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Luzia: "Levei 30
anos para me curar" |
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Passados 41 anos da instalação do Regime Militar no Brasil (1964-1985),
algumas feridas permanecem abertas. Uma delas, é falta de informações sobre quem
não resistiu à Ditadura e virou ''desaparecido''. É o caso do cearense Bergson
Gurjão Farias e um grupo de guerrilheiros mortos durante os confrontos com as
Forças Armadas na região do Araguaia (Pará).
Quem sobreviveu, como a ex-guerrilheira baiana ''Lúcia'' ou Luzia Reis Ribeiro,
hoje com 56 anos, faz coro com as famílias de ''mortos desaparecidos'' pelo
direito de saber o paradeiro de seus parentes e amigos. Recrutada pelo PCdoB, em
1972, para engrossar a resistência ao governo militar, Luzia reclama da
morosidade governo federal em abrir os arquivos do período e identificar ossadas
de supostos militantes.
Para Luzia Reis, bancária aposentada, não se justifica, nove anos depois, não
ter sido concluído o trabalho de identificação em prováveis esqueletos de
guerrilheiros que lutaram no Araguaia. Em 25 de julho de 1996, um relatório de
peritos da Equipo Argentino de Antropologia Forense apontou a possibilidade da
ossada batizada por X-2, exumada de um cemitério em Xambioá, ser do cearense
Bergson Gurjão. As outras possibilidades recairiam sobre João Carlos Hass
Sobrinho (descartado), Manuel José Nurchis, Idalício Soares Aranha, Kleber Lemos
da Silva e Antônio Carlos Monteiro Teixeira.
Em janeiro deste ano, com auxílio de Luzia Reis, o jornal O POVO informou
com exclusividade que duas caixas de ossadas (R-2 e X-2) repousavam em um
armário de aço na sala da Comissão de Mortos e Desaparecidos, órgão vinculado à
Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Gabinete da Presidência da
República. Na época houve a promessa que a coleta de sangue da família de
Bergson Farias seria feita até o fim daquele mês, o que não aconteceu. Confira a
seguir os principais trechos da conversa com Luzia Reis.
Como a senhora foi recrutada para a guerrilha?
LR: Minha história começou no movimento estudantil, em 1968. Na minha terra
natal, em Jequié (BA), nós tínhamos grupo de jovens que estudavam o marxismo,
lia Caio Prado Júnior, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Então isso despertava a
consciência crítica dos jovens. Foi assim que fui estudar em Salvador e
participei do movimento em 1968 contra a ditadura militar e contra as reformas
universitárias. Eu era atuante, do grêmio da minha escola. Posteriormente, fiz
Ciências Sociais, que não cheguei a concluir porque fui perseguida por ser do
diretório e entrei para o PCdoB. Eu e outros companheiros que foram para o
Araguaia, Vandick Coqueiro e Dinaelza Coqueiro.
Como a senhora encarou o momento de ir para a luta armada?
LR: Por ser da direção estudantil passei a ser perseguida. Chegaram a ir
na casa dos meus pais em Jequié e ficaram de vigia na porta de nossa casa meses
a fio. Meu pai se contatou comigo e disse que tinha elementos estranhos
observando, agente federais que vigiavam a saída deles. Aí, tive que contar a
eles que era do movimento estudantil, mas não cheguei a dizer que era do Partido
Comunista do Brasil. Meu pai era empresário, tinha um curtume, cinco lojas no
interior da Bahia. A partir dessas perseguições, comecei a me afastar das minhas
atividades. Já não podia ir na faculdade, pois meus colegas me diziam que tinham
ido lá me procurar. Não podia mais trabalhar, não podia mais ir na casa dos meus
pais. Foi quando o partido propôs que eu conversasse com o companheiro do comitê
central chamado Carlos Nicolau Danielli, para ver o que poderia ser feito com
relação a minha atividade e a minha própria vida.
Eles diziam o quê?
LR: Que eu poderia ir para outro estado fazer trabalho clandestino. Que
no momento eu fosse para o Rio de Janeiro, que o PCdoB iria me procurar. Na
Bahia, ninguém falou de Araguaia. Isso foi em outubro de 1971. Fiquei no Rio até
dezembro de 1971 e nesse período eu fui procurada várias vezes pelo comitê
central, através do companheiro Lincoln Oest. Fiquei dentro de casa sem sair
para lugar nenhum. Foi quando fomos para São Paulo com outros companheiros do
Partido Comunista, o próprio Maurício Grabois, Pedro Pomar, Lincoln Oest e
Drumond (João Batista). A primeira conversa não ficou muito claro, somente que
iria para trabalho de campo numa região, que não teria volta, que eu pensasse.
Não fui obrigada, todos nós fomos não de imediato sabendo que ia ser a
guerrilha, porque foi o ataque da repressão que causou a guerrilha. Sabíamos que
era um trabalho de campo que ia nos preparar para uma guerra popular. A gente
lia os documentos, sabia que o PCdoB optou pela luta armada contra a ditadura.
Apenas não sabíamos do local e que seria de imediato. Nem eles sabiam. Fui com
outros companheiros - Tobias de Barreto Júnior e Maria Célia Correia - para o
Araguaia de ônibus, acompanhado apenas de Paulo Rodrigues, que era um militante
dessa região. Chegando lá, meu primeiro contato foi com Bergson Gurjão Farias.
Que dia a senhora chegou lá?
LR: Dois ou três de janeiro de 1972. Estavam na beira do rio Araguaia
dois companheiros, que depois fiquei sabendo que eram Bergson Gurjão Farias e
José Toledo, um chamado Jó e outro chamado Vitor. Estavam sorridentes e felizes
com a chegada minha e do Tobias, porque a Maria Célia tinha se afastado em
Anápolis. Chegando de madrugada, encontramos o Dower Moraes Cavalcante (cearense
que usava o nome Domingos e faleceu nos anos 90 de complicações cardíacas) e Ari
e Áurea Valadão, um casal. Íamos morar ali perto deles, no meio do Caianos (sul
do Pará). A comunidade era Xambioá e São Geraldo, a gente ficava no mato como
camponeses, trabalhando na roça. Mas de uma casa para outra tinha um
quilômetros, às vezes dois ou três quilômetros uma da outra. Numa casa ficou
Ari, Áurea e o Vitor; e na outra Bergson, Dower Cavalcante, eu, Pedro e Tobias.
Nós éramos os irmãos de Bergson, que era mais antigo e ficou sendo chefe da
nossa equipe. O Bergson era bem integrado na população, tinha mais de dez
compadres. Todo mundo gostava de dar os filhos para Bergson batizar porque ele
era muito alegre, cantava e dançava nas festas.
Como era o cotidiano na mata...
LR: A comunidade sabia que nós éramos um pouco diferente. Eu tinha uma
vivência urbana, filha de classe média, não sabia pegar enxada. As mãos do
Tobias ficaram inchadas, cheias de bolhas. Os camponeses ficavam rindo da gente,
mas ensinavam, achavam que a gente tinha ido para lá como eles, ganhar a vida,
ficar rico. Era gente do Ceará, Bahia, Goiás, Maranhão. Pouquíssimos eram do
Pará mesmo. Lá a vida era muita amiga. A gente fazia roça, caçava, ninguém
passava fome no período antes da guerra. Eu estava aprendendo a me adaptar.
Dormíamos em rede, cantavam músicas de Noel Rosa de noite. O Tobias sabia tocar
violão, e eu fazia coro (risos). Iam os compadres e as comadres todas para lá. A
gente ficava no escuro que não tinha luz elétrica, só a luz da lua.
E como eram os treinamentos para a Guerrilha?
LR: Uma semana depois chega o companheiro Maurício Grabois, comandante
geral, e o médico João Carlos Haas Sobrinho, o Juca, que era também do comando.
Vieram mostrar que ali, naquela vida, não poderíamos perder o objetivo que era
construir uma sociedade mais justa e um governo democrático popular. Então, nós
líamos os livros, ouvíamos todos os dias a Rádio Tirana (da Albânia), que eu te
digo sinceramente não sei como é que a rádio chegava até lá. Nesse período eles
faziam treinamento simples, quase nada. Nossas armas eram espingarda 20 e
revólver 38, um ou outro rifle, que só quem tinha era chefe de grupo. Eles
tinham marcado um treinamento de 15 dias em outra região, com outro grupo e que
o Osvaldão — do destacamento ''B'', que havia treinado na Tchecoslováquia e na
China - ia nos dar umas aulas teóricas e práticas de tiro ao alvo e de
camuflagem. O fato é que ainda estávamos em preparação. Ainda ia levar uns
cinco, dez anos. Não era para ser de imediato, mas a área foi descoberta e fomos
atacados.
Qual o período que a senhora passou lá, antes da guerrilha?
LR: Cheguei em janeiro e ficamos até 12 de abril de 1972, quando tivemos
que entrar correndo na mata, porque a gente ficava na mata porém na beira do
riacho, na beira da estrada, perto de outros moradores. E quando se soube que a
repressão tinha nos descoberto de fato, porque eles já tinham atacado a região
de São Domingos, que era o destacamento ''A''.
Quando se deu o primeiro confronto?
LR: Foi uma patrulha da repressão para o destacamento ''A'' e alguns dias
depois, duas semanas parece, eles foram atrás do Juca (João Carlos Haas), que
era o mais conhecido, e depois chegaram a Pau Preto. Quando eles chegaram a Pau
Preto um companheiro veio nos avisar, aí a gente correu pra mata e lá nós nos
deslocamos através de marcha intensa, duas noites e um dia, só parando para
comer farinha, uma caça... Nos deslocamos para uma região antiga chamada Água
Bonita, que foi onde teve a primeira emboscada e eles mataram o primeiro
guerrilheiro que foi Bergson Gurjão Farias. Nos acampamos na Água Bonita, região
linda com água cristalina perto do riacho, e um grupo dirigido por Bergson
Gurjão foi receber mantimentos, inclusive o fumo que ele adorava mascar...
Mesmo sabendo que estava em perseguição, ele foi buscar mantimentos?
LR: Mas a gente tinha que sobreviver. Você acha que a gente ia ficar só
escondido? E mais, a gente tinha que falar de política. A comissão militar disse
que se a gente fosse atacado era para ir para uma área mais afastada para fazer
propaganda política. Nós não falávamos de política com a população, talvez tenha
sido esse um erro, pelo menos teria que preparar algumas lideranças da
população. Só era compadre, comadre. A Áurea era professora em São Geraldo, o
Juca e o Dower Cavalcante atuavam como assistência médica. A Dinalva também
ajudava nos partos. O Juca salvou inúmeras pessoas da região, ele era adorado.
Se você fizer uma pesquisa hoje em Porto Franco você vai ver quanto ele é
querido. Lá tem uma ala do hospital com o nome de João Carlos Haas Sobrinho e,
agora, o prefeito vai fazer um centro cultural chamado João Carlos Haas
Sobrinho. Até hoje, 30 anos depois.
Na área de Porto Franco ficava qual destacamento?
LR: Não era destacamento nenhum, seriam pontos de apoio que o PCdoB criou
em torno da guerrilha. Porto Franco é sul do Maranhão e foi lá que João Carlos
Haas viveu antes da guerrilha.
Sim, e vocês estavam na mata e tem o primeiro confronto...
LR: Tem o primeiro confronto onde o Bergson morreu. É o primeiro
confronto do grupo ''C'', onde o Bergson era chefe. Depois os companheiros
contaram que ele ia na frente e quando percebeu que a área dentro da mata estava
com movimento estranho, que a gente tinha sido cercado, ele se jogou no chão,
mandou o pessoal se retirar e começou a atirar. Ele foi metralhado e o pessoal
fugiu. Estavam lá Áurea, Ari, Paulo, Vitor, Josias. Eram seis, ele ficou no fogo
cruzado e o pessoal escapou. Ele morreu como um herói, mas de uma forma
terrível.
Ele estava com alguma arma?
LR: Ele tinha um rifle e a 20 (espingarda). Eu estava no acampamento
responsável pela alimentação na volta deles. Quando chega um companheiro mais a
frente e conta que ele foi ferido e morto no local e que a gente tivesse cuidado
porque eles iam procurar entrar em contato com a comissão militar. Falaram que
ele acertou um militar, não sabia quem. Esse companheiro que veio dar a notícia,
Caio Rodrigues, o comandante do destacamento, disse que ficássemos sem atirar
para caçar, só com a mão e que estávamos cercado naquela região.
A senhora teve medo?
LR: Eu não tinha noção. Achava que era uma ação como outra qualquer. Não
tinha medo. Quando soube da morte do Bergson chorei de tristeza. O Paulo voltou
para saber de mais notícias, pois tínhamos pessoas de confiança no meio do povo.
O Pedro Onça era um deles, que quando eu me perdi fui procurar por ele. O que
acontece: o Paulo sai, eu e o Dower vamos procurar alimentos e Dagoberto camufla
as nossas mochilas. Dagoberto e Adriana tinham chegado na guerra, tinha um mês
só. Quando está arrumando as coisa, diz ele que estava fazendo a barba quando
ouviu a zoada e saiu correndo. Era o Exército, eles chegam fazendo um barulho.
Quando ele viu, saiu correndo. Ia sozinho enfrentar uma patrulha? Quando
chegamos, eu e o Dower, a uns 50 metros de distância, ouço barulhos, gritos dos
militares e tiros de metralhadoras. Ai me jogo no riacho, atravesso o riacho e
corro para trás. Quando corro, ouvi o barulho das metralhadoras ai pensei:
mataram o Dower, mataram o Dagoberto. Como a gente tinha pontos de proteção em
determinados locais, levei três dias e três noites ao longo dos pontos. Quem se
perdesse era para ir para o ponto, que em três luas ia passar um companheiro. Eu
esperei três dias e três noites e ninguém apareceu.
Passando fome e frio?
LR: Só comia frutas silvestres, castanhas. Só não comia carne porque não
me acostumei a comer crua, as caças, só cozida, mas não tinha fósforo, isqueiro,
perdi tudo. Quando me joguei na água só segurava minha arma, uma Beretta na
cintura e facão, mas nada. Passado esse tempo, eu me aproximei de noitinha da
casa de um morador, que era conhecido nosso, para saber notícia de Pedro Onça,
que era ele quem iria me levar onde estava a guerrilha. Pedro Onça era um ponto
de referência. De 15 em 15 dias, um companheiro da guerrilha procurava Pedro
Onça. Quando procurei Seu Raimundo para dar recado a Pedro Onça, ele pediu que
voltasse no outro dia 4 horas da manhã, logo que o sol aparecesse, que Pedro
Onça estaria lá. Quando eu chego olhando devagarzinho e empurro a porta, a casa
de seu Raimundo estava cheia de gente do Exército. Ele tinha me entregue, e o
Exército estava esperando eu chegar.
Quem prendeu a senhora?
LR: Era um grupo de jovens me parecia recrutas, pessoas muito jovens. Da
prisão até Xambioá eles não me tocaram, fizeram só me amarrar. Quando eles me
entregam aos oficiais é que eles começam a me torturar a me espancar. Fiquei em
estado de choque, não me lembro muito deles. Já pelejei para recordar e nunca
consegui lembrar nem a fisionomia deles. Só de um bem penteadinho, cheio de
brilhantina, baixinho, moreno claro. Essa parte eu pulo, não gosto de falar. Não
adianta falar, fui barbaramente torturada, tomei choque elétrico, tiraram a
minha roupa, me botaram num círculo de mais de 30 homens, me jogavam de um para
o outro. Eu desmaiei, perdi os sentidos. Recordava os sentidos dentro da água,
eles me afogando. Depois me botaram num buraco a noite toda com frio, nua dentro
de um buraco que era a prisão. Quando eles me tiraram foi que eu vi o Douglas
caído, todo ensangüentado, saia sangue pela cara toda. Pensava até que ele
estava morto, quando vi que ele mexia a perna. Dagoberto não cheguei a ver. Foi
quando eles mesmo me disseram que Bergson tinha sido morto e que o Dagoberto, e
o Genoino (José Genoino Neto), estavam em Brasília. E que eu e o Dower iríamos
para Belém.
A senhora foi levada para Brasília?
LR: Fui, para o PIC, Pelotão de Investigação Criminal, da 3ª Brigada,
dirigida por Antônio Bandeira de Melo. Ele me interrogava, a mim e aos demais. O
Bandeira uma vez me deu um monte de bengalada. Era para eles conhecerem o perfil
dos guerrilheiros. Não fiquei presa, só alguns meses. Eu e outros prisioneiros
que não tinham processo, eles liberaram depois de alguns meses. O Genoino, Dower
Cavalcante, Eduardo Monteiro, esses tinham processos anteriores, ou do congresso
de Ibiúna (encontro da UNE em 1968), tinham sido jubilados, por causa do
movimento estudantil, e foram enquadrados no 477. Esses ficaram.
Seus pais ficaram sabendo?
LR: Através deles (Forças Armadas) mesmos. Eles comunicaram por
telegrama, mandando virem me buscar. Meu pai e minha mãe sabiam mais ou menos.
Voltei pra Jequié. Fiquei um ano procurando me recuperar, tratamento médico e
psicológico.
Como vocês conseguiram sobreviver com tanto amadorismo?
LR: Éramos idealistas e românticos, daí enfrentarmos metralhadoras com
espingarda 20, na sua maioria. Era o sonho de uma sociedade mais justa, nossa
juventude tentou abrir a sociedade, porque não havia liberdade de expressão,
tudo era censurado. Participar de um diretório acadêmico era crime. Hoje você vê
o PCdoB, o José Dirceu, junto com os demais, tudo fazendo uma frente democrática
popular, atuando como governo, no poder. Mas para aquele tempo isso era muito
longínquo. Precisou quase 30 anos para um Lula tomar o poder, mesmo a gente
vendo ainda muita coisa faltando e errada. Mas é uma frente, não é um governo
revolucionário. O governo do Lula é uma frente democrática com todas as posições
de esquerda e de centro-esquerda. Você vê o Sarney que é um coronel, que sempre
atuou no Maranhão de forma negativa. Você vê até mesmo os partidos que eram
contra a frente democrática, e a favor de um socialismo imediato. Hoje estão
todos juntos. Mas para se chegar a isso hoje, precisava desse sonho, desses
idealistas. Ver a Guerrilha do Araguaia isolada pode parecer um monte de
idealista e loucos. Não é por aí. Porque a partir dali abriram caminho, ou não
abriram? É certo que ninguém estava preparado, nós fomos atacados, não era para
ter começado a guerrilha.
Se transformou em guerra...
LR: As forças armadas nos trataram como uma guerra regular. Para
enfrentar 69 militantes do PCdoB eles levaram cinco mil homens do exército. Foi
demais pra cada combatente. Estávamos num beco sem saída, ou se entregava - e
uns poucos se entregaram - ou resistiam. Resistência sabendo que podia morrer.
Não chego ao ponto de fazer nenhuma análise, o Dower Cavalcante fez estudo sobre
a guerra, passou anos lendo sobre a guerra de guerrilha, a guerra regular, a
arte da guerra. Ele foi estudioso, ele tem a visão crítica e critica os erros da
guerrilha. Eu nunca aprofundei nenhum estudo, quem tem que fazer esse estudo é o
PCdoB para servir de exemplo e aprendizado para a história do Brasil.
Como era a convivência de vocês lá na mata, a senhora sendo a única mulher no
grupo, os homens se comportavam?
LR: A direção do comando não proibia namoros, mas tinha normas. O
comandante disse pessoalmente pra mim, o Maurício (Grabois), que era muito
brincalhão, dizia, ''querendo bem Lúcia (o nome usado por ela era Lúcia), pode
namorar''. Tinha casais, mas já chegaram casados. Mas a Dinalva, que foi casada
com Antonio, chegou lá, se separou e se apaixona por Gilberto. E ficou com
Gilberto até eles morrerem. Mas muitos ficaram anos lá, eu não tive tempo,
fiquei cinco meses. Mas foi uma universidade aquilo pra mim. Havia muito
respeito, eu era virgem, eu era irmã dos companheiros para a população. Uma
paquera de leve começou com Bergson. Logo quando cheguei, tinha 15 dias, ele era
que mais saía comigo, ensinava a fazer depósito no meio da mata. Nesses
trabalhos, ele me deu um beijo. Nada mais sério, só isso.
Como foi a retomada da sua vida depois de tudo?
LR: Levou 30 anos para eu estar aqui falando com você. Foram 30 anos
trabalhando minha mente, minhas emoções. Levei anos para me curar. O Dower
Cavalcante me ajudava, o Patinhas (Carlos Augusto Diógenes, dirigente do PCdoB
do Ceará). Hoje não pertenço a partido nenhum. Hoje sou pacifista, sou contra a
guerra de qualquer natureza. Voltei pra universidade, fiz outro curso, ciências
econômicas. Voltei a trabalhar no Banco do Estado da Bahia, concursada. Mas
sempre fui marginalizada, porque lá no Estado da Bahia o governo Antonio Carlos
Magalhães (ex-governador e hoje senador pelo PFL) é diferente daqui. A imprensa
lá não tem liberdade, só fazem o que eles querem. Casei, tive um filho, me
separei. Casei de novo, me separei de novo. Tem horas que eu consigo falar, tem
horas que não consigo falar nada, cheia de grilos na cabeça, achando que não era
democracia. A coisa que mais me fez feliz foi ver o José Genoino Neto na
televisão. Quando ele foi eleito deputado federal mais votado no Brasil eu tive
orgasmo de prazer em ver um cara que participou da preparação da guerrilha
intensamente, só não participou dos combates. Fico feliz em ver que a situação
hoje mudou, com todos os erros e dificuldades.
A senhora acha descaso o fato de duas caixa de ossadas, uma delas seria
supostamente de um guerrilheiro do Araguaia, permanecer esquecida em um arquivo
de aço do governo Federal?
LR: Fico indignada de como isso está acontecendo desde 1996. Grupos de
Direitos Humanos foram a Xambioá e a população indicou onde eles teriam sido
enterrados. Isso fica quase nove anos dentro de caixas, sem providências. Falta
de interesse, falta de verba? Se isso fosse levado para as famílias, o Estado
(de origem dos mortos) poderia assumir as despesas. Porque esses companheiros
não foram identificados? Se não é o João Carlos Haas, pode ser o Bergson (Gurjão),
o Monteiro (Antonio)... Não tem justificativa ficar em caixa nove anos.
Alguma vez, a senhora foi chamada para prestar informações?
LR: Nunca, sempre ignoraram a minha existência. Não sei qual o interesse
dessa comissão em não concluir esse trabalho de forma hábil e rápida. Pelo menos
informar os familiares, fazer um banco de DNA para que isso rapidamente seja
esclarecido. Até se for (as ossadas) de populares mortos na guerrilha, tem que
ser identificado. A população ajudou na guerrilha. Se não tivesse ajudado não
teria durado três anos. Teve popular que entregou? Teve. Qual a guerra que não
tem? Teve guerrilheiro que se entregou? Teve. Qual a guerra que não tem? Teve
popular que foi morto e torturado tanto quanto combatentes militantes do PCdoB.
A própria lei que dá brechas a tantos abusos para beneficiar anistiados, não dá
brecha pra beneficiar essa população que foi torturada, morta e teve queimadas
suas casas. Muita gente foi expulsa de suas terras.
Fonte: Jornal O POVO, do Ceará / Por Demitri Túlio
Colaboraram: Moema Soares e Felipe Araújo
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