdade –porque isso foi comprovado
pela ação dos guerrilheiros, dando até a
vida–, mas também que levantou uma série de
bandeiras de direitos do povo abandonado do
interior. Da Guerrilha, há os vinte e sete
pontos (do programa da resistência),
propondo a defesa de uma série de direitos
do povo do interior. Hoje, as Forças Armadas
e os governos tiveram de responder a muitos
daqueles vinte e sete pontos. Muitas
reivindicações levantadas pelo movimento
armado tiveram que ser consideradas de lá
para cá.
E entra aí também a questão da reforma
agrária, porque aquela é uma região onde a
bandeira da reforma agrária tem uma presença
muito forte. Tem, por exemplo, uma série de
lutas importantes pela reforma agrária em
Goiás e no Pará.
E na própria região, quando nós estivemos
em Xambioá por ocasião do ato de espargir as
cinzas do camarada Amazonas, era grande a
quantidade de alunos repetindo as bandeiras
levantadas pela Guerrilha. As professoras
das escolas da região passaram a ter
presente a resistência –porque foi um
acontecimento que marcou profundamente
aquela parte do país. Uma quantidade muito
grande de alunos foi falar conosco, alguns
exibindo trabalho escolar sobre o assunto.
Após a democratização, sobretudo depois de
meados da década de 1990, a guerrilha acabou
se tornando um símbolo da luta democrática e
libertária, da luta pela reforma agrária, da
luta do povo excluído do interior do Brasil.
São inúmeros os trabalhos, publicações e
extensas reportagens que investigam e
discorrem sobre esse acontecimento do sul do
Pará.
Numa época em que a militância
política é apresentada por alguns como
superada, a Guerrilha do Araguaia repercute
sobre setores da juventude brasileira que
têm militância social política. Por que isso
ocorre?
RR: A juventude sempre procura
perspectivas, motivação para uma luta em que
possa se empenhar. A juventude precisa de
utopias. Então, um acontecimento como esse
tem um impacto muito grande, em especial na
juventude. Foram os jovens, exatamente, que
mais se empenharam na luta pela liberdade,
pela democracia. Entre os guerrilheiros, os
jovens eram muitos; entre eles, uma
estudante, Helenira Resende, que foi
dirigente da União Nacional dos Estudantes
(UNE). Então, isso para a juventude tem
relevância em sua consciência.
Os jovens de hoje admiram a bravura e a
coragem dos guerrilheiros que empreenderam
aquela heróica resistência. Eles se tornaram
uma referência muito importante, porque a
juventude busca sempre esses símbolos de
luta. Por isso que a Guerrilha, hoje, ressoa
como um grande exemplo na consciência da
juventude.
Não se pode deixar de registrar também
que proliferam reportagens na imprensa e
estudos, mesmo nas universidades, com uma
preocupação, nos setores também avançados,
de trazer à tona os fatos...
RR: Porque num determinado momento da
nossa história essa consciência de luta, de
resistência, assume essa profundidade e essa
conseqüência. Existiu um movimento de
resistência que durou três anos e
praticamente foi dizimado. Então, claro,
isso chama a atenção. Por que isso
aconteceu? O que motivou essa resistência?
Por que se sucede um movimento como esse?
Ou seja, essa consciência crítica, esse
espírito investigativo que quer desbravar,
que procura tirar as lições da nossa
história, vai sempre se debruçar sobre esses
acontecimentos. É assim que se entende nossa
história política, a história do país, onde
nos apoiamos. E, aliás, é numa hora como
essa que muita gente deixa a acomodação e
vai à luta, porque uma luta como o Araguaia
passa a ser uma espécie de descoberta de uma
nova vida.
A tentativa de apagar o acontecimento da
resistência, a censura férrea, a liquidação
de pistas e registros, chegando até mesmo à
carbonização de corpos, conduz a uma atenção
ainda maior e um anseio de resgate da
memória do sucedido que foi soterrado. A
repercussão na sociedade passa a ser mais
aguda. A força de descobrir, de investigar
se torna mais forte ainda. Por isso, a cada
dia aumenta o número de reportagens,
pesquisas, trabalhos acadêmicos e
publicações sobre o Araguaia.
Como o PCdoB reage às denúncias
presentes em vários órgãos da imprensa sobre
atrocidades e selvagerias que foram
cometidas pelas Forças Armadas contra os
combatentes? E mesmo ao direito humanitário
das famílias de enterrar os restos mortais
de seus entes queridos?
RR: A correlação de forças de cada
momento histórico é que define as formas de
luta. Naquele momento, o país viveu uma
realidade excepcional, de exceção política,
ou seja, estava sujeito a uma ditadura que
chegou ao nível da selvageria, um regime
sanguinário – praticamente não havia nenhuma
força política legal no país. E não falo só
de forças de esquerda; mesmo forças de
direita (o próprio Carlos Lacerda teve de se
exilar). Era uma situação em que se tentou
acabar com a vida política normal, passando
tudo ao controle de um grupo de militares.
Então, evidentemente, numa situação dessas,
da própria realidade brotam as diversas
formas de resistência, levando-se até às
formas de luta mais radicais.
Diferente, portanto, da situação atual,
em que o país atravessa um processo de
redemocratização e talvez viva o período de
maior democratização da sua vida política.
Consegue até eleger um operário à
Presidência da República. Ou seja, vivemos
um período, portanto, inédito – como processo
democrático, o mais avançado. Aí está o
ineditismo desta situação, quer dizer, um
novo ciclo político que se abre, porque
forças políticas que nunca tinham antes
conseguido chegar ao governo da República o
fazem agora – exatamente forças de origem
popular, de extração popular. O próprio
presidente da República é um operário.
Então, é uma outra realidade, em que pela
primeira vez o PCdoB apóia e participa do
governo nacional. O que se coloca agora como
desafio é contribuir para que esse governo
construa um novo projeto a fim de que se
descortine um novo tempo para nosso povo.
Então, é diferente daquele período da
resistência do Araguaia.
O regime militar procurou organizar uma
guerra de extermínio para enfrentar a
resistência do Araguaia. Uma guerra de
extermínio, com censura férrea e da qual
ninguém pudesse saber. Essa guerra selvagem
não respeitou nenhuma lei da própria guerra,
estabelecidas na Convenção de Genebra.
Assim, teve-se de se enfrentar uma luta
muito desigual – uma luta cruenta, que acabou
praticamente por levar à dizimação da quase
totalidade da resistência. Muita gente foi
sumariamente fuzilada, chegando ao nível de
requintes de torturas, de decapitação e
esquartejamento... Uma selvageria.
Em atos de verdadeira barbárie, os
integrantes da resistência foram executados
depois de presos. Os corpos foram
enterrados, queimados ou lançados em lugares
dos quais são escassas as pistas, uma vez
que os arquivos oficiais foram destruídos ou
mantidos em sigilo por longo tempo. Dessa
forma, tanto o registro histórico do
episódio é uma tarefa difícil, quanto vibra
com força esse drama humano pujante dos
familiares – drama que também é nosso – de
lutar para que os corpos de seus parentes,
de nossos companheiros, tenham o direito a
um túmulo honroso.
Portanto, essa luta pelo resgate dos
corpos é importante, pois tem um caráter
humanístico e também um caráter político
forte, pois é um resgate da memória da
Guerrilha. Por isso tem merecido todo nosso
apoio e participação a luta dos familiares
dos guerrilheiros, que já se estende por um
certo tempo, pelo direito de saber o que
exatamente aconteceu com seu ente querido e
o direito sagrado de enterrá-lo nos jazigos
da família.
É algo semelhante ao que aconteceu em
outros países vitimados também por
ditaduras, como são os casos do Chile e da
Argentina. Repercutiu no mundo, por exemplo,
o destemor das Mães da Praça de Maio em
busca do paradeiro de seus filhos. É uma
luta humana absolutamente justa e correta.
O atual governo assumiu o compromisso com
os familiares...
RR: O governo assumiu um compromisso, o
que foi importante, mas não podemos nos
acomodar a isso. Quer dizer, esse
compromisso precisa ser honrado. Temos que
levar às últimas conseqüências a luta pelo
resgate dos corpos, ou a informação do que
foi feito destes combatentes honrados.
Trata-se de um direito básico, fundamental
das pessoas, no caso dos familiares.
Neste sentido, consideramos positiva a
decisão, de dezembro de 2004, do Tribunal
Regional Federal (TRF) da 1a Região de
determinar a abertura dos arquivos oficiais
sobre o Araguaia. Esta deliberação do TRF e
a posição democrática do governo Lula, de
não recorrer dela, são decisões que vão ao
encontro de uma exigência da consciência
democrática nacional e de um legítimo
direito dos familiares, questões pelas quais
o Partido sempre se bateu. O PCdoB dará
prosseguimento a esta luta.
O camarada João Amazonas se empenhou
muito junto aos familiares para que essa
batalha viesse a ter êxito, sempre afirmando
que esta questão não tinha nenhuma conotação
revanchista.
Nessa luta nós podemos também agregar
o nome da Elza Monnerat...
RR: Sim, a Elza inclusive se empenhou
durante muito tempo. O Partido procurou
organizar os familiares. A primeira caravana
das famílias à região em busca de
informações, em 1980, foi empreendida com
total apoio e participação do PCdoB. Foi a
primeira iniciativa de procurar os
familiares. Surgiu daí essa luta pelo
resgate dos corpos que se prolonga até os
dias de hoje. Infelizmente, até o presente,
apenas foi localizado o corpo da jovem
guerrilheira Maria Lúcia Petit.
Esse esforço deve continuar. E isso faz
parte do resgate da memória da luta, da
resistência. Porque quanto mais se conheça e
se domine toda a luta popular é importante
para a nossa história e para a nossa
experiência.
Canudos, por exemplo, teve um jornalista
que o acompanhou do começo ao fim. E um
grande jornalista, Euclides da Cunha, que
nos deixou uma obra que é clássica – Os
Sertões. Nesse episódio pelo menos teve uma
pujante testemunha que retratou de maneira
viva aquele acontecimento. O brilhante
trabalho de Euclides da Cunha impediu o
esforço daqueles que pretendiam apagar
Canudos da memória e da história.
Você já disse que o Araguaia surgiu
num determinado período e tem o seu lugar na
história. Mas que poderia se extrair daquela
jornada para os desafios da militância
revolucionária dos dias de hoje?
RR: Uma primeira grande questão, como
lição deixada por esses bravos combatentes,
é a força de um grande ideal, a força de um
projeto histórico. Porque, evidentemente, se
não se tem um grande objetivo, uma grande
causa, não há luta avançada nem persistente.
A luta não adquire conseqüência, torna-se
sempre uma luta esporádica, conjuntural,
pontual.
E, exatamente, por que aqueles militantes
chegaram ao extremo de largar tudo, de dar a
sua vida, numa abnegação plena? Isso não
ocorre por acaso, não cai do céu. Não se
trata de fanatismo. O que os moveu foi um
ideal determinado. O grande ideal da
liberdade, da justiça social, o projeto de
um outro Brasil. Entrelaçado com isso estava
o vínculo, o compromisso com uma força de
vanguarda que procura construir, tornar
realidade, a grande causa de uma sociedade
mais avançada, mais moderna, superior ao
sistema atual. Uma sociedade socialista, que
era e continua sendo defendida por nosso
Partido.
Esse é um precioso ensinamento. Não
podemos perder a perspectiva. Porque se o
Partido não cultiva, não persegue a causa
que o leva a existir, perde seu sentido, sua
razão de ser, perece. A convicção na
perspectiva leva a militância a ter mais
razão para lutar. Por isso afirmamos que a
causa dos comunistas é ousada. É gente que
tem consciência da dimensão do ideal que
abraçou. É a luta por uma sociedade nova,
socialista, solidária, pelos grandes ideais
do comunismo. O que motivou os guerrilheiros
do Araguaia, portanto, foi isso. E nos
deixaram esse fértil legado. Não devemos
nunca perder nossa perspectiva
revolucionária; ao contrário, temos que
desenvolvê-la, atualizá-la e reavivá-la
sempre – é isso que nos alimenta e nos
motiva à luta persistente e duradoura para
tornar realidade o projeto de emancipação
nacional e social de nosso país.
Nota:
1- Renato Rabelo, num período da
primeira metade da década de 70, atuou
clandestinamente em Goiás, com a tarefa de
desenvolver uma rede logística de apoio à
Guerrilha do Araguaia.
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