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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

18 DE MARÇO DE 2005

CONFLITO NO CAMPO
Trabalhadores sem terra revoltam-se contra RBS

 

Emissoras, rádios e jornais do grupo de comunicação gaúcho RBS costumam tratar ativistas dos movimentos sociais, sobretudo os sem terra, como se fossem criminosos

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) publicou nota oficial na última terça-feira (1º/03/2005), afirmando que "deplora e condena o lamentável episódio ocorrido na BR-386, próximo à cidade de Sarandi, no Rio Grande do Sul, quando integrantes da Via Campesina, Movimento dos Pequenos Agricultores e Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra incendiaram um veículo da RBS TV".

Segundo a entidade, a equipe de reportagem da RBS estava no local colhendo informações e imagens sobre a manifestação dos agricultores gaúchos, que bloquearam a rodovia com o intuito de reivindicar medidas do governo para enfrentar os problemas da seca no Estado. Os manifestantes teriam golpeado o veículo da emissora com foices, tirado a câmera das mãos do cinegrafista Everton Machado e a colocado no veículo, que foi em seguida incendiado. Machado e o repórter Leonel Lacerda alegam que tiveram suas roupas rasgadas pelos manifestantes, que ainda tentaram tirar dele o celular e o microfone da emissora.

De acordo com a assessoria do MST, realmente houve a queima de um automóvel na rodovia para bloquear a passagem de veículos, mas nenhum jornalista foi ferido. E ainda, os manifestantes eram pertencentes à Via Campesina, uma organização local de agricultores, filiada ao MST.

Sindicato dos Jornalistas alertou RBS

Em nota, o presidente do Sindicato dos Jornalistas/RS, José Carlos Torves, também lamentou o incidente ocorrido em Sarandi; entretanto, lembrou que em novembro de 2003 o Sindicato e a Coordenação dos Movimentos Sociais, em carta entregue à direção da RBS, alertavam para o risco de situações graves, tendo em vista a linha editorial da empresa de permanente criminalização dos movimentos sociais.

O Grupo RBS se omitiu e não marcou nenhuma agenda para tratar dessa questão, deixando a situação se agravar, colocando em risco os jornalistas que trabalham nos seus veículos. "Portanto, responsabilizamos a direção do Grupo RBS por esta situação que pode levar a fatos que ameaçam a integridade física dos profissionais. Também entendemos que a agressão foi cometida contra a RBS (patrimônio) e não contra a imprensa, pois nenhum veículo e nenhum profissional de outros grupos de comunicação que atuam no Estado sofreu qualquer ato de hostilidade por parte dos movimentos sociais", argumenta o Sindicato.

Confira a carta aberta entregue em novembro de 2003 pelos Movimentos Sociais à direção do grupo da RBS por ocasião da 8ª Marcha dos Sem:

Srs. Diretores do Grupo RBS

O Movimento Social do Rio Grande do Sul, preocupado com a crescente criminalização dos movimentos sociais, em especial do MST, por parte da mídia brasileira, em particular pelos veículos do grupo RBS, vem solicitar aos seus diretores que recebem desse movimento, algumas observações:

a) Considerando que o Grupo RBS é o maior e mais importante grupo empresarial de comunicação do sul do país.

b) Considerando que essa hegemonia produz uma liderança inconteste, ao mesmo tempo atribuí uma óbvia responsabilidade social.

c) Considerando a polarização da opinião pública gaúcha, em torno dos serviços de comunicação prestados pela RBS.

d) Considerando que os serviços de comunicação social, o entretenimento e o jornalismo, veiculado pelas diversas mídias possui uma inequívoca natureza pública, além da reconhecida caracterização de concessão pública dos serviços de radiodifusão.

e) Considerando ainda que, na opinião da maioria absoluta dos movimentos sociais, a mídia, em particular a RBS, veicula a informação e a opinião de forma a negar a legitimidade das ações dos movimentos sociais, invariavelmente destaca apenas seus aspectos negativos, torna esses movimentos mal vistos pelas comunidades onde atuam.

f) Preocupados pela maneira que os próprios trabalhadores da RBS têm sido tratados, nos seus momentos de propaladas crises, principalmente os trabalhadores do segmento rádio e televisão, quando têm tido sistemáticas demissões no setor em plenas negociações salariais.

g) Considerando que a comunicação social é um direito público, portanto, uma concessão do Estado e não um direito privado, é inadmissível que a sociedade não tenha controle sobre a informação que chega ao público. É imprescindível, portanto, que o debate público sobre essa questão seja feito com a sociedade e não nos próprios veículos da RBS, uma vez que esta empresa tem a preocupação de expor, debater e opinar sobre tudo que ocorre aqui no Rio Grande do Sul. É inadmissível que não se discuta publicamente as denúncias publicadas no caderno especial da Revista Porém sobre a questão do Grupo RBS estar envolvido em lavagem de dinheiro em paraísos fiscais.

h) Considerando que a RBS exerce a função de primeiro poder e, no exercício desse poder, exerce uma violência desproporcional aos demais atores sociais, pauta e pressiona as demais instituições, como policiais, governo e judiciário e a sociedade civil denunciando, julgando e condenando através do noticiário, dos comentários e dos seus editoriais.

i) Considerando que ao invés de noticiar e bem informar a sociedade gaúcha, adjetiva e desqualifica todas as ações dos movimentos sociais.

j) Alarmados pelas denúncias veiculadas no caderno especial da Revista Porém, o Movimento Social gaúcho solicita a essa empresa as seguintes medidas para democratizar suas relações com a sociedade.

Segue nossas propostas:

1 - Construção de um espaço público no qual seja possível à sociedade civil do Rio Grande do Sul discutir, de maneira ampla e independente, a forma e os conteúdos da programação dos veículos dessa empresa. Citamos como exemplo, um Conselho de Redação eleito e público, como existem em vários países.

2 - A criação de espaços nos veículos da empresa para a discussão dos grandes temas que afligem o povo gaúcho, entre eles a própria mídia além das questões sociais e sindicais, quase sempre ausentes dos noticiários.

3 - A atuação da empresa no sentido de indicar a participação das associações de empresas de comunicação nos espaços públicos existentes, de discussão da mídia, e nos que vierem a existir. Tendo como exemplo o Conselho Municipal de Comunicação.

4 - Tornar pública, como todas empresas que queiram buscar dinheiro público, a verdadeira situação econômica do grupo, à medida que é estratégico para o Rio Grande do Sul a saúde financeira de suas empresas.

5 - Já que em todos os países civilizados existe o Direito de Antena, ou seja, se alguém ou algum movimento social for agredido, não é necessário, ou não é preciso, entrar na justiça para obter o direito de resposta. Automaticamente haverá o mesmo espaço, destaque e tempo (rádio, jornal e TV) para se manifestar. O Brasil tem de começar a adotar esse mesmo critério e o Rio Grande do Sul, considerado o Estado mais politizado do país, deve ser o pioneiro. E sendo a RBS o maior grupo de mídia do Estado, seria salutar para a democracia a vanguarda dessa iniciativa.

O Movimento Social do Rio Grande do Sul aposta na democratização da comunicação no Brasil como elemento indispensável para a existência da democracia plena e conta com a disposição da empresa, para essa inadiável empreitada. O pedido para que a empresa se manifeste sobre estas considerações, sobre as denúncias da Revista Porém, a Marcha dos Sem e o ato público em frente ao jornal Zero Hora, sinaliza um novo momento. Não aceitaremos o comportamento que até hoje o grupo empresarial RBS manteve com os Movimentos Sociais. Este período se encerra neste momento em que entregamos este documento. A partir de agora, a responsabilidade será da parte que não cumprir com as suas responsabilidades.

Saudações democráticas

Coordenação dos Movimentos Sociais
 

 

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