“Identidade e
diversidade na América Latina” foi um dos
temas debatidos na quarta noite da Bienal
da UNE. Na mesa de debatedores, estiveram
presentes Nazaré Pedroza, assessora
especial do Ministério da Cultura, Antônio
Augusto Arantes, do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan), Maria Lúcia Montes, coordenadora
do Museu Afro-Brasil e Fábio Palácio,
presidente do Centro de Estudos e Memória
da Juventude (CEMJ). No centro da
discussão, assuntos como a importância da
busca por uma identidade latino-americana
forte q ue respeite as diversidades
regionais e históricas de cada país e as
políticas implementadas para a
consolidação da unicidade cultural na
América Latina.
A primeira a falar foi Nazaré Pedroza.
Em sua intervenção, ressaltou a
importância de não reduzir a questão da
diversidade e da identidade a fórmulas
preestabelecidas que levem à generalização
e à simplificação do tema. “Temos hoje o
desafio de construir a cultura da América
Latina e a latinidade. Não é uma tarefa
simples. Se considerarmos apenas a nossa
cultura, perceberemos que existem diversos
brasis dentro de um só. O Brasil é
um caldeirão efervescente, onde estão
misturadas as culturas africana, índia e
européia”, ressaltou.
Entre as ações concretas que têm
possibilitado uma maior interação entre as
culturas brasileira e latina – assim como
africana e portuguesa –, Nazaré Pedroza
destacou as viagens feitas pelo presidente
Lula e posteriormente pelo ministro
Gilberto Gil, que tiveram a missão de
estabelecer, além de caminhos econômicos e
políticos, pontes culturais. “É essencial
que possamos fortalecer as relações entre
os países da América Latina porque dessa
forma, abriremos a possibilidade de
estabelecer políticas coletivas de
valorização do patrimônio cultural
latino-americano. Esse novo olhar, essa
atitude de lutar pela integração na
América Latina, causou reações positivas
inclusive do México, que apoiou a idéia”.
Para dar andamento às políticas culturais
de integração entre países e continentes
variados, foi criado, por exemplo, um
grupo submetido ao Palácio do Planalto,
responsável pelo monitoramento dos
compromissos assumidos na África.
O papel do Iphan
Criado em 1937 no governo Getúlio
Vargas, o Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é
atualmente vinculado ao Ministério da
Cultura. O então ministro da Educação e da
Saúde, Gustavo Capanema, pediu a Mário de
Andrade que elaborasse um anteprojeto de
lei objetivando proteger o patrimônio
histórico e artístico nacional.
Participaram da concepção do projeto
figuras como Manuel Bandeira, Afonso
Arinos, Lúcio Costa, Carlos Drummond de
Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade.
A manutenção do patrimônio se dá por meio
de tombamentos, restaurações e
revitalizações.
Antônio Augusto Arantes explicou que, a
partir dos anos 80, após a
redemocratização, houve um movimento
crítico em direção à conceituação do que é
patrimônio. A diversidade cultural passou
a ser então o eixo do trabalho do Iphan.
Ele destacou ainda, entre outros aspectos,
a importância da formação de uma
mentalidade voltada para conservação e
para o reconhecimento de nossa cultura:
“procuramos preservar tudo aquilo que for
mais representativo dentro dos diversos
grupos que formam a nossa sociedade. E
para que esse tipo de política dê
resultados é essencial a participação da
população. É preciso que o povo se veja
nessas ações e se aproprie do patrimônio
nacional”.
Dentro de uma economia capitalista,
Arantes falou também sobre a constante
batalha entre o Iphan e a mercantilização
de espaços e locais. É bastante comum a
apropriação, por parte de grandes empresas
– especialmente aquelas voltadas para os
ramos hoteleiro e turístico – de
construções ou áreas que devem ser
preservadas, seja por seu valor
histórico-cultural, seja por seu valor
ambiental. “Estamos sempre atentos e
procuramos sempre impor o valor do
patrimônio ao valor mercadológico e usar o
patrimônio de maneira sustentável”,
esclareceu. Além da preservação de prédios
e construções, o Iphan tem trabalhado
inclusive pela preservação de terreiros de
candomblé, além de estar planejando o
tombamento de quilombos em parceria com a
Fundação Palmares.
Defesa da cultura afro-brasileira
Como forma de resgatar o papel do negro
na formação cultural brasileira e dar a
devida importância à herança africana, foi
criado em outubro de 2004, na capital
paulista, durante a gestão da prefeita
Marta Suplicy, o primeiro museu sobre
população negra do país: o Museu
Afro-Brasil.
Durante a sua inauguração, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva assinalou:
“nossa história com a África tem que ser
ensinada e tratada de forma muito
especial. Foi daquela parte do mundo que
homens e mulheres livres, transformados em
escravos, foram trazidos para o Brasil,
marcando para sempre o nosso futuro". A
experiência é um exemplo de ação de
reconstrução e consolidação da cultura
nacional. “O que nos norteia é a revisão
do Brasil a partir da perspectiva do
negro. Não se pode excluir o negro da
construção de nossa identidade cultural”,
disse Maria Lúcia.
Entre os pontos comuns que marcaram as
culturas brasileira e latino-americana, a
consultora destacou o processo de
submissão dos povos negro e índio aos
colonizadores portugueses e espanhóis. “Há
traços e aspectos que não aparecem na
superfície dessas culturas devido à ação
de projetos hegemônicos”, explicou.
Teoria filosófica
Finalizando o debate, Fábio Palácio
tratou da origem filosófica dos termos
identidade e diversidade. Entre as escolas
que estudaram esses assuntos, ele destacou
as pré-socráticas dos eleatas, dos
sofistas e dos jônios. Segundo ele, a
escola eleata, de caráter idealista,
baseava-se na absolutização da identidade.
Para Parmênides, só existe o ser; o
não-ser é nada. “A impressão de que existe
diversidade e contradições é uma ilusão
dos sentidos que de forma nenhuma pode ser
autorizada pela razão”, explicou.
No caso da escola sofista, ocorre a
introdução do relativismo no terreno do
pensamento filosófico. Sobre isso, Palácio
colocou que, para os sofistas “não havia
parâmetros universais para a validação de
uma realidade objetiva. A idéia de
objetividade era relativizada”.
Conforme ressaltou Palácios, os jônios
aproximaram-se daquilo que hoje conhecemos
como a moderna dialética. Unia-os a
tendência a crer que a identidade e a
diversidade não se tratavam de ilusões,
mas apenas de aspectos diferenciados de
uma mesma realidade. Heráclito, por
exemplo, via no mundo uma diversidade de
coisas unidas pelo movimento. Dessa forma,
o mundo viveria um devir permanente.
Aplicando essa conceituação à prática,
Palácio explicou que “toda cultura se
constrói através de um processo de
acúmulo, em geral, complexo e demorado”.
Nesse sentido, concluiu que “A América
Latina são povos diferentes que, no
entanto, formam uma unidade. E mais: essa
unidade está ainda em processo de
formação, até porque ela não surgirá
espontaneamente, mas como reflexo do
aprofundamento de processos de integração
que se dão não propriamente no terreno da
cultura, mas no âmbito da política”.
De São Paulo,
Priscila Lobregatte