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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

19 de março de 2005

AGRESSÃO
Prefeito de Xambioá derruba
memorial da Guerrilha do Araguaia
A praça demolida, ao ser inaugurada em maio de 2002

Por Vasconcelos Quadros,
para O Estado de S. Paulo

O prefeito de Xambioá (TO), Richard Santiago Pereira (PFL), mandou destruir, na sexta-feira passada, o maior símbolo do PCdoB na Guerrilha do Araguaia: um jardim com cerca de 30 metros quadrados, construído na entrada da cidade. Nele, estavam espalhadas na terra as cinzas do principal dirigente do partido, João Amazonas, morto em maio de 2002, e que participou da guerrilha que pretendia tomar o poder dos militares na década de 70.

No interior do prosaico mausoléu, murado, havia quatro mastros - que serviriam para o hasteamento das bandeiras do Brasil, do Tocantins, de Xambioá e do PCdoB -, uma pequena obra de alvenaria amparando uma placa em homenagem ao líder comunista e a pedra fundamental onde seria erguido um obelisco já desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer em homenagem as guerrilheiros mortos.

Em poucos minutos, o trator da prefeitura moeu o que havia de concreto e ferro, removeu o solo e arrancou toda a vegetação do terreno de 9 mil metros quadrados, que o prefeito Santiago Pereira já desapropriou. De um bosque com dezenas de árvores centenárias, só ficou um pé de pequi. A área será cedida ao governo do Estado de Tocantins para abrigar um dos maiores complexos de fiscalização da receita estadual. Serão construídos uma delegacia fiscal, as instalações da coletoria e uma balança para pesagem de caminhões de carga. Com orçamento e licitação já definidos, as obras terão início nos próximos dias.

Constituirão um cenário bem diferente ao da zona liberada que o PCdoB imaginava estabelecer no frustrado sonho dos comunistas. Situada na confluência do Pará, Tocantins e Maranhão, Xambioá é considerada o berço da guerrilha, preparada a partir do fim de 1966 com a chegada à região dos primeiros ativistas treinados na China. A luta, iniciada em abril de 1972, durou quase três anos e foi a maior ação da esquerda armada depois do golpe de 1964.

Pouco antes de morrer, Amazonas deixou pronto um texto em que pedia que seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas na terra - uma forma simbólica 'de se juntar aos companheiros que tombaram na guerrilha' que ajudara a organizar nas matas da região. Não há mais cinzas. O que restou do jardim inaugurado solenemente pelo PCdoB foi a placa da homenagem, que o prefeito mandou recolher para entregar aos comunistas.

O prefeito não consultou a direção do PCdoB e nem a Câmara de Vereadores. "Estou surpreso. Prefeito ou cidadão, ele deveria respeitar a memória de quem tombou em defesa do povo", afirma o deputado Jamil Murad (PCdoB-SP).

Procurado pela reportagem do Estado, diante da saraivada de críticas que está recebendo, Santiago Pereira disse que não teve intenção de ofender a memória do PCdoB. "Na época da guerrilha eu tinha 8 anos de idade e incorporei o respeito pela causa", afirma.

Versões

Ele apresentou três versões para a decisão: o governador do Tocantins, Marcelo Miranda, havia solicitado a área com urgência e a prefeitura não poderia perder o prazo para o início de um projeto que tem reflexos na economia do município; a obra do jardim era irregular porque pertencia a um particular e ainda estava em litígio quando seu antecessor - Júnior Leite, do PP - doou ao PCdoB e, por último, ao perceber o desastre, tentou dividir a culpa com Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia, único sobrevivente de todas as fases da guerrilha. 'Atendi um pedido do Zezinho', esquiva-se.

Zezinho é presidente do recém-criado Instituto de Apoio aos Povos do Araguaia (Iapa), entidade que vai construir, em outro terreno também doado pela prefeitura, o memorial da guerrilha. 'Não é verdade. A única coisa que discutimos foi a possibilidade de transferir o que havia no jardim para a área do futuro memorial, mas quando tudo estivesse pronto', garante Zezinho. Ele afirma que a responsabilidade é exclusiva do prefeito.

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