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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

15 de setembro de 2004

CAÇA ÀS BRUXAS
PFL abre processo para expulsar
ACM devido a jantar com Lula
-
Charge de Amarildo para o Gazeta Online

Por Bernardo Joffily

O jantar desta segunda-feira (13), que reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com seis senadores do PFL e um do PSDB, provocou um clima de caça às bruxas nas fileiras oposicionistas. Há um expurgo em curso. “É melhor um partido pequeno com a cara limpa, do que grande sem identidade”, diz o líder da agremiação no Senado, José Agripino (RN).

Em menos de 24 horas, foi instalado no interior do PFL um processo visando a expulsão do senador Antonio Carlos Magalhães (BA), com o presidente da legenda, senador Jorge Bornhausen (SC) indicando o deputado Eduardo Sciarra (PR) para relatar o pedido de expulsão formalizado pelo deputado Onyx Lorenzoni (RS). O senador Marco Maciel (PE), último vice-presidente da ditadura militar e um dos cardeais pefelistas, esteve presente na apresentação do pedido de expulsão.

Objetivo: "Causar um racha"

Segundo o pedido de expulsão, o jantar "foi organizado com o objetivo de causar um racha na oposição e abrir espaço político para o governo do PT no Senado, com a aprovação de matérias de seu interesse". E qualifica a presença dos comensais como um "insuportável" gesto de "autêntica rendição ao governo e ao PT".

Bornhausen, já de hábito uma das vozes mais estridentes da oposição ao governo Lula, superou-se nos comentários sobre o episódio. O senador disse que a ação política está sendo feita pelo “comandante José Dirceu e pelos seus dois comandados, o presidente Lula e o ministro Aldo Rebelo”. Antes, segundo Bornhausen, esse trabalho era feito pelo Waldomiro Diniz. E o senador ataca "de um lado o comandante José Dirceu e seus comandados Lula e Aldo Rebelo praticando o ato explícito de cooptação. Do outro, o senador Antonio Carlos oferecendo adesão".

"Só há um caminho no PFL"

O senador foi enfático na reafirmação da vocação oposicionista intransigente da legenda que preside. Ele que apoiou os seis governos fardados da ditadura militar, foi chefe da Casa Civil de Fernando Collor e perfilou com Fernando Henrique Cardoso em seus dois mandatos, ontem proclamava: "No PFL, há um só caminho, o de oposição".

O jantar ocorreu na casa do ministro José Dirceu (Casa Civil). Participaram do jantar todos os três senadores do PFL da Bahia – Antônio Carlos Magalhães, César Borges e Rodolfo Tourinho; do Maranhão, Roseana Sarney e Edson Lobão, e do Tocantins, João Ribeiro. Também participou do jantar o senador Eduardo Siqueira Campos (PSDB-TO). Pelo Governo, além de Lula e Dirceu, estava presente o ministro Aldo Rebelo (Coordenação Política). O senadores do PFL Paulo Otávio(DF) e Romeu Tuma (SP), que constavam da lista de convidados, não compareceram.

Rebelo: Lula fará outros encontros

Aldo Rebelo, que visitou ontem o Senado, desmentiu a versão de que foi um jantar de cooptação. "Não houve cooptação. As palavras são injustas. Não se aplicam ao encontro do presidente ontem com os senadores. O presidente quer se encontrar com todos os parlamentares, inclusive com o senador Jorge Bornhausen. O senador Bornhausen conta com o nosso respeito e esperamos o seu respeito recíproco", disse o ministro.

Segundo Rebelo, o jantar foi uma etapa de outras iniciativas já realizadas com parlamentares. E o presidente vai promover outros encontros com senadores e deputados, “para que o governo e o Congresso estabeleçam objetivos comuns em função dos interesses do país e da sociedade”.

O ministro afirmou que o governo trabalha para ampliar a base de apoio no Senado. Hoje, os partidos aliados somam 39 senadores, o que representa menos de 50% da bancada do Senado - formada por 81 senadores. “Temos uma agenda de reuniões do presidente e dos ministros com os senadores da base aliada e da oposição. Essa jornada vamos continuar cumprindo”. Rebelo reafirmou o interesse do governo em aprovar logo no Senado os projetos da lei de Biossegurança e das Parcerias Público-Privadas (PPPs).

ACM, a língua viperina

Já ACM reagiu à ameaça de expulsão com a língua viperina que fazia a alegria da imprensa nos tempos em que era tido como o vice-rei do governo FHC, antes de cair em desgraça, em 2000. "Não sei se vou apresentar defesa. Não estou levando este assunto a sério", disse o senador baiano. Ele disse que tratará do caso depois das eleições de 3 de outubro.

ACM lembra que não infringiu nenhuma regra partidária ao participar do jantar. "Acho que uma pessoa janta onde quer, na casa de quem quer. Isto tem sido feito por todos os parlamentares, incluindo o líder do meu partido, senador José Agripino, que janta com ministros", espicaça.

"Aqueles que não estão habituados com a vida democrática, principalmente os perdedores que não entendem o que os vitoriosos fazem", provoca ainda ACM, referindo-se à situação aparentemente confortável de seu grupo na Bahia, em contraste com os desempenhos em geral precários do PFL nas pesquisas.

"Sei que não está bem nas pesquisas"...

A ironia se estende também ao autor do pedido de expulsão. "Não conheço bem quem pediu minha expulsão. Sei que é um candidato que não está bem nas pesquisas e que certa feita me ofereceu aqui uma lingüiça especial de sua terra. É o único conhecimento que tenho do deputado, qual é o nome mesmo? Onyx Lorenzoni", arremata.

Lorenzoni é candidato a prefeito de Porto Alegre. Figura em sétimo lugar na última pesquisa Ibope, entre oito candidatos (está à frente de Vera Guasso, do PSTU), com 3% das intenções de voto. E o PFL não faz segredo do estrago que o racha em curso gera no seu esquema eleitoral. Segundo declarou ontem Bornhausen, o partido tem 1.700 candidatos nessas eleições, dos quais 1.400 têm como adversário direto o PT.


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