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Big
Brothers são vigiados 24 horas por dia |
Por Ilana
Feldman*
“Big Brother Brasil” tem revelado, dia após dia, uma capacidade estrondosa de
repercussão. Seja através dos números de Ibope, seja através do “retorno de
mídia”, “BBB 5” provoca acalorados debates, no mundo real ou virtual, incitando
manifestações e tomadas de partido, de anônimos à personalidades.
Tal impacto não deveria ser deixado ao acaso. 31 milhões de votantes e mais
de 51% de audiência em noite de paredão repercutem, inegavelmente, no imaginário
de um país, na estimulação de novas formas de subjetivação e nas conseqüências
estéticas e políticas engendradas pelo formato.
Os reality shows, no caso, o “Big Brother”, não devem ser tomados como
irrelevante “espetáculo de entretenimento”, consideração que não contribui em
nada para uma análise crítica, além de desmobilizá-la. Ao contrário, buscar
entender os signos audiovisuais produtores do imaginário deve ser, mais do que
nunca, o foco da ação política contemporânea, pois o imaginário não é a
irrealidade, algo abstrato, e sim “a câmera de produção da realidade por vir”.
Muito se tem falado, mas de fato muito pouco se analisa. Existe uma tendência
por parte da crítica de ir aos programas sem levar em conta as complexidades e
contradições do formato implicado, sendo escassas as iniciativas de análises
mais complexas. Em geral, assume-se uma posição de superioridade em relação ao
objeto criticado. À expressão da “realidade”, muitas vezes cabe o enfado, o
deboche e o julgamento de olhos vendados. Olhos que vão às análises com
conceitos já prontos, afirmando preconceitos de classe e não levando em
consideração que os questionamentos podem ser mais ricos do que as certezas.
É curioso perceber o quanto o formato reality show é subjugado, de saída,
pelo seu caráter “reality”. Se os mesmos “personagens” fossem ficcionais,
certamente seria legítimo analisá-los como produções estéticas sintomáticas da
contemporaneidade. Brasileiros são sempre os outros, e a evidência de conflitos,
mesquinharias, ressentimentos e intrigas só é bem digerida quando travestida da
ficção que, na maior parte das vezes, apazigua o desconforto e sofrimento do
espectador.
Aos espectadores dos realities cabe a crueldade da vida posta em cena, em uma
exposição que não ameniza nossas baixezas, nem ameniza a lógica econômica,
produtora de tantas existências e tantos sonhos. Sonhos de visibilidade, de
sucesso mercantil, de êxito empresarial, de ascensão social, mas também de
inserção, reconhecimento e pertencimento.
A crueldade do “Big Brother” não ameniza nem mesmo os afetos, negativos e
positivos, que se desenvolvem entre os personagens, capazes também de criar
vínculos de amizade, amor e solidariedade. Não enxergar isso é cerrar a
percepção para as sempre positivas contradições e ambigüidades de sentidos
produzidos pelo programa. Que a crueldade seja então, como quer Clément Rosset,
um princípio, uma ferramenta do pensamento para destrinchar os sentidos já dados
e as verdades preestabelecidas. Afinal, todo sentido é um apaziguamento do
conflito.
Categorias aprisionantes
A categoria identitária sempre foi peça fundamental para os Estados
totalitários que, em momentos distintos da história, tiveram como projeto a
eliminação de categorias inteiras, quando estas não “interessavam” ao sistema
político vigente.
Sintomaticamente, a composição identitária dos personagens do “Big Brother
Brasil” parece ser, em princípio, uma mistura da categorização policialesca dos
Estados totalitários com os sistemas de classificação do IBGE. E, ainda,
poderíamos considerar que as estratégias de seleção e composição dos
participantes do “BBB” são herdeiras dos Estudos Culturais, com suas políticas
identitárias baseadas em origem e gênero.
No “BBB5” isso é muito claro. De início, todos os participantes responderam à
mesma entrevista e ao mesmo perfil que se encontram acessíveis no site do
programa. São definidos por um preciso e ajustado inventário de consumo, gosto
pessoal, comportamento e atributos, como se todos os itens revelassem a mesma
coisa: o posicionamento do participante em uma hierarquia social e cultural.
É uma espécie de Censo mais nuançado. Vale como experiência antropológica,
mas isso só tem algum sentido se se parte do princípio de que o outro é objeto
de análise. Se a expectativa for contrária, é preciso ir cotidianamente aos
programas exibidos para tentar captar uns sopros de vida que contradigam as
ferrenhas e aprisionantes categorias.
Alguns participantes receberam, de Pedro Bial ou dos próprios participantes,
os nomes de suas categorias. A paranaense Grazielli e também Miss Brasil é
chamada pelos colegas antagonistas, na maior parte do tempo, de “Miss”. O
diminutivo Grazie tem sido proferido apenas pelos muito próximos, Jean e Pink. A
carioca Tatiana, da Ilha do Governador, é chamada por Bial de Tati Rio, ou Tati
Ilha, em parte porque uma quase homônima existe, a Tatiane Pink, mais conhecida
por sua cor predileta e jeito vibrantes, o que dispensaria, na prática, as
terminações “Rio” ou “Ilha” do nome de Tatiana. Mas parece que os personagens
com menos interioridade elaborada no programa, ou cujas categorias são menos
ficcionalizadas, são os mais carentes de alcunhas identificatórias.
Algumas personagens competem pela origem, para saber quem irá, por exemplo,
melhor representar o Nordeste. Pink e Karla, de Pernambuco, e Natália, do Ceará,
brigam para saber quem vai ocupar a posição de “nordestina legítima”.
A carismática cabeleireira Pink sai em vantagem, porque, desde o início do
programa, tendo consciência da categoria, já disse não votar em conterrânea, nem
em mulher. Ela ressalta, de modo incisivo e cômico que, além de nordestina e
mulher, é pobre, digna, leal e de bom coração. Uma espécie de Heloísa Helena
debochada e colorida, que soube ficcionalizar sua categoria, tendo sua imagem
intensificada pela edição. Já a dançarina Karla se pergunta, em conflito: “O que
será que Pernambuco vai pensar de mim?”.
Também o professor universitário e baiano Jean expressou e politizou sua
“condição”. Alegou que estava indo ao primeiro paredão por ser gay, e não por
ser um intelectual, articulado e manipulador, como foi justificado. Já o técnico
de informática P.A, paulista e negro, e a dona de casa carioca, também negra,
Aline inspiraram agressivos debates no fórum virtual de discussão do “BBB”.
Eram acusados de estarem envergonhando sua “classe” ao agirem de modo
condenável. Mas condenado mesmo foi o médico paulista Rogério (Gê), rejeitado
com recorde histórico (92% de 31 milhões de votos) por seus atos e que, parece,
vai dar continuidade a seu projeto de comportamento e aparência nazifascista:
quer se especializar em cirurgia plástica estética.
No entanto, contradizendo muitas vezes suas categorias, os personagens do
“BBB” são existencialistas: constroem-se também por aquilo que fazem e falam.
Como peixinhos no aquário, vivem e morrem pela boca. Aline já não é mais,
apenas, negra, pobre e mãe de família. É agora a “fofoqueira”, “leva-e-trás” e
“traíra”. Pode ser uma visão muito restrita e nada singular de alguém, mas é o
preço que se paga quando se entra no jogo da imagem capitalizada.
Ratificando esse regime audiovisual de identidades fabricadas pelas ações dos
personagens e tornando-as evidentes ficcionalmente, o “BBB5”, com talento e
habilidade, criou uma animação, fazendo a paródia dos super-heróis animados.
O grupo dos “Gigantes” ou “Tropa de Choque” foi representado como “Os
Inacreditáveis”, e o grupo do “bem” como “Os defensores”. No primeiro grupo,
Rogério era o “Capitão Gê”; P.A, o “Mr. Paranóia”; Alan, o “Kid Pamonha”; Karla,
a “Mulher Capacho”; Tati Rio, a “Garota Volúvel”, e Aline a “Agente X9”. No
segundo, Jean era o “Homem Maravilha”; Pink, a “Incrível Pink”; Grazie, a “Miss
Charada” e Sammy o “Ninja Ensaboado”.
Em uma das festas do “BBB5”, a “Soltando os Bichos”, o mesmo procedimento de
ficcionalização se deu, mas, desta vez, a estratégia foi menos indolor para os
confinados.
Cada participante recebeu uma fantasia de um animal, de acordo com sua índole
e postura na casa, como se o Big Brother explicitasse a metáfora do “zoológico
humano” que está na origem do conceito hobbesiano de convivência violenta e
forçada. Jean era o leão, rei da floresta; Pink, a gata escandalosa cor-de-rosa;
Grazie, uma doce borboleta, e Sammy, um anódino esquilinho.
Já no outro grupo as caracterizações foram, novamente, mais maliciosas. Karla
era uma macaca cansada; P.A., um gavião; Natália, uma onça ambígua; Tati Rio, a
cobra insatisfeita, e Aline, um corujão. Se, em princípio, através do
confinamento de seres diversos, estava em questão uma tentativa de conciliação
das diferenças, o retorno a uma velha visão “harmoniosa” de brasilidade, o que
fica, ao final, é a explicitação das divergências ou, como escreveu o crítico
Cleber Eduardo, a impossibilidade da idéia de cordialidade brasileira.
Pedagogia de mercado
Alguns autores defendem que o romance foi um gênero literário que refletiu,
em grande medida, as relações de dominação coloniais e imperiais, reproduzindo,
como produto histórico, a ideologia da dominação em sua forma, mesmo quando esta
era nacionalizada por grupos dominados.
Herdeiras do romance, as grandes narrativas cinematográficas produzidas por
Hollywood também exerceram, e exercem, sua dominação econômica e cultural,
evidenciando, mais uma vez, que a forma ideológica da dominação é reproduzida
mesmo quando nacionalizada pelos países periféricos.
Com o “formato narrativo Big Brother” acontece algo semelhante, pois se trata
de um modelo de audiovisual internacionalista, exportado para todo o mundo, do
Ocidente ao Oriente, dos países centrais aos periféricos. A diferença, em
relação ao romance, é que o “Big Brother” não está vinculado a uma identidade de
Estado-nação específica.
Sua origem não se concentra em um povo, nem em um território, mas em uma
corporação transnacional que, por acaso, surgiu na Holanda -talvez até como
fruto de uma tradição de representação de interiores.
Assim como o romance, o Big Brother reproduz uma relação de dominação, seja
no pagamento de patentes para a empresa matriz, seja na própria lógica de
funcionamento do programa, baseada na ideologia empresarial. Uma “dramaturgia da
exclusão” é assim transformada em pedagogia.
Desse modo, no âmbito do capitalismo pós-industrial, o Big Brother naturaliza
e tende a consolidar uma lógica própria às chamadas “leis de mercado”,
estimulando novas formas de subjetivação e reforçando novos sistemas de
valoração em consonância com essa pedagogia de mercado alicerçada no curto
prazo.
Gilles Deleuze, em “Post-Scriptum para as Sociedades de Controle”, já havia
escrito: “Se os jogos de televisão mais idiotas tem tanto sucesso é porque
exprimem adequadamente a situação da empresa”. E no “Big Brother” está claro: as
gincanas competitivas que “movem” a narrativa -e aqui caberia um paralelo entre
as gincanas e o “cinema das atrações”- vinculam-se às dinâmicas seletivas das
grandes companhias, através das quais os concorrentes ao emprego, ou à
permanência na “casa”, serão testados.
Como empresa, os realities estão sempre se flexibilizando, se adaptando às
demandas de mercado, de público e dos próprios competidores. Também usam o
espaço para divulgar empreendimentos de organizações não-governamentais,
incentivando a “responsabilidade social” e premiando, com estalecas (a moeda
corrente da casa), o trabalho “voluntário”, no caso, voluntariamente imposto.
No “BBB5”, o personagem de Paulo André, o P.A., técnico em informática,
enquanto discursava em nome de parcerias, foi incisivo: “Aqui é igual lá no
emprego. Quem tá comigo sobe junto, quem não tá vai pra fora”. No seu grupo de
parceiros, se encontrava o médico Rogério (Gê), mentor do complô e do grupo
chamado de “Os gigantes”. Gê também realizava seu recrutamento baseado em sua
teoria: “Quem joga junto vence e quem joga individualmente dança”, ou, ainda,
“voto individual é voto nulo”.
Os integrantes do grupo defendiam, assim, as decisões corporativas e
apresentavam, ao repudiar a diferença e a independência, matizes protofascistas.
Alardeavam que “no jogo vale tudo” e que, por isso, era legítimo agir como
jogadores, profissionalmente. Talvez eles tivessem destino melhor se
participassem do reality show “O Aprendiz”, cópia brasileira de “The Apprentice”,
idealizado pelo multimilionário americano Donald Trump, de quem se costuma ouvir
a frase já transformada em bordão: “You are fired!”.
A contradição que se coloca é que no “Big Brother Brasil” os premiados não
são os mais eficientes, mas os mais simples, humildes, coerentes e independentes,
aqueles que “jogam com o coração”.
O padrão ou estatuto de julgamento da audiência brasileira, mais
apropriadamente, do público votante, leva em conta o perfil social e a conduta
moral dos participantes, isto é, os personagens construídos têm o desafio de
serem competitivos sem passar dos limites, havendo aí um paradoxo: ao mesmo
tempo em que se faz apologia dos atributos inatos e conquistados, da
competitividade e da adaptabilidade, premia-se os ingênuos, os não-manipuladores
e menos “aptos”. Elabora-se, assim, um projeto de hierarquização moral e de
“justiça social” em um fórum privado publicizado.
Também não se pode deixar de perceber que as atitudes de afeto e
solidariedade entre alguns personagens acabam se transformando em uma pedagogia
positiva, de repercussão muito mais ampla do que a simples defesa verbal da
ética e do respeito mútuo.
Jean e Pink, personagens do “BBB5”, são a prova desta relação fraternal e se
transformaram, ao menos por enquanto, em referências em matéria de ética,
sinceridade e compromisso. A questão é saber até quando eles poderão permanecer
unidos, sem se indicarem ao paredão. Está aí a maior perversidade do programa: o
“salvo-me se puder”, corrosivo de qualquer possibilidade de relação.
Um estado de exceção
A presença do “paredão” e de todo um vocabulário beligerante, como a
convocação que invade nossos telefones celulares para que enviemos um “torpedo”
para “detonar” algum participante, não por acaso se articula com um panorama de
progressão contínua do que chegou a ser definido por alguns teóricos como
“guerra civil mundial”.
Nesse contexto, o estado de exceção, segundo Giorgio Agamben, tende sempre
mais a se apresentar como paradigma de governo dominante da política
contemporânea, transformando-se, de uma medida provisória e excepcional, em
técnica de governo. Assim, as práticas de exceção contemporâneas, engendradas
por um Estado policial protetor, fazem da política do terror e da insegurança o
principio gestor, estimulando, cada vez mais, a privatização dos espaços e o
confinamento no interior deles.
Os reality shows de confinamento também são, a seu modo, sintomas de uma
gestão midiática da insegurança que, implícita ou explicitamente, incita à
vigilância, ao controle e à autoproteção em ambientes privados. Assim como na
gestão midiática da insegurança, as guerras, civis ou militares, são
transformadas em espetáculo, no “BBB” os conflitos também são capitalizados:
tornam-se show.
Grosso modo, a diferença entre a condição de um estado de exceção e o
confinamento do “BBB” é que este é hedonista e seus participantes lá estão
voluntariamente. O que nos faz pensar que o “estado de exceção” do “BBB” é
exercido não contra a sociedade, mas reivindicado por ela, em sua sede de
competitividade, inserção, visibilidade e eliminação, mas também de implacável
justiça.
Porém, para traçar um paralelo mais cuidadoso entre estado de exceção e
reality shows de confinamento, é necessário ir ao primeiro e expor suas
particularidades. O estado de exceção como definido por Agamben significa, na
prática, a suspensão do ordenamento jurídico, isto é, a anulação dos direitos
civis do cidadão e de seu estatuto jurídico como indivíduo.
O indivíduo deixa de sê-lo para se tornar uma categoria identitária, peça
fundamental para os Estados totalitários, que, através do estado de exceção,
podem propor e executar a eliminação de categorias inteiras que pareçam não
integráveis ao sistema político. Contudo, precisa-se ressaltar que o estado de
exceção não se dá necessariamente em uma ditadura, mas em um espaço vazio de
direito.
De fato, o estado de exceção na sua forma moderna foi criado pela Revolução
Francesa, pertencendo, portanto, à tradição da democracia e não àquela do
absolutismo, ou, mais apropriadamente, pertencendo a “um patamar de
indeterminação entre democracia e absolutismo”.
O estado de exceção realiza-se como uma gestão de uma nova desordem mundial,
modulável segundo dispositivos de vigilância. Dentre esses dispositivos se
encontram, além dos olhares maquínicos das câmeras de monitoramento (presentes
em espaços públicos e privados), fichamentos eletrônicos das impressões digitais
e da retina, tatuagem subcutânea, coleira eletrônica, prática do confinamento e,
até, “coleira” auditiva (microfones) que os participantes do “BBB” são obrigados
a usar (caso contrário serão punidos).
O que está em jogo, assim, é o estatuto normal de cidadãos dos Estados ditos
democráticos, que são persuadidos a aceitar como naturais práticas de controle
que sempre foram consideradas excepcionais e desumanas. Ou seja, o que está em
jogo é uma nova relação biopolítica entre Estado e indivíduo, o qual passa a ser
considerado um corpo, assim como a idéia de povo, outrora sujeito político,
torna-se sinônimo de simples população.
Uma vez que a vida humana e o corpo biológico se tornam o alvo central dos
difusos mecanismos de poder, todo o campo da política se transforma, e as
oposições que anteriormente o definiam (como público-privado, esquerda-direita,
democracia-absolutismo) começam a se atenuar. É, então, nessa impossibilidade de
distinguir a democracia do absolutismo e o privado do público que se encontra
uma fissura que nos interessa, capaz de criar um liame entre estado de exceção e
reality show.
Assim como o estado de exceção, que “se apresenta como um patamar de
indeterminação entre democracia e absolutismo”, o “Big Brother” -identificado
com uma idéia totalizadora e homogeneizada de Brasil, o qual é sempre evocado
pelos participantes- configura-se como um poder absoluto em tempos de institutos
de pesquisa, cujo próprio modelo de medição se reflete, além dos índices de
audiência e votação, nos índices de popularidade dos personagens, expostos em
números de estrelas no site do programa.
“O Brasil inteiro está vendo”, sempre escutamos dos participantes, e a ele
nada passará impune. Assim, a interatividade proporcionada pelo jogo, através da
qual é o público votante quem exerce o voto de exclusão, torna-se uma maneira de
saciar uma sociedade que se sente impotente politicamente e que tem sede de
punição. É ela quem vai proclamar a sentença toda a semana, fazendo o papel do
“Estado absoluto” num jogo em que tudo é resolvido por plebiscito, logo, o
absolutismo é relativo.
Fazendo uma analogia com o romance de Orwel, o formato televisivo “Big
Brother” é “1984” banhado em uma cultura democrática, na qual a vigilância e a
visibilidade não mais coagem, nem aprisionam (como no romance), mas, ao
contrário, libertam da condição do anonimato rumo à celebridade, conferindo
existência social aos participantes.
Valendo-se de uma inspiração tirânica e adotando procedimentos híbridos, o
“Big Brother” ainda apresenta a figura do Big Boss -quando é novamente a
audiência quem escolhe, como um patrão impiedoso, as possibilidades de
constrangimento e humilhação que serão impingidas aos “brotheres”. Após a
votação, ganha sempre em milhares de votos o “mico” mais ridículo e os
participantes, como empregados de uma empresa, não podem demonstrar mau humor ou
insubordinação.
Trilhando ainda o pensamento de Agamben, ele defende que o paradigma político
do Ocidente não é mais a cidade, e sim o campo de concentração. Mas se trata de
uma tese filosófica, e não historiográfica, o que quer dizer que o campo de
concentração serve como um modelo paradigmático que norteará sua crítica.
Os reality shows de confinamento, tendo em vista suas particularidades e
guardadas as devidas proporções, também podem ser encarados como um modelo
midiático e econômico-político de “concentração”: concentração espetacular de
corpos confinados, geridos por uma relação de poder biopolítica, concentrada
porque transformada em linguagem e imagens.
Diferentemente do estado de exceção, nos reality shows, obviamente, não há
suspensão dos direitos civis e da lei, como ocorreu em Auschwitz -segundo
Agamben, o espaço biopolítico mais total que jamais se concebeu e que, agora,
vem sendo implementado na base militar americana de Guantánamo-, e de maneira
nenhuma se propõe aqui banalizar, ou atenuar, essas experiências de horror.
Contudo, é necessário chamar atenção para algumas semelhanças.
Assim como, segundo Agamben, o campo de concentração é o paradigma para se
compreender a cidade biopolítica em que vivemos, os realities são paradigmáticos
da transposição dessa gestão biopolítica para um formato audiovisual baseado no
confinamento. Também, assim como o “campo”, o reality show é formatado na
indeterminação entre espaço público e privado, ambigüidade que está na base da
experiência do cidadão contemporâneo.
Essa ambigüidade constitutiva faz do reality uma esfera de visibilidade
absoluta atravessada pelo isolamento físico, violação do decoro e
espetacularização da intimidade, como se aquelas vidas a que assistimos nos
pertencessem, sem que desfrutassem de direitos.
De fato, cada “indivíduo” inserido no programa perde o direito sobre sua
imagem, em termo assinado por contrato, o que nos faz pensar que a lei que há
nos realities retira do humano sua condição de autonomia e autoria.
Também nos realities, à semelhança do “campo”, o indivíduo é encarado como
categoria identitária. Responde por sua origem e seu gênero, assim como cada
judeu de Auschwitz ou cada “terrorista” de Guantánamo responde por toda uma
“classe”. No “BBB5”, a personagem Pink, se insurgindo contra as ações de suas
colegas da “Tropa de Choque”, pontificou: “Isso envergonha a raça feminina”.
A associação entre estado de exceção e “Big Brother” também está na origem do
conceito do programa, o “laboratório humano”. Na idéia de um "laboratório" há,
sem dúvida, não só a tirania de fazer do outro sua cobaia, como a aniquilação de
qualquer direito individual desse outro. No “Big Brother”, o outro tem direitos
civis, embora existam regras claras a serem cumpridas, caso contrário há punição
e/ou "eliminação". E, quando se elimina um, aniquila-se uma categoria inteira. E
aqui não há exagero.
Deve-se entender as palavras em seus conceitos originais, e não apenas
banalizá-las em seus usos. As palavras (assim como o imaginário) são produtoras
de realidades e, nesse sentido, é inegável que a mentalidade eliminatória do
“Big Brother” produz sistemas de valores, produz um mundo. O mundo do “BBB” é
uma versão alegórica, atenuada, espetacular. Mas, se “todo mito é um projeto”,
como já disse Cacá Diegues, então toda alegoria é também uma profecia.
Alguns outros reality shows vão além na explicitação do paralelismo com o
estado de exceção. A emissora mexicana Televisa estreará, no final de fevereiro
de 2005, uma versão do “Big Brother” com castigos corporais para aqueles que não
cumprirem as regras do programa. As tarefas serão, assim, punidas e premiadas
fisicamente, num novo espaço que contará com áreas de reclusão, como se fosse
proposto aos participantes um retorno a uma tirânica Sociedade Disciplinar.
Também o Channel Four inglês deve exibir, em meados de março, um reality de
tortura, intitulado “Guantanamo Guidebook”, no qual sete voluntários são
submetidos às técnicas de interrogatório aplicadas aos prisioneiros da base
americana de mesmo nome, em Cuba, onde seus direitos civis estão suspensos.
Dentre os testes, estão previstos privação de sono, exposição à temperaturas
extremas, humilhação religiosa, além de um interrogatório de mais de 48 horas.
Segundo o programa, a justificativa para tal disparate seria chamar a atenção
para os efeitos devastadores que essas técnicas podem causar no ser humano.
No entanto, a conclusão que se tira é antagônica: se essas práticas de
tortura podem ser reproduzidas em voluntários e demonstradas em programas de TV,
isso significa que elas não são tão maléficas, ou seja, podem ser transformadas
em mero espetáculo e ter sua barbárie esvaziada. Assim, ao incorporar a mesma
linguagem e os mesmos procedimentos do alvo criticado, aquilo que seria crítica
é transformado em legitimação.
O foco pornográfico
O “Big Brother Brasil” não está em decadência, muito menos em seus
estertores. Legalmente, o contrato da Globo com a empresa holandesa Endemol
vigora até 2007, quando possivelmente novos acordos serão firmados. Os reality
shows vieram para ficar porque, além das vantagens econômicas -custam menos do
que a tradicional teledramaturgia-, fazem da vida sua matéria-prima, sendo,
portanto, uma linguagem audiovisual biopolítica por excelência.
Contemporâneos e sintomáticos, os realities souberam capitalizar, com uma
força devastadora, as demandas do capitalismo imaterial, ou pós-industrial, por
perfis identitários, corpos formatados e ajustados, intimidades publicizadas,
desejos de visibilidade e “criatividade”, fazendo da própria vida o terreno mais
fértil para seus investimentos.
* Publicado originalmente no site Trópico
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