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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

7 de NOVEMBRO de 2004

GENERAL NA BERLINDA
Nota sobre Herzog deixa comandante do Exército em situação difícil

 "Persistência do pensamento autoritário" coloca Albuquerque na berlinda

O comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, ficou em situação ainda mais delicada no governo depois de ficar claro na sexta-feira (5) que, se dependesse só da vontade dele, o Exército não teria se retratado da nota divulgada no dia 17 de outubro, em que justificava a repressão ao "movimento subversivo" e se queixava de revanchismo no episódio da divulgação das fotos erroneamente identificadas como sendo do jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975 no DOI-Codi de São Paulo.

Nas duas versões iniciais da correção que o Exército apresentou, por determinação expressa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Albuquerque não mencionou os excessos da ditadura e nem lamentou a morte de Herzog. O tom de reparação só aparece numa terceira versão, divulgada depois de uma tensa reunião entre Lula, o então ministro da Defesa, José Viegas, e o próprio Albuquerque na Base Aérea de Brasília, no dia 19 de outubro.

As duas primeiras versões da nota enfraquecem os argumentos do general. No início da crise, Albuquerque sustentou que a nota que justificava a repressão fora divulgada sem seu conhecimento prévio. "O Globo" obteve cópias das duas versões iniciais, rejeitadas por Viegas por não conterem a retratação que Lula exigia.

Na tarde do dia 17, quando a nota foi divulgada no Correio Braziliense, Viegas exigiu, por escrito, explicações de Albuquerque. "Vossa Excelência autorizou a divulgação da nota? Em caso de resposta afirmativa, por que Vossa Excelência não me consultou antes do envio da nota ao jornal? A quem cabe a divulgação da nota nestas circunstâncias?", indagou o ministro. O general foi à casa de Viegas apresentar suas explicações, mas o ministro exigiu a resposta por escrito.

No mesmo ofício, em tom de reprimenda, Viegas enumera itens que o desagradaram na primeira nota. "O Ministério da Defesa não nega as mortes que sabidamente ocorreram durante certos períodos do governo militar; o Exército não deve falar em nome do Ministério da Defesa e das forças coirmãs; o teor da nota não contribui para que cessem as discussões estéreis sobre conjunturas passadas", diz o ministro.

Na primeira versão da correção, o Centro de Comunicação Social do Exército (Cecomsex) apenas informa que não teve "a intenção de expressar-se em nome do Ministério da Defesa e das Forças coirmãs". Sobre os fatos em si, limita-se a dizer que "o passado é história". A segunda versão também pouco avançou. No texto, o Cecomsex "reitera que os fatos que vem sendo explorados pela mídia pertencem à História" e não toca na questão central dos erros da ditadura. Irritado, Viegas chegou a elaborar um novo texto por conta própria. Mas deixou que a questão fosse resolvida na reunião na Base Aérea.

Lula e Viegas tiveram, então, que ditar as linhas gerais do texto que queriam publicado. Por fim, na terceira versão de reparação, e a quarta sobre o episódio, o Exército "lamenta a morte de Vladimir Herzog" e reconhece que "a forma pela qual este assunto foi tratado não foi apropriada". Mas nem o terceiro texto agradou a Viegas. Albuquerque se dirigia diretamente a Lula e não informava o responsável pela divulgação da nota da crise. Viegas exigiu nova correção, e só então o texto definitivo foi publicado.

Em meio ao vaivém de notas, o general Antônio Gabriel Esper, chefe do Cecomsex, teria pedido exoneração, mas acabou sendo convencido a permanecer no cargo para conter a crise. Esper foi apontado como o único responsável pela divulgação da nota da discórdia. Mas, oficiais com trânsito nas Forças Armadas e no Ministério da Defesa não acreditam que a decisão tenha sido apenas do chefe do Centro de Comunicação.

Longe dos holofotes, Viegas mostrou força diante do comandante do Exército, mas não obteve a vitória política que esperava. O ministro pediu o afastamento imediato de Albuquerque, mas Lula não acolheu a sugestão. Viegas escreveu, então, uma carta atacando duramente o grupo de Albuquerque e pedindo demissão em caráter irrevogável no dia 22, cinco dias depois do início da crise.

Na carta que Viegas escreveu ao presidente Lula comunicando que estava deixando o Ministério da Defesa, ele salienta que "A nota divulgada no domingo 17 representa a persistência de um pensamento autoritário, ligado aos remanescentes da velha e anacrônica doutrina da segurança nacional, incompatível com a vigência plena da democracia e com o desenvolvimento do Brasil no século 21. Já é hora de que os representantes desse pensamento ultrapassado saiam de cena."

Fonte: O Globo
 

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