 |
- |
| Loreta,
em foto recente em São Paulo |
Loreta Fiefer Valadares, heroína
da resistência à ditadura
e à tortura, morreu em São
Paulo às 21h30 desta quarta-feira.
Quatro dias antes submetera-se a um transplante
de coração, aparentemente
exitoso, mas na terça-feira manifestou-se
a infecção que uma nova
cirurgia não conseguiu debelar.
Seu corpo será velado no Hospital
Beneficência Portuguesa e a seguir
cremado. Para que se conheça o
exemplo singular de Loreta, publicamos
este texto de Luiz Manfredini, seu biógrafo
em As Moças de Minas.
“...
eu aprendi a luta
com o povo da minha terra,
eu aprendi a luta com o povo
na guerra,
e acima das cabeças
dos monstros de verde-olive,
eu grito: venceremos!”.
Poema de Loreta
Valadares, escrito com
um pauzinho de pirulito
na parede da cela.
Em
meados de 1989 lancei um pequeno livro
– "As Moças de Minas"
– que relata uma história emblemática
dos rebelados anos 60. É a ele
– e ao mosaico das minhas lembranças
que já são tantas – que
recorro nesta noite triste em Curitiba,
no instante em que me cercam e oprimem
os ecos da agonia de uma lutadora exemplar,
lúcida e infatigável.
Revisito
o que escrevi 15 anos atrás, como
se a abraçasse. Busco aqui e ali
os trechos que mais me tocam. E como um
dia contei a história das bravas
moças que em Minas enfrentaram
— e com que bravura — o dragão
da violência política, sinto-me
agora tangido a resgatá-las mais
uma vez de um passado que já se
faz remoto — mas não se apaga
—,
para desse painel de sonhos e bravuras
destacar a figura superlativa de Loreta
Valadares, límpida e pujante, nessa
hora em que a vida a colocou frente ao
derradeiro impasse.
Lições
de humanidade
Faço-o
para mim próprio, como reverência
pessoal, mas também aos tantos
que acompanharam seu percurso iluminado.
Faço-o sobretudo aos jovens que
não a conhecem, para que aprendam.
Porque as lições de sua
vida são lições de
humanidade. E, nunca como hoje, o mundo
necessitou tanto disso, de humanidade,
para enfrentar a barbárie que já
se instala.
Loreta
Kiefer Valadares nasceu em Porto Alegre,
em 1943. Seu pai, Curt Kiefer, era um
judeu-alemão fugitivo das primeiras
perseguições nazistas na
Alemanha, e exercia então o modesto
ofício de contador de uma empresa
exportadora de fumo com matriz na Bahia.
Intelectual de respeitável bagagem,
carregado de avidez intelectual e ódio
à opressão, o pai a introduziu
no âmbito de uma cultura sofisticada.
Aos 12, 13 anos Loreta já havia
abandonado os gibis e historietas juvenis
para atirar-se aos clássicos da
literatura e da música. Era capaz
de apresentar de memória trechos
inteiros de Goethe, Tolstoi, Dostoiewski,
reconhecer peças clássicas
da música logo aos primeiros acordes.
Em
1949 os Kiefer se transferiram para a
Bahia, onde Loreta cursou o primário
no Colégio Nossa Senhora das Mercês,
das irmãs ursulinas, e o então
ginásio no Instituto Feminino da
Bahia, ingressando na Faculdade de Direito
da Universidade Federal da Bahia no início
de 1961.
Transição
para o engajamento
Meses
após ingressar na faculdade, trancou
matrícula para cumprir bolsa nos
Estados Unidos. Mas não se encantou
com a Meca do capitalismo. Na desconfortável
condição de jovem latino-americana,
conheceu o ensino massacrante, a dominação
ideológica, o racismo, a pobreza
e a revolta da juventude, que na época
transitava da geração transviada
dos anos 50 para o engajamento dos anos
60. Ao retornar ao Brasil, em 1962, o
País fervia. Ingressou na Ação
Popular (AP), passando a atuar no então
florescente movimento estudantil.
Logo
após diplomar-se, em dezembro de
l966, mudou-se para São Paulo.
O desafio era conhecer e penetrar o coração
industrial do País, onde a AP desejava
fincar bases sólidas. Ligou-se
a uma célula de implantação
operária. Em fins de 1967 transferiu-se
para Minas, acompanhando o namorado Carlos
Valadares, com quem se casou no início
de 1968. Atuou no município industrial
de Contagem, depois entre os camponeses
da mata da Jaíba, no Norte mineiro.
Na
tortura
De volta a Belo Horizonte, foi presa em
junho de 1969, junto com muitos outros
companheiros e companheiras, no ambiente
de repressão policial extensa e
truculenta que se seguiu à edição
do Ato Institucional nº 5, em dezembro
do ano anterior.
Firme
diante dos torturadores e ao longo dos
intermináveis interrogatórios,
a influência de Loreta em muito
contribuiu à luta daquele grupo
de mulheres corajosas sob as trágicas
condições do encarceramento.
Emblemática a ousadia com que enfrentou
coronéis, majores e capitães,
em confrontos que muitas vezes varavam
madrugadas. Talvez o momento mais dramático
tenha sido no pátio do 12o Regimento
de Infantaria, a noite iluminada pelos
faróis de jipes estacionados em
círculo, diante de uma barafunda
de soldados e oficiais que, aos berros,
a puseram para assistir o espancamento
de Carlos acorrentado pelas mãos
e pelos pés.
No
exílio
Solta
em maio de 1970, transferiu-se para São
Paulo, onde retomou contato com a organização.
Em seguida, seguiu para Recife, lá
permanecendo até meados de 1971,
quando constatou ser portadora de endomiocárdio
fibrose biventricular, mal que reduzia
em até 40% sua capacidade cardiocirculatória.
Voltou para São Paulo para se tratar.
Em 1972, foi condenada a três anos
de prisão e teve seus direitos
políticos cassados por cinco anos.
No
ano seguinte, com o agravamento da doença,
seguiu orientação do PCdoB,
partido ao qual recém se incorporara,
junto com a maioria da AP, e partiu para
o exterior. Permaneceu na Argentina até
1975, transferindo-se depois para a Suécia,
onde com Carlos atuou nos movimentos de
solidariedade às lutas dos povos
latino-americanos.
Retornou
ao Brasil no início de 1980, fixando-se
em Salvador. Tornou-se professora de Ciência
Política na Universidade Federal
da Bahia, até se aposentar, anos
mais tarde. A doença a limitava,
fazendo-a fatigar-se ao extremo diante
de movimentos corriqueiros como, por exemplo,
o de pentear os cabelos, ou caminhar da
sala até a cozinha do apartamento.
Surpreende-me
um testamento
No entanto, nas mais de 13 horas em que
conversamos, em diversas oportunidades,
em 1987, para construir o livro, e nos
telefonemas e nos contatos pessoais posteriores
– inclusive no último, em junho
do ano passado, na 9ª Conferência
Nacional do PCdoB, em Brasília
– jamais percebi qualquer arrefecimento
em seu espírito indômito,
qualquer amortecimento em sua inteligência
e em seu permanente olhar para o futuro.
Dirigente do Partido na Bahia, nunca se
afastou da luta à qual entregava
todos os momentos da vida, a luta pelo
socialismo tantas vezes áspera
e sofrida, mas irrecusável..
Ao
cercar-me das lembranças de Loreta
Kiefer Valadares nesta manhã ensolarada
e triste em Curitiba, folheio a esmo a
coletânea de poemas "Ecos do
Tempo", que ela e Carlos publicaram
em 1996. É a tentativa vã
de abraça-la à distância.
E surpreendo-me ao encontrar, ali na página
16, o poema de março de 1994, um
testamento.
Quando
eu me for
(se eu me for)
Vão até onde eu não
fui
Caminhos do ilimitado
A face inédita do futuro
Sem fronteiras
Sem inimigo
Encontrem
os meios
da liberdade
e vão
tão longe
quanto possam
Limiares de um outro mundo
Sem oprimidos
Sem classes.
E
quando
as novas veredas
do socialismo
forem percorridas
lembrem-se de que
fui
até o impossível freio
(Só que me faltou o tempo).
Lembraremos, Loreta! Sempre!
*
Jornalista, escritor, autor de Albânia,
horizonte vermelho nos Bálcãs
(Editora Alfa-Ômega, 1985) e As
moças de Minas (Editora Alfa-Ômega,
1989) e membro da direção
do PCdoB do Paraná.
|