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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

29 DE MARÇO DE 2005

ENTREVISTA COM LUZIA REIS
Ex-guerrilheira do Araguaia cobra ação do governo para identificar ossadas

Luzia: "Levei 30 anos para me curar"

 

Passados 41 anos da instalação do Regime Militar no Brasil (1964-1985), algumas feridas permanecem abertas. Uma delas, é falta de informações sobre quem não resistiu à Ditadura e virou ''desaparecido''. É o caso do cearense Bergson Gurjão Farias e um grupo de guerrilheiros mortos durante os confrontos com as Forças Armadas na região do Araguaia (Pará).

Quem sobreviveu, como a ex-guerrilheira baiana ''Lúcia'' ou Luzia Reis Ribeiro, hoje com 56 anos, faz coro com as famílias de ''mortos desaparecidos'' pelo direito de saber o paradeiro de seus parentes e amigos. Recrutada pelo PCdoB, em 1972, para engrossar a resistência ao governo militar, Luzia reclama da morosidade governo federal em abrir os arquivos do período e identificar ossadas de supostos militantes.

Para Luzia Reis, bancária aposentada, não se justifica, nove anos depois, não ter sido concluído o trabalho de identificação em prováveis esqueletos de guerrilheiros que lutaram no Araguaia. Em 25 de julho de 1996, um relatório de peritos da Equipo Argentino de Antropologia Forense apontou a possibilidade da ossada batizada por X-2, exumada de um cemitério em Xambioá, ser do cearense Bergson Gurjão. As outras possibilidades recairiam sobre João Carlos Hass Sobrinho (descartado), Manuel José Nurchis, Idalício Soares Aranha, Kleber Lemos da Silva e Antônio Carlos Monteiro Teixeira.

Em janeiro deste ano, com auxílio de Luzia Reis, o jornal O POVO informou com exclusividade que duas caixas de ossadas (R-2 e X-2) repousavam em um armário de aço na sala da Comissão de Mortos e Desaparecidos, órgão vinculado à Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Gabinete da Presidência da República. Na época houve a promessa que a coleta de sangue da família de Bergson Farias seria feita até o fim daquele mês, o que não aconteceu. Confira a seguir os principais trechos da conversa com Luzia Reis.

Como a senhora foi recrutada para a guerrilha?
LR:
Minha história começou no movimento estudantil, em 1968. Na minha terra natal, em Jequié (BA), nós tínhamos grupo de jovens que estudavam o marxismo, lia Caio Prado Júnior, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Então isso despertava a consciência crítica dos jovens. Foi assim que fui estudar em Salvador e participei do movimento em 1968 contra a ditadura militar e contra as reformas universitárias. Eu era atuante, do grêmio da minha escola. Posteriormente, fiz Ciências Sociais, que não cheguei a concluir porque fui perseguida por ser do diretório e entrei para o PCdoB. Eu e outros companheiros que foram para o Araguaia, Vandick Coqueiro e Dinaelza Coqueiro.

Como a senhora encarou o momento de ir para a luta armada?
LR: Por ser da direção estudantil passei a ser perseguida. Chegaram a ir na casa dos meus pais em Jequié e ficaram de vigia na porta de nossa casa meses a fio. Meu pai se contatou comigo e disse que tinha elementos estranhos observando, agente federais que vigiavam a saída deles. Aí, tive que contar a eles que era do movimento estudantil, mas não cheguei a dizer que era do Partido Comunista do Brasil. Meu pai era empresário, tinha um curtume, cinco lojas no interior da Bahia. A partir dessas perseguições, comecei a me afastar das minhas atividades. Já não podia ir na faculdade, pois meus colegas me diziam que tinham ido lá me procurar. Não podia mais trabalhar, não podia mais ir na casa dos meus pais. Foi quando o partido propôs que eu conversasse com o companheiro do comitê central chamado Carlos Nicolau Danielli, para ver o que poderia ser feito com relação a minha atividade e a minha própria vida.

Eles diziam o quê?
LR: Que eu poderia ir para outro estado fazer trabalho clandestino. Que no momento eu fosse para o Rio de Janeiro, que o PCdoB iria me procurar. Na Bahia, ninguém falou de Araguaia. Isso foi em outubro de 1971. Fiquei no Rio até dezembro de 1971 e nesse período eu fui procurada várias vezes pelo comitê central, através do companheiro Lincoln Oest. Fiquei dentro de casa sem sair para lugar nenhum. Foi quando fomos para São Paulo com outros companheiros do Partido Comunista, o próprio Maurício Grabois, Pedro Pomar, Lincoln Oest e Drumond (João Batista). A primeira conversa não ficou muito claro, somente que iria para trabalho de campo numa região, que não teria volta, que eu pensasse. Não fui obrigada, todos nós fomos não de imediato sabendo que ia ser a guerrilha, porque foi o ataque da repressão que causou a guerrilha. Sabíamos que era um trabalho de campo que ia nos preparar para uma guerra popular. A gente lia os documentos, sabia que o PCdoB optou pela luta armada contra a ditadura. Apenas não sabíamos do local e que seria de imediato. Nem eles sabiam. Fui com outros companheiros - Tobias de Barreto Júnior e Maria Célia Correia - para o Araguaia de ônibus, acompanhado apenas de Paulo Rodrigues, que era um militante dessa região. Chegando lá, meu primeiro contato foi com Bergson Gurjão Farias.

Que dia a senhora chegou lá?
LR: Dois ou três de janeiro de 1972. Estavam na beira do rio Araguaia dois companheiros, que depois fiquei sabendo que eram Bergson Gurjão Farias e José Toledo, um chamado Jó e outro chamado Vitor. Estavam sorridentes e felizes com a chegada minha e do Tobias, porque a Maria Célia tinha se afastado em Anápolis. Chegando de madrugada, encontramos o Dower Moraes Cavalcante (cearense que usava o nome Domingos e faleceu nos anos 90 de complicações cardíacas) e Ari e Áurea Valadão, um casal. Íamos morar ali perto deles, no meio do Caianos (sul do Pará). A comunidade era Xambioá e São Geraldo, a gente ficava no mato como camponeses, trabalhando na roça. Mas de uma casa para outra tinha um quilômetros, às vezes dois ou três quilômetros uma da outra. Numa casa ficou Ari, Áurea e o Vitor; e na outra Bergson, Dower Cavalcante, eu, Pedro e Tobias. Nós éramos os irmãos de Bergson, que era mais antigo e ficou sendo chefe da nossa equipe. O Bergson era bem integrado na população, tinha mais de dez compadres. Todo mundo gostava de dar os filhos para Bergson batizar porque ele era muito alegre, cantava e dançava nas festas.

Como era o cotidiano na mata...
LR: A comunidade sabia que nós éramos um pouco diferente. Eu tinha uma vivência urbana, filha de classe média, não sabia pegar enxada. As mãos do Tobias ficaram inchadas, cheias de bolhas. Os camponeses ficavam rindo da gente, mas ensinavam, achavam que a gente tinha ido para lá como eles, ganhar a vida, ficar rico. Era gente do Ceará, Bahia, Goiás, Maranhão. Pouquíssimos eram do Pará mesmo. Lá a vida era muita amiga. A gente fazia roça, caçava, ninguém passava fome no período antes da guerra. Eu estava aprendendo a me adaptar. Dormíamos em rede, cantavam músicas de Noel Rosa de noite. O Tobias sabia tocar violão, e eu fazia coro (risos). Iam os compadres e as comadres todas para lá. A gente ficava no escuro que não tinha luz elétrica, só a luz da lua.

E como eram os treinamentos para a Guerrilha?
LR: Uma semana depois chega o companheiro Maurício Grabois, comandante geral, e o médico João Carlos Haas Sobrinho, o Juca, que era também do comando. Vieram mostrar que ali, naquela vida, não poderíamos perder o objetivo que era construir uma sociedade mais justa e um governo democrático popular. Então, nós líamos os livros, ouvíamos todos os dias a Rádio Tirana (da Albânia), que eu te digo sinceramente não sei como é que a rádio chegava até lá. Nesse período eles faziam treinamento simples, quase nada. Nossas armas eram espingarda 20 e revólver 38, um ou outro rifle, que só quem tinha era chefe de grupo. Eles tinham marcado um treinamento de 15 dias em outra região, com outro grupo e que o Osvaldão — do destacamento ''B'', que havia treinado na Tchecoslováquia e na China - ia nos dar umas aulas teóricas e práticas de tiro ao alvo e de camuflagem. O fato é que ainda estávamos em preparação. Ainda ia levar uns cinco, dez anos. Não era para ser de imediato, mas a área foi descoberta e fomos atacados.

Qual o período que a senhora passou lá, antes da guerrilha?
LR: Cheguei em janeiro e ficamos até 12 de abril de 1972, quando tivemos que entrar correndo na mata, porque a gente ficava na mata porém na beira do riacho, na beira da estrada, perto de outros moradores. E quando se soube que a repressão tinha nos descoberto de fato, porque eles já tinham atacado a região de São Domingos, que era o destacamento ''A''.

Quando se deu o primeiro confronto?
LR: Foi uma patrulha da repressão para o destacamento ''A'' e alguns dias depois, duas semanas parece, eles foram atrás do Juca (João Carlos Haas), que era o mais conhecido, e depois chegaram a Pau Preto. Quando eles chegaram a Pau Preto um companheiro veio nos avisar, aí a gente correu pra mata e lá nós nos deslocamos através de marcha intensa, duas noites e um dia, só parando para comer farinha, uma caça... Nos deslocamos para uma região antiga chamada Água Bonita, que foi onde teve a primeira emboscada e eles mataram o primeiro guerrilheiro que foi Bergson Gurjão Farias. Nos acampamos na Água Bonita, região linda com água cristalina perto do riacho, e um grupo dirigido por Bergson Gurjão foi receber mantimentos, inclusive o fumo que ele adorava mascar...

Mesmo sabendo que estava em perseguição, ele foi buscar mantimentos?
LR: Mas a gente tinha que sobreviver. Você acha que a gente ia ficar só escondido? E mais, a gente tinha que falar de política. A comissão militar disse que se a gente fosse atacado era para ir para uma área mais afastada para fazer propaganda política. Nós não falávamos de política com a população, talvez tenha sido esse um erro, pelo menos teria que preparar algumas lideranças da população. Só era compadre, comadre. A Áurea era professora em São Geraldo, o Juca e o Dower Cavalcante atuavam como assistência médica. A Dinalva também ajudava nos partos. O Juca salvou inúmeras pessoas da região, ele era adorado. Se você fizer uma pesquisa hoje em Porto Franco você vai ver quanto ele é querido. Lá tem uma ala do hospital com o nome de João Carlos Haas Sobrinho e, agora, o prefeito vai fazer um centro cultural chamado João Carlos Haas Sobrinho. Até hoje, 30 anos depois.

Na área de Porto Franco ficava qual destacamento?
LR: Não era destacamento nenhum, seriam pontos de apoio que o PCdoB criou em torno da guerrilha. Porto Franco é sul do Maranhão e foi lá que João Carlos Haas viveu antes da guerrilha.

Sim, e vocês estavam na mata e tem o primeiro confronto...
LR: Tem o primeiro confronto onde o Bergson morreu. É o primeiro confronto do grupo ''C'', onde o Bergson era chefe. Depois os companheiros contaram que ele ia na frente e quando percebeu que a área dentro da mata estava com movimento estranho, que a gente tinha sido cercado, ele se jogou no chão, mandou o pessoal se retirar e começou a atirar. Ele foi metralhado e o pessoal fugiu. Estavam lá Áurea, Ari, Paulo, Vitor, Josias. Eram seis, ele ficou no fogo cruzado e o pessoal escapou. Ele morreu como um herói, mas de uma forma terrível.

Ele estava com alguma arma?
LR: Ele tinha um rifle e a 20 (espingarda). Eu estava no acampamento responsável pela alimentação na volta deles. Quando chega um companheiro mais a frente e conta que ele foi ferido e morto no local e que a gente tivesse cuidado porque eles iam procurar entrar em contato com a comissão militar. Falaram que ele acertou um militar, não sabia quem. Esse companheiro que veio dar a notícia, Caio Rodrigues, o comandante do destacamento, disse que ficássemos sem atirar para caçar, só com a mão e que estávamos cercado naquela região.

A senhora teve medo?
LR: Eu não tinha noção. Achava que era uma ação como outra qualquer. Não tinha medo. Quando soube da morte do Bergson chorei de tristeza. O Paulo voltou para saber de mais notícias, pois tínhamos pessoas de confiança no meio do povo. O Pedro Onça era um deles, que quando eu me perdi fui procurar por ele. O que acontece: o Paulo sai, eu e o Dower vamos procurar alimentos e Dagoberto camufla as nossas mochilas. Dagoberto e Adriana tinham chegado na guerra, tinha um mês só. Quando está arrumando as coisa, diz ele que estava fazendo a barba quando ouviu a zoada e saiu correndo. Era o Exército, eles chegam fazendo um barulho. Quando ele viu, saiu correndo. Ia sozinho enfrentar uma patrulha? Quando chegamos, eu e o Dower, a uns 50 metros de distância, ouço barulhos, gritos dos militares e tiros de metralhadoras. Ai me jogo no riacho, atravesso o riacho e corro para trás. Quando corro, ouvi o barulho das metralhadoras ai pensei: mataram o Dower, mataram o Dagoberto. Como a gente tinha pontos de proteção em determinados locais, levei três dias e três noites ao longo dos pontos. Quem se perdesse era para ir para o ponto, que em três luas ia passar um companheiro. Eu esperei três dias e três noites e ninguém apareceu.

Passando fome e frio?
LR: Só comia frutas silvestres, castanhas. Só não comia carne porque não me acostumei a comer crua, as caças, só cozida, mas não tinha fósforo, isqueiro, perdi tudo. Quando me joguei na água só segurava minha arma, uma Beretta na cintura e facão, mas nada. Passado esse tempo, eu me aproximei de noitinha da casa de um morador, que era conhecido nosso, para saber notícia de Pedro Onça, que era ele quem iria me levar onde estava a guerrilha. Pedro Onça era um ponto de referência. De 15 em 15 dias, um companheiro da guerrilha procurava Pedro Onça. Quando procurei Seu Raimundo para dar recado a Pedro Onça, ele pediu que voltasse no outro dia 4 horas da manhã, logo que o sol aparecesse, que Pedro Onça estaria lá. Quando eu chego olhando devagarzinho e empurro a porta, a casa de seu Raimundo estava cheia de gente do Exército. Ele tinha me entregue, e o Exército estava esperando eu chegar.

Quem prendeu a senhora?
LR: Era um grupo de jovens me parecia recrutas, pessoas muito jovens. Da prisão até Xambioá eles não me tocaram, fizeram só me amarrar. Quando eles me entregam aos oficiais é que eles começam a me torturar a me espancar. Fiquei em estado de choque, não me lembro muito deles. Já pelejei para recordar e nunca consegui lembrar nem a fisionomia deles. Só de um bem penteadinho, cheio de brilhantina, baixinho, moreno claro. Essa parte eu pulo, não gosto de falar. Não adianta falar, fui barbaramente torturada, tomei choque elétrico, tiraram a minha roupa, me botaram num círculo de mais de 30 homens, me jogavam de um para o outro. Eu desmaiei, perdi os sentidos. Recordava os sentidos dentro da água, eles me afogando. Depois me botaram num buraco a noite toda com frio, nua dentro de um buraco que era a prisão. Quando eles me tiraram foi que eu vi o Douglas caído, todo ensangüentado, saia sangue pela cara toda. Pensava até que ele estava morto, quando vi que ele mexia a perna. Dagoberto não cheguei a ver. Foi quando eles mesmo me disseram que Bergson tinha sido morto e que o Dagoberto, e o Genoino (José Genoino Neto), estavam em Brasília. E que eu e o Dower iríamos para Belém.

A senhora foi levada para Brasília?
LR: Fui, para o PIC, Pelotão de Investigação Criminal, da 3ª Brigada, dirigida por Antônio Bandeira de Melo. Ele me interrogava, a mim e aos demais. O Bandeira uma vez me deu um monte de bengalada. Era para eles conhecerem o perfil dos guerrilheiros. Não fiquei presa, só alguns meses. Eu e outros prisioneiros que não tinham processo, eles liberaram depois de alguns meses. O Genoino, Dower Cavalcante, Eduardo Monteiro, esses tinham processos anteriores, ou do congresso de Ibiúna (encontro da UNE em 1968), tinham sido jubilados, por causa do movimento estudantil, e foram enquadrados no 477. Esses ficaram.

Seus pais ficaram sabendo?
LR: Através deles (Forças Armadas) mesmos. Eles comunicaram por telegrama, mandando virem me buscar. Meu pai e minha mãe sabiam mais ou menos. Voltei pra Jequié. Fiquei um ano procurando me recuperar, tratamento médico e psicológico.

Como vocês conseguiram sobreviver com tanto amadorismo?
LR: Éramos idealistas e românticos, daí enfrentarmos metralhadoras com espingarda 20, na sua maioria. Era o sonho de uma sociedade mais justa, nossa juventude tentou abrir a sociedade, porque não havia liberdade de expressão, tudo era censurado. Participar de um diretório acadêmico era crime. Hoje você vê o PCdoB, o José Dirceu, junto com os demais, tudo fazendo uma frente democrática popular, atuando como governo, no poder. Mas para aquele tempo isso era muito longínquo. Precisou quase 30 anos para um Lula tomar o poder, mesmo a gente vendo ainda muita coisa faltando e errada. Mas é uma frente, não é um governo revolucionário. O governo do Lula é uma frente democrática com todas as posições de esquerda e de centro-esquerda. Você vê o Sarney que é um coronel, que sempre atuou no Maranhão de forma negativa. Você vê até mesmo os partidos que eram contra a frente democrática, e a favor de um socialismo imediato. Hoje estão todos juntos. Mas para se chegar a isso hoje, precisava desse sonho, desses idealistas. Ver a Guerrilha do Araguaia isolada pode parecer um monte de idealista e loucos. Não é por aí. Porque a partir dali abriram caminho, ou não abriram? É certo que ninguém estava preparado, nós fomos atacados, não era para ter começado a guerrilha.

Se transformou em guerra...
LR: As forças armadas nos trataram como uma guerra regular. Para enfrentar 69 militantes do PCdoB eles levaram cinco mil homens do exército. Foi demais pra cada combatente. Estávamos num beco sem saída, ou se entregava - e uns poucos se entregaram - ou resistiam. Resistência sabendo que podia morrer. Não chego ao ponto de fazer nenhuma análise, o Dower Cavalcante fez estudo sobre a guerra, passou anos lendo sobre a guerra de guerrilha, a guerra regular, a arte da guerra. Ele foi estudioso, ele tem a visão crítica e critica os erros da guerrilha. Eu nunca aprofundei nenhum estudo, quem tem que fazer esse estudo é o PCdoB para servir de exemplo e aprendizado para a história do Brasil.

Como era a convivência de vocês lá na mata, a senhora sendo a única mulher no grupo, os homens se comportavam?
LR: A direção do comando não proibia namoros, mas tinha normas. O comandante disse pessoalmente pra mim, o Maurício (Grabois), que era muito brincalhão, dizia, ''querendo bem Lúcia (o nome usado por ela era Lúcia), pode namorar''. Tinha casais, mas já chegaram casados. Mas a Dinalva, que foi casada com Antonio, chegou lá, se separou e se apaixona por Gilberto. E ficou com Gilberto até eles morrerem. Mas muitos ficaram anos lá, eu não tive tempo, fiquei cinco meses. Mas foi uma universidade aquilo pra mim. Havia muito respeito, eu era virgem, eu era irmã dos companheiros para a população. Uma paquera de leve começou com Bergson. Logo quando cheguei, tinha 15 dias, ele era que mais saía comigo, ensinava a fazer depósito no meio da mata. Nesses trabalhos, ele me deu um beijo. Nada mais sério, só isso.

Como foi a retomada da sua vida depois de tudo?
LR: Levou 30 anos para eu estar aqui falando com você. Foram 30 anos trabalhando minha mente, minhas emoções. Levei anos para me curar. O Dower Cavalcante me ajudava, o Patinhas (Carlos Augusto Diógenes, dirigente do PCdoB do Ceará). Hoje não pertenço a partido nenhum. Hoje sou pacifista, sou contra a guerra de qualquer natureza. Voltei pra universidade, fiz outro curso, ciências econômicas. Voltei a trabalhar no Banco do Estado da Bahia, concursada. Mas sempre fui marginalizada, porque lá no Estado da Bahia o governo Antonio Carlos Magalhães (ex-governador e hoje senador pelo PFL) é diferente daqui. A imprensa lá não tem liberdade, só fazem o que eles querem. Casei, tive um filho, me separei. Casei de novo, me separei de novo. Tem horas que eu consigo falar, tem horas que não consigo falar nada, cheia de grilos na cabeça, achando que não era democracia. A coisa que mais me fez feliz foi ver o José Genoino Neto na televisão. Quando ele foi eleito deputado federal mais votado no Brasil eu tive orgasmo de prazer em ver um cara que participou da preparação da guerrilha intensamente, só não participou dos combates. Fico feliz em ver que a situação hoje mudou, com todos os erros e dificuldades.

A senhora acha descaso o fato de duas caixa de ossadas, uma delas seria supostamente de um guerrilheiro do Araguaia, permanecer esquecida em um arquivo de aço do governo Federal?
LR: Fico indignada de como isso está acontecendo desde 1996. Grupos de Direitos Humanos foram a Xambioá e a população indicou onde eles teriam sido enterrados. Isso fica quase nove anos dentro de caixas, sem providências. Falta de interesse, falta de verba? Se isso fosse levado para as famílias, o Estado (de origem dos mortos) poderia assumir as despesas. Porque esses companheiros não foram identificados? Se não é o João Carlos Haas, pode ser o Bergson (Gurjão), o Monteiro (Antonio)... Não tem justificativa ficar em caixa nove anos.

Alguma vez, a senhora foi chamada para prestar informações?
LR:
Nunca, sempre ignoraram a minha existência. Não sei qual o interesse dessa comissão em não concluir esse trabalho de forma hábil e rápida. Pelo menos informar os familiares, fazer um banco de DNA para que isso rapidamente seja esclarecido. Até se for (as ossadas) de populares mortos na guerrilha, tem que ser identificado. A população ajudou na guerrilha. Se não tivesse ajudado não teria durado três anos. Teve popular que entregou? Teve. Qual a guerra que não tem? Teve guerrilheiro que se entregou? Teve. Qual a guerra que não tem? Teve popular que foi morto e torturado tanto quanto combatentes militantes do PCdoB. A própria lei que dá brechas a tantos abusos para beneficiar anistiados, não dá brecha pra beneficiar essa população que foi torturada, morta e teve queimadas suas casas. Muita gente foi expulsa de suas terras.

Fonte: Jornal O POVO, do Ceará / Por Demitri Túlio
Colaboraram: Moema Soares e Felipe Araújo

 

 

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