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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

17 DE NOVEMBRO DE 2004

GUERRA NO IRAQUE

Assassinato de civil por marine no Iraque deixa mundo indignado

 

Após o escândalo das torturas a prisioneiros de guerra no Iraque, cometida por americanos nas prisões do país, da qual Abu-Ghraib é o exemplo mais contundente, o recente assassinato de um civil iraquiano ferido e desarmado por um soldado da Marinha dos Estados Unidos, dentro de uma mesquita, revela a essência da ocupação criminosa desse país pelas forças americanas.

De acordo com as reportagens publicadas na mídia, a vítima foi assassinada a sangue frio, no interior de uma mesquita na cidade de Faluja, a 50 quilômetros a oeste da capital iraquiana. Há nove dias a cidade está sendo fustigada pelas tropas e pela aviação dos invasores americanos.

Segundo o comandante da 1ª Divisão de Infantaria da Marinha, o general John Sattler, o militar que abateu o civil foi retirado de serviço e se encontra sob investigação.

A medida foi tomada horas depois que a cadeia de televisão NBC exibiu um vídeo com imagens do cadáver da vítima. A emissora, por motivos de censura, não exibiu o momento brutal do tiro que matou o iraquiano.

No vídeo, filmado sábado passado, fica evidente que não se tratava de um ato em defesa própria, argumento que poderia ser utilizado pelo soldado em uma corte marcial.

Na gravação é possível escutar com nitidez quando dois marines asseguram que o civil estava vivo. Entre palavrões, escuta-se de um dos marines "Esse está vivo", outro diz logo em seguida "Está vivo, está respirando". Em seguida se escuta o estampido do tiro. O soldado que atirou diz: "Agora ele está morto".

Esse assassinato se une à cadeia de mortes provocadas pelos bombardeios da aviação e da artilharia americanas contra a cidade, desde o dia 8 de novembro passado. Naquela data, 10 mil americanos e 5 mil iraquianos das forças de segurança nacionais subordinadas aos americanos iniciaram a invasão da cidade.

O primeiro-ministro Iyad Allawi, imposto pelos americanos, chegou a dizer, por duas vezes, que a ofensiva contra a cidade teria terminado. A luta travada pela resistência nestes últimos dois dias tratou de desmentir o governante fantoche do Iraque.

O assassinato revelado pelas imagens da NBC é outro escândalo importante, ocorrido semanas após o julgamento de vários soldados americanos, que cometeram torturas a prisioneiros na prisão iraquiana de Abu Ghraib, em flagrante violação os tratados da Convenção de Genebra de 1949.

As redes de televisões árabes repetiram o dia todo as imagens da NBC. A rede de televisão al-Jazira, do Catar, exibiu também uma seqüência de fotografias que mostra o soldado atirar na cabeça de um homem que está encolhido, no interior de uma mesquita.

As imagens foram captadas pelo cinegrafista do canal de televisão americano NBC, que acompanhava a unidade de fuzileiros navais. Na véspera, eles tinham atacado a mesma mesquita. Naquele momento, o cinegrafista filmava o interior do prédio para mostrar o resultado da ação. A gravação levantou uma onda de indignação no mundo e nas principais capitais árabes.

"É um ato desumano, a enésima demonstração dos métodos assassinos utilizados pelas tropas americanas", declarou Sherifa Mahmoud, estudante de pós-graduação na Universidade Americana no Cairo.

"O que mais dói é ver a atitude do primeiro-ministro interino iraquiano, Iyad Allawi, sorrindo e dizendo que a operação não deixou vítimas civis", afirmou.

Mandy Murad, jornalista e tradutora egípcia que acompanhou colegas americanos durante a invasão do Iraque, em março de 2003, tem opinião parecida. "Não só nós árabes nos sentimos agredidos. É uma agressão a todo o mundo. Uma crueldade como as torturas em Abu Ghraib", acrescentou.

Há dias que o temor sobre a conduta ilegal das tropas invasoras americanas durante a agressão no Iraque, e especialmente no ataque a Faluja, já vêm sendo levantadas pelas organizações humanitárias e de defesa de direitos humanos.

No sábado, dia da barbárie, antes que as imagens fossem divulgadas, a Anistia Internacional divulgou um comunicado intitulado "Iraque: receio de violações graves às leis da guerra em Faluja". No primeiro parágrafo, a organização expressava profunda preocupação porque as leis que protegem civis e combatentes não têm sido respeitadas durante o atual confronto em Faluja.

"Foi comunicada a morte de dezenas de civis durante os combates entre a resistência e soldados americanos, apoiados por tropas iraquianas. A Anistia Internacional teme que os civis tenham sido assassinados, transgredindo as leis internacionais, como resultado do fracasso de ambas as partes nas precauções necessárias para proteger os não-combatentes. Há relatos de que a situação humanitária na cidade é precária", diz o texto.

A organização lista uma série de incidentes armados ocorridos em Faluja nos quais civis foram envolvidos. Um deles, documentado em 11 de novembro, é similar ao registrado pelo cinegrafista da NBC na mesquita, dois dias depois. Depois de nove dias de combates, ainda há centenas de cadáveres nas ruas, alguns em estado avançado de decomposição. Aumenta o temor de que surjam epidemias, devido ao número de cadáveres.

"Todas as violações às leis internacionais humanitárias e à defesa dos direitos humanos devem ser investigadas", afirma a Anistia Internacional. "Os responsáveis pelos ataques fora da lei, indiscriminados e descomedidos, incluindo os que tiveram civis como alvo e que assassinaram pessoas feridas, devem ser levados à Justiça", conclui.

 

 

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