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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

25 de novembro de 2004

HOMENAGEM
“Quando eu me for, vão até
onde eu não fui” — Loreta Valadares
-
Loreta, em foto recente em São Paulo

Loreta Fiefer Valadares, heroína da resistência à ditadura e à tortura, morreu em São Paulo às 21h30 desta quarta-feira. Quatro dias antes submetera-se a um transplante de coração, aparentemente exitoso, mas na terça-feira manifestou-se a infecção que uma nova cirurgia não conseguiu debelar. Seu corpo será velado no Hospital Beneficência Portuguesa e a seguir cremado. Para que se conheça o exemplo singular de Loreta, publicamos este texto de Luiz Manfredini, seu biógrafo em As Moças de Minas.

“... eu aprendi a luta
com o povo da minha terra,
eu aprendi a luta com o povo
na guerra,
e acima das cabeças
dos monstros de verde-olive,
eu grito: venceremos!”.


Poema de Loreta
Valadares, escrito com
um pauzinho de pirulito
na parede da cela.

Em meados de 1989 lancei um pequeno livro – "As Moças de Minas" – que relata uma história emblemática dos rebelados anos 60. É a ele – e ao mosaico das minhas lembranças que já são tantas – que recorro nesta noite triste em Curitiba, no instante em que me cercam e oprimem os ecos da agonia de uma lutadora exemplar, lúcida e infatigável.

Revisito o que escrevi 15 anos atrás, como se a abraçasse. Busco aqui e ali os trechos que mais me tocam. E como um dia contei a história das bravas moças que em Minas enfrentaram — e com que bravura — o dragão da violência política, sinto-me agora tangido a resgatá-las mais uma vez de um passado que já se faz remoto — mas não se apaga —, para desse painel de sonhos e bravuras destacar a figura superlativa de Loreta Valadares, límpida e pujante, nessa hora em que a vida a colocou frente ao derradeiro impasse.

Lições de humanidade

Faço-o para mim próprio, como reverência pessoal, mas também aos tantos que acompanharam seu percurso iluminado. Faço-o sobretudo aos jovens que não a conhecem, para que aprendam. Porque as lições de sua vida são lições de humanidade. E, nunca como hoje, o mundo necessitou tanto disso, de humanidade, para enfrentar a barbárie que já se instala.

Loreta Kiefer Valadares nasceu em Porto Alegre, em 1943. Seu pai, Curt Kiefer, era um judeu-alemão fugitivo das primeiras perseguições nazistas na Alemanha, e exercia então o modesto ofício de contador de uma empresa exportadora de fumo com matriz na Bahia. Intelectual de respeitável bagagem, carregado de avidez intelectual e ódio à opressão, o pai a introduziu no âmbito de uma cultura sofisticada. Aos 12, 13 anos Loreta já havia abandonado os gibis e historietas juvenis para atirar-se aos clássicos da literatura e da música. Era capaz de apresentar de memória trechos inteiros de Goethe, Tolstoi, Dostoiewski, reconhecer peças clássicas da música logo aos primeiros acordes.

Em 1949 os Kiefer se transferiram para a Bahia, onde Loreta cursou o primário no Colégio Nossa Senhora das Mercês, das irmãs ursulinas, e o então ginásio no Instituto Feminino da Bahia, ingressando na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia no início de 1961.

Transição para o engajamento

Meses após ingressar na faculdade, trancou matrícula para cumprir bolsa nos Estados Unidos. Mas não se encantou com a Meca do capitalismo. Na desconfortável condição de jovem latino-americana, conheceu o ensino massacrante, a dominação ideológica, o racismo, a pobreza e a revolta da juventude, que na época transitava da geração transviada dos anos 50 para o engajamento dos anos 60. Ao retornar ao Brasil, em 1962, o País fervia. Ingressou na Ação Popular (AP), passando a atuar no então florescente movimento estudantil.

Logo após diplomar-se, em dezembro de l966, mudou-se para São Paulo. O desafio era conhecer e penetrar o coração industrial do País, onde a AP desejava fincar bases sólidas. Ligou-se a uma célula de implantação operária. Em fins de 1967 transferiu-se para Minas, acompanhando o namorado Carlos Valadares, com quem se casou no início de 1968. Atuou no município industrial de Contagem, depois entre os camponeses da mata da Jaíba, no Norte mineiro.

Na tortura

De volta a Belo Horizonte, foi presa em junho de 1969, junto com muitos outros companheiros e companheiras, no ambiente de repressão policial extensa e truculenta que se seguiu à edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro do ano anterior.

Firme diante dos torturadores e ao longo dos intermináveis interrogatórios, a influência de Loreta em muito contribuiu à luta daquele grupo de mulheres corajosas sob as trágicas condições do encarceramento. Emblemática a ousadia com que enfrentou coronéis, majores e capitães, em confrontos que muitas vezes varavam madrugadas. Talvez o momento mais dramático tenha sido no pátio do 12o Regimento de Infantaria, a noite iluminada pelos faróis de jipes estacionados em círculo, diante de uma barafunda de soldados e oficiais que, aos berros, a puseram para assistir o espancamento de Carlos acorrentado pelas mãos e pelos pés.

No exílio

Solta em maio de 1970, transferiu-se para São Paulo, onde retomou contato com a organização. Em seguida, seguiu para Recife, lá permanecendo até meados de 1971, quando constatou ser portadora de endomiocárdio fibrose biventricular, mal que reduzia em até 40% sua capacidade cardiocirculatória. Voltou para São Paulo para se tratar. Em 1972, foi condenada a três anos de prisão e teve seus direitos políticos cassados por cinco anos.

No ano seguinte, com o agravamento da doença, seguiu orientação do PCdoB, partido ao qual recém se incorporara, junto com a maioria da AP, e partiu para o exterior. Permaneceu na Argentina até 1975, transferindo-se depois para a Suécia, onde com Carlos atuou nos movimentos de solidariedade às lutas dos povos latino-americanos.

Retornou ao Brasil no início de 1980, fixando-se em Salvador. Tornou-se professora de Ciência Política na Universidade Federal da Bahia, até se aposentar, anos mais tarde. A doença a limitava, fazendo-a fatigar-se ao extremo diante de movimentos corriqueiros como, por exemplo, o de pentear os cabelos, ou caminhar da sala até a cozinha do apartamento.

Surpreende-me um testamento

No entanto, nas mais de 13 horas em que conversamos, em diversas oportunidades, em 1987, para construir o livro, e nos telefonemas e nos contatos pessoais posteriores – inclusive no último, em junho do ano passado, na 9ª Conferência Nacional do PCdoB, em Brasília – jamais percebi qualquer arrefecimento em seu espírito indômito, qualquer amortecimento em sua inteligência e em seu permanente olhar para o futuro. Dirigente do Partido na Bahia, nunca se afastou da luta à qual entregava todos os momentos da vida, a luta pelo socialismo tantas vezes áspera e sofrida, mas irrecusável..

Ao cercar-me das lembranças de Loreta Kiefer Valadares nesta manhã ensolarada e triste em Curitiba, folheio a esmo a coletânea de poemas "Ecos do Tempo", que ela e Carlos publicaram em 1996. É a tentativa vã de abraça-la à distância. E surpreendo-me ao encontrar, ali na página 16, o poema de março de 1994, um testamento.

Quando eu me for
(se eu me for)
Vão até onde eu não fui
Caminhos do ilimitado
A face inédita do futuro
Sem fronteiras
Sem inimigo

Encontrem
os meios
da liberdade
e vão
tão longe
quanto possam
Limiares de um outro mundo
Sem oprimidos
Sem classes.

E quando
as novas veredas
do socialismo
forem percorridas
lembrem-se de que
fui
até o impossível freio
(Só que me faltou o tempo).


Lembraremos, Loreta! Sempre!

* Jornalista, escritor, autor de Albânia, horizonte vermelho nos Bálcãs (Editora Alfa-Ômega, 1985) e As moças de Minas (Editora Alfa-Ômega, 1989) e membro da direção do PCdoB do Paraná.

 

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