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Por Ceci
Alves*
De um lado, a ingenuidade de ideários
dos guerrilheiros. De outro, a
naturalidade dos militares para "cercar e
aniquilar" pessoas que não compartilham os
mesmos pensamentos. E, no meio, o rio de
um passado abafado na memória recente do
Brasil. O diretor e produtor de cinema
Ronaldo Duque reuniu a ponta desses três
vértices dos anos de chumbo no Brasil e
fez do filme Araguaya, Conspiração do
Silêncio - que teve pré-estréia em
Salvador na noite da última terça-feira -
um soco no estômago.
Com uma impressionante violência velada
e uma densidade compatível com o assunto,
Conspiração do Silêncio conta a história
da Guerrilha do Araguaia, que levou para o
meio da selva paraense os resquícios da
guerrilha urbana - que lutava contra o
regime militar e estava sendo desmembrada
e dizimada a partir dos governos Costa e
Silva (1966 a 1969) e Garrastazu Médici
(1969 a 1974) - e os sonhos de libertar o
Brasil da ditadura instaurada em 1964. "É
uma história fascinante, de jovens
partindo para uma aventura enlouquecida,
de uma guerrilha prolongada a partir do
campo", conta Duque, que esteve presente à
pré-estréia do filme.
Estavam na platéia, o deputado estadual
Emiliano José, militante político daquela
época, o presidente da Fundação Gregório
de Matos, Paulo Lima, e a secretária de
Educação de Salvador, a vereadora Olívia
Santana. O filme será lançado em maio, em
circuito nacional.
História de Juventude
Narrado em francês pelo personagem
padre Chico, ou François, um religioso
francês que chegou à região no início dos
anos 60, o longa-metragem propõe, a
princípio, um olhar estrangeiro e
distanciado daquilo em que estava se
transformando o Brasil naquele tempo, com
o recrudescimento da ditadura. Mas, à
medida que o padre - e a platéia - vai se
envolvendo com a história e a luta dos
guerrilheiros, o estranhamento vira
estupefação e o distanciamento se
transmuta em cumplicidade. "Saber que todo
aquele horror que víamos na tela aconteceu
na realidade é duro demais", comentou uma
espectadora, chocada, na saída da sessão.
O filme é, verdadeiramente, um choque
que chama à reflexão. "Algumas das pessoas
do exército que participaram da operação
de cerco e aniquilamento estão vivas e não
sofreram qualquer tipo de punição por
tantas mortes. E o filme está aí para
rediscutir esse passado e suprir os erros
da história recente", disse o carioca
Ronaldo Duque, em entrevista exclusiva,
após a palestra que fez na Ong Kabum! -
Escola de Tecnologia do Instituto Telemar,
na segunda-feira passada.
"É uma história de amor, um filme de
juventude", disse Ronaldo, antes do início
da sessão. "Sim, de amor, de fraternidade,
de sonho e de horror", completou um dos
alunos da Kabum! que viu o filme com
curiosidade e espanto. Araguaya, A
Conspiração do Silêncio não reproduz
nenhum dos clichês do gênero, recontando
uma história há muito escondida, "guardada
a sete chaves pelos militares e da qual só
temos a versão do PCdoB", conta Duque.
Para tanto, o diretor, que foi também o
roteirista de Araguaya, se embrenhou,
primeiro, no emaranhado de documentos
secretos do governo a que teve acesso -
entre eles, o da Operação Sucuri, a última
realizada pelo exército, que infiltrou
homens entre os guerrilheiros e a
comunidade local, mapeou toda a mata e,
finalmente, extinguiu todos os rebeldes,
que se autodenominavam "terroristas da
liberdade".
Duque fez ainda cerca de 100
entrevistas com pessoas envolvidas no
episódio, como militantes, camponeses,
mateiros, religiosos, parentes de
desaparecidos e até soldados rasos do
exército que participaram das operações,
construindo, assim, um respeitável
arcabouço histórico para a escritura do
roteiro de ficção. "Foi um trabalho
desesperador em determinados momentos,
pela falta de recursos, dificuldade para
levantar essa história. Foi extremamente
difícil", desabafa o diretor.
Vietnã nacional
Depois de ter tido a idéia em 1977,
decidir levá-la para as telas em 1984 e do
(árduo) trabalho prévio de pesquisa,
roteirização e pré-produção e captação de
recursos (o filme está orçado em R$ 6
milhões), que levou de 1998 a 2001, foi a
vez de Ronaldo Duque se embrenhar,
literalmente, na mata do Pará, revivendo,
entre 2001 e 2002, além do drama dos
guerrilheiros, a agonia de outro diretor:
Francis Ford Coppola, quando filmou o seu
Apocalipse Now, na inóspita Filipinas,
sobre a Guerra do Vietnã.
"Eu nunca tive vontade de desistir. Eu
tive vontade, sim, de me matar!", brincou
ele, provocando risos na platéia de
adolescentes que participaram da palestra
na Kabum!. Duque chegou a admitir a
semelhança entre o processo de filmagem
desse seu primeiro longa-metragem - em que
enfrentou as agruras da floresta, como
umidade, insetos, calor e doenças - como
de Coppola. "Houve uma cena em que um
carro dos bombeiros teve de ser desviado
do set de filmagens para apagar um
incêndio de verdade, tal qual aconteceu
com Coppola, quando os helicópteros que
ele utilizava em uma cena foram deslocados
para guerrear de verdade", diverte-se.
Ele reconhece referências ao Vietnã
também nas idéias dos guerrilheiros na
época. No filme, existe uma citação direta
à correlação da Guerrilha do Araguaia com
o Vietnã, como "uma guerra do grande
contra o pequeno, do rico contra o pobre".
Um Vietnã caboclo que traz cicatrizes até
hoje.
Para construir o relato de uma
"vergonha para os militares que mandaram -
e perderam - 10 mil homens, no combate de
apenas 60 pessoas", Duque, que também é um
experiente documentarista (No!, sobre o
plebiscito chileno de 1988, premiado no
Rio Cine Festival de 1989 como Melhor
Documentário, e Brinquedos - Promessas e
Fé, sobre o Círio de Nazaré), fez uma
espécie de doc-fic
(documentário-ficcional), mesclando
depoimentos de sobreviventes da guerrilha,
como os do presidente nacional do PT, José
Genoíno, e da ex-militante Criméia Alice,
com a recriação dos fatos da época.
"Quis fazer em Araguaya um exercício de
ficção, que é recriar uma realidade. E
também porque este filme não tem a
pretensão de contar a história como um
todo. Quero que, a partir do meu relato,
surjam novos filmes sobre a guerrilha, que
ela seja trazida à tona. Acho que esse é o
meu papel".
* Publicado
originalmente no jornal A Tarde
Salvador-BA no dia 24/03/2005
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