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Brasil, segunda-feira, 8 de setembro de 2008

30 de março de 2005

cinema engajado

Araguaya: Vietnã caboclo

 

Por Ceci Alves*

De um lado, a ingenuidade de ideários dos guerrilheiros. De outro, a naturalidade dos militares para "cercar e aniquilar" pessoas que não compartilham os mesmos pensamentos. E, no meio, o rio de um passado abafado na memória recente do Brasil. O diretor e produtor de cinema Ronaldo Duque reuniu a ponta desses três vértices dos anos de chumbo no Brasil e fez do filme Araguaya, Conspiração do Silêncio - que teve pré-estréia em Salvador na noite da última terça-feira - um soco no estômago.

Com uma impressionante violência velada e uma densidade compatível com o assunto, Conspiração do Silêncio conta a história da Guerrilha do Araguaia, que levou para o meio da selva paraense os resquícios da guerrilha urbana - que lutava contra o regime militar e estava sendo desmembrada e dizimada a partir dos governos Costa e Silva (1966 a 1969) e Garrastazu Médici (1969 a 1974) - e os sonhos de libertar o Brasil da ditadura instaurada em 1964. "É uma história fascinante, de jovens partindo para uma aventura enlouquecida, de uma guerrilha prolongada a partir do campo", conta Duque, que esteve presente à pré-estréia do filme.

Estavam na platéia, o deputado estadual Emiliano José, militante político daquela época, o presidente da Fundação Gregório de Matos, Paulo Lima, e a secretária de Educação de Salvador, a vereadora Olívia Santana. O filme será lançado em maio, em circuito nacional.

História de Juventude

Narrado em francês pelo personagem padre Chico, ou François, um religioso francês que chegou à região no início dos anos 60, o longa-metragem propõe, a princípio, um olhar estrangeiro e distanciado daquilo em que estava se transformando o Brasil naquele tempo, com o recrudescimento da ditadura. Mas, à medida que o padre - e a platéia - vai se envolvendo com a história e a luta dos guerrilheiros, o estranhamento vira estupefação e o distanciamento se transmuta em cumplicidade. "Saber que todo aquele horror que víamos na tela aconteceu na realidade é duro demais", comentou uma espectadora, chocada, na saída da sessão.

O filme é, verdadeiramente, um choque que chama à reflexão. "Algumas das pessoas do exército que participaram da operação de cerco e aniquilamento estão vivas e não sofreram qualquer tipo de punição por tantas mortes. E o filme está aí para rediscutir esse passado e suprir os erros da história recente", disse o carioca Ronaldo Duque, em entrevista exclusiva, após a palestra que fez na Ong Kabum! - Escola de Tecnologia do Instituto Telemar, na segunda-feira passada.

"É uma história de amor, um filme de juventude", disse Ronaldo, antes do início da sessão. "Sim, de amor, de fraternidade, de sonho e de horror", completou um dos alunos da Kabum! que viu o filme com curiosidade e espanto. Araguaya, A Conspiração do Silêncio não reproduz nenhum dos clichês do gênero, recontando uma história há muito escondida, "guardada a sete chaves pelos militares e da qual só temos a versão do PCdoB", conta Duque.

Para tanto, o diretor, que foi também o roteirista de Araguaya, se embrenhou, primeiro, no emaranhado de documentos secretos do governo a que teve acesso - entre eles, o da Operação Sucuri, a última realizada pelo exército, que infiltrou homens entre os guerrilheiros e a comunidade local, mapeou toda a mata e, finalmente, extinguiu todos os rebeldes, que se autodenominavam "terroristas da liberdade".

Duque fez ainda cerca de 100 entrevistas com pessoas envolvidas no episódio, como militantes, camponeses, mateiros, religiosos, parentes de desaparecidos e até soldados rasos do exército que participaram das operações, construindo, assim, um respeitável arcabouço histórico para a escritura do roteiro de ficção. "Foi um trabalho desesperador em determinados momentos, pela falta de recursos, dificuldade para levantar essa história. Foi extremamente difícil", desabafa o diretor.

Vietnã nacional

Depois de ter tido a idéia em 1977, decidir levá-la para as telas em 1984 e do (árduo) trabalho prévio de pesquisa, roteirização e pré-produção e captação de recursos (o filme está orçado em R$ 6 milhões), que levou de 1998 a 2001, foi a vez de Ronaldo Duque se embrenhar, literalmente, na mata do Pará, revivendo, entre 2001 e 2002, além do drama dos guerrilheiros, a agonia de outro diretor: Francis Ford Coppola, quando filmou o seu Apocalipse Now, na inóspita Filipinas, sobre a Guerra do Vietnã.

"Eu nunca tive vontade de desistir. Eu tive vontade, sim, de me matar!", brincou ele, provocando risos na platéia de adolescentes que participaram da palestra na Kabum!. Duque chegou a admitir a semelhança entre o processo de filmagem desse seu primeiro longa-metragem - em que enfrentou as agruras da floresta, como umidade, insetos, calor e doenças - como de Coppola. "Houve uma cena em que um carro dos bombeiros teve de ser desviado do set de filmagens para apagar um incêndio de verdade, tal qual aconteceu com Coppola, quando os helicópteros que ele utilizava em uma cena foram deslocados para guerrear de verdade", diverte-se.

Ele reconhece referências ao Vietnã também nas idéias dos guerrilheiros na época. No filme, existe uma citação direta à correlação da Guerrilha do Araguaia com o Vietnã, como "uma guerra do grande contra o pequeno, do rico contra o pobre". Um Vietnã caboclo que traz cicatrizes até hoje.

Para construir o relato de uma "vergonha para os militares que mandaram - e perderam - 10 mil homens, no combate de apenas 60 pessoas", Duque, que também é um experiente documentarista (No!, sobre o plebiscito chileno de 1988, premiado no Rio Cine Festival de 1989 como Melhor Documentário, e Brinquedos - Promessas e Fé, sobre o Círio de Nazaré), fez uma espécie de doc-fic (documentário-ficcional), mesclando depoimentos de sobreviventes da guerrilha, como os do presidente nacional do PT, José Genoíno, e da ex-militante Criméia Alice, com a recriação dos fatos da época.

"Quis fazer em Araguaya um exercício de ficção, que é recriar uma realidade. E também porque este filme não tem a pretensão de contar a história como um todo. Quero que, a partir do meu relato, surjam novos filmes sobre a guerrilha, que ela seja trazida à tona. Acho que esse é o meu papel".

* Publicado originalmente no jornal A Tarde Salvador-BA no dia 24/03/2005
 

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