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Debora
Evelyn encenou "Baque" |
A cena teatral brasileira está mais
séria em 2005, como se agora fosse a hora
de colocar o dedo na ferida. Essa foi a
impressão deixada pela 14ª edição do
Festival de Teatro de Curitiba (FTC),
encerrado no último domingo. O evento, que
durante dez dias agitou a capital
paranaense, mostrou que os encenadores
brasileiros andam com a cabeça voltada
para o drama. Nada menos que 10 montagens,
das 12 da Mostra Contemporânea, a
principal do FTC, foram deste gênero. Os
diretores levaram para o palco desde
conflitos pessoais a fatos de relevância
social, como os atentados de homens-bomba.
É claro que o objetivo de um festival
não é definir o perfil da produção de um
país, nem de uma região. E, neste ponto,
Curitiba perde até porque a grande maioria
dos espetáculos apresentados neste ano
foram do eixo Rio-São Paulo. Em outras
edições, o Sul e o Nordeste se fizeram
presente. Mas não se pode negar que o fato
de a mostra reunir alguns dos diretores
(Antunes Filho, Luiz Arthur Nunes, Aderbal
Freire-Filho e Sérgio Ferrara) e grupos
mais produtivos e conceituados do país
permite que ela seja sim uma forte
referência para se apontar os caminhos da
cena atual. E, pelo que foi encenado nos
último dez dias, a temporada 2005 vai ser
de temas um tanto indigestos, lágrimas e
montagens longas, em média com duas horas
de duração.
Destaques
Antunes foi o encarregado de abrir o
FTC com a peça Foi Carmem Miranda, ensaio
de dança-teatro em homenagem ao japonês
Kazuo Ohno, que fez sua estréia nacional
no evento. Dessa vez, o mestre do teatro
brasileiro enveredou por searas que ele
não costuma investigar: a dança. A partir
das ferramentas de movimento fornecidas
pelo conceito de dança-teatro criado por
Kazuo Ohno, Antunes concebeu uma montagem
curta, dividida em cenas independentes que
buscam apontar as razões que fizeram da
cantora portuguesa ídolo dos mais diversos
públicos: de diva do carnaval a musa
inspiradora de gays e travestis. A atriz
Juliana Galdino está impecável como um
malandro boa pinta.
Da brasilidade aos conflitos
religiosos. A Armazém Cia. de Teatro fez
poesia com pedra no festival de Curitiba.
A partir de um fato tratado diariamente
nos noticiários, explosões que matam
dezenas de pessoas, o grupo construiu uma
história emocionante, cercada por lições
de vida. Como as montagens anteriores da
companhia carioca (Alice Através do
Espelho e Coisas Invisíveis, só para citar
duas), a atual também é do diretor Paulo
Moraes e tem cenografia grandiosa, coloca
carros no palco, flerta com a linguagem
cinematográfica, mas sem embaçar as
interpretações impecáveis do elenco. Nesse
ponto, as atrizes Patrícia Selonk e Simone
Mazzer surpreendem com atuações seguras e
vigorosas. São três histórias que mostram
o desespero de motoristas presos no
trânsito após a explosão de um ônibus, a
amizade entre um árabe e um menino judeu
(ambos marcados por tragédias pessoais) e
o diálogo entre uma mãe e Deus sobre a fé
no momento em que chora a morte do filho.
Dramas pessoais são também o foco de
atenção de Baque, segunda montagem teatral
da cineasta Monique Gardemberg. Ela
escolheu um texto de Neil Labute sobre a
sordidez, a maldade que se esconde em
ambientes que, a primeira vista, parecem
acima de qualquer suspeita. A encenação se
desenvolve como se os personagens
estivessem confessando seus erros, no
entanto, sem aparentar a mínima vergonha
ou arrependimento. O ator Emílio de Mello
é responsável pelo momento mais forte, em
que um jovem confessa a responsabilidade
pela morte da filha mais nova só para
garantir o emprego.
A diretora Cibele Forjaz, da Cia.
Livre, foi responsável por outro momento
forte do FTC. Ela, que já surpreendeu em
montagens como Um Bonde Chamado Desejo,
aposta agora na desconstrução do jogo
teatral, apresentando para a platéia os
bastidores da encenação. Arena Conta
Danton, nome do espetáculo, é uma peça
antes de mais nada política, que desperta
a análise sobre um fato histórico ao mesmo
tempo em que joga os holofotes para a cena
da política nacional. A confusão das
esquerdas e a luta pelo poder são os
temperos dessa montagem arrojada em que os
atores mais parecem jogadores, trocando de
papel a cada cena e dialogando diretamente
com os espectadores. Cibele mostra que o
teatro é um jogo. Quem bom que ela armou
um time de primeira e conseguiu vencer no
final.
Mostra paralela
Menos é mais. Essa foi a máxima do
Fringe, a mostra paralela do Festival de
Teatro de Curitiba. A “grande mãe” do FTC,
que não escolhe seus filhos, apenas abre
os braços para eles, provou que no meio do
balaio de mais de 180 peças, é possível
encontrar produções de qualidade que
acabam chamando a atenção de público e
críticos. Do nonsense ao monólogo sem
apetrechos cênicos, cabe tudo no Fringe.
Neste cenário tão variado, um grupo de
jovens atores mineiros conseguiu grande
destaque. Apostando numa encenação limpa e
poética, o grupo Espanca levou para
Curitiba Por Elise, um ensaio delicado
sobre uma mulher cujo cachorro é
sacrificado, um lixeiro que descobre que o
pai morreu e um jovem que inventa formas
de vencer a solidão. A montagem é enxuta,
curtinha, são apenas 50 minutos. A atriz
Grace Passô reafirma seu talento como
intérprete e também como diretora e
escritora.
Percorrendo o caminho inverso, o
espetáculo Só as Gordas São Felizes se
destacou pela narrativa fragmentada, numa
história sobre dois presidiários que, a
partir de memórias distorcidas, trazem à
tona seus crimes. Valores do mundo
contemporâneo, como a ditadura da beleza,
são criticados na peça paulista. Os atores
Guilherme Freitas e Dill Magno fazem uma
parceria afinada em cena. Espiral, solo do
pernambucano Helder Vasconcelos, foi outro
ponto alto da mostra paralela. O
intérprete conquistou público e crítica
com seus personagens simples, de falar
errado, mas grandes ensinamentos.
Números
Seriam necessários 43 dias para
apresentar todas as peças que estiveram no
Festival, caso todas elas fossem montadas
em um único teatro, uma seguida da outra,
sem intervalo, durante as 24 horas do dia.
O Festival colocou tudo isso dentro de 11
dias. Ao todo foram 202 espetáculos, 187
no Fringe, a mostra paralela (dos quais 27
são infantis e 12 teatro-dança), 12 na
Mostra Contemporânea e 3 na Mostra
Infantil.
O tempo contado no relógio totalizou quase
1034 horas, ou seja, 62 mil minutos. Para
quem prefere números grandes, foram cerca
de três milhões setecentos e dezenove mil
segundos de encenações. Participam deste
Festival 138 autores e 86 autoras, sendo
que algumas peças têm mais de um autor e
outras são de criação coletiva.
Os espetáculos aconteceram em 47 lugares
diferentes: teatros, ruas, praças, bares,
espaços culturais, shoppings, pontos
turísticos, universidades, lojas e no
quartel do exército.
O Festival trouxe apresentações do Brasil
inteiro. As companhias participantes
vieram dos seguintes estados:
1 de Salvador - BA
2 de Fortaleza CE
3 de Brasília – DF
1 de Guaçui – ES
1 de São Mateus – ES
2 de Goiânia - GO
5 de Belo Horizonte –MG
2 de Recife – PB
79 de Curitiba - PR
1 de Petrópolis – RJ
22 do Rio de Janeiro – RJ
1 de Porto Alegre – RS
1 de Santa Maria – RS
2 de Florianópolis –SC
1 de Joinvile – SC
17 de Campinas – SP
4 de São José dos Campos / Vale do Paraíba
– SP
27 de São Paulo – SP
1 do ABC Paulista – SP
1 de Lençóis Paulista – SP
1 de Macatúba – SP
1 de Mogi Mirim – SP
1 de Registro – SP
1 de São Simão – SP
Além dos grupos brasileiros, companhias de
outros países também participaram no
festival de Teatro de Curitiba:
1 de Buenos Aires – Argentina
1 de Montevidéu – Uruguai
1 de Cidade do México – México
1 de Le Mans – França
Foram 211 diretores e 940 atores. Fora dos
palcos cerca de 700 trabalharam para
proporcionar um dos maiores festivais de
artes cênicas do mundo.
Com informações do Jornal do Comércio e
da assessoria de Imprensa.
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