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Após o escândalo das torturas
a prisioneiros de guerra no Iraque, cometida
por americanos nas prisões do país,
da qual Abu-Ghraib é o exemplo
mais contundente, o recente assassinato
de um civil iraquiano ferido e desarmado
por um soldado da Marinha dos Estados
Unidos, dentro de uma mesquita, revela
a essência da ocupação
criminosa desse país pelas forças
americanas.
De acordo com as reportagens publicadas
na mídia, a vítima foi assassinada
a sangue frio, no interior de uma mesquita
na cidade de Faluja, a 50 quilômetros
a oeste da capital iraquiana. Há
nove dias a cidade está sendo fustigada
pelas tropas e pela aviação
dos invasores americanos.
Segundo o comandante da 1ª Divisão
de Infantaria da Marinha, o general John
Sattler, o militar que abateu o civil
foi retirado de serviço e se encontra
sob investigação.
A medida foi tomada horas depois que
a cadeia de televisão NBC exibiu
um vídeo com imagens do cadáver
da vítima. A emissora, por motivos
de censura, não exibiu o momento
brutal do tiro que matou o iraquiano.
No vídeo, filmado sábado
passado, fica evidente que não
se tratava de um ato em defesa própria,
argumento que poderia ser utilizado pelo
soldado em uma corte marcial.
Na gravação é possível
escutar com nitidez quando dois marines
asseguram que o civil estava vivo. Entre
palavrões, escuta-se de um dos
marines "Esse está vivo",
outro diz logo em seguida "Está
vivo, está respirando". Em
seguida se escuta o estampido do tiro.
O soldado que atirou diz: "Agora
ele está morto".
Esse assassinato se une à cadeia
de mortes provocadas pelos bombardeios
da aviação e da artilharia
americanas contra a cidade, desde o dia
8 de novembro passado. Naquela data, 10
mil americanos e 5 mil iraquianos das
forças de segurança nacionais
subordinadas aos americanos iniciaram
a invasão da cidade.
O primeiro-ministro Iyad Allawi, imposto
pelos americanos, chegou a dizer, por
duas vezes, que a ofensiva contra a cidade
teria terminado. A luta travada pela resistência
nestes últimos dois dias tratou
de desmentir o governante fantoche do
Iraque.
O assassinato revelado pelas imagens
da NBC é outro escândalo
importante, ocorrido semanas após
o julgamento de vários soldados
americanos, que cometeram torturas a prisioneiros
na prisão iraquiana de Abu Ghraib,
em flagrante violação os
tratados da Convenção de
Genebra de 1949.
As redes de televisões árabes
repetiram o dia todo as imagens da NBC.
A rede de televisão al-Jazira,
do Catar, exibiu também uma seqüência
de fotografias que mostra o soldado atirar
na cabeça de um homem que está
encolhido, no interior de uma mesquita.
As imagens foram captadas pelo cinegrafista
do canal de televisão americano
NBC, que acompanhava a unidade de fuzileiros
navais. Na véspera, eles tinham
atacado a mesma mesquita. Naquele momento,
o cinegrafista filmava o interior do prédio
para mostrar o resultado da ação.
A gravação levantou uma
onda de indignação no mundo
e nas principais capitais árabes.
"É um ato desumano, a enésima
demonstração dos métodos
assassinos utilizados pelas tropas americanas",
declarou Sherifa Mahmoud, estudante de
pós-graduação na
Universidade Americana no Cairo.
"O que mais dói é
ver a atitude do primeiro-ministro interino
iraquiano, Iyad Allawi, sorrindo e dizendo
que a operação não
deixou vítimas civis", afirmou.
Mandy Murad, jornalista e tradutora egípcia
que acompanhou colegas americanos durante
a invasão do Iraque, em março
de 2003, tem opinião parecida.
"Não só nós
árabes nos sentimos agredidos.
É uma agressão a todo o
mundo. Uma crueldade como as torturas
em Abu Ghraib", acrescentou.
Há dias que o temor sobre a conduta
ilegal das tropas invasoras americanas
durante a agressão no Iraque, e
especialmente no ataque a Faluja, já
vêm sendo levantadas pelas organizações
humanitárias e de defesa de direitos
humanos.
No sábado, dia da barbárie,
antes que as imagens fossem divulgadas,
a Anistia Internacional divulgou um comunicado
intitulado "Iraque: receio de violações
graves às leis da guerra em Faluja".
No primeiro parágrafo, a organização
expressava profunda preocupação
porque as leis que protegem civis e combatentes
não têm sido respeitadas
durante o atual confronto em Faluja.
"Foi comunicada a morte de dezenas
de civis durante os combates entre a resistência
e soldados americanos, apoiados por tropas
iraquianas. A Anistia Internacional teme
que os civis tenham sido assassinados,
transgredindo as leis internacionais,
como resultado do fracasso de ambas as
partes nas precauções necessárias
para proteger os não-combatentes.
Há relatos de que a situação
humanitária na cidade é
precária", diz o texto.
A organização lista uma
série de incidentes armados ocorridos
em Faluja nos quais civis foram envolvidos.
Um deles, documentado em 11 de novembro,
é similar ao registrado pelo cinegrafista
da NBC na mesquita, dois dias depois.
Depois de nove dias de combates, ainda
há centenas de cadáveres
nas ruas, alguns em estado avançado
de decomposição. Aumenta
o temor de que surjam epidemias, devido
ao número de cadáveres.
"Todas as violações
às leis internacionais humanitárias
e à defesa dos direitos humanos
devem ser investigadas", afirma a
Anistia Internacional. "Os responsáveis
pelos ataques fora da lei, indiscriminados
e descomedidos, incluindo os que tiveram
civis como alvo e que assassinaram pessoas
feridas, devem ser levados à Justiça",
conclui.
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