Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio
Lula da Silva , e de Moçambique,
Joaquim Alberto Chissano, assinaram na
terça-feira (31) em Brasília
um acordo em que o Brasil perdoa 95% da
dívida do país africano
— no valor de US$ 315 milhões.
Lula acompanhou o gesto de um comentário
dirigido elipticamente às metrópoles
desenvolvidas: "Eu
penso que isso pode servir de exemplo
para que outros países da mesma
magnitude do Brasil tenham o mesmo gesto
com outros países pobres do mundo,
que muitas vezes têm uma dívida
que todo mundo sabe que é praticamente
impagável, mas que funciona como
uma espécie de espada na cabeça
dos devedores”, afirmou.
A
iniciativa brasileira em relação
a Moçambique foi adotada no ano
2000, mas só ontem se efetivou,
com a assinatura do ministro da Fazenda,
Antonio Palocci. Lula, em tom de brincadeira,
disse esperar que "o nosso querido
Palocci" "já não
esteja arrependido de ter assinado".
E lembrou que o mesmo gesto fora adotado
em relação à Bolívia.
A
escravidão, "dívida
histórica"
Lula
justificou o cancelamento da dívida
devido porque "o Brasil e os outros
países têm uma dívida
histórica com os países
africanos" — um fato histórico
que a diplomacia brasileira reconhece
com naturalidade, ao contrário
de outros países que praticaram
o escravismo, como os Estados Unidos.
“Por mais que fizermos, ainda não
conseguiremos pagar o que significou o
trabalho de homens e mulheres livres na
África que se tornariam escravos
dentro do nosso país”, afirmou.
Num
improviso emocionado, o presidente brasileiro
disse que "nós haveremos de
avançar a cada ano um pouco, até
que a nossa relação não
seja apenas uma relação
diplomática ou uma relação
virtual, mas que seja uma coisa muito
forte, de sangue, de um país que
se reencontrou com o povo africano que
fez esse país ser a maravilha que
é". E agregou: "Não
sei se o senhor percebeu que a mistura
entre os negros africanos, os portugueses
e os índios brasileiros, fez com
que essa miscigenação criasse
esse povo tão bonito, que é
o povo brasileiro. E isso é impagável.
E, portanto, nós vamos passar muitos
séculos devendo aos países
africanos".
Mais
viagens à África
“Nós, no Brasil, não iremos
medir esforços para que a gente
cumpra não apenas os acordos assinados
aqui, mas acordos que firmamos em Moçambique
no campo da educação, no
campo do combate à Sida, no campo
da agricultura, sobretudo. O Brasil pode,
e deve, ajudar muito Moçambique”,
ressaltou ainda.
Lula
também elogiou Moçambique
por realizar, em dezembro deste ano, as
suas terceiras eleições
multipartidárias (polarizadas entre
a Frelimo, oriunda da guerrilha anticolonialista
de esquerda, e a Renamo, anticomunista).
E, como Chissano não se candidatará
à reeleição, insinuou
que este poderia assumir outra função
pública, por sua "liderança
e a representatividade junto aos países
africanos".
O
gesto do Planalto faz parte de uma política
que encontra oposição em
setores brasileiros, mas estes não
desencorajaram Lula, que reafirmou a decisão
de continuar ajudando os países
mais pobres. Ele também prometeu
manter, "cada vez mais, uma política
mais ousada, uma política mais
positiva com relação aos
países da África".
E, diante dos que o criticam por ter estado
duas vezes no continente africano, visitando
dez países, disse que pretende
retornar à África uma vez
por ano, passando pela maioria dos seus
países até o fim de seu
mandato.
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