|
O ex-presidente do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, afirmou que renova
sua esperança em um Brasil com crescimento sustentado todos os dias. Mas
ressaltou que batalhou por uma taxa de juros de longo prazo mais baixa e não
conseguiu. "Não faço prognóstico de catástrofe. Eu quero que o Brasil dê certo
e, principalmente, que o Brasil de Lula dê certo. Eu tenho muito mais medo do
Brasil dos tucanos. Se Lula não der certo, vem os tucanos por aí, coisa que me
assusta muito", disse ele.
O economista disse ter visto "a destruição que os tucanos fizeram no país nos
anos 90" e, por isso, quer "que o presidente Lula tenha todo o sucesso do mundo.
Foi nesse sentido que cooperei com ele 23 meses da minha vida", afirmou. Lessa
disse também que estava ciente, como presidente de um banco estatal, da política
do governo. "Eu não estava iludido, absolutamente. Sabia que estava em um
governo que trabalhava com variadas visões de mundo, mas batalhando para que
nossa visão prevalecesse", afirmou.
Garrafa de champagne
E desabafou: "Uma das batalhas que tive neste ano foi lutar brutalmente pra
reduzir a TJLP (taxa de juros de longo prazo) e não consegui". Segundo ele, a
alta taxa de juros torna mais atraente a compra de títulos da dívida pública do
que a realização de investimentos produtivos no país. Além disso, ela ainda
"reduz, em termos relativos, a taxa de lucro esperada pelo investidor privado,
caso o empresário não tenha controle sobre seus preços".
Para Lessa, as condições atuais que o país possui seriam muito bem
aproveitadas se os juros caíssem e os impasses para investimentos públicos
fossem retirados. "Com o volume de recursos com os quais os bancos públicos
operam e o fim das restrições junto ao FMI, nós vamos seguir em frente. Ninguém
segura o Brasil", afirmou. Ele mostrou confiança no presidente Luiz Inácio Lula
da Silva e no ministro da Fazenda, Antonio Palocci. "Se essa negociação entre o
Fundo e o ministro Palocci tiver sucesso, vou abrir uma garrafa de champagne",
brincou Lessa.
Pôncio Pilatos
O economista destacou ainda que sempre reclamou da falta de grandes projetos
no setor privado. "Até onde sei, continuam faltando, principalmente no setor de
bens de consumo não-duráveis, que reflete muito os empregos e salários", disse.
Segundo ele, o "ânimo maior está nas pequenas e médias empresas. As grandes
continuam retraídas", afirmou. Além disso, Carlos Lessa esclareceu que,
"legalmente, o BNDES não é um órgão subordinado. É um órgão sob supervisão. O
presidente responde pelo seu próprio patrimônio e pelos atos da sua gestão. O
presidente da República pode me tirar a cadeira, mas não pode me impor nada.
Vocês vão ver o ministro Mantega ser tão subordinado quanto Carlos Lessa",
disse.
Por fim, o ex-presidente do BNDES disse não ter "nenhuma pretensão de
carreira política". O economista estuda a possibilidade de criar um movimento
popular nacional de luta contra a elite brasileira - considerada "péssima" por
ele, mas não detalhou a idéia. "Estou com 68 anos e a sociedade brasileira
continua sendo iníqua. Nossa elite lava as mãos como Pôncio Pilatos para as
tragédias brasileiras", disse. O professor Carlos Lessa foi homenageado
anteontem no Clube de Engenharia, no Centro do Rio.
Apoios expressos
Quando Lessa foi demitido da presidência do BNDES, um movimento em defesa das
suas idéias somou apoios expressos que foram do vice-presidente José Alencar ao
compositor Chico Buarque, do economista Celso Furtado ao arquiteto Oscar
Niemeyer e do jurista Fabio Konder Comparato ao roqueiro Frejat, além de muitos
funcionários de carreira do banco. Em 22 meses à frente do BNDES, a gestão Lessa
fez o lucro líquido do Banco passar de R$ 550 milhões (em 2002) para R$ 1,4
bilhão (projeção para 2004). O patrimônio líquido da instituição elevou-se de R$
11,7 bilhões em dezembro de 2002 para R$ 14,4 bilhões em junho último.
Os desembolsos do BNDES em 2004 devem chegar a R$ 47,3 bilhões, superando em
52,6% os R$ 31 bilhões de 2002. Estes números colocam o BNDES atrás apenas do
Banco Mundial, o Bird, entre os bancos de desenvolvimento do planeta. Lessa não
caiu somente pelo que pensa e diz, mas também pelo que vinha fazendo à frente do
BNDES. Ele era criticado por seguir critérios rigorosos para aprovar os
financiamentos do banco. Mas também por dar suporte a empreendimentos nacionais
como a Companhia Vale do Rio Doce e a Embraer.
|