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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

29 de março de 2005

artes cênicas

Termina o Festival de Teatro de Curitiba pautado por temas sociais

 
 
Debora Evelyn encenou "Baque"

A cena teatral brasileira está mais séria em 2005, como se agora fosse a hora de colocar o dedo na ferida. Essa foi a impressão deixada pela 14ª edição do Festival de Teatro de Curitiba (FTC), encerrado no último domingo. O evento, que durante dez dias agitou a capital paranaense, mostrou que os encenadores brasileiros andam com a cabeça voltada para o drama. Nada menos que 10 montagens, das 12 da Mostra Contemporânea, a principal do FTC, foram deste gênero. Os diretores levaram para o palco desde conflitos pessoais a fatos de relevância social, como os atentados de homens-bomba.

É claro que o objetivo de um festival não é definir o perfil da produção de um país, nem de uma região. E, neste ponto, Curitiba perde até porque a grande maioria dos espetáculos apresentados neste ano foram do eixo Rio-São Paulo. Em outras edições, o Sul e o Nordeste se fizeram presente. Mas não se pode negar que o fato de a mostra reunir alguns dos diretores (Antunes Filho, Luiz Arthur Nunes, Aderbal Freire-Filho e Sérgio Ferrara) e grupos mais produtivos e conceituados do país permite que ela seja sim uma forte referência para se apontar os caminhos da cena atual. E, pelo que foi encenado nos último dez dias, a temporada 2005 vai ser de temas um tanto indigestos, lágrimas e montagens longas, em média com duas horas de duração.

Destaques

Antunes foi o encarregado de abrir o FTC com a peça Foi Carmem Miranda, ensaio de dança-teatro em homenagem ao japonês Kazuo Ohno, que fez sua estréia nacional no evento. Dessa vez, o mestre do teatro brasileiro enveredou por searas que ele não costuma investigar: a dança. A partir das ferramentas de movimento fornecidas pelo conceito de dança-teatro criado por Kazuo Ohno, Antunes concebeu uma montagem curta, dividida em cenas independentes que buscam apontar as razões que fizeram da cantora portuguesa ídolo dos mais diversos públicos: de diva do carnaval a musa inspiradora de gays e travestis. A atriz Juliana Galdino está impecável como um malandro boa pinta.

Da brasilidade aos conflitos religiosos. A Armazém Cia. de Teatro fez poesia com pedra no festival de Curitiba. A partir de um fato tratado diariamente nos noticiários, explosões que matam dezenas de pessoas, o grupo construiu uma história emocionante, cercada por lições de vida. Como as montagens anteriores da companhia carioca (Alice Através do Espelho e Coisas Invisíveis, só para citar duas), a atual também é do diretor Paulo Moraes e tem cenografia grandiosa, coloca carros no palco, flerta com a linguagem cinematográfica, mas sem embaçar as interpretações impecáveis do elenco. Nesse ponto, as atrizes Patrícia Selonk e Simone Mazzer surpreendem com atuações seguras e vigorosas. São três histórias que mostram o desespero de motoristas presos no trânsito após a explosão de um ônibus, a amizade entre um árabe e um menino judeu (ambos marcados por tragédias pessoais) e o diálogo entre uma mãe e Deus sobre a fé no momento em que chora a morte do filho.

Dramas pessoais são também o foco de atenção de Baque, segunda montagem teatral da cineasta Monique Gardemberg. Ela escolheu um texto de Neil Labute sobre a sordidez, a maldade que se esconde em ambientes que, a primeira vista, parecem acima de qualquer suspeita. A encenação se desenvolve como se os personagens estivessem confessando seus erros, no entanto, sem aparentar a mínima vergonha ou arrependimento. O ator Emílio de Mello é responsável pelo momento mais forte, em que um jovem confessa a responsabilidade pela morte da filha mais nova só para garantir o emprego.

A diretora Cibele Forjaz, da Cia. Livre, foi responsável por outro momento forte do FTC. Ela, que já surpreendeu em montagens como Um Bonde Chamado Desejo, aposta agora na desconstrução do jogo teatral, apresentando para a platéia os bastidores da encenação. Arena Conta Danton, nome do espetáculo, é uma peça antes de mais nada política, que desperta a análise sobre um fato histórico ao mesmo tempo em que joga os holofotes para a cena da política nacional. A confusão das esquerdas e a luta pelo poder são os temperos dessa montagem arrojada em que os atores mais parecem jogadores, trocando de papel a cada cena e dialogando diretamente com os espectadores. Cibele mostra que o teatro é um jogo. Quem bom que ela armou um time de primeira e conseguiu vencer no final.

Mostra paralela

Menos é mais. Essa foi a máxima do Fringe, a mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba. A “grande mãe” do FTC, que não escolhe seus filhos, apenas abre os braços para eles, provou que no meio do balaio de mais de 180 peças, é possível encontrar produções de qualidade que acabam chamando a atenção de público e críticos. Do nonsense ao monólogo sem apetrechos cênicos, cabe tudo no Fringe.

Neste cenário tão variado, um grupo de jovens atores mineiros conseguiu grande destaque. Apostando numa encenação limpa e poética, o grupo Espanca levou para Curitiba Por Elise, um ensaio delicado sobre uma mulher cujo cachorro é sacrificado, um lixeiro que descobre que o pai morreu e um jovem que inventa formas de vencer a solidão. A montagem é enxuta, curtinha, são apenas 50 minutos. A atriz Grace Passô reafirma seu talento como intérprete e também como diretora e escritora.

Percorrendo o caminho inverso, o espetáculo Só as Gordas São Felizes se destacou pela narrativa fragmentada, numa história sobre dois presidiários que, a partir de memórias distorcidas, trazem à tona seus crimes. Valores do mundo contemporâneo, como a ditadura da beleza, são criticados na peça paulista. Os atores Guilherme Freitas e Dill Magno fazem uma parceria afinada em cena. Espiral, solo do pernambucano Helder Vasconcelos, foi outro ponto alto da mostra paralela. O intérprete conquistou público e crítica com seus personagens simples, de falar errado, mas grandes ensinamentos.

Números

Seriam necessários 43 dias para apresentar todas as peças que estiveram no Festival, caso todas elas fossem montadas em um único teatro, uma seguida da outra, sem intervalo, durante as 24 horas do dia. O Festival colocou tudo isso dentro de 11 dias. Ao todo foram 202 espetáculos, 187 no Fringe, a mostra paralela (dos quais 27 são infantis e 12 teatro-dança), 12 na Mostra Contemporânea e 3 na Mostra Infantil.

O tempo contado no relógio totalizou quase 1034 horas, ou seja, 62 mil minutos. Para quem prefere números grandes, foram cerca de três milhões setecentos e dezenove mil segundos de encenações. Participam deste Festival 138 autores e 86 autoras, sendo que algumas peças têm mais de um autor e outras são de criação coletiva.

Os espetáculos aconteceram em 47 lugares diferentes: teatros, ruas, praças, bares, espaços culturais, shoppings, pontos turísticos, universidades, lojas e no quartel do exército.

O Festival trouxe apresentações do Brasil inteiro. As companhias participantes vieram dos seguintes estados:
1 de Salvador - BA
2 de Fortaleza CE
3 de Brasília – DF
1 de Guaçui – ES
1 de São Mateus – ES
2 de Goiânia - GO
5 de Belo Horizonte –MG
2 de Recife – PB
79 de Curitiba - PR
1 de Petrópolis – RJ
22 do Rio de Janeiro – RJ
1 de Porto Alegre – RS
1 de Santa Maria – RS
2 de Florianópolis –SC
1 de Joinvile – SC
17 de Campinas – SP
4 de São José dos Campos / Vale do Paraíba – SP
27 de São Paulo – SP
1 do ABC Paulista – SP
1 de Lençóis Paulista – SP
1 de Macatúba – SP
1 de Mogi Mirim – SP
1 de Registro – SP
1 de São Simão – SP

Além dos grupos brasileiros, companhias de outros países também participaram no festival de Teatro de Curitiba:
1 de Buenos Aires – Argentina
1 de Montevidéu – Uruguai
1 de Cidade do México – México
1 de Le Mans – França

Foram 211 diretores e 940 atores. Fora dos palcos cerca de 700 trabalharam para proporcionar um dos maiores festivais de artes cênicas do mundo.

Com informações do Jornal do Comércio e da assessoria de Imprensa.


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