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praça demolida, ao ser inaugurada
em maio de 2002 |
Por Vasconcelos Quadros,
para O Estado de S. Paulo
O
prefeito de Xambioá (TO), Richard
Santiago Pereira (PFL), mandou destruir,
na sexta-feira passada, o maior símbolo
do PCdoB na Guerrilha do Araguaia: um
jardim com cerca de 30 metros quadrados,
construído na entrada da cidade.
Nele, estavam espalhadas na terra as cinzas
do principal dirigente do partido, João
Amazonas, morto em maio de 2002, e que
participou da guerrilha que pretendia
tomar o poder dos militares na década
de 70.
No
interior do prosaico mausoléu,
murado, havia quatro mastros - que serviriam
para o hasteamento das bandeiras do Brasil,
do Tocantins, de Xambioá e do PCdoB
-, uma pequena obra de alvenaria amparando
uma placa em homenagem ao líder
comunista e a pedra fundamental onde seria
erguido um obelisco já desenhado
pelo arquiteto Oscar Niemeyer em homenagem
as guerrilheiros mortos.
Em
poucos minutos, o trator da prefeitura
moeu o que havia de concreto e ferro,
removeu o solo e arrancou toda a vegetação
do terreno de 9 mil metros quadrados,
que o prefeito Santiago Pereira já
desapropriou. De um bosque com dezenas
de árvores centenárias,
só ficou um pé de pequi.
A área será cedida ao governo
do Estado de Tocantins para abrigar um
dos maiores complexos de fiscalização
da receita estadual. Serão construídos
uma delegacia fiscal, as instalações
da coletoria e uma balança para
pesagem de caminhões de carga.
Com orçamento e licitação
já definidos, as obras terão
início nos próximos dias.
Constituirão
um cenário bem diferente ao da
zona liberada que o PCdoB imaginava estabelecer
no frustrado sonho dos comunistas. Situada
na confluência do Pará, Tocantins
e Maranhão, Xambioá é
considerada o berço da guerrilha,
preparada a partir do fim de 1966 com
a chegada à região dos primeiros
ativistas treinados na China. A luta,
iniciada em abril de 1972, durou quase
três anos e foi a maior ação
da esquerda armada depois do golpe de
1964.
Pouco
antes de morrer, Amazonas deixou pronto
um texto em que pedia que seu corpo fosse
cremado e as cinzas espalhadas na terra
- uma forma simbólica 'de se juntar
aos companheiros que tombaram na guerrilha'
que ajudara a organizar nas matas da região.
Não há mais cinzas. O que
restou do jardim inaugurado solenemente
pelo PCdoB foi a placa da homenagem, que
o prefeito mandou recolher para entregar
aos comunistas.
O
prefeito não consultou a direção
do PCdoB e nem a Câmara de Vereadores.
"Estou surpreso. Prefeito ou cidadão,
ele deveria respeitar a memória
de quem tombou em defesa do povo", afirma
o deputado Jamil Murad (PCdoB-SP).
Procurado
pela reportagem do Estado, diante da saraivada
de críticas que está recebendo,
Santiago Pereira disse que não
teve intenção de ofender
a memória do PCdoB. "Na época
da guerrilha eu tinha 8 anos de idade
e incorporei o respeito pela causa", afirma.
Versões
Ele
apresentou três versões para
a decisão: o governador do Tocantins,
Marcelo Miranda, havia solicitado a área
com urgência e a prefeitura não
poderia perder o prazo para o início
de um projeto que tem reflexos na economia
do município; a obra do jardim
era irregular porque pertencia a um particular
e ainda estava em litígio quando
seu antecessor - Júnior Leite,
do PP - doou ao PCdoB e, por último,
ao perceber o desastre, tentou dividir
a culpa com Micheas Gomes de Almeida,
o Zezinho do Araguaia, único sobrevivente
de todas as fases da guerrilha. 'Atendi
um pedido do Zezinho', esquiva-se.
Zezinho
é presidente do recém-criado
Instituto de Apoio aos Povos do Araguaia
(Iapa), entidade que vai construir, em
outro terreno também doado pela
prefeitura, o memorial da guerrilha. 'Não
é verdade. A única coisa
que discutimos foi a possibilidade de
transferir o que havia no jardim para
a área do futuro memorial, mas
quando tudo estivesse pronto', garante
Zezinho. Ele afirma que a responsabilidade
é exclusiva do prefeito.
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