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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

1 de março de 2005

bienal soy loco por ti
Por uma identidade e diversidade cultural latino-americanas
 

“Identidade e diversidade na América Latina” foi um dos temas debatidos na quarta noite da Bienal da UNE. Na mesa de debatedores, estiveram presentes Nazaré Pedroza, assessora especial do Ministério da Cultura, Antônio Augusto Arantes, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Maria Lúcia Montes, coordenadora do Museu Afro-Brasil e Fábio Palácio, presidente do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ). No centro da discussão, assuntos como a importância da busca por uma identidade latino-americana forte q ue respeite as diversidades regionais e históricas de cada país e as políticas implementadas para a consolidação da unicidade cultural na América Latina.

A primeira a falar foi Nazaré Pedroza. Em sua intervenção, ressaltou a importância de não reduzir a questão da diversidade e da identidade a fórmulas preestabelecidas que levem à generalização e à simplificação do tema. “Temos hoje o desafio de construir a cultura da América Latina e a latinidade. Não é uma tarefa simples. Se considerarmos apenas a nossa cultura, perceberemos que existem diversos brasis dentro de um só. O Brasil é um caldeirão efervescente, onde estão misturadas as culturas africana, índia e européia”, ressaltou.

Entre as ações concretas que têm possibilitado uma maior interação entre as culturas brasileira e latina – assim como africana e portuguesa –, Nazaré Pedroza destacou as viagens feitas pelo presidente Lula e posteriormente pelo ministro Gilberto Gil, que tiveram a missão de estabelecer, além de caminhos econômicos e políticos, pontes culturais. “É essencial que possamos fortalecer as relações entre os países da América Latina porque dessa forma, abriremos a possibilidade de estabelecer políticas coletivas de valorização do patrimônio cultural latino-americano. Esse novo olhar, essa atitude de lutar pela integração na América Latina, causou reações positivas inclusive do México, que apoiou a idéia”. Para dar andamento às políticas culturais de integração entre países e continentes variados, foi criado, por exemplo, um grupo submetido ao Palácio do Planalto, responsável pelo monitoramento dos compromissos assumidos na África.

O papel do Iphan

Criado em 1937 no governo Getúlio Vargas, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é atualmente vinculado ao Ministério da Cultura. O então ministro da Educação e da Saúde, Gustavo Capanema, pediu a Mário de Andrade que elaborasse um anteprojeto de lei objetivando proteger o patrimônio histórico e artístico nacional. Participaram da concepção do projeto figuras como Manuel Bandeira, Afonso Arinos, Lúcio Costa, Carlos Drummond de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade. A manutenção do patrimônio se dá por meio de tombamentos, restaurações e revitalizações.

Antônio Augusto Arantes explicou que, a partir dos anos 80, após a redemocratização, houve um movimento crítico em direção à conceituação do que é patrimônio. A diversidade cultural passou a ser então o eixo do trabalho do Iphan. Ele destacou ainda, entre outros aspectos, a importância da formação de uma mentalidade voltada para conservação e para o reconhecimento de nossa cultura: “procuramos preservar tudo aquilo que for mais representativo dentro dos diversos grupos que formam a nossa sociedade. E para que esse tipo de política dê resultados é essencial a participação da população. É preciso que o povo se veja nessas ações e se aproprie do patrimônio nacional”.

Dentro de uma economia capitalista, Arantes falou também sobre a constante batalha entre o Iphan e a mercantilização de espaços e locais. É bastante comum a apropriação, por parte de grandes empresas – especialmente aquelas voltadas para os ramos hoteleiro e turístico – de construções ou áreas que devem ser preservadas, seja por seu valor histórico-cultural, seja por seu valor ambiental. “Estamos sempre atentos e procuramos sempre impor o valor do patrimônio ao valor mercadológico e usar o patrimônio de maneira sustentável”, esclareceu. Além da preservação de prédios e construções, o Iphan tem trabalhado inclusive pela preservação de terreiros de candomblé, além de estar planejando o tombamento de quilombos em parceria com a Fundação Palmares.

Defesa da cultura afro-brasileira

Como forma de resgatar o papel do negro na formação cultural brasileira e dar a devida importância à herança africana, foi criado em outubro de 2004, na capital paulista, durante a gestão da prefeita Marta Suplicy, o primeiro museu sobre população negra do país: o Museu Afro-Brasil.

Durante a sua inauguração, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinalou: “nossa história com a África tem que ser ensinada e tratada de forma muito especial. Foi daquela parte do mundo que homens e mulheres livres, transformados em escravos, foram trazidos para o Brasil, marcando para sempre o nosso futuro". A experiência é um exemplo de ação de reconstrução e consolidação da cultura nacional. “O que nos norteia é a revisão do Brasil a partir da perspectiva do negro. Não se pode excluir o negro da construção de nossa identidade cultural”, disse Maria Lúcia.

Entre os pontos comuns que marcaram as culturas brasileira e latino-americana, a consultora destacou o processo de submissão dos povos negro e índio aos colonizadores portugueses e espanhóis. “Há traços e aspectos que não aparecem na superfície dessas culturas devido à ação de projetos hegemônicos”, explicou.

Teoria filosófica

Finalizando o debate, Fábio Palácio tratou da origem filosófica dos termos identidade e diversidade. Entre as escolas que estudaram esses assuntos, ele destacou as pré-socráticas dos eleatas, dos sofistas e dos jônios. Segundo ele, a escola eleata, de caráter idealista, baseava-se na absolutização da identidade. Para Parmênides, só existe o ser; o não-ser é nada. “A impressão de que existe diversidade e contradições é uma ilusão dos sentidos que de forma nenhuma pode ser autorizada pela razão”, explicou.

No caso da escola sofista, ocorre a introdução do relativismo no terreno do pensamento filosófico. Sobre isso, Palácio colocou que, para os sofistas “não havia parâmetros universais para a validação de uma realidade objetiva. A idéia de objetividade era relativizada”.

Conforme ressaltou Palácios, os jônios aproximaram-se daquilo que hoje conhecemos como a moderna dialética. Unia-os a tendência a crer que a identidade e a diversidade não se tratavam de ilusões, mas apenas de aspectos diferenciados de uma mesma realidade. Heráclito, por exemplo, via no mundo uma diversidade de coisas unidas pelo movimento. Dessa forma, o mundo viveria um devir permanente.

Aplicando essa conceituação à prática, Palácio explicou que “toda cultura se constrói através de um processo de acúmulo, em geral, complexo e demorado”. Nesse sentido, concluiu que “A América Latina são povos diferentes que, no entanto, formam uma unidade. E mais: essa unidade está ainda em processo de formação, até porque ela não surgirá espontaneamente, mas como reflexo do aprofundamento de processos de integração que se dão não propriamente no terreno da cultura, mas no âmbito da política”.

De São Paulo,
Priscila Lobregatte

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